Megatubarão (2018)

Por André Dick

Os filmes sobre tubarão se tornaram comuns depois do clássico de Spielberg nos anos 70. Desde Piranha, de Joe Dante, uma homenagem à obra de seu mestre, a figura ameaçadora se reproduziu no imaginário do espectador tanto nas continuações do filme de Spielberg quanto em peças como a série Sharknado ou o conhecido Do fundo do mar, sobre tubarões de laboratório, e mesmo no recente e impactante Águas rasas, com uma atuação excelente de Blake Lively. Megatubarão se baseia num romance de Steve Alten, e o roteiro adaptado por Dean Georgaris, Jon Hoeber e Erich Hoeber passou pelas mãos de Jan de Bont e Eli Roth antes de cair nas de Jon Turteltaub, diretor pouco conhecido pelo aspecto autoral. Se nos anos 90 ele fez a comédia romântica agradável Enquanto você dormia e o curioso Fenômeno, acabou se notabilizando por A lenda do tesouro perdido, com Nicolas Cage, uma espécie de Indiana Jones mais genérico.
O personagem central de Megatubarão é Jonas Taylor (Jason Statham), que se depara, numa de suas missões embaixo do mar, com uma criatura gigante. Cinco anos depois e afastado de tudo, na Tailândia, ele é chamado para resgatar uma tripulação na Fossa das Marianas, envolvida novamente numa situação delicada, principalmente porque sua esposa, Lori (Jessica McNamee), está entre as tripulantes.

A missão é liderada por Minway Zhang (Winston Chao), tendo entre outros membros Mac (Cliff Curtis), antigo amigo de Jonas, o médico Heller (Robert Taylor), além da filha de Zhang, Suyin (Bingbing Li), uma oceonógrafa, a engenheira Jaxx (Ruby Rose), DJ (Page Kennedy) e o bilionário responsável por pagar tudo, Morris (Rainn Wilson). Turteltaub entrelaça todos os personagens sob a ameaça de um tubarão pré-histórico, que pode se ligar à raça extinta do Carcharocles megalodon, como eram as piranhas da refilmagem de 2010. É com esta versão de Piranha que Megatubarão mais dialoga, principalmente em seus 25, 30 minutos finais, quando realmente diz a que veio, com uma sucessão de cenas de ação convincentes e ótimos efeitos visuais.
No entanto, ele deve mais, em sua estrutura narrativa, a uma obra de James Cameron dos anos 80. Há uma presença dos elementos já vistos em O segredo do abismo, que começava em plena ação, com um submarino nuclear, o USS Montana, naufragando misteriosamente, depois de avistar luzes no fundo do oceano. Em seguida, uma expedição de resgate, liderada por Virgil (Ed Harris), é enviada para tentar se descobrir a causa do acidente. Divorciado da mulher, Lindsey (Mary Elizabeth Mastrantonio), também da marinha, a viagem se complica quando toda a tripulação começa a ficar perturbada com os estranhos acontecimentos de luzes flutuantes, surgindo um vilão, Hiram (Michael Biehn).

Eles começam a descer nesse abismo, onde se deparam com seres extraterrestres em formas de peixes luminosos e raios de luz efêmeros, e o drama do casal é replicado no de Jonas e Lori. Por sua vez, Cameron faz o primeiro filme filmado quase totalmente embaixo d’água, já mostrando suas obsessões (que fariam parte de Titanic e de suas pesquisas documentais), e uma espécie de Contatos imediatos do 3º grau, mas já antecipando elementos que veríamos em AvatarO segredo do abismo é referenciado em Megatubarão desde o início, não apenas por meio do drama de um casal separado, mas por seu universo marítimo misterioso e com peixes e plantas aquáticas iluminados. De qualquer modo, Turteltaub não é Cameron e, portanto, seus mistérios logo se diluem em diálogos sem nenhuma intenção dramática, no entanto nivelando o comportamento de todos da maneira mais previsível possível. O diretor procura, ainda assim, por meio da filha de Suyin, Meying (Shuva Sophia Cai), um diálogo com o receio da infância de enfrentar um monstro que parece saído de contos de terror, o que Bayona já tentava fazer no recente Jurassic World – Reino ameaçado, o que rende pelo menos uma cena bastante atmosférica e assustadora.

Statham é o líder aqui, sempre com sua tentativa de emular Bruce Willis, porém sua presença não encobre as várias falhas em sequência do roteiro. Quando o espectador está sendo envolvido pela tensão, ela logo se perde em meio a exageros. Contudo, Bingbing Li consegue fornecer algumas sequências de mais interesse dramático, ao lado de Sophia Cai, porém sempre interrompidas por momentos improvisados de humor. O mais curioso é como, em alguns momentos, Turteltaub tenta homenagear, mesmo num blockbuster, a obra A vida marinha com Steve Zissou, de Wes Anderson, no qual também a tripulação se deparava com uma criatura excêntrica no fundo do mar. Em outros momentos de boa plasticidade, ele recorre a imagens captadas por Ron Howard para No coração do mar, quando a enorme criatura marítima passa por baixo de pranchas de surfe na costa chinesa. Se Megatubarão conseguisse conciliar melhor sua rica produção (orçada em torno de 150 milhões de dólares), baseada num bom designer de produção, com uma qualidade narrativa e melhores atuações, certamente se sairia melhor. Como se encontra, é uma superprodução curiosa, mas que logo será encaixada (ou esquecida) entre as inúmeras obras sobre um tubarão, independente do seu tamanho.

The Meg, EUA, 2018 Diretor: Jon Turteltaub Elenco: Jason Statham, Li Bingbing, Rainn Wilson, Ruby Rose, Winston Chao, Cliff Curtis Roteiro: Dean Georgaris, Jon Hoeber, Erich Hoeber Fotografia: Tom Stern Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Lorenzo di Bonaventura, Colin Wilson, Belle Avery Duração: 113 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Gravity Pictures, Flagship Entertainment, Apelles Entertainment, Di Bonaventura Pictures, Maeday Productions Distribuidora: Warner Bros. Pictures

John Wick – Um novo dia para matar (2017)

Por André Dick

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Em 2014, foi lançado o personagem de John Wick em De volta ao jogo, com Keanu Reeves, que se caracterizava pelo visual potencialmente distinto e com violência extrema. A crítica e o público o elegeram como um destaque, fazendo com que houvesse logo essa continuação. John Wick – Um novo dia para matar já começa apenas quatro dias depois dos acontecimentos do original, com o personagem indo atrás de seu Mustang 1969 totalmente escuro, que se encontra com Abram Tarasov (Peter Stormare), irmão dos principais antagonistas da primeira história.
Achando que voltou à tranquilidade, com um novo cão e a ajuda de Aurelio (John Leguizamo), para arrumar seu carro, John recebe a visita do italiano Santino D’Antonio (Riccardo Scamarcio), que lhe apresenta um medalhão que obrigaria John a lhe prestar serviços. No entanto, é o que ele menos quer: seu desejo é ficar recolhido em sua casa, recordando da esposa. O roteiro de Derek Kolstad tem a qualidade de apresentar os personagens com agilidade e, mesmo que não saibamos muito sobre eles, as principais características estão desenhadas e se pode focá-las com evidência.

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Winston (Ian McShane), que é o dono do hotel Continental em Nova York, onde o primeiro filme tinha cenas substanciais, lembra a Wick que ele não pode rejeitar o medalhão, pois senão estará colocando em risco sua figura no submundo. D’Antonio quer que Wick mate sua irmã Gianna (Claudia Gerini), em Roma, para que possa ingressar numa espécie de alto conselho da criminalidade. Ares (Ruby Rose) é uma guarda-costas de D’Antonio que segue o assassino profissional, e Cassian (Common) também segue em seu encalço, sem a princípio o espectador entender o motivo. Gianna é uma das personagens mais marcantes num filme de ação, apesar da breve presença, porque parece retratar todo o mistério desse submundo que persegue o personagem central, do qual ele não consegue se desvencilhar em nenhum momento, precisando estar sempre preparado para o combate. Gerini contribui com uma cena verdadeiramente impactante.
Desta vez, o diretor Chad Stahelski mostra um personagem envolvente e cenas de ação que parecem saídas de um filme de arthouse de ação. Se eu imaginasse um Wong Kar-Wai ou um Nicolas Winding Refn fazendo uma obra urbana com uma sequência impressionante de mortes seria esta (e Refn de certo modo já fez uma de forma mais simbólica, Apenas Deus perdoa, em que Stahelski busca claramente inspiração, principalmente no uso de cenários com neons). E, mais do que trazer uma influência de Johnnie To – uma referência para filmes de máfia oriental e que se liga a um certo exagero cênico –, John Wick – Um novo dia para matar parece envolver mais bom humor embutido na tragédia.

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Desde o início, quando o personagem sai com seu carro capenga do confronto com os inimigos, isso fica bastante claro, mas se acentua ainda mais na ida para Roma, onde vira uma espécie de perseguido pelas ruas. Há algo de engraçado e trágico, ao mesmo tempo, na figura do personagem central, e Keanu Reeves consegue desenvolvê-lo com rara perspicácia. As cenas são coreografadas de maneira espetacular e talvez aqui estejam algumas das melhores cenas de embate filmadas neste século.
O primeiro filme ficou conhecido como aquele em que um homem se vingava daqueles que mataram seu cão, e aqui John Wick parece estar mais associado a uma espécie de linhagem da qual não consegue se livrar e, ao contrário do original, cada cena segue outra com grande naturalidade.
E, naturalmente, surge uma aproximação com James Bond num encontro num museu de Wick com D’Agostino, que remete a uma conversa entre o agente inglês e Q (Ben Widshaw) em 007 – Operação Skyfall. Com isso, há uma tentativa de tornar o personagem praticamente invencível, uma espécie de Matrix.

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Não são poucas vezes que se lembra da trilogia das hoje irmãs Wachowski, não apenas porque Reeves está à frente em cada cena, e sim porque o jogo que se desenha por trás de sua presença perturbadora é bastante focada numa mitologia, embora aqui, claro, mais real, em locações de Roma. Também há uma longa sequência numa estação de trem que recorda tanto elementos de Brian De Palma em O pagamento final e Um tiro na noite, como, exatamente, Neo em Matrix reloaded e Matrix revolutions, quando ficava preso entre mundos diferentes.
Nisso, há uma espécie de lembrança da saga O poderoso chefão, com seu punhado de personagens envolvidos em tragédias passadas em escadarias. É natural, ao longo da narrativa, o jogo de espelhos do filme, pelo visual extraordinário, com um jogo de luzes primoroso, concedido por Dan Laustsen (que trabalhou para Del Toro no fantástico A colina escarlate), e pela maneira que o próprio personagem se vê, sempre preso dentro de si mesmo, do seu próprio labirinto. Reeves, ator que se sente muito bem nesses papéis, faz de maneira exata seu John Wick. Seu semblante entre a passividade e a fúria joga com o duplo que seu personagem desempenha: em nenhum momento o espectador se pergunta por que ele age dessa maneira; ele apenas se pergunta por que querem tanto que ele aja assim. Isso é um dos mistérios de John Wick e, pelo que se percebe, com sua recepção, dessa franquia.

John Wick – Chapter 2, EUA, 2017 Diretor: Chad Stahelski Elenco: Keanu Reeves, Common, Laurence Fishburne, Riccardo Scamarcio, Ruby Rose, John Leguizamo, Ian McShane, Bridget Moynahan, Lance Reddick, Thomas Sadoski, David Patrick Kelly, Peter Stormare Roteiro: Derek Kolstad Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Joel J. Richard, Tyler Bates Produção: Basil Iwanyk Duração: 110 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Lionsgate Films / PalmStar Media / Thunder Road Pictures

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