Z – A cidade perdida (2016)

Por André Dick

Em seu filme anterior, Era uma vez em Nova York, James Gray parecia deixar de lado a agilidade dramática que havia apresentado em Amantes, talvez seu melhor filme. Mesmo com ótimas atuações de Joaquin Phoenix e Marion Cotillard, a narrativa tinha muitos problemas. No entanto, algumas qualidades suas se mantinham: o cuidado com a reconstituição de época era uma delas. Talvez Gray seja o último cineasta norte-americano a querer recuperar certo cinema de época, inspirado sobretudo em Michael Cimino, de O portal do paraíso. Ele possui uma grande nostalgia em mostrar salões de dança e barcos em portos históricos, sendo recepcionados por milhares de pessoas.
Em Z – A cidade perdida , ele traz Percy Fawcett (Charlie Hunnam), casado com Nina (Sienna Miller), um oficial britânico que é escolhido pela Royal Geographical Society, por meio das figuras de Sir George Goldie (Ian McDiarmid) e Sir John Scott Keltie (Clive Francis), para ajudar na delimitação de terras entre Bolívia e Brasil, prestes a entrar em guerra por causa disso. Estamos em 1906. Ele recebe como companheiro de viagem Henry Costin (Robert Pattinson), que tem conhecimento da Amazônia, e Arthur Manley (Edward Ashley). Em embarcações no rio Amazonas, lembra-se imediatamente de Aguirre, mas Gray não quer emular Herzog: seu interesse é justamente mostrar a solidão desses exploradores, mesmo em sua ausência de relações, não exatamente a loucura provocada pela floresta e pelo distanciamento de tudo.

Na missão, Fawcett é informado por um dos guias de que existe uma cidade perdida com ouro na selva. Ele não leva em consideração a história, mas encontra numa peregrinação restos de cerâmica na mata, o que o leva a acreditar que haveria uma cultura mais evoluída do que imagina. Gray contrapõe esse seu interesse à ameaça que sofre ao longo da peregrinação, principalmente quando há uma chuva de flechas disparadas por tribos (e o realismo das cenas as engrandece).
Fawcett volta à Inglaterra, onde sua esposa deu à luz ao segundo filho. Na Biblioteca do Colégio da Trindade, sua esposa encontra um texto de um conquistador que fala da cidade perdida na selva – seria a mesma já relatada a ele? Ele também discursa sobre a possibilidade de realmente haver uma cultura forte no meio da selva, sendo ridicularizado. Ele volta ao Brasil para tentar encontrar essa cidade, sendo acompanhado novamente por Costin e desta vez por James Murray (Angus Macfadyen). Desta vez, ele está interessado em estabelecer um contato mais estreito com as tribos indígenas da Amazônia, mesmo sabendo do risco que corre nesse embate entre diferentes culturas.

Não há nenhuma tentativa de se vincular a Terrence Malick, de O novo mundo, por exemplo, e sim a um cinema de época mais clássico, padronizado, embora no bom sentido. Gray não está interessado em cenas de ação ou mesmo no misterioso da floresta amazônica e sim com o dilema do personagem, em estar junto à família ou perto daquilo que o move como aventureiro e explorador. O mais instigante nesse personagem é como ele necessita dos companheiros para cumprir sua tarefa de exploração, sem nunca se sentir acima. Gray o mostra como um indivíduo mesmo inseguro, apesar da tenacidade em percorrer determinado rumo contrário ao ritual da sociedade da época. Neste ponto, ele lembra bastante Lincoln, de Spielberg, uma clara referência na reconstituição de determinados cenários, assim como as luzes e figurinos nos salões remetem a Barry Lindon e Mistérios de Lisboa. Também é bastante evidente, na maneira com que Gray usa o horizonte, uma influência do subestimado No coração do mar, de Ron Howard, que trata também do instinto de sobrevivência numa situação complicada: quando os personagens, na mata, ficam sem alimento e precisam caçar animais.

Gray faz dessa história simples não uma homenagem também a Fitzcarraldo, e sim um filme de época realmente convincente, com belas atuações de Hunnam, Pattinson (no seu melhor momento desde Cosmópolis e The Rover) e Sienna Miller (que esteve este ano também no ótimo A lei da noite). Embora nenhum personagem seja realmente desenvolvido, deixando algumas questões subentendidas, todos eles se sentem verdadeiros. Hunnam, especialmente, mostra talento já explorado este ano, embora não tanto, em Rei Arthur. Baseado em livro de David Gann, Z – A cidade perdida possui uma bela fotografia do sempre competente Darius Khondji, conseguindo conciliar as cores de Londres com a da selva amazônica de modo irremediavelmente concentrado. Com uma história contada de forma devagar, procurando mais nuances do que conflitos dramáticos ressaltados, é uma obra realmente interessante na trajetória de Gray. Pode-se apontar semelhanças também com o recente O abraço da serpente, mas Gray é substancialmente mais certeiro ao escolher a maneira de retratar esses exploradores. A narrativa flui também melhor, sem uma necessidade de agradar e ser artístico demais, explorando com cuidado as nuances.

The lost city of Z, EUA, 2016 Diretor: James Gray Elenco: Charlie Hunnam, Robert Pattinson, Sienna Miller, Tom Holland, Edward Ashley, Angus Macfadyen, Ian McDiarmid, Clive Francis, Pedro Coello Roteiro: James Gray Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: Christopher Spelman Duração: 111 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: MadRiver Pictures / MICA Entertainment / Paramount Pictures / Plan B Entertainment

A lei da noite (2017)

Por André Dick

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Pode-se sentir que em geral há uma preocupação grande com o que Ben Affleck possa ter sido ou vir ainda a ser. Em 2016, depois da polêmica em torno de Batman vs Superman, ele se transformou num dos atores mais visados, principalmente quando decidiu anunciar que iria dirigir The Batman. Este A lei da noite acabou atraindo um comportamento crítico em geral que parecia mais interessado no que ele estaria planejando do que de fato apresenta aqui, e, por problemas de divulgação, acabou se transformando numa falha significativa de ignição na bilheteria. Em seguida, foi anunciada sua saída da direção do novo filme do super-herói de Gotham, trazendo ainda mais indefinição sobre o seguinte fato: esta seria sua obra a ser esquecida?
A lei da noite possui uma das narrativas de gângster mais focadas num personagem, no caso Joe Coughlin (Ben Affleck), um veterano da I Guerra Mundial e filho de Thomas (Brendan Gleeson), capitão da polícia de Boston. Ele está apaixonado por Emma Gould (Sienna Miller), amante do gângster Albert White (Robert Glenister), e pratica atividades criminosas, para preocupação do pai. Pela narração, sabemos que ele não quer mais trabalhar para ninguém como fez durante a Guerra.

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O mafioso Maso Pescatore (Remo Girone) chantageia Joe justamente para matar o rival White. Depois de contratempos, Joe é levado a Ybor City, Tampa, Florida, com o parceiro Dion Bartolo (Chris Messina), onde conhece Graciela Corrales (Zoe Saldana), a irmã de um homem de negócios do local cubano. Ele se aproxima do xerife do local, Irving Figgis (Chris Cooper), pai de Loretta (Elle Fanning), e enfrenta um homem ligado à Ku Klux Khan, RD Pruitt (Matthew Maher).
Baseado num romance de Dennis Lehane, A lei da noite tem uma reconstituição de época notável e não por acaso era visto como um dos potenciais candidatos ao Oscar. Para isso, a colaboração do diretor de fotografia Robert Richardson, habitual colaborador de Tarantino e Oliver Stone, é fundamental. Trata-se de um recorte histórico em que a vida de mafiosos se encaixa com a história da América e, principalmente, do preconceito existente nela, contra latinos e negros, a presença da Ku Klux Khan e a vigência da Lei Seca. Joe é um personagem indefinido entre uma certa gentileza e uma violência extrema, e Affleck, um ator muitas vezes bastante limitado, consegue equilibrar essas duas facetas principalmente nas sequências em que empreende diálogos com amigos ou inimigos. O seu grande adversário tem sobrenome White, e os preconceitos destilados ao longo da metragem do filme se direcionam principalmente às escolhas pessoais que Coughlin vai realizando.

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Ele conduz o início da trama com uma agilidade que repercute principalmente na segunda metade, mais interessada em fazer analogias entre religião e cinema, violência e arte, culpa e constituição de uma família. Do elenco, não apenas Affleck está bem (o que acontecia raramente em sua carreira até iniciar sua trajetória como diretor), mas, principalmente, Gleeson, Cooper, Maher, Girone, Miller e Fanning, esta num diálogo comovente com Joe em determinado momento, mostrando seu talento. É destacada a maneira como Coughlin representa uma espécie de indefinição entre ser realmente mau ou adotar apenas uma persona, o mesmo acontecendo com a personagem de Loretta, que se transforma numa ameaça para seus negócios. Não apenas o fato de terem pais que também são policiais que os aproximam, nem o fato de Coughlin ter um primo trabalhando como roteirista em Hollywood, para onde ela deseja ir, e sim a insegurança de não saber se terão culpa pelo que cometeram ou irão cometer.
Vendo os filmes de Ben Affleck, pode-se perceber o seu interesse pelo universo do crime. Em Atração perigosa, ele interpreta um Doug MacRay, amigo de James Coughlin (interpretado por Jeremy Renner), sobrenome do seu criminoso de A lei da noite.

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Os dois são assaltantes de bancos e a partir daí se desenha uma série de subtramas sustentadas por grandes atuações tanto de Affleck quanto de Renner, Jon Hamm, Blake Lively e Rebecca Hall. Se em Medo da verdade, o detetive feito por Casey Affleck estava às voltas com os criminosos de um bairro pobre, seu Doug tenta uma nova chance com a mulher feita por Hall.
O tema sempre presente em sua filmografia é a crença na mudança: em Medo da verdade, visualizada na criança; em Atração perigosa, no amor por uma mulher. Em A lei da noite, o tema da criminalidade se mescla com linhagens familiares, e em Atração perigosa não era diferente, na figura de Chris Cooper, como Stephen, pai de Doug. Muito interessante como Affleck desenha os conflitos entre policiais e criminosos, como em Medo da verdade, como se fizessem parte realmente do mesmo universo, o que vai se intensificar em A lei da noite. Surpreende que logo após esses dois filmes iniciais ele tenha feito Argo, uma obra destinada a vencer o Oscar, como aconteceu, mas sem a qualidade deles e, principalmente, de A lei da noite.

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a-lei-da-noite-38Quase não há mais obras sobre gângsters e este especificamente traz uma mistura de Os intocáveis, Dália negra e Dick Tracy (os tiroteios são filmados com uma precisão irretocável), além de Inimigos públicos, de Michael Mann, principalmente na maneira como Affleck apresenta seus personagens. A reconstituição fina oferecida pelo filme não é menos atrativa do que sua narrativa desenhada com recursos mínimos a partir do romance de Dennis Lehane, autor também do livro que deu origem a Medo da verdade. Não há o mesmo nervosismo urbano de seus primeiros filmes, justamente pela atmosfera, e sim uma frieza impactante nas entrelinhas, acrescentada pela narração esporádica de Coughlin. Também não há nenhum humor aqui: esta é uma tentativa de empregar o mesmo clima das peças de gângsters dos anos 40 e 50. Talvez seja ainda mais: Affleck mostra como os gângsters estão presos a um momento histórico e a um comportamento que apenas pretende flertar com a violência, sem ter nenhuma ideia do que ela acarreta. É difícil determinar por que este filme foi recebido com tanta rejeição, mas talvez seja em razão de um certo distanciamento desse gênero. O roteiro se esclarece como poucas obras conseguem, ou seja, se não é uma das realizações do ano, difícil saber muitas outras que seriam. Intimista, feito à moda antiga, fascinante, com um olhar quase europeu por Affleck, A lei da noite é um acerto de qualidade que só o tempo irá reconhecer.

Live by night, EUA, 2017 Diretor: Ben Affleck Elenco: Ben Affleck, Elle Fanning, Brendan Gleeson, Chris Messina, Sienna Miller, Zoe Saldana, Chris Cooper, Robert Glenister, Matthew Maher, Anthony Michael Hall, Scott Eastwood Roteiro: Ben Affleck Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Ben Affleck, Chat Carter, Jennifer Davisson Killoran, Leonardo DiCaprio Duração: 128 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Appian Way / Pearl Street Films

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Sniper americano (2014)

Por André Dick

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O filme mais polêmico a ser indicado ao Oscar deste ano parece ser Sniper americano, a nova obra de Clint Eastwood. No ano passado, o cineasta já havia feito Jersey Boys – Em busca da música, que foi recepcionado em grande parte por críticas negativas. Se nele Eastwood mostrava uma originalidade ao conjugar trama biográfica e musical, com um insuspeito bom humor, inexistente em sua trajetória, em Sniper americano ele se volta ao lado da guerra do Iraque, que marcou os Estados Unidos depois, principalmente, dos atentados de 11 de setembro. Este enfoque custa aos filmes que tratam dessa guerra como exploradores de violência, o que foi o caso, por exemplo, de A hora mais escura, de Kathryn Bigelow, criticado, na época de seu lançamento, pelas cenas de tortura.
Alguns anos depois deste filme, Eastwood vai ao campo de combate mais uma vez, para mostrar a história de Chris Kyle, considerado o maior atirador dos Estados Unidos, vivido por Bradley Cooper. Eastwood, conhecido por seu talento em mostrar cenas de guerra, como em Cartas a Iwo Jima e A defesa da honra, segue o seu enfoque militarista. No entanto, este não é o seu segundo O destemido senhor da guerra, uma produção de guerra que mesclava o ambiente militar com humor. Sniper americano é uma espécie de segundo A hora mais escura, utilizando a mesma paleta de cores e a mesma movimentação de câmera – em determinado momento, o espectador parece assistir a entrada dos militares na casa de Bin Laden, mas desta vez é o grupo de Kyle (as imagens, se montadas em conjunto, se passariam pelo mesmo filme).
A crítica Pauline Kael, crítica severa de Eastwood, certamente ficaria surpresa com a recepção a este filme nos Estados Unidos, depois de ele arrecadar quase 300 milhões de dólares desde sua estreia no início de janeiro. Segundo ela, não havia um pingo de bom senso em algumas obras de Eastwood e este possivelmente seria a sua gota-d’água: Sniper americano, mesmo que não seja exatamente pró-violência (ele lida com os personagens de maneira quase documental), tem um discurso estranhamente desvalorizado pelo ritmo empregado e por diálogos que não chegam a soar críveis ao espectador. A impressão é que Bradley Cooper, que ajudou a financiar o projeto, chamou Eastwood, um cineasta reconhecido, para criar um candidato ao Oscar. O filme não apresenta elementos psicológicos que caracterizam os últimos filmes dele e, mesmo quando ele tenta transformar a violência cotidiana em elemento de heróis, como Gran Torino, há alguém de visão atrás das câmeras.

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Sniper americano é um retrato sobre o peso da violência na sociedade dos Estados Unidos. Depois de uma década de 90 irreparável, com quatro peças excelentes (Coração de caçador, Os imperdoáveis, Um crime perfeito e As pontes de Madison), Eastwood, nos últimos anos, tem tentado investigar o que corre embaixo da superfície social dos Estados Unidos, em peças como Sobre meninos e lobos, Gran Torino e J.Edgar, ou da política mundial, em Invictus, embora se permita a filmes com temática mais religiosa (Além da vida). E o diretor nunca propagou a violência, a exemplo do que vemos em Os imperdoáveis e Menina de ouro, sempre mostrando indivíduos afetados por um universo violento, mas que desejam, afinal, se afastar dele. Ou seja, sempre foi, embaixo de sua visão de cowboy americano, um cineasta de ideias intimistas.
Há esta tentativa de intimismo em Sniper americano, mas Eastwood esbarra no roteiro de Jason Dean Hall, de uma limitação visível, a partir das memórias de Chris Kyle. Um dos filmes anteriores com roteiro de Hall é Jogando com prazer, com Ashton Kutcher, e ele mostra bem as limitações de escrita: difícil em Sniper americano o espectador ver mais do que balas varando a câmera para atingir americanos ou inimigos dos americanos. E Cooper, na mesma medida em que oferece um personagem introspectivo – o espectador não fará ideia de quem foi Kyle, além de ser alguém abalado pela guerra –, desempenhando com certa solidão as linhas do roteiro, jamais se aproxima do que seria a ideia do filme: ser contra a violência utilizando dela a todo o custo. Para Eastwood, Kyle não é um atirador exímio porque teria sangue frio para tal: ele age como tal porque a cultura o produziu assim e tudo o que fez é como se fosse uma expectativa depositada nele por seu país. Este olhar exclui notavelmente o indivíduo em si mesmo, e Eastwood julga que Kyle é um herói não por se considerar desse modo, e sim porque seus colegas militares acharam que ele estava fadado para ser um sniper. O fato de o personagem não estar satisfeito com esta condição é claro, porém este aspecto não é trabalhado no sentido de criar uma tensão dramática.

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O máximo de profundidade que este personagem atinge é ficar em dúvida se atira ou não em crianças no cenário de guerra. Ele conseguiria conviver tranquilo tendo um filho e tendo de matar, ao mesmo tempo, crianças no Iraque? É uma das questões que o filme suscita, mas deixa pelo caminho, com receio de se comprometer, mesmo porque o roteiro não a elabora. Há um possível número de conceitos (e todos poderiam ser feitos a partir apenas do trailer) a respeito disso, só não são apresentados com traços interessantes. Enquanto Bigelow não faz elogios a governos pós-11 de setembro, avaliando, numa crítica ao sistema americano, que os métodos usados para extrair informações de suspeitos são encobertos e tortuosos, para Eastwood os métodos de Kyle fazem apenas parte de uma cultura de guerra, sendo apenas uma extensão do Velho Oeste.
Há, ao longo do filme, tentativas de equilibrar o racionalismo de Kyle com o de sua mulher, Taya (Sienna Miller, muito bem), entretanto Eastwood, aqui, não encontra a medida exata, mesmo contando com uma bela atuação de Bradley Cooper, possivelmente a melhor e mais discreta de sua carreira, apesar de limitada pelo roteiro. Muito em Sniper americano soa como se costurado em fragmentos indecisos, e parece que as ações não têm o impacto que deveriam na construção da narrativa, apesar de Eastwood continuar com um talento para filmar cenas de tiroteio (sobretudo na quarta ida de Kyle ao Iraque). Isso se deve não apenas ao roteiro de Hall, como também a uma escolha de montagem equivocada: querendo potencializar o lado dramático que seu filme, e em relação ao qual tem consciência, não possui, embora pareça – pelo próprio cenário de guerra –, Eastwood tenta tirar a linearidade da narrativa. Nisso, ele acaba deixando de lado os personagens, que soam como se estivessem apenas de passagem ao lado de algum tanque, com diálogos sem ênfase e dramaticidade e uma justificativa histórica falha para a Guerra do Iraque, várias vezes já desmentida. Este é um filme de ideias instigantes, com um bom ator principal e um diretor talentoso atrás das câmeras que simplesmente não funciona em boa parte, apesar de ser assistível e com sequências de guerra encaixadas. E, como o personagem de Kyle, não há uma explicação exata para isso.

American sniper, EUA, 2014 Diretor: Clint Eastwood Elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Luke Grimes, Max Charles, Kyle Gallner, Brando Eaton, Jake McDormanRoteiro: Jason Dean Hall Fotografia: Tom Stern Produção: Andrew Lazar, Bradley Cooper, Clint Eastwood, Peter Morgan, Robert Lorenz Duração: 132 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Warner Bros. 

Cotação 3 estrelas

Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo (2014)

Por André Dick

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Depois de sua estreia no Festival de Cannes de 2014, Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo tem feito uma trajetória à altura do que se esperava para uma obra de Bennett Miller, o mesmo de Capote e O homem que mudou o jogo, filmes com atuações memoráveis de Philip Seymour Hoffman (que lhe rendeu o Oscar) e Brad Pitt e Jonah Hill, respectivamente. Miller sempre esteve preocupado com o discurso referente aos Estados Unidos – e foi assim que construiu seu início de trajetória e foi premiado como melhor diretor em Cannes. Mas Foxcatcher traz uma história, embora sobre esportes, como O homem que mudou o jogo, muito diferente: há algo nele que tenta se estabelecer para longe do discurso que adota em sua narrativa.
Baseado em fatos reais, já no início vemos os dois personagens vitais para a narrativa, os irmãos Mark (Channing Tatum) e Dave Schultz (Mark Ruffalo), treinando luta greco-romana. Mark  vive solitário, enquanto David tem mulher, Nancy (Sienna Miller) e filhos. Depois de ganhar a medalha de ouro nas Olimpíadas de 1984, Mark ainda vai a colégios tentar incentivar crianças a adotarem o esporte. Certo dia, o milionário John Du Pont (Steve Carell) o procura. Ele pretende treiná-lo para que possa competir nas Olimpíadas de Seul em 1988, e Mark precisa ir morar na sua mansão, chamada Foxcatcher e afastada de tudo. Du Pont é um indivíduo que vai se mostrando cada vez mais estranho – sempre em busca de um domínio sobre os esportistas que treina, no grupo que denomina também Foxcatcher, e por meio dos quais não quer descontentar sua mãe Jean (Vanessa Redgrave). No entanto, ele não consegue obter a participação de Dave, com quem Mark consegue treinar no seu máximo. Esta é uma história aparentemente excepcional e chama a atenção como Miller no início obtém uma transformação dos atores, principalmente Tatum, que sempre pareceu um ator intruso, e tem aqui, na primeira hora, seu melhor momento no cinema.

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Depois dessa primeira hora interessante, Foxcatcher passa a criticar o patriotismo americano muitas vezes de maneira deslocada, como se quisesse adotar um tom de autoimportância – mas filmes não são bons porque são patrióticos ou antipatrióticos, e o de Miller atesta isso. Se no início Du Pont representa a chance do “sonho americano” ser concretizado, aos poucos a sua mansão vai adquirindo uma ambientação mais fúnebre, com o cenário sempre cinza, o céu encoberto, como se os personagens estivessem num universo à parte, em que não pudessem nunca se sentir felizes, e a relação de Du Pont e Mark vai se intensificando com um comportamento misterioso e não solucionado por Miller em nenhum momento. De todos os motivos, o principal no fundo é o seguinte: Du Pont poderia ser feliz, mas não é, porque carrega os males da América, a ganância, o desejo de superar qualquer outro. E carrega a tradição de sua família, o peso de sua vida. Há uma crítica a este “sonho americano” sobretudo porque Du Pont não é exatamente o que mostra ser, repetindo isso várias vezes em seu helicóptero para que o espectador não esqueça. De qualquer modo, o filme está sempre em busca da quebra de ritmo dos personagens, e a passagem dos anos nunca fica muito clara, fazendo com que não seja bem calculada por Miller, pelo menos para o êxito da trama. Para isso, Miller se apoia no trabalho de fotografia de Greig Fraser, que fotografa o filme com os mesmos tons que adotou para o bosque de Branca de Neve e o caçador, desta vez como se estivessem infiltrados numa espécie de pesadelo e não de fábula.
Os personagens de Foxcatcher em nenhum momento esboçam uma tranquilidade ou um alívio; não raramente, servem como símbolos do que o diretor pretende dizer, e isso vem acontecendo muito desde O homem da máfia, também com Pitt: a sociedade norte-americana não pode mais ser salva, e é isso que Foxcatcher tenta reafirmar a cada instante. Se há uma espécie de glorificação do esporte nos Estados Unidos, Miller alerta para o fato de que ele pode esconder apenas seres tristes e autoconcentrados. As lutas, mesmo nas Olimpíadas, parecem não representar o esporte, sendo apenas uma antecipação para um cortejo fúnebre. O sentimento em relação ao filme pesa como chumbo, com o objetivo de fazer o espectador se sentir claustrofóbico em meio a todas as situações mostradas, sem nunca conseguir se aproximar de suas figuras. Enquanto criticam Angelina Jolie pela direção “conservadora” de Invencível, Miller ganhou em Cannes e foi indicado ao Oscar por um estilo que tenta emular o de cineastas europeus e produções da Nova Hollywood dos anos 70, porém naquela época era sinal de termos Michael Cimino, um criador de atmosferas poucas vezes visto.

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Depois de um início bastante promissor, mesmo surpreendente, Steve Carell, ao longo do filme, tenta equilibrar a prótese em seu nariz colocando sua cabeça para trás em poltronas, sofás e cadeiras, indo nisso boa parte da energia para compreender seu personagem. Aos poucos, é possível perceber que não há um minuto de espontaneidade na sua interpretação, baseada de modo fundamental no Don Corleone de O poderoso chefão, sobretudo pelos gestos mínimos e pela maneira de olhar as pessoas sem necessariamente falar, como se estivesse ameaçando. O espectador muitas vezes se sente intimidado e fica surpreso de ver o mesmo ator de O virgem de 40 anos e Amor a toda prova com um ar tão grave e comedido – a pergunta é onde estaria esse ator antes e a resposta certamente seria: em algum lugar onde não estivesse pensando em ser indicado ao Oscar. Carell é um excelente ator, mesmo com elementos dramáticos, como já mostrou em Pequena miss Sunshine, Um divã para dois e Procura-se um amigo para o fim do mundo, mas o excesso de destaque dado a ele também prejudica o filme, pois é difícil ver qualquer naturalidade em seu comportamento: o ator é mecânico em suas variações e sentimentos em relação aos demais personagens, tentando evidenciar que está representando uma persona e de como ela seria difícil de ser reproduzida. Tatum e Ruffalo poderiam oferecer essa tonalidade mais humana (ambos estão muito bem), no entanto Miller os emprega de maneira equivocada no terceiro ato, longo e monocórdio, como se tudo estivesse antecipando o clímax moral a ser atingido pelo diretor. Em vez de analisar também a relação entre os irmãos, a parcela certamente mais sensível do filme, Miller quer apenas destacar sua crítica ao sistema.
Foxcatcher, nesse sentido, é melancólico como a atuação propositadamente grave de Carell: não há nada no filme que busque compreender esses personagens, pois Miller está interessado exclusivamente nessa crítica ao establishment norte-americano. No entanto, ele, ao mesmo tempo, duvida da inteligência do espectador, colocando constantemente símbolos dos Estados Unidos: bandeiras, águias etc. para onde quer que sua câmera aponte. Esta crítica adquire, aos poucos, um tom de impropriedade, e mina toda a estrutura do roteiro, que já carece de entendimento e desenvolvimento.
Os personagens estão à deriva porque Miller, na verdade, como um diretor de dentro da indústria, não quer se comprometer: ele deixa o terceiro ato todo de Foxcatcher transcorrer em silêncio e comportamentos ambíguos porque não quer assumir de fato o seu discurso. Ele parece ter certo receio de chocar o espectador com alguma revelação que possa abalar o público a que se destina – predominantemente norte-americano – e esconde seus personagens por trás de silêncios que, ao contrário do que vemos nos filmes que inspiram Miller, os europeus, não dizem substancialmente algo de importante. O que mais Foxcatcher consegue ser é uma infalível isca para o Oscar: ele teve cinco nominações (melhor direção, ator, ator coadjuvante, roteiro original, maquiagem e cabelo), mas não a principal, de melhor filme. Talvez Foxcatcher se sinta excluído por pensar dizer alguma verdade incômoda sobre a sociedade dos Estados Unidos; mais provável é que se trata de um filme infelizmente pouco marcante. É Miller quem ao final gostaria de estar gritando: “USA! USA!”. Afastado de tudo e de todos, Du Pont tem as mesmas características deste cinema, que se afasta do espectador para tentar ser diferente, mas carrega consigo todos os clichês imaginados. E quer soar poderoso, mesmo que não seja mais do que parte do mundo, nem mais nem menos.

Foxcatcher, EUA, 2014 Diretor: Bennett Miller Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Vanessa Redgrave, Sienna Miller, Anthony Michael Hall Roteiro: Dan Futterman, E. Max Frye Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Mychael Danna, Rob Simonsen Produção: Anthony Bregman, Bennett Miller, Jon Kilik, Megan Ellison Duração: 130 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Annapurna Pictures / Likely Story / Media Rights Capital

Cotação 2 estrelas e meia