Ponte dos espiões (2015)

Por André Dick

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O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado Encurralado, Tubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdida, E.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de Schindler, Amistad e O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificialMinority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.
Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Era momento, portanto, de voltar ao drama histórico, o que ele faz com Ponte dos espiões. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e a animação com Tintim – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.

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Ele parece reunir a mesma equipe (fotógrafo, montador e aqui apenas se ausentou John Williams da trilha sonora) e, inclusive, um ator recorrente em sua filmografia (Tom Hanks, já presente em O resgate do soldado Ryan, Prenda-me se for capaz e O terminal) para entregar um drama bem feito, no entanto perfeitamente previsível dentro de seu esquema como grande diretor de Hollywood. Infelizmente, Ponte dos espiões se ressente não de um grande elenco e de uma grande produção, e sim de ideias que possam comover mais o espectador.
É a história de Rudolf Abel,  preso em 1957 no Brooklyn, enquanto faz o que mais gosta: pintar.  No entanto, ele é visto como um possível espião da KGB, e os agentes recolhem tudo o que pode comprometê-lo. Para sua defesa, é chamado James B. Donovan (Tom  Hanks), especialista em contratos de seguros, com o intuito de os Estados Unidos mostrarem que trazem um julgamento justo. Ninguém espera o que Donovan faz: realmente defender Rudolf Abel, por ter uma simpatia especial por ele. Este é o lado spielberguiano de Ponte dos espiões: nunca fica muito claro por que Donovan fica tão devotado a Abel, além daquilo que vemos: o público toma uma aversão por ele, mas Donovan continua a querer provar que seu cliente é inocente, sem querer saber se é um espião ou não; para ele, isso não importa.

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Ele vai ao juiz do caso, Mortimer W. Byers (Dakin Matthews), para pedir uma suspensão de pena, imaginando uma situação mais adiante. Em meio a isso, o soldado Francis Gary Powers (Austin Stowell) sofre um acidente de avião e é capturado pelos russos, sendo submetido a interrogatórios diários. Do mesmo modo, Spielberg mostra Frederic Pryor (Will Rogers), estudante de economia americana, que, ao visitar sua namorada em Berlim Oriental, passa pela experiência da construção do muro, e acaba sendo preso. Spielberg vai mostrar daqui em diante o que essas experiências têm a ver com a Rudolf Abel, e o que Donovan terá de fazer para que as pessoas no trem que pega diariamente parem de observá-lo com condenação.
Do início ao fim, Ponte dos espiões é um típico filme do Spielberg mais maniqueísta: Donovan é o exemplo de idealista, capaz de fazer justiça por todos os meios. Para ele, tudo pode ser resolvido no diálogo, tanto que ele seja ouvido, e trata-se, por causa de Hanks, num personagem fascinante, embora sem muitas nuances. Em se tratando de um personagem real, Donovan, no entanto, fica no meio-termo quando passa a ser peça de um jogo maior, a Guerra Fria entre os Estados Unidos e a União Soviética. Não há, aqui, os detalhes emocionais que vemos em A lista de Schindler, Soldado Ryan, mesmo no mais recente Lincoln (no qual Day-Lewis dava um componente mais altivo ao presidente americano) e outras peças dramáticas de Spielberg: tudo é levado de forma mais ou menos dispersa, sem os graus de tensão necessários, a não ser em seus primeiros 40 minutos, que lembraram muito o ritmo do excepcional JFK, de Oliver Stone, inclusive pelos cenários soturnos e pela relação de Donovan com a família.

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Há uma influência clara, na maneira de filmar, de Petzold, principalmente de Barbara e Phoenix, assim como de O espião que sabia demais, mas falta a Spielberg um ponto maior no que diz respeito à construção subjetiva dos personagens. Há sempre um pouco de de previsibilidade em cada um deles, e principalmente Abel não tem seus caracteres elaborados, o que é uma pena, em razão de Mark Rylance, cuja atuação fica tremendamente superestimada pelo tempo de duração e o roteiro. Thomas Waters, o chefe de Donovan, feito por um subaproveitado Alan Alda, é também o limite do maniqueísmo, ao mesmo tempo que Jesse Plemons é desperdiçado como Murphy, amigo de Powers. No entanto, existe em torno dos personagens uma atmosfera maravilhosa de época, uma grande reconstituição em detalhes, principalmente nos figurinos e no comportamento gestual dos atores e personagens. Houve realmente um estudo.minucioso da época em que o filme se passa, sempre uma característica dos filmes de Spielberg: o espectador fica imerso nas imagens. Por outro lado, essas imagens parecem apresentar os personagens a certa distância, em que nunca ganham a verdadeira importância. O roteiro, assinado também pelos irmãos Joel e Ethan Coen (que parecem emprestar sua assinatura a filmes históricos feitos por outros diretores, tomando como exemplo Invencível), não chega a trabalhar exatamente o terceiro ato, tornando tudo algo muito próximo de uma fantasia e não exatamente de um filme com certa legitimidade histórica. Muito tem se dito sobre o patriotismo de Ponte dos espiões: isto não é exclusividade do filme, e sim do cinema-norte-americano e não seria uma falha se tivesse um ponto de vista mais interessante. Spielberg tem uma verdadeira paixão pelo cinema e por filmar. Quando ele acredita estar mostrando algo espetacular, é seu problema: ele consegue atingir este limite quando não tem essa pretensão.

Bridge of spies, EUA, 2015 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Tom Hanks, Mark Rylance, Sebastian Koch, Amy Ryan, Scott Shepherd, Alan Alda, Austin Stowell, Mikhail Gorevoy, Jesse Plemons, Dakin Matthews  Roteiro: Ethan Coen, Joel Coen, Matt Charman Produção: Kristie Macosko Krieger, Marc Platt, Steven Spielberg Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 141 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: DreamWorks SKG / Fox 2000 Pictures / Marc Platt Productions / Participant Media

Cotação 2 estrelas e meia 

A garota dinamarquesa (2015)

Por André Dick

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O cineasta inglês Tom Hooper recebeu os Oscars de melhor filme e direção por um de seus esforços menos entusiasmantes, O discurso do rei. Logo depois, ele apresentou um musical moderno baseado na peça Os miseráveis, apostando num grande elenco (Hugh Jackman, Anne Hathaway e Russell Crowe) cantando por força própria, sem o auxílio (pelo menos aparente) de complementos ou correções de estúdio pós-produção. Esses dois filmes anunciam em parte a nova obra do diretor, A garota dinamarquesa. Em parte porque mostra bem uma cultura determinada – a dinamarquesa –, assim como ele mostrava anteriormente as culturas inglesa e francesa, apoiada num grande design de podução, em parte porque lida com a superação de um homem diante de sua vontade própria, assim como os personagens centrais de Os miseráveis e O discurso do rei.
A história inicia em Copenhagen, por volta dos anos 1920. Desta vez, o núcleo é o pintor reconhecido de paisagens Einar Wegener (Eddie Redmayne), casado com a também pintora Gerda Wegener (Alicia Vikander). Ambos pretendem ter filhos, mas Gerda não consegue engravidar. Certo dia, ela lhe pede para posar com uma roupa de bailarina para uma pintura que está fazendo, e Eimar admira o figurino, como se vestisse uma nova pele. No dia em que Gerda o aconselha a ir vestido como uma mulher para uma festa, ele encontra Henrik (Ben Whishaw, competente como sempre), por quem logo se sente atraído. E passa a chamar de Lili Elbe, em razão da amiga Ulla (Amber Heard), exatamente uma bailarina.

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Essa transformação de Einar numa mulher vai acontecendo numa forma gradativa, em meio a conflitos com a esposa. Gerda sonha em sobreviver por meio da pintura, mas tem seus quadros negados por um expositor, até o momento em que parece descobrir o seu estilo, como também Einar, ao lembrar de Hans Axgil (Matthias Schoenaerts). Por esse diálogo com o universo dos pintores e da boemia que os cercava, é fácil detectar uma beleza plástica nos detalhes comparável a Moça com brinco de pérola, além de um diálogo com Eclipse de uma paixão, sobre a relação romântica entre Rimbaud e Verlaine. E, baseado em fatos reais, como esses dois filmes, A garota dinamarquesa é um belo exemplo de como fazer uma obra biográfica sem cair exatamente no lugar-comum. Indo à história real, é interessante como Hooper conseguiu manter elos de ligação e criou outros, como o apego de Einar à sua infância, traduzido constantemente em suas pinturas.
Enquanto a trilha de Alexander Desplat parece excessivamente calcada em tons já conhecidos, a fotografia de Danny Cohen proporciona os melhores momentos de A garota dinamarquesa, junto com a presença de Vikander. Ela é realmente o principal nome da narrativa, mesmo com a presença de Redmayne, cujo papel é bastante difícil e ao qual ele se entrega com esforço, não sem cair, por vezes, em certos maneirismos que, ao longo do filme, acabam por desfocar um pouco o personagem – e sua atuação fica longe daquela de A teoria de tudo em termos de resultado.

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É como se a personagem de Vikander realmente desempenhasse a força central dessa história, bastante auxiliada a partir de determinado ponto por Schoenaerts (tão bem dirigido quanto em Ferrugem e osso e tornando complexo um personagem com roteiro mínimo). Vikander, depois de já se mostrar excelente atriz em O amante da rainha e Anna Karenina, embora tenha ficado mais conhecido com o recente Ex Machina, desempenha este papel com um potencial de atuação raras vezes visto nos últimos anos, mesclando um drama interno com uma tentativa de parecer menos atingida pelos desejos do marido.
A maneira como Hooper entrelaça o mundo artístico e a descoberta de uma visão própria nesse universo com a descoberta de si mesmo cava boa parte do interesse dramático de A garota dinamarquesa, que lida bem com algumas instabilidades narrativas, principalmente devido às ações de Gerda, não tão explicadas quanto o diretor possivelmente imagine. Ainda assim, mesmo com a dramaticidade em parte exagerada, Hooper tem um entendimento desse universo muito interessante. As comparações com o recente Tangerine por parte de alguns críticos me parecem injustas: embora o primeiro seja exemplo de cinema indie e aparentemente mais objetivo e direto, A garota dinamarquesa me parece um filme mais completo, além de visualmente muito bem trabalhado, dialogando, em seu design de produção, com as produções anteriores de Hooper.

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São muito interessantes as consultas que Einar faz a diferentes médicos e as prescrições dadas sobre sua obsessão em se tornar uma mulher, e a ausência de psicologia efetiva, além dos tratamentos recomendados. O filme não quer apenas, como me parece Tangerine, utilizar o tema da transexualidade porque é pouco abordado, mas sim levar os personagens a um espaço em que são mais do que símbolos de um período. Mesmo a figura da bailarina, presente em toda a primeira parte da história e por meio da qual o personagem central parece finalmente encontrar sua sexualidade, é um diálogo direto com o universo pictórico de Degas, do final do século anterior. Quando o expositor diz a Gerda para encontrar um estilo, é como se pedisse a ele um contorno menos francês. Esse contorno acaba sendo reproduzido pelo anseio do marido de se libertar de sua condição de casado: a figura da bailarina, já tão usada em quadros, é o que lhe proporciona a ideia de fugir ao que se espera do homem, do padrão de masculinidade esperado.
O tema da transexualidade se coloca com uma simbologia de representação do corpo e de se ver com outro sexo (e uma imagem em que Einar observa uma stripper por meio de um vidro é de uma grande sensibilidade de Hooper). Nunca há um deslizamento da história para o que poderia ser uma espécie de apelo. O roteiro de Lucinda Coxon, baseado em romance de David Ebershoff, tem o mérito de enquadrar as passagens dessa experiência de modo a nunca torná-la previsível. Isso se deve sobretudo a Vikander, uma grande atriz que consegue transformar os momentos derradeiros em uma virada realmente emocional, apoiada também em Redmayne, finalmente num momento que faz jus ao seu talento. E, ao contrário de O discurso do rei, Hooper não se entrega a uma frieza histórica, e sim a uma emoção calculada em doses, como no final sólido e que expande a imaginação do espectador.

The danish girl, Reino Unido/EUA, 2015 Diretor: Tom Hooper Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts, Ben Whishaw, Amber Heard, Sebastian Koch, Emerald Fennell, Adrian Schiller Roteiro: Lucinda Coxon Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Anne Harrison, Eric Fellner, Tim Bevan Duração: 120 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: ELBE / Harrison Productions / MMC Independent / Pretty Pictures / Senator Film Produktion / Working Title Films

Cotação 4 estrelas