Pantera Negra (2018)

Por André Dick

No Festival de Sundance de 2013, Fruitvale Station, estreia de Ryan Coogler na direção e produzido por Forest Whitaker, foi escolhido como melhor filme pelo júri e pelo público. O diretor obtinha grandes atuações de todo o elenco e não havia um excesso narrativo, mas a composição de quadros que iam compondo a figura do personagem central. No seu filme seguinte, Creed, Coogler convocou novamente Michael B. Jordan, astro de Fruitvale Station, para interpretar Adonis, filho de Apollo Creed treinado por Rocky Balboa, e voltou a mostrar um trabalho exímio.
Diante desses dois filmes, era de se esperar que Pantera Negra fosse um significativo avanço no universo compartilhado da Marvel. O filme mostra o herói que já havia estreado em Capitão América – Guerra Civil, quando seu pai, o rei T’Chaka (John Kani), acabava deixando o trono de Wakanda, nação fictícia da África, para T’Challa (Chadwick Boseman). Este é o Pantera Negra, que tem uma força sobrenatural por causa de um metal raro, o vibranium, e é acompanhado por Nakia (Lupita Nyong’o), W’Kabi (Daniel Kaluuya, logo depois de Corra!) e pela irmã Shuri (Letitia Wright).

A história tem como referência inicial o ano de 1992, em Oakland, Califórnia, mas logo se desloca para Wakanda, uma nação altamente tecnológica, onde T’Challa precisa enfrentar o líder da tribo Jabari, M’Baku (Winston Duke), para se tornar finalmente o líder, sob o olhar de Zuri (Forest Whitaker) e sua mãe Ramonda (Angela Bassett). Enquanto isso, Erik Killmonger (Michael B. Jordan) está atrás de relíquias de Wakanda num museu, com a ajuda de Ulysses Klaue (Andy Serkis, mostrando sua fraqueza como ator quando não está interpretando personagens digitais). No meio do caminho, o Pantera Negra com seus amigos verão seu caminho cruzar com o agente Everet K. Ross (Martin Freeman).
Pantera Negra tem um aspecto de filme de espionagem, lembrando em alguns momentos Capitão América – O soldado invernal, principalmente na passagem por um cassino da Coreia do Sul, que também remete a 007 – Operação Skyfall. Ele tem o objetivo de mesclar realidade e fantasia, com belos figurinos que evocam as cores de Rainha de Katwe, sobre uma menina que joga xadrez em Uganda, e O jardineiro fiel, de Fernando Meirelles. Há boas cenas de ação, algumas em slow motion, e um senso de grandeza em algumas delas. No entanto, para além de seus objetivos, Pantera Negra tem uma estrutura muito clara em sua bela concepção, com a fotografia de Rachel Morrison (Mudbound). E esta estrutura tem a finalidade de se enquadrar no universo compartilhado da Marvel: lá estão rápidas referências a Guerra Civil e a inclusão de Ross, que participava do filme dos irmãos Russo, para dar uma impressão de continuidade.

Também se apaga quase totalmente o estilo de Ryan Coogler, exceto pela inclusão de uma trilha sonora com alguns raps. Dizem que ele teria exigido concessões ao produtor Kevin Feige e que de fato as obteve, mas isso não fica claro na narrativa. Não há uma movimentação de câmera que tenha seu estilo, nem o elenco, mesmo muito bom, tem grandes chances, em razão do roteiro previsível. É preciso dizer que, tanto quanto Doutor Estranho e Thor: Ragnarok, a impressão que se tem é que algumas obras da Marvel são recebidas com um entusiasmo acima da qualidade que possuem. Nos filmes da companhia, falhas visíveis – como o CGI de má qualidade – não são assinaladas, e atos definidos com a previsibilidade de uma narrativa comum como os que mostram Pantera negra se sentem aliviados pela crítica em geral, além do humor forçado (neste, M’Baku é uma espécie de Grão-Mestre, personagem de Jeff Goldblum em Thor: Ragnarok). O design de produção se sente sem imaginação, com interiores que remetem a Os vingadores de Joss Whedon e, mais ao final, a Tron – O legado, sem o mesmo trabalho de cores. Para uma produção de 200 milhões de dólares, falta em parte atestar o investimento na tela (basta comparar o uso de espaçonaves aqui e em Star Wars – O último Jedi). As sequências com rinocerontes digitais parecem mais antigas que as criaturas de O senhor dos anéis – O retorno do rei.
Coogler certamente se esforça em dar seu estilo ao filme: há um certo poder em cenas nas quais Pantera Negra se vê como um líder a ser seguido, como em Creed. No entanto, ele não possui espaço para jogar com seu estilo de narrativa. Se determinadas cenas poderiam lembrar o mistério de A marca da pantera, de Paul Schrader, no recuo a um passado ainda mais tribal, tudo é revertido em CGI que desveste as cenas de solidez. Alguns diálogos se encadeiam como passes para a montagem progredir, e não para se envolver com os personagens. Lupita Nyong’o e Michael B. Jordan, principalmente, são convincentes em seus personagens, e Freeman é um alívio cômico, porém não têm muito o que fazer com um roteiro tão limitado.

É interessante observar que um filme tão em linha reta quanto Pantera Negra seja recebido como uma novidade no gênero. De certo modo, o universo partilhado da Marvel planifica uma ideia de cinema que se repete apenas para registrar um certo poder de indústria. O impacto de cada lançamento não vem dele e sim do que ele pode suscitar em termos de notícia. Há uma específica frieza no tratamento de temas relacionados aos afrodescendentes, como se fossem implicados para o filme se inserir em discussões e não pela importância vital que naturalmente teriam (sugere-se, nesse sentido, o recente representante do Senegal ao Oscar de filme estrangeiro, Félicité). Seria válido, não soasse tão pouco autêntico e sem emoção dosada, ainda mais vindo de Coogler, que revitalizou o debate sobre a comunidade afrodescendente em Creed e Fruitvale Station. Algumas vezes, os personagens são utilizados não como peças narrativas. Talvez quem tenha produzido Pantera Negra ache que reunir um diretor e um elenco extraordinários reverteria exatamente numa obra épica, apostando principalmente no discurso que traria por meio de seu roteiro. Se houvesse real espaço para as ideias que Coogler aplicaria num blockbuster mais independente de uma linha a ser seguida, Pantera Negra possivelmente seria um filme diferenciado. Da maneira como foi montado e pensado, parece seguir o que já mostra certo desgaste.

Black Panther, EUA, 2017 Diretor: Ryan Coogler Elenco: Chadwick Boseman, Michael B. Jordan, Lupita Nyong’o, Danai Gurira, Martin Freeman, Daniel Kaluuya, Letitia Wright, Winston Duke, Angela Bassett, Forest Whitaker, Andy Serkis Roteiro: Ryan Coogler e Joe Robert Cole Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Kevin Feige Duração: 134 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

Creed – Nascido para lutar (2015)

Por André Dick

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Sequências e refilmagens têm se proliferado em Hollywood há décadas, e nos últimos anos não é diferente. Enquanto há obras que conseguem trazer acréscimos ou mesmo renovar a versão antiga, há aquelas que se mostram mais pendentes a ter como objetivo uma homenagem ao elenco e ao diretor da franquia. Diante disso, nem toda a expectativa diante do filme poderia indicar o resultado emocional que Creed – Nascido para lutar proporciona, mas, sobretudo, para quem é admirador da série Rocky (mesmo daqueles filmes considerados mais pop, embora o quinto tenha deixado especialmente a desejar). Para esta continuação indireta da série, pois muda o protagonista, Stallone convocou Ryan Coogler, o diretor do belo Fruitvale Station, sobre um acontecimento trágico num metrô de Nova York. Já naquele filme, a competência de Coogler na condução de uma narrativa curta se mostrava com grande relevância, assim como a empatia do seu protagonista, interpretado por Michael B. Jordan, que regressa aqui como Adonis, um rapaz que passou um bom tempo no reformatório até ser buscado pela esposa de seu pai, Mary Anne (Phylicia Rashad), já que ele é filho de um caso extraconjugal.

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É uma semelhança importante com Fruitvale Station, no sentido de que o personagem inicia numa situação difícil; porém, a partir da adoção, a vida de Adonis se transforma. Trabalhando já adulto numa empresa, seu maior desejo é ter uma carreira de pugilista, tendo lutas escondidas em Tijuana, México. Também não quer ser associado à figura do pai, a fim de não receber favores indesejados. Ele decide se mudar de Los Angeles para a Filadélfia, atrás da figura de Rocky Balboa.
Se lhe dissessem que uma continuação para a história de Rocky mostraria o filho de Apollo Creed, talvez você imaginasse apenas um motivo para caça-níqueis, mas não com Jordan e Coogler, e um Stallone no auge de sua trajetória. Difícil imaginar que Stallone não tenha seu momento dramático mais intenso, mesmo em comparação com seus filmes anteriores da série, principalmente o primeiro, Rocky II e o ótimo Rocky Balboa. Ele está realmente excepcional como um personagem que não tem mais a esposa e os amigos à sua volta e se volta à tentativa de treinar o filho de seu melhor amigo e que o recuperou para a carreira depois da morte de Mickey em Rocky III. As nuances que Stallone entrega para seu personagem contrastam, por exemplo, de Rocky Balboa, em que ele se mostrava mais bem-humorado e com uma ironia cáustica; aqui ele parece conduzir seu limite pessoal a um enfrentamento com o destino – e também Stallone se dissocia, pelo menos no título, de uma de suas séries favoritas, ao lado de Rambo. Vejamos apenas as cenas mais discretas do personagem, como aquelas em que ele divide o espelho da academia com Creed para ensinar os golpes ou quando ele, numa situação delicada, precisa apoiar o jovem treinado a continuar na sua trajetória. Stallone parece, por meio do filme, ter consciência do legado desse personagem não apenas para sua trajetória (independente de se gostar ou não dele, de respeito) como da própria história do cinema.

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No entanto, não apenas esses personagens atuam em sintonia, como também Tessa Thompson, na persona de Bianca, que é conquistada por Creed. Há uma humanidade em ambos os personagens que poucas vezes vimos nesse tipo de história, tanto pela presença de Jordan como de Thompson. É certo que o romance entre eles remete ao de Rocky e Adrian – e a personagem de Bianca, embora numa participação talvez não tão merecedora do que deveria ganhar, é sensível na medida em que atinge notas conseguidas antes na série justamente apenas por Talia Shire. Em termos de roteiro, ambos conseguem traduzir as falas de maneira fluente, sendo o primeiro filme da série não roteirizado por Stallone, e sim por Coogler e Aaron Covington.
Se há uma queda na narrativa, ela acontece um pouco entre o segundo e o terceiro atos, mas Coogler traz uma hora final emotiva, com um poder muito grande de estabelecer a ligação emocional entre os personagens, e Stallone mais uma vez se destaca: a sua figura envelhecida e sábia é como se fosse o retrato de Mickey mais uma vez à tona. Contudo, em se tratando de uma visão de sabedoria, é Coogler que estabelece uma relação entre a Filadélfia dos anos 70 e dos anos 2010, não apenas pela atmosfera, como também pela trilha sonora. Coogler consegue captar um movimento de transformação do bairro, já antecipado por Stallone em seu belo Rocky Balboa de 2006.

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Mais do que sobre lutas, Creed, como Rocky, fala da passagem de tempo, de como os personagens submergem de seus conflitos pessoais e de como as histórias podem criar vínculos a distância. Neste sentido, apesar das devidas diferenças, Coogler consegue realmente dar uma sequência à história iniciada pela figura de Rocky Balboa, ao contrário da pressa de Abrams no último Star Wars em estabelecer vínculos com os fãs, apesar ainda ser muito interessante. Mas Coogler é mais exato ao criar um compasso original para as cenas de luta, uma delas sem um corte sequer, muito em razão da competência da fotografia de Maryse Alberti, além de empregar uma emoção especial no ato final, que eleva Creed a outro patamar, apesar de sua temática não original em relação aos filmes anteriores. Também não há nenhum material que deseje se aproximar de um Touro indomável, no tom ou maneira de se filmar (levando em conta que Scorsese inovou na maneira de captação das lutas). A referência, no universo do boxe, é realmente a série Rocky, da qual o diretor se teria dito fã a Stallone antes de colocar o projeto em prática. E, sem dúvida, há um contato direto com a obra original de Stallone, vencedor merecido do Globo de Ouro de coadjuvante (e, espera-se, também do Oscar). Quando a figura de Adonis se mescla com a de Apollo e com a de Rocky, sabemos que Coogler acerta em cheio no drama e na preferência de quem sempre gostou desses personagens. Creed se sente, desse modo, como uma continuidade de algo importante, mas também como algo independente, com seus próprios contornos e motivos. B. Jordan, nos minutos finais, assim como o filme de Coogler, é digno de premiações.

Creed, EUA, 2015 Diretor: Ryan Coogler Elenco: Michael B. Jordan, Sylvester Stallone, Tessa Thompson, Phylicia Rashad, Tony Bellew, Graham McTavish, Madeira Harris, Andre Ward, Gabe Rosado Roteiro: Aaron Covington, Ryan Coogler Fotografia: Maryse Alberti Trilha Sonora: Ludwig Goransson Produção: David Winkler, Irwin Winkler, Kevin King Templeton, Robert Chartoff, Sylvester Stallone, William Chartoff Duração: 133 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Warner Bros. Pictures

Cotação 5 estrelas

Fruitvale Station – A última parada (2013)

Por André Dick

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Um filme baseado em fatos reais às vezes fica comprometido de modo excessivo com a história da qual surge, resultando numa narrativa mecânica quando não encontra seu realizador mais adequado. Quando assistimos os minutos iniciais de Fruitvale Station – A última parada, é esta a sensação que temos. O diretor estreante Ryan Coogler mostra uma sequência gravada do acontecimento em que o seu filme se baseia e parece sintetizar tudo a partir dele. Para o espectador menos informado sobre o acontecimento, o filme pode ter um crescimento diferente, pois não se sabe o desfecho; para quem conhece a história, talvez não haja o mesmo impacto, no entanto é interessante, pelo tratamento dado à narração e ao elenco, acompanhá-lo.
A partir desse momento captado numa câmera de vídeo, Coogler passa a mostrar um dia na vida de Oscar Grant (Michael B. Jordan), 22 anos, que foi dispensado do trabalho e está à procura de uma ocupação. O que ele teria a fazer, a princípio, seria andar de carro e vender drogas, como fez antes de ir para a prisão, mas este dia enfocado não é apenas de véspera do ano novo, como também do aniversário de sua mãe, Wanda Johnson (Octavia Spencer), e o dia em que ele precisa fazer escolhas, diante da namorada, Sophina (Melonie Diaz), e da filha, Tatiana (Ariana Neal). Ele não consegue contar a ela que não trabalha mais no supermercado de onde foi dispensado, e essa preocupação o persegue ao longo de todo o filme, destacado pelo diretor por meio de cenários quase isolados, como o do posto de gasolina e uma sequência em seguida filmada com extrema perícia, e nada tem de calculadamente emotiva, mas essencialmente diz respeito à situação do personagem, a como ele se sente.

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Esses momentos diante da família, ou de uma conversa com a avó ao telefone, são verdadeiramente humanos e a peça central para fazê-lo funcionar é justamente seu ator principal, Jordan. Ele consegue aliviar os momentos em que o roteiro carrega nas tintas dramáticas, assim como Octavia Spencer, mesmo com poucas linhas de diálogo, desenha uma mãe essencialmente de vigor. Em Fruitvale Station, é a figura da mãe o que acaba servindo de guia para a compreensão do personagem central, aquela que acaba alimentando a narrativa a partir de sua ausência, mesmo estando próxima. Em uma narrativa de pouco mais de 80 minutos, Coogler mostra os sonhos do personagem e a necessidade de concretizar a família na qual nunca se imagina inserido – e o momento em que ele conversa com um desconhecido, mais ao final do filme, basta para definir este entendimento. Tampouco parece que ele esconde algo para tornar o personagem numa referência intocada; pelo contrário, ele desenha apenas um momento determinado na vida de um jovem de pouco mais de 20 anos, diante da tentativa de abandonar o passado e seguir em frente ou se entregar ao impulso daquilo que o imobiliza de todo modo. A pergunta que pode ser feita é: se o jovem fosse mostrado como alguém sem solução o seu desfecho teria um motivo racional?
Os movimentos podem lembrar um filme de Gus Van Sant (a exemplo de Elefante e Paranoid Park), com uma espécie de sentimento bruto, em que o personagem tenta se desvencilhar do seu passado e acaba tendo de enfrentar a incompreensão. No entanto, Coogler filma com mais dispersão, deixando o personagem independente na maior parte do tempo, à frente da câmera acertadamente emocional instável de Rachel Morrison, sem cair no tom de um documentário, e captando a atmosfera solitária de Oakland, Califórnia, e de figuras dispersas. Apenas se lamenta que, com isso, algumas conversas não sejam tomadas de modo mais denso, e Coogler escolha por um certo distanciamento dos cenários em que elas acontecem. Por outro lado, ele esvazia o tom que poderia existir, mais teatral, dando espaço a coadjuvantes como Melonie Diaz se destacarem. Isso ocorre, ao mesmo tempo, pela presença, ao longo do filme, de celulares e câmeras digitais, localizando a tecnologia como um ponto de proximidade e separação entre os personagens – a julgar pelo início, peça central para esclarecer um acontecimento –, principalmente quando as palavras digitadas ficam em relevo, ocupando o espaço das falas.

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A princípio um filme independente (depois foi distribuído por Harvey Weinstein), Fruitvale Station tem Forest Whitaker como um de seus produtores, e ele esteve justamente em O mordomo da Casa Branca, bastante prestigiado nos Estados Unidos e com bela reconstituição de época. O realismo que falta a O mordomo, no entanto, marca presença neste filme, em que Jordan tem a presença mais identificada com o público. Certamente por isso a sua acolhida no Festival de Sundance, em que foi escolhido como melhor filme pelo júri e pelo público, e seu prêmio na mostra “Um certo olhar”, do Festival de Cannes. As escolhas feitas pelo diretor neste sentido o tornam mais interessante. Acusado de contemporizar o que realmente aconteceu, Coogler não se ressente de uma direção hábil de atores. Com ele, todos têm um desempenho perto do imaginado para uma situação como a do filme, e é isso que realmente importa ao vê-lo. Não há um excesso narrativo, mas a composição de quadros que vão se unindo e compondo a figura do personagem central. E é interessante como ele consegue, por meio da montagem de Claudia Castello e Michael P. Shawver, se concentrar em circunstâncias essenciais para a motivação do personagem. Isso se deve à presença da atriz mirim Ariana Neal, que faz sua filha e protagoniza uma cena fantástica em que eles se encontram num colégio. Mas não apenas este momento: Coogler em vários momentos equilibra a sensação de liberdade de Oscar com a da prisão, como a de um momento em que ele observa o sol se pôr numa baía e tem um flashback definidor daquilo que o trouxe àquele momento e vai estabelecer uma ligação com seu desfecho, notável, por mais dolorosa e mesmo sentimental que seja. É Jordan quem acaba trazendo a ideia de que algo diferente poderá acontecer, desviando-se dos fatos, e é este fio de esperança que sustenta a narrativa. Pode-se assistir este filme com o pensamento de que se trata de uma história banal – sobretudo porque pode se confundir um ser humano com estatísticas –, mas Fruitvale Station nos faz lembrar de momentos que definem toda uma existência e a necessidade do afeto. Num momento em que o cinema perde dois referenciais, como Philip Seymour Hoffman e Eduardo Coutinho, é um filme, sob os moldes de uma pretensa inovação, até comedido, mas extremamente humano.

Fruitvale Station, EUA, 2013 Direção: Ryan Coogler  Elenco: Michael B. Jordan, Melonie Diaz, Octavia Spencer, Ariana Neal, Ahna O’Reilly, Kevin Durand Roteiro: Ryan Coogler Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Ludwig Goransson Produção: Forest Whitaker, Nina Yang Bongiovi Duração: 85 min. Distribuidora: The Weinstein Company Estúdio: Forest Whitaker’s Significant Productions / OG Project

Cotação 4 estrelas