Jojo Rabbit (2019)

Por André Dick

O diretor Taika Waititi se tornou mais conhecido com O que fazemos nas sombras, um filme divertido sobre um grupo de vampiros que se unia numa cidadezinha para suportar junto a eternidade, uma produção modesta e eficiente. Antes, porém, ele já tinha feito Loucos por nada, que anunciava em parte  inspiração no  universo criado pro Wes Anderson, repetida em A incrível aventura de Rick Baker. Já em Thor: Ragnarok, ele explorava um visual oitentista baseado em Flash Gordon. Agora, com Jojo Rabbit, ele amplia seu universo para o âmbito histórico, da Segunda Guerra Mundial, baseado no livro Caging skies, de Christine Leunens Trata-se de um diretor que sempre teve como intuito mesclar um universo próprio e outro imaginado, seja adaptado de quadrinhos, seja baseado num contexto mais próximo da realidade, em conflitos familiares e descobertas de uma vida.

Seu novo filme acompanha a vida de Johannes “Jojo” Betzler (Roman Griffin Davis), um menino de dez anos que é um mininazista, dedicado aos ideais de Adolf Hitler (Taika Waititi), que imagina frequentemente como um amigo imaginário. Jojo mora com a mãe, Rosie (Scarlett Johansson), e seu pai está servindo na guerra, enquanto sua irmã mais velha recém faleceu. O ditador o acompanha no campo de treinamento da Juventude Hitlerista, comandado pelo capitão Klenzendorf (Sam Rockwell), num momento do filme que se parece muito com Moonrise Kingdom. No lugar, há os mais variados absurdos, sempre em diálogo com  que realmente aconteceu – a queima de livros –, sob um certo viés de sátira.
Depois de uma situação com um coelho, ele é apelido de Jojo Rabbit e acaba sofrendo um acidente que o “rebaixa” de posto, tendo de espalhar folhetos de propaganda nazista pela cidadezinha onde mora. Nesse meio tempo, ele descobre escondida em sua casa a Elsa Korr (Thomasin McKenzie), uma adolescente judia, ex-colega da irmã que faleceu.

Ele fica com receio de contar à mãe, do que aconteceria com ela, e Waititi visualiza essa situação de maneira agridoce. Mais maduro do que em Rick Baker, embora acompanhe novamente a trajetória de um menino antes da entrada na adolescência, Waititi continua utilizando um visual que lembra Anderson – as imagens referentes ao nazismo remetem a O grande Hotel Budapeste –, no entanto empregando em momentos decisivos um caminho mais dramático. Algumas situações rotineiras, como um passeio de Jojo com a mãe, ganham um lirismo quase escondido por trás de uma sátira que parece óbvia. E o próprio Waititi no papel de Hitler, embora tente fazer lembrar Chaplin, inigualável, consegue ser o ponto para que o espectador pense sobre todo esse cenário já visto no cinema de maneira mais trágica, contudo não no sentido de atenuar, mas de revelar as ideias ridículas por trás de um sistema que se pretendia sério e secular. A maneira como Waititi aborda a visão infantil sobre os judeus é como se fossem parte de outro universo, e os adultos alemães tentam confirmar essa impressão. Por isso, a primeira aparição de Elsa lembra o encontro de Elliott com o E.T. no filme de Spielberg. É visível como Waititi visualiza tudo como se fosse parte de um livro infantojuvenil, que, em meio a todo drama histórico, precisa ser revisto sob o ponto de vista justamente da infância, para que se tente descobrir alguma explicação sobre a barbárie.

Para desmontar uma ideia, o humor é utilizado de maneira decisiva em muitos filmes, principalmente no que se refere a conceitos pretensamente utilizáveis por todos. Nesse sentido, o filme de Waititi, tentando empregar um realismo às vezes próximo do ato final de O regaste do Soldado Ryan, porém com elementos de humor, consegue transitar bem entre extremos a partir de determinado ponto de vista irreconciliáveis. Com fotografia de Mihai Mălaimare Jr., o mesmo de O mestre, capaz de criar uma textura de época para as imagens, com uma atmosfera verdadeiramente europeia, e não apenas genérica, e uma trilha sonora muito boa de Michael Giacchino, que recebe os acréscimos de canções pop (“I Want To Hold Your Hand”,  dos Beatles), Jojo Rabbit se mostra até determinado momento um pouco forçado.
Contudo, as atuações de Griffin Davis e Johansson passam a se sobressair, e McKenzie (revelada no melancólico Sem rastros) é excelente, além de Rockwell acertar o tom de seu papel e Archie Yates quase roubar toda a cena em que aparece, como o amigo de Jojo. A obra de Waiteti se baseia na parte técnico e no elenco para acentuar uma narrativa que, até determinado ponto, poderia ser fraca e ligeiramente esquecível. Há elementos, claro, de A vida é bela, de se imaginar uma realidade paralela àquela que se impõe. Nisso, Waititi consegue ser mais interessante do que Benigni, fazendo uma sátira que a todo momento se lembra de ser séria – e, mesmo que entregue uma mensagem evidente, o faz de maneira calibrada e emocional, capaz de suscitar sentimentos imprevistos. As cartas, os poemas e as bibliotecas fazem parte de uma possível mudança de perspectiva e as janelas que lembram olhos chorando representam a autodescoberta da vida do personagem central. Isso consegue levar a uma comoção baseada na ideia de que são as crianças que vão escrever novas páginas direcionadas ao futuro, com um novo otimismo e necessidade de revitalizar a história. É uma ideia que parece óbvia, mas que Jojo Rabbit entrega com rara ênfase e cuidado.

Jojo Rabbit, EUA, 2019 Diretor: Taika Waititi Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Taika Waititi, Rebel Wilson, Stephen Merchant, Alfie Allen, Sam Rockwell, Scarlett Johansson Roteiro: Taika Waititi Fotografia: Mihai Mălaimare Jr. Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Carthew Neal, Taika Waititi, Chelsea Winstanley Duração: 108 min. Estúdio: Fox Searchlight Pictures, TSG Entertainment, Defender Films, Piki Films Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

Vice (2018)

Por André Dick

Em 2015, ao oferecer um movimento ininterrupto, seja do centro de Nova York, dos escritórios ou de Las Vegas, A grande aposta acabava apresentando uma dissolução interessante de gêneros. Além disso, tinha um elenco estelar em grande forma (Ryan Gosling, Brad Pitt, Christian Bale e Steve Carell, entre outros), apesar de alguns nomes não terem o tempo necessário para poderem brilhar, talvez mesmo porque não quisessem, com a consciência de que o roteiro e a visão sobre o colapso financeiro dos Estados Unidos em 2008 e suas consequências eram mais importantes para o espectador ter consciência sobre o tema. Seu diretor Adam McKay, mais conhecido por sua parceria com Will Ferrell em comédias, tornava esse assunto complexo e delicado numa bateria de imagens que pareciam mesclar ficção e documentário com a mesma intensidade, apoiado também em Margin Call, de alguns anos antes. Trata-se de um caminho muito difícil e que descontenta, de certo modo, ao público que aguarda mais “fatos reais” e aquele que aguarda mais “ficção”; é uma dosagem complicada para se atingir.

Em Vice, chamado antes da estreia de Backseat, o foco passa a ser a política norte-americana a partir principalmente de meados da década de 1960, com McKay lançando as luzes sobre a figura de Dick Cheney. Ele foi o vice-presidente dos Estados Unidos nas duas gestões de George W. Bush, e McKay quer mostrar seu início de trajetória no Wyoming, quando passou a namorar Lynne (Amy Adams). Depois de conhecer Donald Rumsfeld (Steve Carell), Cheney se incorporou aos republicanos. Como em A grande aposta, a grande virtude de Vice é sua montagem frenética, fazendo com que o espectador não perceba direito a passagem de tempo. No entanto, aqui, por mostrar uma figura política de destaque por várias décadas, parece que McKay procura abraçar mais do que pode.
Ao construir um panorama de Cheney nos bastidores, sua chegada à Casa Branca ainda na gestão de Nixon, depois sua importância nos bastidores nos governos de Reagan e Bush pai, por exemplo, McKay quer mostrar sua ação entre 2001 e 2009, quando esteve por trás da política de tortura contra presos em Guantánamo, principalmente terroristas. Porém, McKay se situa muito na superfície, mesmo que tenha propositadamente um sentido documental. Ou seja, o personagem de Cheney é visto com certo humor, apoiado na atuação de Christian Bale, com contundência, no entanto não são passados dados suficientes desta figura para que procuremos analisar as informações dispostas ou que alguns espectadores já tem previamente.

É curioso, nessa linha, que Cheney passe de uma espécie de ingênuo beberrão nos anos 60 para alguém capaz de influenciar e ditar estratégias para os presidentes. O problema de filmes que criticam uma determinada figura é saber exatamente como seguir esse rumo sem parecer exagerado. Vice não quer evitar o exagero, no entanto ele se apoia demasiadamente na ideia de que Cheney era apenas um desequilibrado: ele, ao fazer isso, evita analisar exatamente como foi proporcionado espaço a esse desequilíbrio e os motivos, mesmo que não explicáveis. Usando a voz que deu conhecimento a sua versão de Batman, Bale se esconde por trás de uma pesada maquiagem (aliás, impecável) e com maneirismos na maneira de falar, tentando copiar Cheney, que podem ser vistos como perfeitos, não incorressem não raramente num overacting bastante cansativo com o passar do tempo. Esse, contudo, não é o problema: Vice não consegue reunir as boas atuações de Adams e Carell, além de Rockwell, num conjunto que ressoe para o espectador. Eles oferecem bons momentos, mas estão ligeiramente dispersos na narrativa. Como não se trata exatamente de um documentário, não basta apresentar imagens soltas deles, como fazia Michael Moore em Fahrenheit 11/9, e sim buscar uma estrutura narrativa.

McKay poderia ter tornado Vice num grande filme, assim como a fotografia de Greig Frasier, de A hora mais escura, é notável, melhor característica da narrativa. Sua tentativa de expandir o estilo de Oliver Stone dos anos 90, mesclando imagens e sobrepondo estilos, além de trechos de telejornais (em que Naomi Watts é a apresentadora, numa participação que lembra a de Margot Robbie em A grande aposta), como víamos em obras como JFK, Um domingo qualquer e Reviravolta, além de Nixon, é claro e muitas vezes efetivo, fazendo de sua peça uma espécie de reunião de camadas sonoras e visuais. Imagine-se, portanto, o que Stone faria com esse material no melhor momento de sua trajetória. Também há uma certa influência na movimentação de câmera de David O. Russell, aquele especificamente de Trapaça. Ainda assim, quando ele precisa mostrar um certo aprofundamento na composição da narrativa, não consegue inserir do melhor modo a figura do personagem de Jesse Plemmons, por exemplo, e acaba por perder o fio da meada. Isso, no entanto, não tira de seu filme um certo atrativo de ambientação (poucas vezes a Casa Branca teve um design de produção tão realista no cinema), assim como ele mostra a política com um aspecto de noite contínua, em que personagens sobem e descem de helicópteros para decidir o que o povo deve, enfim, seguir. Talvez por lidar com temas polêmicas, McKay prefira brincar mais com uma cena de créditos antes do seu momento do que tratar de seus personagens, ainda vivos e que podem muito bem processá-lo por qualquer ideia mais densa, digamos assim. Nesse sentido, o diretor prefere planar sobre os assuntos, mantendo-se a distância, sobretudo quando adentra a Guerra do Iraque, e fazendo dessa o seu modo de criar um “ataque”. Na verdade, porém, McKay não ataca e se resguarda por trás de uma visão de que o establishment norte-americano está a serviço de pessoas incapazes para seus postos, contudo sem querer trabalhar exatamente os motivos, o que apontaria entender seu público (e este inclui mesmo aqueles que não concordam com sua visão sobre os fatos). Quando a resposta parece evidente, apenas parece: ele quer, antes de tudo, emular Stone e David O. Russell e ser indicado ao Oscar.

Vice, EUA, 2018 Diretor: Adam McKay Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Steve Carell, Sam Rockwell, Tyler Perry, Alison Pill, Lily Rabe, Jesse Plemons Roteiro: Adam McKay Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Nicholas Britell Produção: Brad Pitt, Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Kevin J. Messick, Will Ferrell, Adam McKay Duração: 132 min. Estúdio: Plan B Entertainment, Gary Sanchez Productions Distribuidora: Annapurna Pictures

Três anúncios para um crime (2017)

Por André Dick

Visto como um dos grandes favoritos ao Oscar depois de ser escolhido como melhor filme no Festival de Toronto, Três anúncios para um crime estende aos Estados Unidos a trajetória de seu diretor britânico, Martin McDonagh, mais conhecido por Na mira do chefe e Sete psicopatas e um shih tzu. McDonagh tem um certo estilo situado entre o humor corrosivo e o policial, fazendo de certos artifícios previsíveis uma possibilidade de rever certa tradição dentro de gênero. Em seu novo filme, ele mostra uma mãe divorciada, Mildred Hayes (Frances McDormand), que, descontente com o fato de que nunca descobriram o responsável pelo assassinato de sua filha adolescente, Angela (Kathryn Newton), decide alugar três outdoors com Red Welby (Caleb Landry Jones), com um recado para a polícia de Ebbie, Missouri, onde mora. Ela vive com o filho Robbie (Lucas Hedges) e se desentende constantemente com o ex-marido, Charlie (John Hawkes). Sua melhor amiga é Denise (Amanda Warren). Todos parecem entendê-la; ela também entende a todos, mesmo que não queira deixar isso claro. Ao mesmo tempo, joga sinuca às vezes com James (Peter Dinklage, ótimo). Sua maior qualidade não é exatamente a simpatia, e McDormand parece não mostrar aqui as qualidades que lhe deram o Oscar de melhor atriz em Fargo e sim os sentimentos de secura encontrados em sua personagem, por exemplo, de Moonrise Kingdom.

Por meio do protesto, o principal alvo é o xerife Bill Willoughby (Woody Harrelson, entre o ingênuo e o patético, com grande eficácia), sempre acompanhado pelo oficial Jason Dixon (Sam Rockwell). Este é acusado de castigar afrodescentes na delegacia, no entanto McDonagh não chega a mostrá-lo fazendo isso, tentando capturar uma ambiguidade que certamente leva a muitas reclamações em relação ao roteiro. Enquanto Bill vive com a mulher, Anne (Abbie Cornish), e as duas filhas, numa fazenda com estábulos e muitos cavalos, Jason vive com sua mãe (Sandy Martin), com problemas visíveis de saúde, embora tão problemática quanto seu filho.
Se os dois primeiros atos mesclam drama e humor de maneira adequada – e o personagem de Dixon é o principal motivo para sustentar a combinação –, parece que o grande momento do filme é a partir da meia hora final, e ela acaba oferecendo mais sentido a toda a narrativa de McDonagh. Visivelmente influenciado pelos irmãos Coen, a personagem Mildred é desagradável, graças a uma performance fria de McDormand, mas tem um clímax bem desenvolvido. E, pelo menos antes, há uma sequência magnífica em que ela avista um cervo perto de um dos outdoors, que parece mesclar exatamente o passado e o presente. Harrelson e Rockwell não chegam a ter um roteiro em conjunto, mas, separados, conseguem render bons momentos, sobretudo na leitura de uma determinada carta, condicionando o espectador a uma cena típica dos irmãos Coen e realizada com grande êxito em termos de timing. Há algumas gags envolvendo o personagem de Dinklage que funcionam por exatamente não aplicar o politicamente correto, embora em nenhum momento sigam um caminho de desconsideração a certos comportamentos. A nova namorada de Charlie, Penelope (Samara Weaving), representa bem isso.

O mais interessante é como McDonagh mostra a reação dos personagens ao protesto de Mildred. O xerife tem um certo problema de saúde e faz chantagem emocional com ela, no que não tem êxito, e sua relação com a mulher tem uma emoção calibrada (Cornish também atua bem). Uma determinada sequência passada no estábulo de sua fazenda é cortante, tanto pela atuação de Harrelson quanto pela atmosfera campestre de afastamento de tudo. Já Dixon tem uma reação exasperada ao ver os cartazes e completamente descontrolado e desligado de qualquer racionalidade. Por isso, o que acontece a ele revela não a tentativa de transformá-lo em outra figura e sim numa espécie de símbolo de certo desconhecimento de si mesmo. McDonagh, de maneira bem-humorada, inclui tanto uma carta quanto uma briga de pub convincente para acordá-lo.
Desse modo, o roteiro de McDonagh trata da raiva internalizada e a passividade de personagens. Em meio a um cenário perdido no meio do nada, destacado pela trilha sonora de Carter Burwell, parece um faroeste fora de época e possui cenas de violência bem inseridas no contexto. As feridas dos personagens, antes nunca expostas, começam a se avolumar com uma contundência fora de série. Quem com ferro fere, com ferro será ferido, parece estar inscrito nas iniciais desses personagens.

Nisso, Mildred é a representação da mudança que deseja inserir movimento numa paragem quase em forma de natureza morta, destacando-se nisso a atuação de Rockwell, no final de contas talvez a mais expressiva depois de um começo mais caricato. Para isso, a fotografia de Ben Davis colabora de maneira decisiva. Ebbing é vista como uma cidade idílica; por baixo, ela esconde problemas que caracterizam muitas cidades grandes. A violência gera violência nesse lugar afastado de tudo, porém pode apaziguar a transmissão dessa violência para outros lugares. No entanto, ao mesmo tempo, para McDonagh, não há reais mudanças, o que não equivale a dizer que elas não devem ser procuradas. A boa impressão em relação a Três anúncios é de que ele é absolutamente estranho, no mínimo original, e, apesar de não parecer a aclamada obra-prima como foi recebido, é um dos melhores momentos do cinema norte-americano nos últimos anos.

Three billboards outside Ebbing, Missouri, EUA/ING, 2017 Diretor: Martin McDonagh Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, John Hawkes, Peter Dinklage, Caleb Landry Jones, Lucas Hedges, Abbie Cornish, Amanda Warren, Sandy Martin, Samara Weaving, Kathryn Newton Roteiro: Martin McDonagh Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Graham Broadbent, Pete Czernin, Martin McDonagh Duração: 115 min. Estúdio: Blueprint Pictures, Fox Searchlight Pictures, Film4 Productions, Cutting Edge Group Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

Poltergeist – O fenômeno (2015)

Por André Dick

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Numa época em que as continuações ou refilmagens dão o tom dos lançamentos no cinema, como Mad Max e Jurassic world, o terror Poltergeist – O fenômeno parece o menos atrativo. Não apenas porque o clássico original se mantém mais pela excelência e nostalgia do que pelo conhecimento de um novo público, à medida que suas duas continuações não foram bem-sucedidas, como pelo fato de não haver uma ligação direta, nos atores e na produção, ao original. A versão de 1982 é dirigida oficialmente por Tobe Hooper, de O massacre da serra elétrica, no entanto quem costuma ser visto como seu principal realizador é Steven Spielberg, autor do roteiro e responsável pela produção. Neste remake, quem substitui Spielberg na produção é Sam Raimi, de A morte do demônio e responsável pela primeira franquia de Homem-aranha.
A história se mantém a mesma. Baseada especificamente em O iluminado e O exorcista, mostra a chegada de uma família a uma nova casa. Os pais são Eric Bowen (Sam Rockwell), à procura de um emprego, e Amy (Rosemarie DeWitt), que deseja ser escritora. Seus filhos são Griffin (Kyle Catlett), Madison (Kennedi Clements) e Kendra (Saxon Sharbino). Enquanto a irmã mais velha, Kendra, gosta de assistir a um programa de paranormalidade, apresentado por Carrigan Burke (Jared Harris, o terrível vilão do segundo Sherlock Holmes), Griffin tem receio desde quando se perdeu, certo dia no shopping, e Madison vem se comportando de maneira estranha, sobretudo quando diante de um armário. O primeiro Poltergeist (particularmente, um dos filmes mais assustadores já feitos) era excelente na modelação de uma atmosfera, com a hora inicial muito bem trabalhada. Esta refilmagem, de certo modo, apaga parte desta construção e vai direto aos sustos. No entanto, mais interessante é se exigir desenvolvimento aqui e vibrar com a perseguição ininterrupta de Mad Max pelo deserto ou com os dinossauros previsíveis de Jurassic World.

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É difícil, no gênero de terror e suspense, definir o que garante a qualidade: em termos de sustos, esta refilmagem é bastante convincente. O quarto de Griffin, o armário de Madison – tudo é composto de maneira crível. Talvez não fique tão clara a paranormalidade de Madison, e quando a ameaça vem da televisão. Não apenas, de qualquer modo, o novo Poltergeist se mostra um filme interessante. Se a ação parece acontecer rapidamente demais (o que não deixa de ser um mérito, num período em que se contam os minutos para que um filme termine), tudo não acontece sem um cuidado no design da casa e da fotografia excelente de Javier Aguirresarobe. Seu trabalho em Os outros e A hora do espanto (além de trabalhar com Woody Allen) confirma como consegue captar sustos na movimentação de câmera e na mudança brusca de uma cena para outra.
É certo que o diretor Gil Kenan, do desenho animado muito interessante A casa monstro, não lida bem com a recepção dos pais diante do fato de que os filhos estão sendo ameaçados por fantasmas que saem da televisão. Ou seja, a atuação de Rockwell e DeWitt não se aproximam daquelas de JoBeth Williams e Craig T. Nelson. Ainda assim, Kenan emprega uma tensão  permanente e conta com Kyle Catlett, que no ano passado fez o personagem T.S. Spivet no sensível Uma viagem extraordinária e mostra aqui novamente seu talento. Levando em conta que Poltergeist é encenado praticamente dentro da casa (há apenas uma sequência de um jantar externo), fica fácil entender por que este filme soe sintético, também no desenvolvimento dos personagens e mesmo assim efetivo. Enquanto esta refilmagem não inova muito nas situações, ela reproduz cenas do original talvez de maneira mais apertada e assustadora, sobretudo uma que envolve uma árvore e, definitivamente, aquelas que se passam num armário, remetendo quase às paisagens infernais descritas por Dante, com uma concepção visual impressionante. E há duas sequências (com o drone e a furadeira) que lidam com uma montagem bastante eficiente, conduzindo o espectador para o espaço reduzido da casa.

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Perdi o número de vezes que vi o original e, sabendo o que aconteceria aqui na maior parte do tempo, ainda conseguiu ser assustador. Kenan também possui um olhar muito bom para capturar o cenário dos subúrbios, que desde Meus vizinhos são um terror talvez estejam sumidos. Há uma luminosidade nas ruas que dialoga com Amor pleno, de Malick, assim como um cuidado em reproduzir, por meio da fotografia, os espíritos se manifestando pela energia elétrica. Em alguns momentos, Aguirresarobe confere um trabalho tão específico de cores no quadro que este Poltergeist se sente ainda melhor filmado do que o original no sentido técnico (independente da diferença de anos e de utilização de efeitos especiais). Há um uso muito bom da televisão e dos aparelhos para criar suspense e os cenários de fundo parecem sempre guardar uma ameaça desconhecida, embora não se compare, entre as peças recentes do gênero, a Corrente do mal. Se a filha considera que um celular é item obrigatório, seus pais pouco querem conversar com os filhos ou ouvi-los. Neste Poltergeist, todos estão atentos apenas para o movimento: o diálogo com pessoas ao redor está sensivelmente diminuído. Se a crítica no original era de Spielberg à televisão, aqui a crítica se volta contra essa dispersão – e talvez por isso o final se sinta de tão pouca intensidade.
O que parece ainda afastar esta refilmagem do filme de Tobe Hooper é sua temática de fundo: enquanto no original tínhamos dois pais com problemas de relação com os filhos, e ainda assim interessados numa convivência, parece aqui que temos apenas dois pais ligeiramente desligados das questões mais urgentes, afetados pela crise dos Estados Unidos e sendo obrigados a morar no subúrbio por falta de opção. Rockwell é um ótimo ator para compor este tipo de atitude. A descrença dele no que está acontecendo é a mesma que ele lança sobre o preço oferecido pela casa em que sua família vai morar – ele está, digamos, em outra, praticamente durante toda a história, pouco ligando para o que acontece à sua volta; no momento em que ele precisa vir à tona, Rockwell se estabelece.
Ou seja, do mesmo modo que é possível entender que os admiradores do original considerem essa refilmagem desnecessária – em muitos pontos ela é –, é possível que quem conhece ou desconhece o filme de 1982 não se sinta tão desapontado e sinta que Kenan pretendeu aqui realmente fazer um filme visualmente cuidado, mesmo que visivelmente com um acabamento diferente do anterior: este Poltergeist é um filme ágil e brusco; ainda assim, é cinema de qualidade.

Poltergeist, EUA, 2015 Diretor: Gil Kenan Elenco: Sam Rockwell, Rosemarie DeWitt, Kennedi Clements, Kyle Catlett, Saxon Sharbino, Jane Adams, Jared Harris Roteiro: David Lindsay-Abaire Fotografia: Javier Aguirresarobe Trilha Sonora: Marc Streitenfeld Produção: Nathan Kahane, Robert G. Tapert, Roy Lee, Sam Raimi Duração: 94 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Fox 2000 Pictures / Ghost House Pictures / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Vertigo Entertainment

Cotação 4 estrelas