LEGO Batman – O filme (2017)

Por André Dick

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Depois do grande sucesso de Uma aventura LEGO, tendo na direção a mesma dupla de Anjos da lei, Cristopher Miller e Phil Lord, nada mais esperado que o regresso desses personagens em formato de peças em outro projeto. Desta vez, em LEGO Batman – O filme, o diretor Chris McKay, cocriador de Uma aventura LEGO, reúne vários personagens do universo do vigilante de Gotham City.
O filme já inicia em alto movimento, com Batman (Will Arnett) tendo de enfrentar o Coringa (Zach Galifianakis), que pretende novamente destruir Gotham, mas quer, sobretudo, ouvir do seu rival que ele é importante em sua vida. Claro que as brincadeiras com o personagem se sucedem em ritmo de fazer inveja ao primeiro longa com as peças do Lego, e aqui vai ganhando acréscimos, com os personagens de Dick Grayson (Michael Cera), que se transformará em Robin, Barbara Gordon (Rosario Dawson) e seu mordomo Alfred (Ralph Fiennes).
Barbara está assumindo a polícia de Gotham no lugar do pai Jim (Héctor Elizondo) e se prepara uma grande festa para sua posse, na qual se desenham algumas diretrizes para a polícia local (e uma é que Batman não poderá mais ser tão importante). Na festa, aparecem o Coringa, Arlequina (Jenny Slate), Duas Caras (Billy Dee Williams) e outros criminosos, surpreendentemente se entregando. Tudo isso parece um plano evidente para colocar Batman em uma situação complicada, não mais do que seu conflito permanente com Superman (Channing Tatum) e um tanto afastado da Liga da Justiça.

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McKay brinca com as principais características do herói: sua mania de resolver as questões por conta própria, a vida solitária na mansão Wayne (onde há um cinema no qual o personagem assiste a um clássico filme de Tom Cruise) e a saudade dos pais. É destacada, no entanto, a sua constante necessidade de estar afastado de todos, o que rende algumas cenas muito divertidas. De certa maneira, é uma maneira hiperbólica de ver o personagem, e Will Arnett faz um trabalho primoroso de voz. O Robin, em segundo plano, é a figura mais divertida, pois Cera sabe compô-lo por meio da voz, seguida pela do Coringa, com um trabalho notável de Galifianakis, sem parecer exagerado ou deslocado mesmo no tempo e espaço de piadas que recebe em seus diálogos, que é substancial.
De modo geral, como Uma aventura LEGO, este filme se sente como uma homenagem a muitas obras, não apenas aos de Batman, como também a King Kong, O senhor dos anéis e Harry Potter, ou seja, franquias que se consolidaram ou tentam se consolidar da Warner Bros. Há uma metalinguagem a cada instante, uma gag escondida em cada quadro, e muitas funcionam graças ao roteiro ágil. Apenas quando o filme se encaminha para a ação, e ela não deixa de homenagear a série do herói dos anos 60, há uma certa intensidade apressada que poderia ser atenuada, como fizeram Lord e Miller ao final de Uma aventura LEGO. Há muita ação e feita de maneira tecnicamente impecável, mas nisso vem embutido um certo sentido de caos, que os diretores do primeiro filme conseguiam de certo modo evitar na transição de tempos diferentes e entrada e saída de personagens diferentes, compondo um universo menos específico, mas que aqui chega a ser cansativo.
É interessante como, de modo geral, a crítica resolveu adotar um certo discurso de que aqui os personagens do universo da DC funcionariam. Mais ainda: porque mostraria um Batman menos soturno.

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Isso certamente decorre da má recepção em geral de Batman vs Superman, no ano passado, e alguns cogitaram até se não seria melhor trocar atores pelas pecinhas de Lego. Por mais que se entenda a sátira e mesmo a aversão a alguns ao universo que está iniciando da DC nos cinemas, parece exagerado focalizar neste filme como uma referência capaz de rivalizar com as visões, por exemplo, de Burton, Nolan e Snyder.
É uma diversão infantojuvenil capaz de agradar ao público adulto, feita com esmero inabitual, com uma explosão de cores fantástica, mas, acima de tudo, é uma sátira com este personagem. Tentar reduzi-lo, por outro lado, a essa sátira é evitar, naturalmente, a graça que se possa fazer em cima de suas qualidades mais soturnas. Ou seja, parece haver um encanto artificial da crítica e dos espectadores de que este seria o tom certo a ser adotado para os filmes considerados mais sérios. Enquanto LEGO Batman se sente uma obra que se sustenta por si só, é irremediavelmente composta por referências que os personagens adquiriram em sua versão dramática, e a trilha sonora de Lorne Balfe mescla os trabalhos de Danny Elfman e Hans Zimmer e Junkie XL para compor uma com tom que dá ritmo às sequências.

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É bem verdade que as cores aqui estão mais próximas da visão que Joel Schumacher tentou trazer a este universo, com Batman eternamente, indicado ao Oscar de fotografia justamente pela contribuição de cores diversas. No entanto, LEGO Batman se movimenta sobre sentimentos reais, que não existiam no filme de Schumacher, mas se encontram em suas demais versões, inclusive na série lembrada aqui dos anos 60, com Adam West.
O roteiro, escrito nada mais nada menos do que a dez mãos (Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington), tenta reunir várias referências que são entendidas por todos ou apenas pelos fãs. Eles fizeram um bom trabalho, principalmente quando se entende que este é um universo realmente atrativo e conseguem, ainda, com outras referências, dialogar tanto com Esquadrão suicida quanto com o ainda a ser lançado Liga da Justiça, embora a longa-metragem evite o impacto que poderia ter, em razão do ato final que se estende além do tempo. Como os brinquedos da Lego, estamos lidando aqui com futuros lançamentos, independente de serem peças ou não do mesmo movimento. Divertido para alguns, para outros não, mas ainda com a tentativa de divertir.

The Lego Batman movie, EUA, 2017 Diretor: Chris McKay Elenco: Will Arnett, Zach Galifianakis, Michael Cera, Rosario Dawson, Ralph Fiennes, Mariah Carey, Jenny Slate, Billy Dee Williams, Héctor Elizondo, Conan O’Brien, Channing Tatum, Jonah Hill Roteiro: Seth Grahame-Smith, Chris McKenna, Erik Sommers, Jared Stern e John Whittington Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Dan Lin, Phil Lord, Cristopher Miller, Roy Lee Duração: 104 min. Distribuidora: Warner Bros. Pictures

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À procura (2014)

Por André Dick

À procura

Para quem este ano foi alertado de todas as maneiras para filmes terríveis, sempre na linha de um determinado consenso preestabelecido, estamos agora diante do que seria o Transcendence do gênero policial, À procura. O filme estreou no Festival de Cannes sob vaias este ano, o que não comprova exatamente se será problemático, pois outras grandes produções saíram do evento do mesmo modo, como o mais novo de David Cronenberg, enquanto Adeus à linguagem, de Godard, foi ovacionado. E é justo que haja uma avaliação do que o cineasta produziu antes e agora, no caso o diretor egípcio naturalizado no Canadá Atom Egoyan recebeu o Grande Prêmio do Júri em Cannes com a obra, bastante considerada, Um doce amanhã e teve outros destaques nos anos 90, como Exótica e Calendário. Aqui ele se volta a um gênero do qual se espera suspense e agentes à caça de psicopatas. Tudo isso tem um nome: movimento, ação, reviravoltas e de preferência nenhum sentimento exatamente incômodo para o espectador.
Em À procura, a narrativa se concentra na menina Cassandra (Peyton Kennedy quando criança e Alexia Fast quando jovem), que tem nove anos de idade e faz patinação no gelo, seguida de perto por seus pais, Matthew (Ryan Reynolds) e Tina (Mireille Enos). Enquanto a mãe trabalha na área da limpeza de hotéis, o pai é paisagista, no norte do Canadá. Certo dia, ele a deixa no banco de trás da sua caminhonete para comprar tortas numa loja à beira da estrada – quando ele volta, ela já desapareceu, vítima de um grupo que pratica crimes contra a criança, também pela internet. No entanto, essas informações não são passadas ao espectador de maneira linear, como é bastante comum na trajetória de Egoyan: ao mesmo tempo que mostra essa situação, ele já revela o que se passa anos depois dela, apresentando suas consequências. Há também uma equipe de investigadores, com Jeffrey (Scott Speedman) e Nicole (Rosario Dawson) à frente, e o vilão Mika (Kevin Durand).

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Ao contrário de cineastas como David Fincher e no ano passado Dennis Villeneuve, Egoyan nunca teve nenhum apreço pelo suspense de fato. Isso pode ser um erro mortífero em alguns casos, mas é interessante que desde o início À procura dá preferência a personagens que reagem à mesma situação em tempos diferentes – e o quanto, na verdade, eles estão, como mostram as paisagens do filme, fotografadas de maneira minuciosa por Paul Sarossy, congelados, sem nenhum tipo de movimento para saírem do lugar. As cataratas do Niágara que aparecem em algumas sequências como pano de fundo de gravações em vídeo mostram essa passagem do tempo, que os personagens não conseguem sentir. Para quem aprecia o suspense policial nos moldes de Zodíaco e mesmo Os suspeitos, possivelmente desgostará de À procura, que se concentra em cada situação mostrada, não em revelar quem é o vilão – uma vez que o filme já inicia mostrando ele – ou mesmo em reviravoltas (não necessariamente surpreendentes).
Alguns desses personagens têm suas vidas filmadas pelo sequestrador de Cassandra, e esta em determinado momento – não se sabe com certeza, pois Egoyan dificilmente explica as motivações de cada um – parece estar imersa na perturbação do psicopata. Egoyan torna as coisas bastante difíceis e mexe com o psicológico do espectador quando, mesmo ele sabendo que as coisas podem ser mais previsíveis, não consegue também desatar os nós da trama, pois o comportamento dos personagens não é normal em nenhum momento. Diante do sequestro, não se entende por que a menina serve como um ponto de apoio para Mika em vigiá-los por meio de câmeras, a fim de notar o sofrimento marcado por essa passagem de tempo, nem como ela consegue lidar com o universo musical para esquecer a realidade à sua volta ou aceitar que seja envolvida no mesmo crime cometido contra ela – a não ser que se pense numa possível Síndrome de Estocolmo. Os filmes de sequestro, e não por acaso o roteiro e o vilão de À procura dialogam com a peça A flauta mágica, de Mozart, costumam esconder a figura negativa, enquanto aqui ele logo se mostra, embora Durand esteja algumas notas acima do tom; Egoyan apresenta também os policiais agindo de maneira confusa, impondo, no caso de Jeff, por exemplo, uma necessidade de criar redes mirabolantes em sua mente sobre o comportamento do pai de Cassandra.

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Essa confusão do sistema que poderia ajudar a descobrir onde está Cassandra afeta não apenas a busca, como também coloca os pais numa sucessão de conflitos e de afastamento, com cobranças amargas principalmente de Tina em relação a Matthew. Ou seja, mesmo a dupla de investigadores, que no início se mostra um tanto rival e com o tempo inicia laços familiares, parece estar imobilizada pelas próprias obsessões: enquanto Jeffrey tenta capturar os criminosos lançando contra eles uma busca incessante, a investigadora tenta se recuperar de questões traumáticas em sua vida. Neste sentido, o psicopata lida com esses personagens como se estivesse perto deles e filmasse seu dia a dia. Para Mika, o que importa neles é justamente colocá-los sempre presos à situação causada por ele, por isso não importam as mudanças de estação. Todos os personagens, deliberadamente, acabam caindo nesta teia armada, em que cada lembrança pode significar também o que pode ocorrer no futuro, uma vez que as paisagens continuam iguais, assim como o comportamento de cada um. Em À procura, os vídeos não servem para a procura de figuras desaparecidas: eles servem para lidar com uma dor – a dos pais – presente de forma contínua, independente de lugar, e são registrados como um presente. Não existe aqui uma ruptura: o diretor Egoyan coloca os personagens em momentos diferentes ao longo de 8 anos, e mostra como a natureza deles está ligada à mesma espera, lidando com isso de maneira a colocar o espectador com uma espécie de sentimento agonizante. Nessas idas e vindas de tempo, há não raramente algumas lacunas de roteiro, mas a base da proposta de Egoyan continua presente.
Em relação a Um doce amanhã, considerado ainda a grande obra do diretor, embora não tenha o ritmo necessário, À procura tem vários detalhes semelhantes: a necessidade de a família reunir todo sentimento e aproximação, mas sobretudo as paisagens invernais do Canadá. No entanto, parece que em seu novo filme Egoyan consegue fazer um trabalho mais detalhado na movimentação de imagens, assim como acerta na escolha do elenco. Ator com sérios problemas para desenvolver personagens, Ryan Reynolds tem aqui a interpretação de sua carreira: a maneira como ele se mostra ao espectador é cortante; em intensidade próxima, embora não igual, estão Dawson, Speedman e Enos. Esse elenco é uma grande pista para o filme se mostrar não exatamente como um thriller nos moldes de Hollywood, mas como uma análise do comportamento humano diante de uma situação trágica de abuso infantil e de sequestro. As imagens, desde o início de À procura, devem ser lidas, e apenas aparentemente querem evocar Fargo, dos irmãos Coen – há algo mais embaixo dessa superfície, e quando vemos uma das personagens saindo de uma festa onde teve de lidar com seu passado Egoyan nos mostra um parque de diversões à noite, como se ela estivesse ainda na noite imposta por A flauta mágica, de Mozart. E quando o diretor ingressa no clímax de seu filme, já podemos saber de antemão a resolução, no entanto não sabemos o que se esconde por trás disso tudo: À procura indica que a vida continuará praticamente a mesma para todos os envolvidos, mas que não existe a saída da infância quando há um trama desse porte. O que permanece é apenas a falta de resolução de tudo que poderia ser resolvido, e como o quebra-cabeças de À procura anuncia: não há o fio da meada. E, se há, ele pode ser puxado.

The captive, CAN, 2014 Diretor: Atom Egoyan Elenco: Ryan Reynolds, Scott Speedman, Rosario Dawson, Mireille Enos, Kevin Durand, Alexia Fast, Peyton Kennedy, Bruce Greenwood Roteiro: Atom Egoyan, David Fraser Fotografia: Paul Sarossy Trilha Sonora: Mychael Danna Produção: Atom Egoyan, Jennifer Weiss, Simone Urdl, Stephen Traynor Duração: 112 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Ego Film Arts / The Film Farm

Cotação 4 estrelas