O destino de uma nação (2017)

Por André Dick

Uma das curiosidades de O destino de uma nação é ser lançado no mesmo ano de Dunkirk, de Nolan. Se este filme conta a história das tropas inglesas presas em Dunkirk por causa de aviões alemães, a obra de Joe Wright conta, digamos assim, seus bastidores. Para um diretor que já havia mostrado uma sequência sem cortes passada na praia francesa em Desejo e reparação, indicado ao Oscar de melhor filme como O destino, não se trata de nada surpreendente. Naquela produção de 2008, Wright se situava entre uma história familiar e uma tragédia de guerra; ele não deixa de fazer o mesmo aqui, embora sem tanto espaço para as nuances familiares.
O destino de uma nação começa em maio de 1940, quando o Reino Unido e França são aliados na Segunda Guerra Mundial. O Partido Trabalhista da Oposição no Parlamento inglês pede que o primeiro-ministro britânico Neville Chamberlain (Ronald Pickup) renuncie, por ser considerado muito hesitante. No entanto, Neville consegue fazer com que Halifax (Stephen Dillane), seu braço direito, continue num posto do governo.

Para seu lugar, é escolhido Winston Churchill. Casado com Clementine (Kristin Scott Thomas) e tendo como secretária Elizabeth Layton (Lily James), Churchill precisa enfrentar justamente a crise em Dunkirk, com suas tropas ameaçadas pela morte. Ele mantém contato com quem o escolhe para o cargo, rei George VI (Ben Mendelsohn), mas o enfoque de Wright se dá nos discursos e conversas de rotina sobre a guerra entre Churchill e figuras próximas. Todos parecem querer que ele entre, por causa da situações das tropas na praia francesa, em acordo com a Alemanha nazista, por meio da Itália, em relação ao qual ele reluta.
Depois dos criticados injustamente Anna Karenina (uma releitura belíssima de Dostoiévski) e Peter Pan, duas adaptações literárias multicoloridas, Wright escolhe em seu novo filme uma paleta fotográfica assinada por Bruno Delbonnel, baseada no lado soturno da políticas, com fachos de luz entrando pelas janelas. Trata-se de um trabalho de Delbonnel que remete ao que ele fez em Inside Llewyn Davis, dos irmãos Coen, e um pouco de Sombras da noite, de Burton. Não é muito atrativo à primeira vista, contudo ajuda a contar a história de um período nebuloso para a Inglaterra e a solidão de um homem que deve tomar decisões que envolvem milhares de pessoas.

Oldman faz Churchill com notável empenho e, apesar de ser ajudado por uma maquiagem fantástica, é ele que consegue atribuir nuances ao personagem, com alguns maneirismos que o tornam reconhecível logo depois de meia hora. Sua relação de amizade com a secretária é o que mais aproxima o espectador do filme e Lily James está bem, mas é em seus rompantes de bom humor que a narrativa cresce. Oldman concede uma faceta humana e cotidiana ao grande líder, baseado num roteiro interessante, embora às vezes apegado demais aos fatos históricos, no seu andar, passo a passo. Há dois momentos tremendamente emocionais no filme e se aproximam de conversas mais íntimas de Churchill: aquele no qual conversa por telefone com Franklin Roosevelt e outro que resulta de uma conversa com o Rei, fazendo o personagem se misturar a quem deve perguntar pelo verdadeiro destino de uma nação. Deve-se lembrar também um diálogo decisivo que ele tem com o Rei George VI, já mostrado em O discurso do rei, de Tom Hooper, no qual Mendelsohn mostra sua excelência como ator e diante do qual se lamenta o pouco tempo de tela, pois teria muito a acrescentar em termos de nuances históricas.

O roteiro assinado por Anthony McCarten, o mesmo de A teoria de tudo, pode às vezes ser previsível em alguns tópicos autobiográficos, porém ainda assim os discursos e as relações de Churchill com a mulher e o rei resultam eficazes para o resultado final. Tem-se a impressão que Wright não se sente mais tão à vontade no formato histórico depois de seus filmes mais fantasiosos (incluindo o interessante Hanna, com uma jovem Saoirse Ronan, que Wright ajudou a revelar). Mesmo em Anna Karenina, no qual ele misturou elementos teatrais com um multicolorido de cenários e figurinos que evocavam Wes Anderson, Wright já havia feito uma obra diferenciada dos filmes anteriores, e talvez por isso mesmo não tenha sido bem recepcionado. Isso faz com que O destino de uma nação não se sinta tão bem resolvido às vezes, pois não é tão eficaz quanto aquele em nenhum momento em termos de narrativa (nem mesmo como Peter Pan). De qualquer modo, ainda é um retrato histórico atrativo e que merece ser visto por sua competência e construção cuidadosa.

Darkest hour, ING, 2017 Diretor: Joe Wright Elenco: Gary Oldman, Kristin Scott Thomas, Lily James, Stephen Dillane, Ronald Pickup, Ben Mendelsohn Roteiro: Anthony McCarten Fotografia: Bruno Delbonnel Trilha Sonora: Dario Marianelli Produção: Tim Bevan, Lisa Bruce, Eric Fellner, Anthony McCarten, Douglas Urbanski Duração: 125 min. Estúdio: Perfect World Pictures, Working Title Films Distribuidora: Focus Features