Os imperdoáveis (1992)

Por André Dick

Clint Eastwood inicialmente ficou conhecido pelos filmes de Spaghetti western que fez com Sergio Leone, antes de encarnar o policial Dirty Harry. Em seguida, tornou-se diretor, com Josey Wales, o fora da lei e O cavaleiro solitário, dois faroestes mais climáticos do que aqueles co cinema clássico dos Estados Unidos. Ele também alternou outros gêneros (O destemido senhor da guerra, Cadillac cor-de-rosa, Bird) e no início dos anos 90 e causou sensação em Cannes, dirigindo e interpretando em Coração de caçador. Em seguida, fez Rookie, policial um tanto desastrado, antes de se deparar com o roteiro de David Webb Peoples, o mesmo que escreveu Blade Runner – O caçador de androides, ao lado de Hampton Fancher, que daria origem ao filme responsável por trazer uma reviravolta para sua carreira: Os imperdoáveis, vencedor de quatro Oscars, inclusive filme e direção. Esta guinada não se deu afastada de sua faceta mitológica. Por exemplo, dois anos anos, na terceira parte de De volta para o futuro, Marty McFly, em sua visita ao velho oeste, utilizava o nome Clint Eastwood para seus adversários.

Antecedido pelo humanista Dança com lobos, Os imperdoáveis, por sua vez, investe mais na qualidade de faroeste, embora tardio e um tanto arrependido. O roteiro de Peoples procura mostrar que não existiam justiceiros ou pistoleiros do bem, querendo acabar com o mal, e sim seres humanos. Nesse ponto, assemelha-se, em detalhes internos, ao grandioso O portal do paraíso, em sua tentativa de atenuar a mitologia dos caubóis.  Inclusive, sua trama se passa no mesmo estado do Wyoming, em 1880, ou seja, uma década antes dos acontecimentos do filme da obra-prima de Cimino.
Todos, aqui, de certo modo são habitantes de um universo no qual a pretensa justiça parece ser traduzida apenas por duelos, mas nem esses conseguem trazer uma revitalização para suas vidas. Bill Munny (Eastwood) já foi conhecido por dizimar vários bandidos e agora está melancólico: perdeu a esposa, tem dois filhos e uma criação de porcos para se manter. Certo dia, um jovem, Schofield Kid (Jaimz Woolvett), dizendo-se rápido no gatilho, o convida para matar dois vaqueiros, Quick Mike (David Mucci) e “Davey-Boy” Bunting (Rob Campbell), sendo que um deles desfigurou uma prostituta, Delilah Fitzgerald (Anna Levine), à ponta de faca.

A recompensa, oferecida pela líder de um grupo de prostitutas, Strawberry Alice (Frances Fisher), insatisfeita com o tratamento dado pelo xerife de Big Whiskey, Little Bill Daggett (Gene Hackman), o qual quis apenas uma quantia de dinheiro para o dono do saloon onde funciona o prostíbulo, é de mil dólares. Munny pede ajuda a um velho amigo, Ned Loogan (Morgan Freeman), e com Kid partem para fazer o serviço.
O xerife expulsa o primeiro que aparece em busca de dinheiro, English Bob (Richard Harris), a socos e pontapés, a fim de desencorajar outras pessoas a fazer o mesmo, pois na cidade apenas ele pode portar arma. Bob é acompanhado por um pobre escritor, WW Beauchamp (Saul Rubinek). Este acaba ficando para que Little Big possa, ele sim, ter sua biografia, para contar sobre como caça aqueles que chama de vagabundos. Apesar de pompa em contar suas histórias e convidar um prisioneiro a um duelo em que certamente sairá vencedor, mesmo porque há grades em sua frente, sua delegacia precisa de baldes para conter as goteiras.

Entre uma e outra história, ele joga a água fora do balde e o coloca de volta. No entanto, não se trata de um mero vilão. No momento-chave, quando ele acha ter de controlar a cidade, torna-se aquele que provocará todo um estrago. Enquanto isso não acontece, é Munny que se recolhe, ferido, no lodaçal em frente do saloon. Eastwood consegue mostrar, ao longo do filme, uma versão sombria daqueles filmes que fez com Sergio Leone, expandindo o universo para uma melancolia por vezes fria (os cenários são chuvosos, quando não com neve, e a lama é peça-chave para sintetizar também os personagens), mas nunca sem emoção. A edição de Os imperdoáveis tem um ritmo bastante particular: ao mesmo tempo que o filme parece mesmo lento e com cenas demarcadas, ele, por outro lado, flui e deixa sempre uma impressão de trazer sempre detalhes novos ao visualizá-lo novamente.

Se Clint Eastwood tem o seu melhor momento como ator – ele só conseguiria uma atuação do mesmo nível em Menina de ouro –, Hackman e Freeman não ficam para trás: são magníficos. Hackman finalmente encarna um vilão ameaçador, ao contrário de Lex Luthor, tendo vencido o Oscar de coadjuvante. A atriz Anna Levine, que faz a prostituta, também atua de maneira notável, sobretudo quando dialoga sobre o fato de, em razão das cicatrizes, acha não ser mais uma mulher bonita. É nesta sequência, alimentada pela anterior, que se desenha, no personagem de Munny, uma questão de sobrevivência e vingança.
Repleto de diálogos convincentes, ao longo de mais de duas horas, o filme atrai o espectador tanto pelo elenco quanto pela fotografia de Jack N. Green (habitual colaborador de Eastwood), focalizando um mundo que parece habitado por pessoas sem perspectiva, mas, no fundo, Os imperdoáveis é um drama sobre a amizade e a fidelidade, que resistem numa terra sem lei, e Munny reflete o tempo todo que viver ou morrer são estados de espírito. Sem fazer esforço acaba sendo um dos faroestes mais estupendos da história.

Unforgiven, EUA, 1992 Diretor: Clint Eastwood Elenco: Clint Eastwood, Gene Hackman, Morgan Freeman, Richard Harris, Jaimz Woolvett, Saul Rubinek, Frances Fisher, Anna Levine, David Mucci, Rob Campbell Roteiro: David Webb Peoples Fotografia: Jack N. Green Trilha Sonora: Lennie Niehaus Produção: Clint Eastwood Duração: 135 min. Estúdio: Malpaso Productions Distribuidora: Warner Bros. Pictures

A balada de Buster Scruggs (2018)

Por André Dick

Depois de realizarem Gosto de sangue e antes de revitalizarem o cinema de gângsteres com Ajuste final, os irmãos Coen realizaram Arizona nunca mais, que mostra a história de um ladrão arrependido (Nicolas Cage), que pede em casamento uma policial (Holly Hunter) – uma espécie de versão mais engraçada de Fargo.
Quando os dois decidem ter filhos, descobre-se que ela é estéril. Para buscar a felicidade, os dois resolvem roubar um dos cinco bebês de um casal cujo sobrenome é Arizona. Tudo ocorre bem no começo, mas surgem dois fugitivos da cadeia, amigos do personagem, e um motoqueiro selvagem, na linha de Mad Max, que pretende recuperar o bebê. Os irmãos Coen acertam no clima da história, nas gags visuais e entregam aqui um de seus melhores filmes, ainda o mais despretensioso deles.

Fazem mais: realizam uma espécie de faroeste moderno e cômico, no qual o homem interiorano precisa fugir das balas de um vendedor por ter roubado um saco de fraldas, antecipando, mais do que Onde os fracos não têm vez, cuja história transporta para os dias atuais o clima de faroeste, na guerra entre psicopatas atrás de maletas de dinheiro e o tráfico de drogas, o desejo de homenagear o clássico de John Wayne em Bravura indômita por meio de uma nova adaptação do romance de Charles Portis – à época do lançamento, os Coen, inclusive, negaram que sua versão seria um remake, e sim uma nova adaptação do mesmo livro que havia inspirado o filme de Henry Hathaway.
Com um gosto tão grande pelo gênero que marcou a história do cinema norte-americano e ainda continua produzindo peças interessantes (só neste ano tivemos também o ótimo Damsel, com Robert Pattinson e Mia Wasikowska), a dupla de irmãos regressa com A balada de Buster Scruggs (ou The ballad of Buster Scruggs), lançado no Festival de Veneza, no qual recebeu o prêmio de melhor roteiro, com o selo da Netflix. Colecionando seis histórias apresentadas diretamente das páginas de um livro antigo, que poderiam situar o filme como uma espécie de No limite da realidade do faroeste, A balada é uma síntese da trajetória dos irmãos, com um talento incomum para o humor corrosivo. Já inicia mostrando a história de Buster Scruggs (Tim Blake Nelson), um cowboy que vive entrando em duelos a cada cidadezinha ou bar perdido em meio às pradarias, esperando também ser reconhecido como cantor.

Na segunda história, um pistoleiro (James Franco) tenta assaltar um banco perdido em meio à poeira do Velho Oeste, quando se depara com um atendente muito bem preparado, Teller (Stephen Root). Na terceira, um homem (Liam Neeson) viaja com um jovem (Harry Melling) numa carruagem, que se converte em palco de teatro. O rapaz não tem braços nem pernas e faz longos discursos, que mesclam poesia e política. No quarto episódio, temos um prospector (Tom Waits) em busca de ouro numa paisagem intocada. Quando ele chega, a coruja que fica numa das árvores muda de lugar, os cervos e os peixes de um riacho se afastam: tudo simboliza a chegada ameaçadora da civilização. Uma jovem, Alice Longabaugh (Zoe Kazan), em busca de um marido é o mote do quinto episódio. Numa caravana para um lugar determinado (que lembra O atalho, também com Zoe, e Um sonho distante), ao lado de seu irmão Gilbert (Jefferson Mays), ela se ressente de perder o cão que atrapalha a todos latindo e faz amizade com Billy Knapp (Bill Heck), que trabalha ao lado de Arthur (Grainger Hines). E finalmente no sexto episódio temos uma espécie de diálogo com o ato inicial de Os oito odiados, quando uma mulher, Sra. Betjeman (Tyne Daly), e quatro homens, o irlandês Clarence (Brendan Gleeson), o inglês Thigpen (Jonjo O’Neill), o francês René (Saul Rubinek) e Trapper (Chelcie Ross), viajam numa carruagem por uma pradaria que lembra a de um filme de terror.

Os Coen abrem o filme com uma história curta e ágil, uma espécie de curta-metragem que talvez seja o que melhor corresponda à sua filmografia. Scruggs tem um físico franzino, mas enfrenta pistoleiros que tentam encontrá-lo e ainda com uma agilidade impecável para se sair bem num bar sem armamento. Neste episódio, já se deixa claro que a temática principal, que liga todas as histórias, é a morte. Esse registro não passa batido, contudo faz expandir a visão que os Coen lançam sobre o homem: por um lado, cômica, por outro negativa e mesmo pessimista. Eles conseguem sintetizar traços humanos por meio de pequenas fagulhas narrativas, a exemplo da terceira – e mais amarga – história, quando a barbárie humana ultrapassa qualquer discurso retórico. Em certos momentos, a fotografia primorosa de Bruno Delbonnel, habitual colaborador dos mais recentes filmes de Tim Burton, e o desenho de produção de Jess Gonchor (de Bravura indômita) fazem o Velho Oeste se sentir vivo como em A conquista do Oeste, épico dos anos 60, para ser exibido em Cinerama. Delbonnel é o diretor de fotografia que se tornou conhecido por seu trabalho irretocável em O fabuloso destino de Amélie Poulain, que leva as pradarias e as florestas a terem uma grande atmosfera. Isso não atenua numa tela menor.

Em certos momentos, pela influência de Dead man, seu trabalho dialoga com o de Oeste sem lei, com Michael Fassbender, filmado na Nova Zelândia e excêntrico por causa disso, na composição de cores, fazendo o episódio derradeiro lembrar exatamente uma fantasia no Velho Oeste. De qualquer maneira, a beleza das imagens parece esconder a imagem que os criadores de Fargo projetam: o de uma civilização que se antecipava a índios e violência em meio a lugares a se perder de vista. Todos os personagens de A balada guardam em comum a solidão, a falta de uma família estabelecida, e a carruagem representa essa transitoriedade. É um mundo em composição e, ao mesmo tempo, em decomposição, levando o espectador de volta a uma época em que a humanidade era colocada em xeque a cada vilarejo. As atuações do elenco nesse sentido (principalmente as de Blake Nelson, Waits e Kazan) colaboram de forma fundamental para o êxito. Os Coen não chegam a almejar uma pretensa filosofia por meio de seus contos, no entanto ela pode ser vista a cada passo dos personagens. Sob um verniz de despretensão, de contar histórias de um livro (que o filme usa como recurso), eles mostram mais uma vez sua interessante visão sobre a constituição dos Estados Unidos. Melhor: após o marcante Ave, César!, sobre a Hollywood dos anos 50, parecem voltar à melhor forma, aquela dos anos 90, quando encadearam várias obras excelentes e se mostraram autores de cinema fundamentais.

The ballad of Buster Scruggs, EUA, 2018 Diretores: Joel Coen e Ethan Coen Elenco: James Franco, Brendan Gleeson, Zoe Kazan, Liam Neeson, Tim Blake Nelson, Tom Waits, Stephen Root, Harry Melling, Jefferson Mays, Bill Heck, Grainger Hines, Tyne Daly, Jonjo O’Neill, Saul Rubinek, Chelcie Ross Roteiro: Joel Coen e Ethan Coen Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Joel Coen, Ethan Coen, Megan Ellison, Sue Naegle, Robert Graf Duração: 133 min. Estúdio: Annapurna Pictures Distribuidora: Netflix