A árvore dos frutos selvagens (2019)

Por André Dick

Lançado no Festival de Cannes do ano passado, A árvore dos frutos selvagens é mais um grande filme (em todos os sentidos, com seus 188 minutos) de Nuri Bilge Ceylan. Se em 2014 ele recebeu a Palma de Ouro com Winter sleep, e já havia se mostrado um diretor e roteirista de talento único em outros projetos, como Distante, Climas e Era uma vez na Anatólia, Ceylan busca aqui reproduzir uma espécie de visão da juventude do mesmo tipo de universo já revelado em sua obra anterior.
Trata de um autor muito jovem, Sinan (Aydın Doğu Demirko), que, depois da faculdade em literatura inglesa, volta à sua casa em Çanakkale, na área costeira, para morar com seus pais, um professor, Idris (Murat Cemcir), adepto de apostas, e uma dona de casa, Asuman (Bennu Yıldırımlar), assim como com sua irmã Yasemin (Asena Keskinci). Ele possui um livro, o qual pretende publicar e para isso busca ajuda financeira de algumas figuras de sua cidade, ao mesmo tempo que presta exames para trabalhar como professor.

No entanto, Ceylan parece mostrar aqui o desencanto do mundo moderno pela literatura, e como ele se demonstra no olhar desgastado de Sinan perante a humanidade. Há encontros dele com o prefeito Adnan Yilmaz (Kadir Çermik), que exige um vínculo do livro que escreveu com a história da cidade, e um pequeno industrial, Ilhami (Kubilay Tunçer), com orgulho de não ter diploma universitário e interessado em promover um embate de ideias. Em outro plano, o jovem escritor discute sobre religiosidade e o Alcorão com dois amigos, Veysel (Aksu) e Nazmi (Öner Erkan), numa caminhada rotineira do campo até um café na periferia da cidade, em meio ao nascer do sol. A figura do homem é preponderante nessa sociedade e os caminhos levam sempre o personagem a confrontar o fato de que, para ser aceito, ele precisa pensar em se adaptar ao universo turístico do qual sua localidade sobrevive.
O senso de localização, de amplitude espacial, é uma característica essencial na obra de Ceylan: quando o espectador assiste a seus filmes, conhece também o que circula em torno do personagem central, assim como os lugares frequentados por ele. É como se fosse uma viagem introspectiva. Podemos visitar tanto a casa de Sinan quanto a livraria onde vai tentar vender seu livro, em meio a um design de produção imersivo de Meral Aktan. E, do mesmo modo que as histórias, a imagem do poço faz lembrar que existe algo há ser mais escavado profundamente e muitas vezes resiste à vontade própria. Há muito de Tarkovsky aqui, especialmente de O sacrifício, contudo com nuances mais próximas do espectador.

Para isso, Ceylan, especialista em filmar cenas com longos diálogos (e saborosos, na maioria das vezes, escritos aqui com sua esposa Ebru Ceylan e Akın Aksu), mostra Sinan, por exemplo, se encontrando com um respeitado autor de sua cidade, Suleyman (Serkan Keskin), numa livraria. Como jovem escritor, ele deseja saber de coisas que o antigo não gostaria de contar – e, enquanto este fala, observa se a chuva vai passar do lado de fora, quando a discussão se torna um pouco kafkiana, como o retrato ao fundo demonstra. Tudo vai acabar na mitologia do Cavalo de Troia, pois em Çanakkale teria abrigado a Troia antiga. Não por acaso, aliás, a mitologia é colocada por vezes em primeiro plano: trata-se, na verdade, do peso da história e da filosofia nos dias atuais. Como é possível a cultura se inserir em meio aos assuntos do dia a dia? Para o diretor, é muito claro: ela precisa, deve, coexistir com a própria insegurança do indivíduo, nunca apresentando nenhuma espécie de certeza ou tentando servir como guia da sociedade.
Ceylan usa determinadas táticas para mostrar que Sinan imagina algumas situações, empreendendo como uma cena-chave. Isso faz o espectador pensar sobre a existência ou não de determinadas passagens, como quando Sinan encontra uma ex-colega de classe, Sinan Hatice (Hazar Ergüçlü), trabalhando no campo, numa sequência em que a belíssima fotografia de Gökhan Tiryaki se mostra ainda mais vital, e a sua imaginação parece se converter numa semirrealidade. Nesses fragmentos, há, como sempre, um embate implícito entre a alta cultura, a erudição, com a prática do dia a dia, do cotidiano. Um elemento não vive sem o outro, no entanto a convivência não é pacífica. O escritor de A árvore dos frutos selvagens não está disposto a entregar seus valores em troca de financiamento. Apesar dos temas, porém, a narrativa nunca desliza para uma metalinguagem forçada, destinada à autossatisfação de seu próprio autor; ela é conduzida de maneira discreta, subentende saídas e nunca as entrega de modo pleno.

Interessante como Ceylan posiciona seu personagem contra a sociedade em torno e parece não permitir acesso às suas ideias, ou simplesmente não possui interesse por elas. Sinan é claramente sem empatia, decepcionado com sua situação, mas é exatamente aí que Ceylan o torna diferenciado: pelo tom agridoce, delimitado pelo contato constante com a natureza e as estações. Sua aproximação do pai se dá por meio do conceito de que cada geração se dá por um sinal de mudança, simbolizada pela visita ao colégio. Há um diálogo extremamente humano, emocional, no qual vemos os personagens se revelarem à margem de um passado ainda capaz de visitá-los, no entanto sem deter a continuidade.
Claramente autobiográfico em determinados momentos, A árvore dos frutos selvagens foi o pré-candidato da Turquia ao Oscar de filme estrangeiro (mesmo sendo distribuído internacionalmente apenas este ano), novamente sem chegar aos finalistas. Que ele não tenha sido indicado aos prêmios merecidos só mostra que, como Sinan precisa aprender durante a narrativa, é preciso continuar. Como as pêras selvagens do título original, o filme de Ceylan, o melhor até agora deste ano, é diferenciado em todos os sentidos e o final, especialmente, o designa como obra-prima. É a síntese de um grande cineasta.

Ahlat Ağacı/The wild pear tree, Turquia, 2019 Diretor: Nuri Bilge Ceylan Elenco: Aydin Doğu Demirkol, Murat Cemcir, Bennu Yıldırımlar, Hazar Ergüçlü, Serkan Keskin, Kadir Çermik, Kubilay Tunçer, Aksu, Öner Erkan, Asena Keskinci Roteiro: Nuri Bilge Ceylan, Ebru Ceylan, Akın Aksu Fotografia: Gökhan Tiryaki Produção: Zeynep Özbatur Atakan Duração: 188 min. Distribuidora: Memento Films Production