Perdido em Marte (2015)

Por André Dick

Perdido em Marte 3

A qualidade do trabalho de Ridley Scott parece ainda apenas associada aos seus primeiros filmes, como Alien e Blade Runner, como se depois disso não tivesse realizado outros grandes filmes. Apenas nos anos 2000, ele fez Gladiador, Falcão negro em perigo, Os vigaristas, Cruzada, Um bom ano e O gângster, obras que revelam uma variação muito grande de dicção, e há três anos apresentou Prometheus, colocado de forma surpreendente como uma de suas decepções. Quando um cineasta como Scott, certamente um dos maiores artesãos já surgidos em Hollywood e que continua, quase octogenário, produzindo filmes, faz uma superprodução como Êxodo: deuses e reis, parece apenas para passar o tempo e um mero blockbuster, mas junto consigo sempre traz uma concepção visual extraordinária. A partir daí, adaptar o livro de ficção científica The martian, para o cinema se transformou no seu grande projeto antes da continuação de Prometheus.
Escrito por Andy Weir, Perdido em Marte teve a adaptação de Drew Goddard, que fez em parceria com Joss Whedon o roteiro da sátira aos filmes de terror O segredo da cabana e do pouco recomendado Guerra Mundial Z. A narrativa começa com uma expedição precisando sair de Marte às pressas. Liderada por Melissa Lewis (Jessica Chastain), tem em seu grupo Rick Martinez (Michael Peña), Beth Johanssen (Kate Mara), Chris Beck (Sebastian Stan) e Axel Vogel (Aksel Hennie), além de Mark Watney (Matt Damon), que acaba sofrendo um contratempo e fica isolado no planeta vermelho.

Perdido em Marte 2

Perdido em Marte 4

Perdido em Marte 6

Que Marte é um planeta dos mais propícios a mistérios e pesquisas, isso está provado em vários filmes, e mesmo já foi colonizado em O vingador do futuro, antes de se descobrir recentemente a presença de água em sua superfície. Scott tem uma ideia muito clara da imensidão do universo, como já provou em Alien e Prometheus. Ele joga esses mistérios na narração de Watney, quase sempre falando para a câmera em que deseja deixar gravada a sua experiência. Como sobreviver em Marte? De que modo fazer a comida durar o tempo suficiente para que possa ser resgatado pela Nasa? Entre os integrantes da Nasa, temos o diretor Teddy Sanders (Jeff Daniels), Annie Montrose (Kristen Wiig), Mitch Henderson (Sean Bean) e o responsável pela expedição, Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor), além de seu auxiliar Bruce Ng (Benedict Wong), enquanto Mindy Park (Mackenzie Davis) é quem acompanha os movimentos de Watney.
Perdido em Marte possui um cuidado muito grande em retratar o planeta vermelho, principalmente em sua superfície arenosa e entrega a Watney alguns momentos de quem precisa descobrir o fogo (neste caso, o oxigênio) para poder sobreviver mais do que os mantimentos indicam. Ele também precisa fazer o reconhecimento da área e lembrar de possíveis referências no planeta que possam fazer com que estabeleça um contato com a Terra. A diferença do personagem de Watney para outros recentes, especificamente da doutora interpretada por Sandra Bullock em Gravidade e do fazendeiro astronauta feito por Matthew McConaughey em Interestelar, é especificamente o seu descompromisso com alguma angústia que possa evocar o espaço sideral e o isolamento em Marte.

Perdido em Marte 9

Perdido em Marte

Perdido em Marte 5

É visível que Scott quis fazer um filme diferente dessas duas referências recentes e, mesmo que Perdido em Marte tenha um lado espetacular visual próximo desses dois (principalmente nos momentos em que se concentra no espaço), não chega próximo da densidade dos projetos de Cuarón e Nolan. Isso, por um lado, torna o filme mais bem-humorado, inclusive por sua trilha sonora, e mais centrado em discussões da Nasa, principalmente de Sanders, Montrose e Kapoor. Ejiofor, principalmente, está ótimo como o coordenador do projeto de viagens a Marte e consegue dar o toque mais humano do filme de Scott, mesmo que Watney seja o homem em missão e a ser resgatado. Embora seus diálogos com Sanders e Montrose não rendam como seria de se esperar, deixando Wiig lamentavelmente subaproveitada, Kapoor é o elo de ligação entre Watney e a Nasa. Quando em determinado momento surge o personagem de Rich Purnell, interpretado por Donald Glover, há também mais agilidade em cena.
Em alguns momentos, Perdido em Marte também se ressente claramente de um núcleo mais emocional, que Scott trabalhou tão bem em filmes como Gladiador, Um bom ano e Thelma & Louise. O personagem de Watney se apresenta sempre por meio da descrição do que está ocorrendo com ele, no entanto não se tem uma noção mais exata de seu passado e de sua relação com o restante da equipe. Como o filme inicia rapidamente, com uma tempestade que remete claramente a Prometheus, e Scott se aprimora ao lançar os personagens num cenário ameaçador, não há tempo o suficiente para que conheçamos os personagens. E, depois disso, o roteiro de Goddard e a montagem de Pietro Scalia – habitual colaborador de Scott e responsável pelo filme mais bem montado que já vi, particularmente, JFK – deixam a equipe desparecer do filme por um tempo longo demais, a fim de que haja uma conexão emocional mais sustentada com Watney, o companheiro deixado em Marte por se achar que estava morto, além de não estabelecer rapidamente uma conexão com a Nasa.

Perdido em Marte 10

Perdido em Marte 12

Perdido em Marte 11

É como se a equipe do projeto fosse alijada do roteiro – não apenas ela, como também coadjuvantes como Chastain, Peña e Mara, que poderiam contribuir muito –, e isso sinaliza, em parte, para certo afastamento das emoções guardadas por Watney: como não se tem ligação dele com pessoas que o cercavam e mesmo com pessoas da Terra, é como se ele não estivesse mais do que já costumeiramente está: só (o que tornava Náufrago, com Tom Hanks, tão surpreendente, na sua indefinição de que se iria ou não reencontrar o seu amor). Nesse sentido, parece se perder em parte a essência de um filme como este: de que ele está num ambiente desconhecido e solitário. Ao reagir com bom humor à situação, dá espaço a alguns momentos realmente engraçados, no entanto extrai do personagem a sua preocupação principal, que, de fato, é sobreviver. Matt Damon é um ótimo ator, e ainda assim não temos uma interpretação propriamente dita em sua essência: o roteiro simplesmente não o ajuda, e sua curiosidade pelas coisas se revela apenas autoafirmação. Neste sentido, Perdido em Marte elabora sua trama mais em cima do que Watney pode fazer a partir de seus conhecimentos científicos para lidar com as adversidades – e o que ele faz não é pouco, e pode também dialogar com outras peças conhecidas de homem sobrevivendo em ambiente inóspito. Quando, por um vislumbre de Scott e de atuação de Damon, a emoção surge, no seu ideal de sobrevivência, é muito claro que Perdido em Marte sobe de patamar (como, por exemplo, (spoiler), a troca de mensagens pública entre Watney e a Nasa).
Há alguns filmes de Scott em que a conexão dos personagens não é bem solucionada – o próprio Êxodo –, e com Perdido em Marte não é diferente, principalmente pela quantidade que apresenta deles (em torno de vinte), porém a grandiosidade costuma ser uma de suas saídas. Em Cruzada, havia algumas irregularidades no tratamento histórico, por exemplo, mas os cenários fantásticos e a atmosfera faziam a estrutura do filme se movimentar por todos os lados, especialmente em sua versão estendida. O mesmo vale para Prometheus, com uma meia hora final não menos do que fantástica para os admiradores de boa ficção científica, e no caso de outros filmes de Scott menos estimados, a exemplo de A lenda (dos anos 80) e 1492 (com uma fotografia esplendorosa e trilha sonora de Vangelis). Em Perdido em Marte, por sua vez, Scott pretende dar mais espaço a como o ser humano pode ver a ciência e se utilizar dela como própria fonte de vida, com seus conhecimentos de gerações longínquas. Por isso, em sua meia hora final, Scott parece conduzir seu filme ao que há de melhor nele: uma espécie de sublimação da tentativa de enfrentar as estrelas como quem está disposto a sobreviver e retomar seu contato com o que ainda está prestes a brotar do solo como se fosse a primeira vez.

The martian, EUA, 2015 Diretor: Ridley Scott Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Kate Mara, Sean Bean, Michael Peña, Mackenzie Davis, Kristen Wiig, Donald Glover, Sebastian Stan, Sam Spruell Roteiro: Drew Goddard Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Simon Kinberg Duração: 141 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Genre Films / International Traders / Mid Atlantic Films / Scott Free Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas

O destino de Júpiter (2015)

Por André Dick

O destino de Júpiter.Filme 10

Se os irmãos Andy e Lana Wachowski têm uma qualidade inegável é que eles sabem produzir, por meio de seus filmes, bastante polêmica. Depois de Matrix, qualquer título deles tem a qualidade de despertar o mesmo ânimo antes da estreia. No entanto, depois, seja com Speed Racer ou Cloud Atlas, embora haja uma variedade de críticas, normalmente são recebidos com certa decepção. Nunca há o mesmo impacto causado por Matrix – e mesmo as continuações dessa referência dos anos 90 foram recebidas com desconfiança. Ainda assim, os filmes considerados falhos dos irmãos são realmente interessantes: o visual e a inspiração nos quadrinhos de Speed Racer são bem trabalhados e Cloud Atlas consegue ser uma ficção científica que arrisca lidar com vários temas em conjunto. E difícil duvidar do talento de uma dupla cuja estreia é Ligadas pelo desejo, uma mistura de suspense e obra noir.
No ano passado, O destino de Júpiter era visto previamente como um fracasso antecipado de bilheterias e teve seu lançamento adiado pela Warner Bros em muitos meses, para uma possível melhora em seu acabamento e um substancial corte na metragem – ou talvez porque fosse confundido com outros filmes mais imediatos da temporada. Ele parece ser um pouco resultado desse limite entre o gênero de ficção científica e as produções de super-heróis.
Sua história já indica isso. Tudo inicia com um homem, Maximilian Jones (James D’Arcy), observando as estrelas e conhecendo a futura esposa Aleksa (Maria Doyle Kennedy) em São Petersburgo. Algum tempo demais, com a mulher já grávida, ele decide que sua filha se chamará Jupiter. Em poucos minutos, já mostra que ela cresceu (agora Mila Kunis) com familiares russos em Chicago e trabalha limpando casas. Com o desejo de comprar um telescópio, ela atende a um pedido do seu primo Vladie (Chute Gurry), enquanto, num momento delicado, surge Caine Wise (Channing Tatum).

O destino de Júpiter.Filme 2

O destino de Júpiter.Filme 7

O destino de Júpiter.Filme 3

Os Wachowski misturam essa trama – para que as duas se completem – com a de três filhos da Casa de Abrasax, uma dinastia que comanda a Terra, ou seja, Balem (Eddie Redmayne), Kalique (Tuppence Middleton) e Titus (Douglas Booth), que estão atrás de Jupiter. Caine e Jupiter encontrarão Dtinger Apini (Sean Bean) e o capitão Diomika Tsing (Nukking Amuka-Bird) e tudo poderá se transformar numa ópera espacial, mesclado a uma mistura entre história da Roma Antiga (Titus, Balem) e nomes que evocam algum humor (Jupiter Jones ou Caine, para não dizer logo “canine”, uma mistura entre humano e lobo mais parecido com um fauno da mitologia).
Desde o início, O destino de Júpiter não fica a dever para suas principais inspirações: os quadrinhos de ficção científica dos anos 30, os mesmos que envolvem Flash Gordon. E quando se vai ao filme, percebe-se que os Wachowski continuam entre os raros cineastas que ainda querem construir um universo à parte. Mas, ao contrário de seus filmes anteriores, esse visual não marca pela originalidade. Enquanto em Matrix, Speed Racer e Cloud Atlas, havia uma elaboração criativa de cenários, desta vez tudo se sente um pouco emprestado: nos cenários das naves, a Matrix Cloud Atlas; no planeta distante, a Thor e O senhor dos anéis; numa seção de burocracia espacial, a Brazil – O filme; e mesmo a trilha de Michael Giacchino, uma das qualidades para dar ênfase às cenas de ação, têm correspondência direta com a da segunda trilogia de Star Wars. E O destino de Júpiter prova, novamente, a originalidade de algumas ficções dos anos 80 (Flash Gordon, Duna) que, quando lançadas, enfrentaram críticas. São referências que devem se moldar a uma nova criatividade, o que, infelizmente, acontece apenas em parcelas. Isso, em termos dos Wachowski, é uma surpresa. Eles mantêm o cuidado com o acabamento, inclusive com os figurinos e os efeitos especiais espetaculares, no entanto é visível que eles tentaram tornar seu cinema mais acessível, embora continuem interessados em teorias.

O destino de Júpiter.Filme 15

O destino de Júpiter

O destino de Júpiter.Filme 16

Depois de Cloud Atlas, a sua obra-prima, isso soa como uma tentativa de eles não terem o desejo de ser ligados a temas considerados intimistas. Eles querem tornar as críticas aos seres humanos num plano declaradamente pop, além de forçadas por um determinado discurso contra o consumismo que pode ser revertido ao se constatar que a obra custou em torno de 200 milhões de dólares, com o uso do 3D (prejudicial por tirar as cores originais, o que é essencial no gênero da fantasia) para aumentar as bilheterias. Há traços nisso de autoria, no entanto não é o que eles têm de mais interessante: os Wachowski, de certo modo, menosprezam seu próprio talento ao lançar um filme que tenta fazer do humor sua seriedade. Nesse sentido, por um lado, ele tem um certo descompromisso, mas não o bastante para deixar de se levar a sério. Em alguns momentos, eles enveredam claramente pela sátira, porém há algo na engrenagem que não funciona, e eles recuam. Não é como o caminho adotado pelo Flash Gordon dos anos 80, em que o ator que vivia o herói, Sam Jones, realmente fazia humor com sua inexpressividade e os cenários (realmente originais) complementavam sua presença. Além disso, é difícil acompanhar as linhas escritas pelos Wachowski, tornando a família russa de Jupiter num elemento à parte.
Este é um detalhe que dificulta a ligação do espectador com os personagens: os personagens parecem carregados de uma despretensão e, ao mesmo tempo, de frases expositivas, que lidam com várias teorias ligadas ao surgimento da Terra e, consequentemente, a Jupiter Jones, a abelha-rainha da grande colmeia sideral. Pode-se imaginar quantos momentos realmente temos os personagens tratando das próprias situações pelas quais passam: todos eles estão dominados por discursos, que remetem a vários conceitos extraídos de programas de TV, livros e quadrinhos, mas, principalmente, de Eram os deuses astronautas?. Isso, inegavelmente, poderia trazer uma certa inteligência à base do roteiro, no entanto fica deslocado quando se tenta enveredar por momentos de humor sem o equilíbrio necessário, que acabam destoando do que aparenta ser sério.

O destino de Júpiter.Filme 12

O destino de Júpiter.Filme 9

O destino de Júpiter.Filme 11

E a questão seria, também, quais as indicações feitas pelos Wachowski a Eddie Redmayne para que ele compusesse o vilão. Com uma participação visivelmente diminuída pela sala de montagem, Redmayne compõe um vilão severo, mas procurando por vida e, certamente prejudicado pelo roteiro, ele se lança na única saída: o overacting mais complicado. Ele se sente como a tragédia personificada da vilania; exagerado ou não, Redmayne parece levar todas as suas falas com uma seriedade assustadora, de fazer tremer as cadeiras do cinema, mesmo que seja com sussurros. É interessante como, diante dele, mesmo Channing Tatum é beneficiado com algumas falas bem-humoradas, como aquela em que faz perguntas ao amigo Dtinger sobre dívidas passadas ou simplesmente por sua falta de expressão chega a despertar algum divertimento. Desse roteiro, o melhor beneficiado é Booth, com ironia de um lorde na medida exata, e, mesmo com pouca participação, Bean também se mostra presente. Entretanto, Mila Kunis parece outra escolha problemática: os Wachowski teriam aqui um papel para Natalie Portman, ainda que certamente lembrasse sua personagem de Thor. Kunis nunca parece de fato estar em seu papel. No entanto, a escolha do elenco talvez não repercutisse em algum resultado.
O que mais se lamenta no filme dos Wachowski é o quanto ele tem um potencial em movimento, com o mesmo montador Alexander Berner e o diretor de fotografia John Toll, de Cloud Atlas, com todas as cenas de ação bem filmadas – uma batalha nos céus de Chicago parece ser a melhor – e, ainda assim, se ressente de um traço emocional para que possa fazer uma diferença. A sensação é que o filme entretém, mas é difícil encontrar nele algo a mais além das imagens. O cinema dos Wachowski ser genuíno e sincero dentro de suas possibilidades mostradas em Cloud Atlas não parece lhes dar o direito de negarem o próprio talento: eles tinham tudo, aqui, para colocar em ação uma homenagem decisiva ao cinema de ficção científica. Embora possa ser visto daqui a alguns anos como um cult, ou mesmo melhorar numa versão mais longa, O destino de Júpiter se sente como uma obra que continua visivelmente inacabada.

Jupiter ascending, EUA, 2015 Diretores: Andy Wachowski e Lana Wachowski Elenco: Mila Kunis, Channing Tatum, Eddie Redmayne, Douglas Booth, Sean Bean, Tuppence Middleton, Doona Bae Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Andy Wachowski, Lana Wachowski Duração: 127 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Village Roadshow Pictures / Warner Bros

Cotação 2 estrelas e meia

 

O senhor dos anéis (2001, 2002, 2003)

Por André Dick

O senhor dos anéis.SérieA saga O senhor dos anéis, adaptada dos livros de J.R.R. Tolkien, teve uma transposição para o cinema à altura de seu desafio. Apesar de Peter Jackson não ter dado provas anteriores de que seria capaz de adaptar com tal força a trilogia (esteve à frente, por exemplo, de Os espíritos), é bem verdade que ele consegue um resultado superior ao que um diretor comum ou consagrado conseguiria. Ou seja, ele não era nem um cineasta do underground nem alguém incorporado a superproduções hollywoodianas. Talvez por tudo isso ele tenha criado um ritmo tão equilibrado para os três filmes, baseado em locações fantásticas da Nova Zelândia e um trabalho de adaptação e incorporação de cada personagem no imaginário de modo notável.
No primeiro, A sociedade do anel, ele apresenta os personagens, o surgimento do anel e o tom da série, passada na Terra-média. Gandalf (Ian McKellen) vai ao Condado dos hobbits para a festa de despedida de Bilbo (Ian Holm). Este tem um sobrinho, Frodo Bolseiro (Elijah Wood), amigo de Sam (Sean Astin). Gandalf acaba descobrindo que seu amigo carrega o anel do poder, ou seja, aquele que o possuir estará dominado pelas trevas e o desejo de poder. Ele pede que Frodo saia em jornada, com Sam – os quais, pelo caminho, encontram Pippin (Billy Boyd) e Merry (Dominic Monaghan) –, levando junto o anel, em direção ao vilarejo soturno de Bri, onde eles se encontram com Aragorn (Viggo Mortensen), que os ajuda a fugir de cavaleiros assustadores, em meio às árvores do Condado. Frodo entende, aos poucos, que sua missão não é tão simples quanto se imagina. Depois de um novo enfrentamento e serem salvos pela elfa Arwen (Liv Tyler), os hobbits vão para Valfenda, onde a sociedade do anel do subtítulo se reúne por meio da figura de Elrond (Hugo Weaving). Nela, há um elfo, Legolas (Orlando Bloom), um anão, Gimli (Rhyam-Davies), e Boromir (Sean Bean), que se integram à “sociedade do anel”, e o filme intensifica o poderio das imagens – constituindo o elo entre os três filmes. Eles precisam ajudar Frodo a chegar à Montanha da Perdição, em Mordor, onde o anel deverá ser destruído, em meio a provocações entre o anão e o elfo e o desequilíbrio de Boromir. Ao mesmo tempo, Gandalf precisa enfrentar Saruman (Cristopher Lee), que tem planos de seguir o Olho de Mordor, o qual deseja recuperar o anel. Saruman (Cristopher Lee) aprisiona Gandolf em Isengard, a princípio – depois de uma cena de embate em que os cajados representam a força de cada um –, mas logo é enfrentado.

O senhor dos anéis.A sociedade do anel 3

O senhor dos anéis

Neste primeiro filme, além da apresentação dos personagens, há detalhes surpreendentes, sobretudo quando eles chegam às Minas de Moria. Deparando-se com um monstro submarinho com tentáculos, o grupo foge para dentro dessa caverna, sem saber que nela os espera algo pior e aterrorizador. Peter Jackson consegue emprestar a sequências magníficas um tom, ao mesmo tempo, de pesadelo e fantasia, sem nunca cair num excesso; pelo contrário, a cada desmoronamento de uma montanha ou a abertura de um chão repleto de escadarias, apesar de sua grandiosidade, é dado um aspecto fabular inesquecível e modificador também para a narrativa.
No segundo filme, As duas torres, Frodo e Sam, já separados do restante do grupo, continuam a ser seguidos por Gollum (numa atuação de Adam Serkins), dono anterior do anel, que não consegue ficar longe dele, ao qual chama de “precioso”. Ao mesmo tempo, vemos Aragorn, Gimli e Legolas atrás de Pippin e Merry, que foram levados por orcs. Sarumon quer destruir a Terra-média, no entanto sabemos que há as árvores da Floresta de Fangorn para impedi-lo. Nela, Merry e Pippin conhecem a Barbárvore, que pertence aos ents e é incitado a se revoltar contra Saruman, que está querendo destruir, por meio dos orcs, toda a vegetação para a construção de seu exército. No meio do caminho, Aragorn e seus amigos precisam salvar o Rei Theoden (Bernard Hill) de um feitiço de Saruman, preservado por Gríma Língua de Cobra (Brad Dourif), fazendo com que se desloquem todos para o Abismo de Helm. Ele é pai de Éowyn (Miranda Otto), que se apaixona por Aragorn. Porém, precisam enfrentar uma batalha imprevisível – com um desfecho impressionante. Há, como se vê, uma miscelânea de histórias, mas que Jackson consegue unificar com raro empenho, nunca permitindo que determinados personagens sumam de vista (mesmo que personagens como o de Galadriel, de Cate Blanchett, e de Elrond, de Weaving, sejam menos interessantes para o andamento).

O senhor dos anéis.As duas torres

O senhor dos anéis.A sociedade do anel 2

Já Sam e Frodo, na continuação da viagem, precisam enfrentar Faramir (David Wenham), irmão de Boromir, interessado no destino do anel. Nessas sequências fantasiosas (em pântanos, sobrevoados pelos Cavaleiros Negros, e montanhas), vemos o maior potencial de O senhor dos anéis: o delírio de imagens, aliadas aos efeitos especiais, é forte o bastante para sustentar a atenção do espectador. A batalha do Abismo de Helm, por exemplo, apresenta-se antológica, fabulosa, sobretudo quando vemos a muralha desabar para a entrada assustadora dos orcs, debaixo da chuva, com os urros no meio da noite e luzes de tochas ao longe.
No terceiro filme, O retorno do rei, sabemos que Peter Jackson está desenhando um epílogo que deve estar de acordo com a série. Apresenta uma primeira hora um tanto devagar, com alguns traços românticos – entre Aragorn e a elfa –, para, então, ao mesmo tempo que acompanha a jornada de Frodo, Sam e Gollum, até a destruição do anel, vermos o que falta ainda ser resolvido, o que inclui uma batalha entre orcs e fantasmas, a loucura de Denethor (John Noble), pondo a Terra-média em risco, uma aranha gigante tentando enredar o personagem principal, a escalada na Montanha da Perdição passando em meio a tropas de orcs. Novamente, Jackson imprime uma montagem rápida, com talento especial para construir cenários fantásticos, e a verdade é que as versões estendidas – cada filme com vários minutos a mais, alguns se transformando em outros filmes, inclusive com peças mais bem-humoradas – são melhores do que as originais, o que impressiona, pois O senhor dos anéis, no original, já tem uma significativa extensão: mais de 9 horas no total. Peter Jackson tem uma tendência para a grandiosidade, o que ele viria a mostrar em King Kong, mas é ainda melhor quando se restringe a elementos básicos ao sucesso de um filme.

O senhor dos anéis 3

O senhor dos anéis.O retorno do rei

O cineasta é fiel às características de cada personagem, colocando Gollum como uma criatura de dupla face, assim como situando os dois lados da magia, nas figuras de Gandalf e Saruman. Gollum é apenas um ser levado pelos eventos e pela própria incapacidade de administrar o poder que o anel tem sobre ele, enquanto os dois magos são decisivos para a existência ou não da Terra-média. Por sua vez, Frodo é combativo e não se entrega ao objeto, mesmo que ele possa levá-lo a momentos de perigo, inclusive desconfiando de Sam. No entanto, é preciso, afinal, acreditar na amizade e não no anel. E assim o que poderia se transformar numa espécie de contemplação da fantasia forçada – vemos o elfo brigando sempre com o anão, para saber quem é o mais ágil; a amizade entre Frodo e Sam sem cair em pieguice; a alegria de Gandalf ao avistar os hobbits depois de muitas batalhas – transforma-se em referência.
O que torna O senhor dos anéis uma trilogia respeitável como a do primeiro Guerra nas estrelas é seu talento em humanizar personagens que poderiam ser vistos como estereótipos de um mundo mágico, imersos num cenário que poderia não parecer verdadeiro, contudo acontece o contrário, costurado pelos figurinos, uma fotografia sempre adequada e uma trilha musical esplêndida – como se Jackson tivesse visto, enfileirados, os clássicos de fantasia dos anos 80 e pretendido revitalizá-los com o olhar e a tecnologia contemporâneos. Jackson está interessado em ver o que há atrás dessas personagens, seus significados mais densos e suas preocupações com o que pode ser dito nas fábulas a serem contadas a partir de seus feitos (o que se corresponde com o próprio Tolkien). Por isso, vai apresentando e dando espaço um a um, aos poucos. Claro que as cenas de batalha são muitas e preenchem boa parte da trilogia, mas o aspecto humano nunca escapa às suas lentes, que procuram a dramaticidade mesmo nos momentos em que flechas e fogos disparam para todos os lados e espadas necessariamente se confrontam, em meio à violência da batalha. É claro, também, que sem o elenco de que dispunha não daria certo: McKellen faz um Gandalf antológico, assim como Morttensen um Aragorn sem exageros, apoiados nos momentos bem-humorados de Orlando Bloom e John Rhys-Davies e no cast juvenil dos hobbits (Sean Astin é um destaque, enquanto Elijah consegue mostrar um herói bastante pressionado pela situação, no tom certo), além das antológicas participações de Cristopher Lee e Bernard Hill. Se alguns do elenco não estão à altura (Hugo Leaving e Cate Blanchett), em momento algum prejudica.

O retorno do rei.Série

O retorno do rei.Série 2

Pois, se no início a vida dos hobbits é vista como tranquila, com tocas em meio a montanhas de verde e simpáticas a ponto de parecerem convidar a nossa visita, e os fogos de artifício se transformando em um dragão dão a medida exata dessa fantasia que se inicia, o mundo que se desvenda para os hobbits é muito mais perverso: depois de Valfenda, com suas belas paisagens, eles precisam enfrentar cavernas, vales imensos, sendo perseguidos por orcs, finalmente pântanos (com as imagens de almas), montanhas pouco convidativas e uma caverna habitada por uma aranha gigante. Todavia, esta jornada não é sem efeitos e sem recompensas: os hobbits sabem que estão crescendo em enfrentar tal caminho, e Jackson está interessado em mostrá-lo da maneira mais completa possível. O que poderia ser apenas uma saga para tentar vender mais livros se transforma numa antologia cinematográfica. Peter Jackson entrega uma trilogia clássica, como poucas que conhecemos.

The Lord of the Rings: The Fellowship of the Ring, EUA/Nova Zelândia, 2001 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Christopher Lee, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies Produção: Peter Jackson, Fran Walsh, Tim Sanders, Barrie M. Osborne Roteiro: Peter Jackson, Fran Walsh, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 178 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company / WingNut Films

Cotação 5 estrelas

The Lord of The Rings: The Two Towers, EUA/Nova Zelândia, 2002 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Christopher Lee, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies, Brad Dourif, Miranda Otto, Bernard Hill Produção: Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Tim Sanders Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh, Philippa Boyens, Stephen Sinclair Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 179 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company

Cotação 5 estrelas

The Lord of The Rings: The Return of The King, EUA/Nova Zelândia, 2003 Diretor: Peter Jackson Elenco: Elijah Wood, Sean Astin, Sean Bean, Cate Blanchett, Orlando Bloom, Ian Holm, Andy Serkis, Ian McKellen, Billy Boid, Dominic Monaghan, Viggo Mortensen, Liv Tyler, Hugo Weaving, John Rhys-Davies, Bernard Hill, Miranda Otto, Brad Dourif (versão extendida), Christopher Lee (versão extendida) Produção: Peter Jackson, Barrie M. Osborne, Frances Walsh Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Duração: 201 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: New Line Cinema / The Saul Zaentz Company / WingNut Films

Cotação 5 estrelas