Alien – O oitavo passageiro (1979)

Por André Dick

Dirigido por Ridley Scott – que vinha de Os duelistas (1977) – Alien – O oitavo passageiro marcou o final dos anos 1970 como uma das ficções científicas mais originais até então feitas, com elementos de terror e visual repleto de jogos de luz. Apesar de revolucionário e ter influenciado dezenas de filmes em seguida, Alien surgiu da impossibilidade do roteirista Dan O’Bannon terminar um roteiro para a versão cinematográfica de Duna (que seria também filmado por Jodorowsky, depois por Ridley Scott e acabou sendo feito por David Lynch), e fez tanto sucesso que deu origem a uma franquia, que perdura até hoje, muito em razão também da sua sequência, Aliens, dirigida por James Cameron.
Os personagens estão em viagem espacial na Nostromo, um cargueiro de minério espacial. quando são acordados ao receberem sinais de vida vindos de um planeta. A bordo da espaçonave, estão o capitão Dallas (Tom Skerritt), os oficiais Kane (John Hurt) e Ripley (Sigourney Weaver), Lambert (Veronica Cartwright), o cientista Ash (Ian Holm) e dois engenheiros, Parker (Yaphet Kotto) e Brett (Harry Dean Stanton). Ao descerem no planeta de onde vêm os sinais, além de problemas estruturais, o principal: uma criatura fica grudada no capacete de Kane, com tentáculos agarrados em seu pescoço, deixando-o numa espécie de coma. Como deixá-lo vir a bordo trazendo uma potencial ameaça?

É nesse planeta que se destaca, além dos excelentes efeitos visuais (vencedores do Oscar), o desenho de produção fascinante de H. R. Giger. A maneira como se prepara o que irá acontecer, numa mesa de jantar, é definidora dos padrões de mescla entre terror e ficção científica que seria replicada com êxito por John Carpenter em O enigma de outro mundo (aliás, O’Bannon havia escrito Dark Star, de 1974, dirigido pelo próprio Carpenter).
Durante alguns anos, depois do sucesso de público e crítica de Os duelistasAlien e Blade Runner – o terceiro de forma tardia –, Ridley Scott tentou encontrar um novo rumo para sua carreira. Nos anos 80, depois de Blade Runner, realizou obras como A lenda, para chegar à consagração, nos anos 90, com Thelma & Louise, até chegar ao subestimado Gladiador, um dos melhores filmes já realizados sobre a Roma Antiga. Depois de fazer Falcão negro em perigo, com cenas de ação muito bem feitas, Hannibal (a sequência desagradável de O silêncio dos inocentes), Os vigaristas (mistura entre drama e comédia com Nicolas Cage), encadeou uma espécie de remake de Gladiador, o grandioso Cruzada, e alguns filmes com Russell Crowe: Um bom anoO gângsterRede de mentiras e Robin Hood – dos quais os dois primeiros se destacam, e nos últimos anos retomou a saga Alien, com os ótimos e subestimados Prometheus e Alien: Covenant.

É em Alien – O oitavo passageiro que Scott constrói a a premissa de sua trajetória elegante: um cineasta com primor visual, logo depois de Os duelistas (em seu diálogo com Barry Lindon), e que busca concentrar as ideias em narrativas aparentemente simples. O androide Ash antecipa David de Prometheus e Alien: Covenant, um parente próximo também de Roy Batty, feito por Rutger Hauer, em Blade Runner, à procura de uma explicação divina para a existência, ao mesmo tempo que parece se afastar dela ou mesmo colocá-la em dúvida. Será, afinal, que ele deseja conservar a vida eterna de seu pai? É este pai, responsável pela corporação à qual pertence a Nostromo, que lembra Tyrell, o criador dos replicantes de Blade Runner. O deuses – e os homens que se movem para descoberta –, são colocados em dúvida – mas aparecem a cada instante, na forma de conflitos e tentativa de persuadir o outro a caminhar rumo ao abismo. David é quem dá uma espécie de consistência existencial a Prometheus, e as partes de que participa são as melhores, seja no início, inspecionando os sonhos de Elizabeth, seja quando anda de bicicleta jogando basquete ou caminha de chinelo num ambiente asséptico – remetendo ao David Bowman de 2001.

Quando coloca um uniforme com capacete, logo é perguntado por que faz aquilo, já que é um androide. Ele responde que é porque foi feito para que não fosse diferenciado dos seres humanos. Ou seja, há uma espécie de consciência para David, disfarçada de desumanidade, e todas as suas ações são completamente mecânicas e calculadas. Ele se difere dos androides feitos por Holm e Henriksen nos dois primeiros filmes da série, pois se aproxima muito mais do homem – e se visualiza que aqueles foram criados como versões avançadas deste – em suas ações inexplicáveis e indefinidas mesmo por quem está, digamos, “acima” dele em hierarquia.
De qualquer modo, é justamente seu antecessor Ash, numa atuação brilhante de Ian Holm, que concede a faceta humana mais assustadora de Alien, pois ele, de fato, é uma criação do homem em que não se tem confiança alguma. Por mais que se distancie das atitudes que teria um ser humano comum, ou seja, baseado em fatos assustadores. Quando Ripley desconfia de seu comportamento, Scott oferece a guinada de seu filme, entre corredores escuros da Nostromo. Weaver, nesse sentido, tem uma atuação excepcional, oferecendo um tom preocupado singular, precursor das personagens de outro sucesso de Scott, Thelma & Louise. Em meio a um clima misterioso, a trilha sonora de Jerry Goldsmith concede um atrativo extra para compor uma atmosfera aterradora e que ainda pode sintetizar boa parte da trajetória do cineasta britânico. Veja-se, por exemplo, as sequências em que Brett procura por um gato pela nave espacial ou aquela na qual o capitão Dallas tenta usar um aparelho para saber da chegada de uma potencial ameaça. Além disso, a maneira como Scott liga Alien e Prometheus é um dos grandes achados do cinema recente, colocando em discussão temas como a exploração espacial e como a humanidade pode ser colocada em segundo plano em nome de possíveis descobertas científicas. Para Scott, o elemento mais assustador pode ser justamente a decisão sob influência da humanidade. Para combatê-la, é preciso certo heroísmo e seguir o caminho certo para a autodescoberta.

Alien, EUA/ING, 1979 Diretor: Ridley Scott Elenco: Tom Skerritt, Sigourney Weaver, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, John Hurt, Ian Holm, Yaphet Kotto Roteiro: Dan O’Bannon Fotografia: Derek Vanlint Trilha Sonora: Jerry Goldsmith Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill Duração: 117 min. Estúdio: 20th Century Fox e Brandywine Productions Distribuidora: 20th Century Fox

 

Rakka (2017)

Por André Dick

Em 2009, Neill Blomkamp surpreendeu o público com sua ficção científica Distrito 9, indicada ao Oscar de melhor filme, e passou a ser visto como uma das promessas entre os novos diretores. Com um orçamento maior e a presença de Matt Damon à frente do elenco, Blomkamp regressou com Elysium, um filme que apostava, como sua estreia, num cenário que mescla os elementos de ficção científica com favelas e exploração de seres humanos vivendo numa Terra combalida, em 2154, Nele, tínhamos no espaço a presença de Elysium, uma estação espacial com mansões e uma vegetação tropical, almejada sobretudo porque conta com um suporte tecnológico que não permite seus moradores terem qualquer tipo de doença. Em 2015, Blomkamp investiu num projeto que mesclava elementos de RoboCop e Short Circuit: Chappie, que conseguia desenvolver bem até a primeira metade os seus personagens para depois se perder em clichês, mesmo com boas atuações do elenco, uma das virtudes do trabalho desse cineasta.

Depois de tentar levar adiante o projeto de Alien 5, que iria ignorar a existência de Alien 3 e Alien – A ressurreição, continuando a história de Aliens – O resgate, Blomkamp não conseguiu fazer seu projeto vir à luz. Somou-se a isso o fato de Ridley Scott estar fazendo a trilogia inicial de Alien. Resolveu, então, desenvolver o Oats Studios para projetos de curta-metragem, a serem lançados pela página do estúdio e pelo YouTube. A tendência é que, a partir desses projetos, ele possa transformá-los em longas, com a ajuda do público.
O primeiro experimento é Rakka, passado em 2020, que mostra a Terra invadida por répteis alienígenas assustadores, levando a humanidade praticamente à extinção. Seria a ideia inicial de Blomkamp para o Alien 5? Eles destroem cidades e constroem sobre obras da humanidade, como a Torre Eiffel, compartimentos que as tornam quase espaçonaves. Blomkamp mostra que os alienígenas usam um líquido escuro e viscoso que transforma o que eles querem na estrutura pretendida e ainda exercem uma influência sobre o cérebro dos humanos. Também passaram a escravizar os humanos; os que escaparam estão escondidos embaixo da terra, num clima pós-apocalíptico nos moldes de Mad Max. No Texas em ruínas, há, porém, um grupo de soldados dos Estados Unidos liderados por Jasper (Sigourney Weaver). O que mais interessa no estilo de Blomkamp é a mescla entre fantasia e realismo, tão bem efetuada, por exemplo numa cena em que a líder visita um espaço cheio de velas, para homenagear a humanidade – tão realista que parece saída de Central do Brasil, na peregrinação dos personagens do filme de Walter Salles.

Jasper vai atrás de Nosh (Brandon Auret), um piromaníaco que constrói bombas e vive num ferro-velho, mas se encontra preso. Ele não tem interesse em ajudar a humanidade, e seu nome subentende o contrário de Noah/Noé. Ao mesmo tempo, a organização encontra Amir (Eugene Khumbanyiwa), que conseguiu escapar dos alienígenas sob efeito dos experimentos. Sarah (Carly Pope), da resistência, tenta convencê-lo a ajudar, levando em conta que ele guarda um segredo consigo. Neste espaço, Blomkamp concentra algumas imagens que dialogam com os filmes de Kathryn Bigelow, a exemplo de A hora mais escura. Se há um elogio maior que se possa fazer é que o espectador realmente gostaria de assistir a uma versão estendida desse curta-metragem, que talvez exista, esperando por uma verba de finalização.
Rakka em finlandês significa “afloramento de rocha no cume de uma colina” (certamente referência ao que fazem os invasores com a paisagem terráquea) e o que se tem aqui, na verdade, é o ressurgimento da carreira de Blomkamp. Com um design de produção fabuloso de Bobby Cardoso e uma bela fotografia de Mannie Ferreira, Rakka tem as principais obsessões do cineasta: a ligação entre homens e uma possível chegada de alienígenas, o interesse pela tecnologia, o clima de Apocalipse. Veja-se, por exemplo, a sequência do alienígena segurando uma caveira shakesperiana antes de lançá-la numa caverna repleta de ossadas: há toda uma tragédia embutida nessa breve sequência. Se Chappie tinha muito pouco dessa efetividade, as visões de Rakka se sentem impressionantes, mesmo com a curta-metragem, desenhando um dos cenários mais assustadores para a humanidade e mostrando que Blomkamp poderia, sem dúvida, acrescentar ao universo da série Alien, mas, ao que tudo indica, vai acrescentar mais ainda com este projeto inovador.

Rakka, EUA, 2017 Diretor: Neil Blomkamp Elenco: Sigourney Weaver, Brandon Auret, Eugene Khumbanyiwa, Carly Pope Roteiro: Neil Blomkamp e Thomas Sweterlitsch Fotografia: Mannie Ferreira Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Mike Blomkamp, Steven St. Arnaud Duração: 22 min. Distribuidora: Oats Estudio

 

Avatar (2009)

Por André Dick

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Esta ficção científica feita pelo mesmo James Cameron de Aliens – O resgate e O segredo do abismo tem uma história simples: mostra o exército de humanos da empresa de mineração RDA contra os habitantes nativos, os Na’vi, de um planeta distante (Pandora) – numa espécie de simbologia para o Velho Mundo encontrando o Novo Mundo. Mas é essa história que deixa espaço para Cameron mostrar o visual impactante.
O fuzileiro Jake Sully (Sam Worthington), que foi ferido em batalha e está em cadeira de rodas, atua como um avatar numa pesquisa coordenada por uma bióloga, Grace Augustine (Sigourney Weaver), cuja equipe tem ainda Trudy (Michelle Rodriguez) e Norm Spellman (Joel Moore Jake), com o intuito de descobrir o que desejam os nativos de Pandora. Para isso, Jake, que é irmão gêmeo do avatar anterior, passa a ser uma espécie de porta-voz. No entanto, os militares enviados para detonar Pandora não estão muito interessados neste aspecto de pesquisa biológica. Nem interessados nos livros que tratam do meio ambiente de Pandora. Há sobretudo o coronel Miles Quaritch (Stephen Lang) e um burocrata, Parker Selfridge (Giovanni Ribisi). O objetivo é encontrar um determinado mineral que serviria à vida na Terra e o coronel faz um trato com Jake de que, se ele trouxer informações interessantes dos Na’vi, poderá caminhar novamente. No entanto, ele e Parker não se importam, por exemplo, com o fato de que a árvore que querem destruir para descobrir outras relíquias guarda um mistério.

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As cenas em que aparecem os avatares (de Jake e Grace) são, sem dúvida, as melhores, e a primeira entrada na floresta, em meio a um confronto indesejado, se mostra na medida exata, mas em algum ponto da metade da narrativa – quando Sully começa a fazer seu diário de experiências e trata da convivência com os habitantes do povo Na’vi, sobretudo com Neytiri (Zoe Saldana, de Star Trek), por quem inevitavelmente se apaixona – que Avatar se perde um pouco, porém não totalmente, pois ainda estamos em meio a cenários fantásticos. A floresta é uma criação notável, com fluidos e imagens de teias brilhantes caindo sobre os seres, o que mostra uma visão de Cameron para o amanhã da humanidade (enquanto os interiores das estações lembram Aliens, com suas lâmpadas fosforescentes). Em certos momentos, a textura das imagens lembra a de um desenho animado, com a ressalva de que, mesmo assim, o filme entrega camadas referenciais de natureza (rochas, águas, árvores). De qualquer modo, Cameron está interessado no que os burocratas podem fazer, o que acontece desde o tempo em que roteirizou Rambo II e dirigiu O exterminador do futuro 1 e 2, Aliens – O resgate, True lies e O segredo do abismo. Cameron os coloca como verdadeiras ameaças para qualquer paz, e Miles como o protótipo disso (a partir de determinado momento, suas atitudes chegam a ser engraçadas de tão absurdas).
Há uma presença dos elementos já vistos em O segredo do abismo, que começava em plena ação, com um submarino nuclear, o USS Montana, naufragando misteriosamente, depois de avistar luzes no fundo do oceano. Em seguida, uma expedição de resgate, liderada por Virgil (Ed Harris), é enviada para tentar se descobrir a causa do acidente. Divorciado da mulher, Lindsey (Mary Elizabeth Mastrantonio), também da marinha, a viagem se complica quando toda a tripulação começa a ficar perturbada com os estranhos acontecimentos de luzes flutuantes, surgindo um vilão, Hiram (Michael Biehn). Eles começam a descer nesse abismo, onde se deparam com seres extraterrestres em formas de peixes luminosos e raios de luz efêmeros. Cameron faz o primeiro filme filmado quase totalmente embaixo d’água, já mostrando suas obsessões (que fariam parte de Titanic e de suas pesquisas documentais), e uma espécie de Contatos imediatos do 3º grau, mas já antecipando elementos que veríamos em Avatar. O segredo do abismo, assim como Avatar, trabalha com uma mensagem que remete à origem, com a tentativa de reconciliação embaixo d’água do casal, como uma volta ao útero, ao nascimento – como no caso das árvores de Pandora. E, como em Avatar, avalia que as armas nucleares (o abismo que afundou as carregava) conduzem a um beco sem saída.  Já o era assim em toda a temática que circula em torno de Sarah Connor, sobretudo em O exterminador do futuro 2. A única saída para Cameron parece ser aquela em que se mostra no encontro de Jake tanto com a natureza estrangeira quanto com Neytiri.

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Já se comentou na ligação que há entre eles como a que vemos em Pocahontas (lembremos de O novo mundo de Malick), ou com a história do John Dunbar de Dança com lobos, ou com O último dos moicanos (na rebelião de Jake contra os militares). Ainda assim, em meio aos elementos cultivados por Cameron em sua filmografia, temos como principal ponto de referência a mitologia de Star Wars, por sua vez já captada em outras obras. Cameron não costuma ser um roteirista sutil, ou de múltiplos personagens, e seus diálogos têm mais ou menos o mesmo peso das falas de Miles. Seus vilões, como Parker, também costumam ser uma repetição do burocrata interpretado por Paul Reiser em Aliens – O resgate, assim como perturbados, a exemplo de Hiram (O segredo do abismo). No entanto, há também humanidade: Grace é uma extensão daquelas heroínas que Cameron privilegiou em sua trajetória, desde Sarah Connor, de O exterminador do futuro, passando pela Lindsey de O segredo do abismo, Ripley, de Aliens, até a Rose, de Titanic. O personagem principal de Avatar, Sully, segue as características dessas personagens de Cameron: ele é muito mais humano do que os personagens de filmes de ação e mistura elementos de coragem e de fragilidade na mesma medida, não tornando-se num estereótipo. Com isso, Sam Worthington tem aqui a sua melhor atuação, e Sigourney Weaver, como Grace, não fica para trás.
Há também um fundo religioso em Avatar e O segredo do abismo, não há a menor dúvida, e James Cameron procura, com seus cenários imponentes e efeitos especiais revolucionários, lembrar que o importante é a tentativa de compreender o outro. Parece um clichê, mas Avatar é tão bem trabalhado em seus detalhes que acabamos esquecendo, por um momento, do todo – que é irregular. Os seus 30 minutos finais, para quem aprecia filmes de ação, são realmente impressionantes, mostrando a batalha decisiva, com uma direção de arte fabulosa (vencedora do Oscar). Todos os elementos são dosados na reavaliação de cada personagem para o que deve, afinal, ser feito. Isso faz com que, mais do que uma ficção científica, seja uma experiência realmente primordial, vendo a base do ser humano, independente do 3D, que à época de seu lançamento foi tão comentado.

Avatar, EUA, 2009 Diretor: James Cameron Elenco: Sam Worthington, Sigourney Weaver, Zoe Saldana, Stephen Lang, Michelle Rodriguez, Giovanni Ribisi, Joel David Moore, CCH Pounder, Wes Studi, Laz Alonso Produção: James Cameron, Jon Landau Roteiro: James Cameron Fotografia: Mauro Fiore Trilha Sonora: James Horner Duração: 162 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Twentieth Century Fox Film Corporation / Lightstorm Entertainment / Dune Entertainment / Ingenious Film Partners

Cotação 4 estrelas

Êxodo: deuses e reis (2014)

Por André Dick

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Desde Gladiador, Ridley Scott tem tentado repetir o sucesso com filmes relacionados à história da humanidade. Se no filme com Russell Crowe ele conseguia mesclar uma visão da Roma Antiga com o cinema de entretenimento de Hollywood, recebendo por ele o Oscar de melhor filme, no recente Êxodo: deuses e reis Scott tenta enfileirar as características já exibidas em Cruzada e Robin Hood. Do primeiro, há as cenas com visual magnífico incrustadas em algum ponto entre a Espanha e o Oriente Médio, e o segundo possuía a história mais densa sobre o ladrão da Floresta de Sherwood, embora não com a qualidade correspondente. Nos últimos anos, pelo menos desde o ótimo Falcão negro em perigo, Scott tem tentado produzir filmes com bastante desenvoltura e pouco espaçamento entre um e outro. Bastante criticado, Prometheus prometia trazer o cineasta a seus melhores anos, os que se situam entre Os duelistas e A lenda.
Scott nunca teve entre seus méritos o trabalho com o roteiro. Sua estreia em Os duelistas tem um visual magnífico, característico de sua obra, mas uma dificuldade de estabelecer conexões entre os personagens. O mesmo acontece em outras obras importantes suas, mas em Êxodo, pela preocupação em fazer o relato bíblico estabelecer uma ligação direta com o cinema de aventuras de Hollywood, parece que Scott não está preocupado exatamente com a história: surpreende que haja entre os roteiristas o talentoso Steven Zaillian (Tempo de despertar, A lista de Schindler e O homem que mudou o jogo). Talvez com preocupação de desagradar ao público mais religioso, Scott procura tornar seu filme muito mais propenso a não se envolver com nenhum dos lados retratados. Ou seja, Êxodo: deuses e reis lida com a narrativa bíblica de modo a não se incomodar ou ser incomodado – e, se há algumas liberdades maiores no que se refere ao Antigo Testamento, parece não ser exatamente a vontade de Scott em desafiar as versões oficiais, mas apenas para acomodar sua história a um amplo estado cinematográfico.

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É um filme ao mesmo tempo arrebatador – pela quantidade de belas imagens e um senso de design primoroso – e, pelos lapsos da história, com uma sucessão de diálogos não tão interessantes, problemático, na sua estrutura. A história inicia com uma batalha em que Moisés (Christian Bale) e Ramsés II (Joel Edgerton) terão, cada qual, um desfecho que interessa às profecias. O faraó Seti (John Turturro), pai de Ramsés II, confia mais em Moisés, no entanto o que acontece a partir daí é uma espécie de reprodução da história de Gladiador baseada nos relatos bíblicos. Moisés é enviado para Phitom, a fim de ter uma reunião com Hegep (Ben Mendelsohn), à frente dos escravos hebreus. A figura de Nun (Ben Kingsley) surge para tentar avisar Moisés sobre a profecia que o cerca, mas não consegue ser ouvido. Moisés se torna um exilado e, sem seguir nenhum preceito religioso, é procurado por Malak (Isaac Andrews), que configura a presença de Deus na história. Moisés acaba conhecendo seu amor, Zipporah (María Valverde), e recebe o chamado para defender os hebreus dos egípcios numa batalha que poderá ser épica. No entanto, são quase 130 minutos até a batalha, e Scott, além da tentativa de ser fiel ao relato bíblico, com ligeiras adaptações – e deve-se dizer que Aronofsky, em Noé, conseguia trabalhar melhor a passagem bíblica do dilúvio, com menos informações de que Scott dispõe em Êxodo – precisa fazer um filme de entretenimento.
Particularmente eficaz a atuação do elenco. Scott sempre foi um especialista em extrair boas interpretações, e Bale consegue demonstrar seu talento como em outras obras. Edgerton não tem exatamente uma sequência de diálogos, nem parece o mais adequado para o papel, mas tem certa presença de cena. E Mendelsohn é mais uma vez um vilão interessante, embora não traga exatamente nada de novo.  O restante do elenco, como o excelente Kingsley e Weaver, como a rainha Tuya, mãe de Ramsés II, aparecem desperdiçados e não ficam claras quais as intenções de Scott com os personagens suplementares. O que interessa a Scott, muito mais, é tornar a narrativa de Êxodo num conjunto de imagens espetaculares – e principalmente aquelas que lidam com Moisés em contato com as mensagens divinas, a primeira logo depois de subir uma montanha com as ovelhas, em que Scott o lança numa espécie de sono tenebroso, e a fotografia de Dariusz Wolski se encarrega de colocar Bale numa situação claustrofóbica.

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O que incomoda por vezes em Êxodo é o quanto não parece haver a conexão necessária entre alguns personagens, não apenas por causa do roteiro com lacunas, mas em razão da própria direção de Scott. Não saberia se uma versão estendida do filme – e há uma para Cruzada, do qual vi apenas o corte feito para os cinemas, irregular, considerada melhor – ajudaria a eliminar o incômodo da montagem ou das passagens mal esclarecidas. O filme, no entanto, tem alguns méritos bastante claros, além do design fundamentalmente interessante: quando são mostradas as dez pragas do Egito, Scott lida com um cinema não apenas calibrado em termos de efeitos especiais – todos, sem exceção, espetaculares –, mas impactante o suficiente para atrair a atenção do espectador. Do mesmo modo, quando Scott mostra inicialmente os personagens ou quando retrata os diálogos de Moisés com Malak, além daqueles em que revela os conflitos de Ramsés com sua cúpula política, há também bons momentos.
Scott parece reencontrar sua linha como artesão do cinema capaz de retratar cenários espetaculares, como aqueles que encontramos em suas ficções científicas (Blade Runner e Prometheus) ou em suas fantasias (A lenda). No entanto, em muitos momentos, ele opta por uma montagem que joga a narrativa para vários lados ao mesmo tempo. É uma maneira de contar que prefere muitas vezes os cortes e a ação, bastante evidentes quando se inicia a caçada aos hebreus, do que a contemplação. Nas cenas com as pragas que abatem o Egito, Scott consegue produzir sensações de espanto – como aquela que envolve os crocodilos – e coloca em prática seu talento para a reprodução de cenários históricos, como havia em 1492 – A conquista do paraíso, por exemplo, ou mesmo Cruzada, com fundo religioso. Mesmo A lenda era uma espécie de transposição para um universo fantástico do relato bíblico sobre Adão e Eva.

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Em determinados momentos, personagens desaparecem e reaparecem (a exemplo de Nun, Tuya e Josué, feito por Aaron Paul) sem motivação especial ou explicada, e as perseguições aos hebreus se sucedem com bastante barulho, numa certa desordem, mas Bale oferece ênfase à figura de Moisés quando é escolhido seu caminho, tentando reatar as pontas do roteiro proporcionado por oito mãos a Scott. E com Moisés há certamente as sequências que valem a pena, como todas em que encontra a figura de Deus em Malak, ou quando precisa enfrentar a própria humanidade para saber se deve escolher seu caminho longe da comunidade em que está estabelecido como pastor.
Se falta a síntese e a complexidade de embate que havia em Gladiador, além de personagens que não saiam de cena sem dizer exatamente a que vieram, Êxodo pelo menos se arrisca. O interessante é que possui problemas que um cineasta como Scott saberia resolver, mas aqui ele não parece estar à vontade para isso, possivelmente preocupado em descontentar correntes religiosas ou mesmo por problemas particulares (a perda de Tony, seu irmão, a quem o filme é emocionalmente dedicado). Ainda assim, Êxodo é o retrato de um cineasta que se propõe a fazer algo espetacular para ser visto – e a cena que evoca o Mar Vermelho é portentosa – e mostra uma preocupação de estabelecer eixos temporais dentro de seu cinema, desde a ficção científica, passando pelo mundo de fábulas, até retratos contemporâneos de qualidade, como Thelma & Louise, Falcão negro em perigo e Rede de mentiras. Só parece lhe faltar, em algumas obras, como as que tentam reproduzir Gladiador, o lado mais dramático que possa se encaixar com as imagens espetaculares ou a direção de arte.

Exodus: gods and kings, EUA/ESP/Reino Unido, 2014 Diretor: Ridley Scott Elenco: Christian Bale, Joel Edgerton, Aaron Paul, Sigourney Weaver, Ben Kingsley, Indira Varma, María Valverde, John Turturro, Golshifteh Farahani, Ben Mendelsohn Roteiro: Adam Cooper, Jeffrey Caine, Bill Collage, Steven Zaillian Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Alberto Iglesias Produção: Adam Somner, Mark Huffam, Michael Schaefer, Peter Chernin, Ridley Scott Duração: 149 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Babieka / Chernin Entertainment / Scott Free Productions

Série Alien (1979, 1986, 1992, 1997)

Por André Dick

Dirigido por Ridley Scott – que vinha de Os duelistas (1977) – Alien – o 8º passageiro marcou o final dos anos 1970 como uma das ficções científicas mais originais até então feitas, com elementos de terror e visual, em parte, de videoclipe, pois o diretor combina com este universo. Nesse sentido, o filme tem excelentes achados, a revelação de Sigourney Weaver, como Ellen Ripley, o desenho de produção raríssimo (de H.R. Giger) e bons efeitos especiais, que ganharam o Oscar. O problema, em certa parte, está no roteiro (não que o das continuações seja excelente, mas aqui parece haver uma previsibilidade): todos os personagens parecem morrer facilmente demais, por causa de uma criatura que fica grudada no capacete de um dos tripulantes de um cargueiro de  minério espacial, depois de ele descer num planeta estranho. Seu sucesso se deve a cenas de terror (como o monstro saindo da pessoa que torna hospedeira) e ao monstro, que realmente assusta.  Além disso, o elenco coadjuvante (com John Hurt, Ian Holm e Harry Dean Stanton) é de muita qualidade. Em Prometheus, a ser lançado ainda este mês, apesar de isso não ser exposto de maneira excessiva, Scott faz um prólogo dessa história.
Ficção científica de James Cameron com mais sustos do que sua primeira parte, Aliens – O resgate traz de volta Ripley, que passa mais de meio século no espaço sideral, navegando, e é recolhida e tratada, inclusive para seus pesadelos com o alienígena que matou todos os tripulantes de sua espaçonave. No entanto, o planeta de origem da criatura, nesse meio tempo entre o primeiro e o segundo filme, foi colonizado e teve seu sinal interrompido. É motivo, então, para ela voltar lá com vários fuzileiros navais, a fim de ver o que aconteceu com os moradores, e para James Cameron revelar todo seu talento com efeitos especiais e direção de arte elaborada e assustadora (o que vemos em Avatar, por exemplo), construída nos estúdios Pinewood, da Inglaterra. Ripley perdeu sua filha e encontra numa das sobreviventes do planeta, Newt (Carrie Henn) uma filha adotiva. Isso até o momento em que precisar enfrentar a mãe de todos os aliens que infestaram a estação do planeta. Os fuzileiros são caricatos (há uma durona, por exemplo, e um valente que, no primeiro ataque dos monstros, quer fugir), sempre coordenados por um burocrata, no entanto isso não incomoda, pois Cameron quer mostrar mesmo o estilo grosseiro e cômico deles. Um deles é valente, mas depois do ataque dos aliens se torna medroso (Bill Paxton), fazendo um contraponto com o general de Avatar. Na verdade, Cameron enfoca o sentido materno de Ripley, que não aparecia no primeiro, pois não sabíamos que ela já tinha uma filha. E a maneira como ele entrelaça a perda com o encontro de Newt é muito bem delineado. Por muitos considerado melhor do que original, parece-me que é um filme mais completo, no sentido de que cria uma atmosfera de maior suspense ainda – levando em conta que já não temos a surpresa do original. Como diversão, Aliens – O resgate é uma das maiores da década de 1980.
Por sua vez, Alien 3 é dirigido pelo talentoso estreante David Fincher (que faria depois, entre outros, Seven, O curioso caso de Benjamin Button e A rede social), que havia feito até então clipes de Madonna, Billy Idol, entre outros. Ele pode ter salvo uma ficção científica com muitos problemas de produção (estouro de orçamento, abandono de dois diretores – Vincent Ward e Renny Harlin –, muitos roteiros, reclamações de Sigourney, que não queria voltar à série). No papel da tenente Ellen Ripley, Sigourney transforma-se, aqui, numa espécie de fuzileira naval, de cabeça raspada, roupa maltrapilha e cara cheia de machucados. Ela volta a enfrentar um alien, muito mais veloz, num planeta-prisão, habitado por homens que seguem uma religião medieval e foram aprisionados ali por serem loucos ou psicopatas. O diretor soube criar uma atmosfera vazia e com clima claustrofóbico, tal como o primeiro da trilogia, mas com o suspense do segundo. Para isso, contou com a colaboração do desenhista de produção Norman Reynolds e do criador dos aliens, o suíço H.R. Giger. A ação parece se localizar justamente na Idade Média, mesmo sabendo que estamos no futuro. O fator que diferencia este Alien dos outros é a temática existencial, assinada por Vincent Ward (diretor de Navigator). Os personagens nunca agem de maneira previsível, principalmente, sobretudo os de Dance (o médico) e Dutton (o braço direito do líder da religião) e, claro, de Sigourney, emprestando um lado verossímil a um personagem que combate um monstro quase sem armas – ao contrário do segundo filme, ou seja, aproximando-se mais do original. Tem muita ação, muitos movimentos de câmera (para mostrar as perseguições), excelente maquiagem, uma boa dose de humor e apenas um problema: a curta duração. Considerado inferior aos demais, me parece quase tão bom quanto o segundo.

No entanto, a continuação da série foi muito fraca: Alien – A ressurreição. Além de trazer de volta a tenente Ellen Ripley, interpretada por Sigourney Weaver, os produtores da Fox chamaram o francês  Jean-Pierre Jeunet para o cargo de diretor do novo Alien.
Se ele era elogiado por Delicatessen e Ladrão de sonhos, requintes de apuro visual – exigência para ser diretor da série, a julgar por Scott, Cameron e Fincher –, e viria a dirigir a obra-prima O fabuloso destino de Amélie Poulain, em sua estreia de Hollywood não se deu bem. Quase nada se salva. Fora os efeitos especiais, mais profissionais, e dos cenários fantásticos, superiores a qualquer ficção científica atual, Alien – a ressurreição é totalmente dispensável. A história é apenas motivo para mostrar um festival de mortes e violência com bastante exagero. Carrega demais na atmosfera, um híbrido entre gosma e pesadelo, exibindo monstros estraçalhando humanos – o que se via apenas de forma discreta, sobretudo no terceiro e, infelizmente, não o último capítulo –, seres mutantes (que rende uma das cenas mais asquerosas do filme), uma nova rainha alien, que dá a luz a um rebento demoníaco, além de uma porção de cenas sem nenhuma importância.
A partida da história já é absurda: os cientistas do filme anterior conseguem clonar a tenente Ripley, conseguindo extrair dela a mesma rainha alien, para reprodução. Enquanto a clone tem uma força incomum, proporcional ao do alien, os monstros da nova ninhada se rebelam contra os cientistas que os pesquisam numa nave, onde também se encontra um grupo de mercenários especiais, cujo destino é a morte e onde se inclui uma moça que esconde um segredo (Winona Ryder, em mau momento).
É triste assistir a um péssimo desfecho da série, com Sigourney totalmente sem roteiro e a vontade fracassada do diretor Jeunet em fazer o público se divertir com um número impressionante de mortos – o que é uma pena, pois a fotografia, os efeitos especiais e os cenários do novo filme são irrepreensíveis, assim como os outros filmes de Jeunet. Veremos se Prometheus irá recuperar a qualidade da trilogia inicial.

Alien, EUA, 1979 Diretor: Ridley Scott Elenco: Tom Skerritt, Sigourney Weaver, Veronica Cartwright, Harry Dean Stanton, John Hurt, Ian Holm, Yaphet Kotto, Bolaji Badejo, Helen Horton Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill Roteiro: Dan O’Bannon Fotografia: Derek Vanlint Trilha Sonora: Jerry Goldsmith, Lionel Newman Duração: 124 min. Distribuidora: Não definida

Cotação 3 estrelas e meia

Aliens, EUA/Reino Unido, 1986 Diretor: James Cameron Elenco: Sigourney Weaver, Carrie Henn, Michael Biehn, Paul Reiser, Lance Henriksen, Bill Paxton, William Hope, Jenette Goldstein, Al Matthews. Produção: Gale Anne Hurd Roteiro: James Cameron, David Giler, Walter Hill, Dan O’Bannon, Ronald Shusett Fotografia: Adrian Biddle Trilha Sonora: James Horner Duração: 137 min. (Versão estendida: 154 min). Distribuidora: Não definida Estúdio: Twentieth Century Fox Film Corporation / Brandywine Productions / SLM Production Group

Cotação 4 estrelas e meia

Alien 3, EUA/Inglaterra, 1992 Diretor: David Fincher Elenco: Sigourney Weaver, Charles S. Dutton, Charles Dance, Paul McGann, Brian Glover, Ralph Brown, Danny Webb, Christopher John Fields. Produção: Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill Roteiro: Vincent Ward, David Giler, Walter Hill, Larry Ferguson Fotografia: Alex Thomson Trilha Sonora: Elliot Goldenthal Duração: 114 min. (Versão estendida: 135 min.) Distribuidora: Não definida Estúdio: Brandywine Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 4 estrelas

Alien: resurrection, EUA, 1997 Diretor: Jean-Pierre Jeunet Elenco: Sigourney Weaver, Winona Ryder, Dominique Pinon, Ron Perlman, Gary Dourdan, Michael Wincott Produção: Bill Badalato, Gordon Carroll, David Giler, Walter Hill Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: John Frizzell Duração: 109 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Brandywine Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

1 estrela e  meia