Os incríveis 2 (2018)

Por André Dick

Há três anos, Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível mostrava mais uma tentativa de Brad Bird em dirigir filmes com humanos. Precedido por desenhos animados importantes, como O gigante de ferroOs incríveis e Ratatouille, Bird estreou em Missão fantasma – Protocolo fantasma à frente de um elenco. Se o episódio que fez de Ethan Hunt não possui a mesma vibração da terceira parte, de J.J. Abrams, pode-se dizer que ele conseguiu acertar nas sequências de movimento incessante e Tomorrowland, apesar do fracasso financeiro, foi uma ficção científica diferenciada. Com grande divulgação da Walt Disney, aos poucos Tomorrowland foi sendo comparado a John Carter, principalmente pela bilheteria, que equivaleu, no momento, a pouco mais de seu orçamento e teria provocado, inclusive, o cancelamento das filmagens de um possível terceiro Tron. Com essa decepção em sua curta e relevante filmografia até agora, Bird voltou à area da animação, com a sequência Os incríveis 2.

Ele retoma a história dos integrantes da família Parr – Bob (Craig T. Nelson), Helen (Holly Hunter), Dash (Huck Milner), Violet (Sarah Vowell) e Jack-Jack (Eli Fucile) – que formam os super-heróis intitulados Incríveis. Durante uma ação contra um ato de vilania, o agente Rick Dicker (Jonathan Banks) avisa que o programa do qual fazem parte será desativado, o que força os super-heróis a terem de se manter secretos o tempo todo. A família em seguida é contatada por Winston Deavor (Bob Odenkirk), fã de super-heróis e dono da DEVTECH, assessorado pela irmã Evelyn (Catherine Keener). Helen é escolhida, com sua identidade Elastigirl, a ser a primeira a ser uma espécie de relações públicas da empresa, por ser mais delicada do que seu marido, Bob, conhecido também por seu temperamento. Weaver, por sua vez, deixa os incríveis morando numa mansão extraordinária, e Bob assume o papel de cuidar dos filhos enquanto a mulher vai combater o crime. Em meios às reviravoltas, também temos o personagem Lucius (Samuel L. Jackson).
Há uma questão preocupante: o bebê da família, Jack-Jack, começa a descobrir também seus poderes, e Bob o leva para Edna Mode (Brad Bird), a estilista de super-heróis que já aparecia na primeira parte. A primeira grande ação de Elastigirl é impedir ataque a um trem sofisticado, numa sequência que remete a Operação França, de William Friedkin, dos anos 70. Surge a verdadeira ameaça: um vilão, Screenslaver (Bill Wise), que hipnotiza as pessoas com telas de TV, celulares e óculos.

Os incríveis 2 tem todos os elementos já vistos no primeiro, de 2004, com um bom humor e ação mesclados e uma família disfuncional muito interessante. Não chego a ter nostalgia do primeiro (não está entre minhas animações preferidas), por isso não me parece tão destoante considerar este segundo mais bem resolvido. Ele ingressa na linha das continuações da Pixar com real qualidade, a exemplo dos subestimados Universidade Monstros e Carros 3. O primeiro tinha os dois primeiros terços bem resolvidos, mas caía um pouco no lugar-comum na última parte. Este, muito em razão de Jack-Jack, o bom humor se espalha em núcleos até a resolução de tudo, brincando com o próprio gênero de maneira bem-humorada. Bird sempre se mostrou um exímio diretor no sentido de utilizar esses elementos na pérola O gigante de ferro, que o levou à Disney, e mesmo em Tomorrowland, muito contestado, conseguia utilizá-los em boa proporção. Bird tem uma leveza para abordar temas que poderiam ser forçados: ele não abdica de uma visão moderna sobre os super-heróis, porém nunca a coloca com uma seriedade pré-programada.

O fato de Helen sair de casa, enquanto o marido tenta cuidar dos filhos, é uma abordagem certamente interessante, à medida que no ano passado Mulher-Maravilha recebeu tanto destaque. Elastigirl fornece, além disso, uma composição de imagens em ação bastante satisfatórias (da família, é certamente aquela com super-poderes mais interessantes). No entanto, Bird tem um verdadeiro encanto em homenagear antigos filmes em suas obras. Se O gigante de ferro possuía referências claras a E.T. – O extraterrestre e Tomorrowland dialogava com Os Goonies, Os incríveis 2, além de sua homenagem constante a 007, como o anterior, evoca Velocidade máxima 2 numa passagem surpreendente, além de desenhar uma aeronave como aquela de Interestelar, de Christopher Nolan. Também temos lembranças, em algum momento do vilão e de sua hipnose, do recente Thelma – uma tentativa sueca de fazer uma mulher com poderes paranormais (embora se lamente que uma animação utilize imagens que podem provocar problemas em quem possui fotossensibilidade, pois seria dispensável esse recurso para fazer a narrativa funcionar) – e de toda obra visual de Tim Burton, especialmente das propagandas do Coringa na televisão de Batman. E, assim como o primeiro, há homenagem constante à discussão do papel do super-herói na sociedade, como em Watchmen. Mesmo a figura de Helen é claramente inspirada visualmente na de Laurie Juspeczyk/Espectral II (vivida no cinema por Malin Åkerman), dos criadores Alan Moore e Dave Gibbons. Visualmente, Bird está entre os melhores diretores da atualidade: Os incríveis 2 mostra isso de maneira notável, com design de produção meticuloso e uma ambientação que leva o espectador a ingressar em cada cenário como se fosse verdadeiro. Seu senso de divertimento nunca se desequilibra e nunca torna os personagens em caricaturas, como poderia acontecer de modo indevido.

Incredibles 2, EUA, 2018 Diretor: Brad Bird Elenco: Craig T. Nelson, Holly Hunter, Sarah Vowell, Huck Milner, Samuel L. Jackson, Bob Odenkirk, Catherine Keener Roteiro: Brad Bird Fotografia: Mahyar Abousaeedi Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: John Walker, Nicole Paradis Grindle Duração: 118 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, Pixar Animation Studios Distribuidora: Walt Disney Studios