Loucuras de verão (1973)

Por André Dick

Dois anos depois de THX 1138, sua primeira grande ficção científica, George Lucas surgiu com o único filme que dirigiu fora do gênero que o tornou conhecido: Loucuras de verão. Ele se passa em Modesto, em 1962, e inicia no estacionamento do Mel’s, um drive-in diner, referência visual clara para o Zodíaco de Fincher, onde se encontram os amigos e recém-formados Curt Henderson (Richard Dreyfuss) e Steve Bolander (Ron Howard). Lá, eles conhecem John Milner (Paul Le Mat), o principal corredor da cidade, e Terry “The Toad” Fields (Charles Martin Smith).
Steve e Curt irão viajar para o início da faculdade. No entanto, Curt está preocupado em deixar a cidade. A namorada de Steve, Laurie Henderson (Cindy Williams), irmã de Curt, entra em crise depois de uma revelação. Eles passam a andar de carro pelas ruas da cidade, e Curt fica desesperado para encontrar uma jovem loira que dirige um Ford Ford Thunderbird 1956. Ela parece dizer “Eu te amo” quando os carros em que estão param lado a lado num semáforo.

Ao mesmo tempo, vemos The Toad conhecendo uma jovem rebelde, Debbie Dunham (Candy Clark), e John sendo perseguido pela adolescente Carol Morrison (Mackenzie Phillips), que gosta dele. Às voltas desse círculo, encontra-se Bob Falfa (Harrison Ford), que deseja desafiar John para uma corrida.
Tudo em Loucuras de verão, muito por causa do elenco e da fotografia brilhante de Ron Eveslage e Jan D’Alquen, evoca um tempo nostálgico, em que os jovens usam os carros para ouvir música (a trilha sonora é um destaque) e para se exibir, o que veríamos nos anos 80 de forma mais popular em Footloose. O roteiro de Lucas, feito em conjunto com Willard Huyck e Gloria Katz, serve apenas para delinear as situações e o que os personagens aparentam ser, no entanto é menos superficial que sua primeira impressão deixa. Ele lida com sonhos, com mágoas, com passagens de tempo e com a sensação deixada pelos estudos do ensino médio e por uma noite de verão.

Pode-se dizer o quanto Richard Linklater bebeu de Loucuras de verão em Jovens, loucos e rebeldes, mas seria mais fácil dizer que Lucas definiu uma espécie de gênero novo: quase todas as peças feitas depois desse filme remetendo aos anos 60 ou 70 têm um pouco dele. Clássicos como De volta para o futuro parecem, por exemplo, emular as festas enfocadas neste filme, assim como o musical Grease toma como base este estilo, além de servir como prévia indireta aos inúmeras peças sobre a geração que foi ao Vietnã.
Indicado aos Oscars de melhor filme, direção, roteiro original, atriz coadjuvante (Candy Clark) e edição e vencedor do Globo de Ouro de melhor comédia ou musical, Loucuras de verão teve problemas na montagem e Francis Ford Coppola se ofereceu para comprar a obra antes que o estúdio resolvesse picotá-lo. A sensação é de que a sua estrutura é aberta, em que muitas histórias caberiam, e não existe um fio linear ligando tudo que acontece, no que é bastante inovador. Os personagens entram e saem de cena não estabelecendo necessariamente uma ordem para a narrativa ser mais entendida, e sim de maneira que parecem ser independentes uns dos outros, cada um tecendo sua própria versão.

Além de tudo, não apenas a atuação de Dreyfuss é muito boa e a participação do futuro diretor Ron Howard interessante, como Paul Le Mat está excelente e Harrison Ford anunciando por que se tornaria uma estrela de Hollywood, como um motorista que tenta provocar os demais. No entanto, talvez o destaque seja Mackenzie Phillips como a adolescente que persegue John: exagerada na medida certa, ela consegue se sobressair mesmo a Le Mat. Lucas mostra ser um bom diretor de elenco, como já havia deixado claro em THX 1138, e possui uma concepção visual extraordinária. Há cenas em que os carros transitam pela cidade e as luzes dos postes parecem iluminar um lugar de decolagem (o que não seria incomum para quem viria a dirigir Star Wars), captando uma época e cultura de maneira enfática. A placa de um dos carros é THX 138. Não estamos diante de um filme de ficção científica e sim de uma visão sobre a juventude dos Estados Unidos, aliado a uma manifestação contra a guerra do Vietnã, no entanto aqui Lucas já estabelece, por meio de personagens cotidianos, uma versão prévia para os seus personagens que precisam do céu para mostrar a que vieram.

American graffiti, EUA, 1973 Diretor: George Lucas Elenco: Richard Dreyfuss, Ron Howard, Paul Le Mat, Charles Martin Smith, Candy Clark, Mackenzie Phillips, Cindy Williams, Wolfman Jack Roteiro: George Lucas, Gloria Katz, Willard Huyck Fotografia: Ron Eveslage e Jan D’Alquen Produção: Francis Ford Coppola, Gary Kurtz Duração: 112 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd., The Coppola Company Distribuidora: Universal Pictures

 

Han Solo – Uma história Star Wars (2018)

Por André Dick

O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de SplashCocoonWillow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da VinciO Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repetiu em No coração do mar, sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.

Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti,  Howard foi chamado a ocupar o posto de diretor de Han Solo – Uma história Star Wars quando a dupla Cristopher Miller e Phil Lord, dos dois Anjos da lei e de Uma aventura LEGO, foi demitida pela produtora Kathleen Kennedy por divergências de concepção – e quando, ao que se sabe, já havia sido rodada boa parte do filme.
A narrativa começa com Han Solo (Alden Ehrenreich) e sua amante Qi’ra (Emilia Clarke) em Corellia, um centro de construção naval da galáxia, tentando escapar de uma gangue local. No despiste de tropas imperiais, acaba acontecendo uma separação, o que vai levar Han, três anos depois, a uma batalha num planeta chamado Mimban. Ele conhece um grupo de criminosos que têm à frente Tobias Beckett (Woody Harrelson), que age com a esposa Val (Thandie Newton) e o alienígena Rio Daurant (voz de Jon Favreau). No meio do caminho, isso vai levar o personagem central a uma cela onde conhecerá seu amigo Chewbacca (Joonas Suotamo). Han tem a sorte de falar a língua do companheiro, Shyriiwook. A partir daí, a história envereda por um roubo de carga liderado pelo mesmo Beckett, a serviço de Dryden Vos (Paul Bettany, usando uma camisa social), líder do clã criminoso Crimson Dawn. Claro que, depois de algumas peripécias, Solo se encontrará com Lando Calrissian (Donald Glover), afinal esta é uma prequela das aventuras localizadas na trilogia de George Lucas.

Howard é um diretor talentoso e sabe lidar, a maior parte do tempo, com os atrasos impostos pela primeira filmagem de Miller e Lord. Ele tem um talento para a técnica de efeitos especiais, o que já mostrou em outras obras. No entanto, é certo que o roteiro de Jonathan e Lawrence Kasdan não é o mais interessante. Lawrence é autor de Os caçadores da arca perdida e O império contra-ataca, clássicos dos anos 80, e, a partir da década passada, quando dirigiu O apanhador de sonhos, não teve mais acertos. Sua parceria com J.J. Abrams em O despertar da força rendeu novos personagens até certo ponto sólidos, porém nunca instigantes como os da trilogia original.
A tarefa de dar vida à juventude de Solo esbarraria em duas coisas: o ator obviamente não seria Harrison Ford e este personagem tinha mais justificativa com Luke Skywalker e Princesa Leia a seu lado. Seu início de amizade com Chewbacca é uma coleção de momentos previsíveis, sem nenhum traço do humor que constituiria a dupla na trilogia de Lucas – e talvez este pudesse ter sido melhor explorado por Lord e Miller, que teriam entendido o filme como uma comédia, ao contrário da Disney.

Por mais que consigamos vê-lo de maneira autônoma, Han Solo não é um personagem suficientemente complexo para receber uma história à parte, ao menos não com um roteiro disperso. Talvez se imaginasse que ele, se Ford fosse mais jovem, rendesse um novo Indiana Jones. Sua participação não foge ao esquema de um personagem apaixonado que conhece novos amigos e precisa antecipar várias referências do que aparece na trilogia de Lucas principalmente.  Ehrenreich tem boa vontade e certo talento, demonstrado antes em Ave, César! e Regras nãos e aplicam, mas não supre a ausência de mais carisma, independente do fato de acertadamente não tentar uma imitação de Ford.
Também se percebe que a atenção visual dada ao restante da série não comparece aqui, pelo menos não depois da satisfatória primeira meia hora. O filme de Howard, além de se basear numa fotografia inadequada de Bradford Young – responsável pelo trabalho primoroso de O ano mais violento –, centrada demais na cor marrom (a mesma do uniforme de Han e do pêlo de Chewbacca), variando com o cinza e um azul esmaecido, não tem assessoria de um figurino e direção de arte ricos (uma sala em que ocorrem alguns dos momentos-chave é particularmente desinteressante). No segundo ato, é visível a falta de criatividade para a criação de lugares múltiplos para esse mundo estendido, numa configuração eterna de paisagens desérticas e rochosas sem o mínimo de atrativo. A falta de criatividade parece repercutir nas atuações pouco inspiradas do habitualmente ótimo Harrelson e de Glover, levando-se ainda em conta que Emilia Clarke não tem carisma o suficiente para sustentar sua personagem, embora pareça a mais centrada no que está acontecendo a seu redor. Do mesmo modo, os personagens – mesmo Chewbacca – se sentem apenas componentes de um universo forçadamente estendido. Esse não era um traço de Rogue One, um semiépico espacial despretensioso e muito eficaz em sua construção de novos personagens capazes de anteceder a obra de 1977 sob um viés até mesmo trágico.

A trilha sonora de John Powell tem o incômodo de ser uma mescla de acordes novos com outros extraídos do trabalho icônico de John Williams: nos momentos de ação, surge a trilha de Williams em meio aos estilhaços de tentativa de fazer uma nova. É uma tentativa de se aproveitar da nostalgia do espectador em todos os momentos, principalmente numa sequência praticamente semelhante a uma que acontece em O império contra-ataca. Isso faz crer que não apenas a nova trilogia Star Wars se baseia demais na antiga, como Han Solo se nutre das aventuras do personagem já vistas anteriormente em outra companhia. Esse caminho causa um incômodo eficaz para que o espectador nunca se desvencilhe do fato de que essa é apenas uma introdução a algo mais importante – e talvez quem se contente com o que se convencionou chamar de fan service saia mais satisfeito da sessão. Nem mesmo algumas referências ao gênero do faroeste, na parte final, sustentam o fato de que todas as sequências de ação soam por demais genéricas, embora muito bem feitas e com uma parte técnica praticamente irreparável. Sob esse ponto de vista, é lamentável que Howard nunca consiga inserir seu ritmo de ação em meio ao drama, já comprovado em Willow, Rush e No coração do mar, por exemplo. Ele sempre parece aqui apenas um nome para conduzir uma obra iniciada por outros diretores e que tentou consertar ao máximo o estrago, como profissional competente. Do mesmo modo, o elenco visivelmente sentiu o peso das refilmagens. Se a Millennium Falcon sempre atinge um poder de recuperação, Howard, infelizmente, não conseguiu o mesmo.

Solo – A Star Wars history, EUA, 2018 Diretor: Ron Howard Elenco: Alden Ehrenreich, Joonas Suotamo, Woody Harrelson, Emilia Clarke, Donald Glover, Thandie Newton, Phoebe Waller-Bridge, Paul Bettany, Jon Favreau, Linda Hunt, Ian Kenny, John Tui, Warwick Davis Roteiro: Jonathan Kasdan, Lawrence Kasdan Fotografia: Bradford Young Trilha Sonora: John Powell e John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Allison Shearmur, Simon Emanuel Duração: 135 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

No coração do mar (2015)

Por André Dick

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O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de Splash, Cocoon, Willow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da Vinci, O Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repete em No coração do mar, o filme sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.
Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti, Howard apresenta a história de Thomas Nickerson (Breendan Gleeson), casado com (Michelle Fairley) que recebe, num momento de depressão e financeiramente difícil, o escritor Herman Melville (Ben Wishaw, fazendo ecoar seu papel em Cloud Atlas) para contar a história do baleeiro Essex, que partiu em viagem nos anos 1850 da cidade de Nantucket. Ou seja, o filme não é uma adaptação direta de Moby Dick, livro de Melville que serviu de referência para outros inúmeros livros ou filmes sobre o confronto entre homens e animais (do mar ou da terra).

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Em torno de três décadas antes, Nickerson (agora Tom Holland) fazia parte desse baleeiro, sob o comando de George Pollard (Benjamin Walker, excelente), um capitão inexperiente que recebe o confronto direto de Owen Chase (Hemsworth), cujo melhor amigo, Matthew Joy (Cillian Murphy), se encontra a bordo, e muito mais tarimbado nas funções que precisa exercer em alto-mar. No entanto, eles precisam entrar em acordo para que o serviço seja bem feito e possam voltar com bastante especiaria de baleia para terra. Alguns meses mais tarde, eles percebem que quase não há baleias, indo parar no Equador, onde são alertados sobre uma determinada cachalote branca. Isso é o ponto de partida para a história de Melville, que já se tornou conhecida, por meio de seu capitão Ahab, que enfrenta a cachalote em alto-mar. Escusado será dizer que o barco Essex será perseguido como se houvesse um embate contra outro ser humano, plenamente consciente de que deve se vingar. Esse é o mote dessa grande história.
Por meio de uma fotografia excelente de Anthony Dod Mantle, já responsável pelas tomadas de corrida de Rush, que concede ao filme uma textura de filme antigo, mais propriamente dos anos 50. No coração do mar cresce ainda mais por causa de sua imponência na parte de efeitos especiais e efeitos sonoros. São notáveis as sequências de perseguição da baleia ao Essex, e este é construído de maneira verossímil. Há algumas alternativas previsíveis na narrativa de Howard, mas em nenhum momento o filme se apresenta como montado às pressas como costuma acontecer com grande parte dos blockbusters: ele tem uma grande proximidade com fatos que poderiam a princípio chocar não fossem símbolos exaustivos de como pode uma sobrevivência se antecipar à vida, assim como o referencial Invencível.

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Também é notável a reconstituição de época (junto com os figurinos), mesmo que em alguns momentos haja uma determinada aparência falsa no conjunto; no entanto, parece-me proposital, por Howard exatamente querer recuperar o clima de cinema antigo já constatado na fotografia de Dod Mantle. Não são raras as vezes em que imaginamos assistir a um filme clássico, cujo relevo lembra um álbum antigo. A obra de Howard se sente como um grande painel de época, variado e profuso – e determinadas sequências possuem uma beleza plástica poucas vezes vistas no cinema. Em alguns momentos, há diálogos com a maneira como Peter Jackson filmou as cenas em alto-mar no seu King Kong, em outros, como já apontado, Howard convoca elementos do documentário Leviathan, principalmente ao mostrar o voo de gaivotas, e há um eficiente uso das cores vermelhas (da violência contra a baleia) e verdes (do mar e dos olhos dos personagens e da própria cachalote). Howard sempre esteve muito interessado no tema da viagem e do confronto do homem com seus próprios limites, como em Apollo 13, Um sonho distante ou mesmo na fantasia Willow. Em Uma mente brilhante e A luta pela esperança, Russell Crowe representava homens lutando contra suas possibilidades e impossibilidades, e nesse sentido Owen Chase é um típico personagem de sua filmografia.

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Na verdade, se aqui Howard consegue extrair interpretações competentes do elenco, como de praxe, ele se esmera ainda mais em se aproximar de um lado mais grave: o ser humano em busca de uma temporada de caça acaba se voltando contra si próprio para sobrevivência. Howard consegue indicar esse desespero humano, sobretudo ao mostrar como os homens do baleeiro faziam para extrair as especiarias e depois o que devem fazer para se manterem vivos.
Hemsworth tem se mostrado um dos astros mais interessantes desde seu surgimento em Star Trek e Os vingadores. Em No coração do mar, mais uma vez ele revela uma emoção que consegue captar seu susto diante da situação de enfrentar um mistério da natureza querendo destruir a navegação da qual faz parte. Ele faz parte de um ótimo elenco de apoio, incluindo Whishaw, Gleeson e Cillian Murphy. Holland, o próximo Homem-Aranha, tem uma participação não exagerada e competente o suficiente para tornar seu personagem como a continuação de uma linhagem de baleeiros.

In the heart of the sea, EUA, 2015 Diretor: Ron Howard Elenco: Chris Hemsworth, Benjamin Walker, Ben Whishaw, Brendan Gleeson, Tom Holland, Cillian Murphy, Michelle Fairley Roteiro: Charles Leavitt Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Roque Baños Produção: Brian Grazer, Edward Zwick, Joe Roth, Paula Weinstein, Will Ward Duração: 121 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Cott Productions / Enelmar Productions, A.I.E. / Imagine Entertainment / Roth Films / Spring Creek Productions / Village Roadshow Pictures / Warner Bros

Cotação 4 estrelas

Rush – No limite da emoção (2013)

Por André Dick

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O diretor Ron Howard sempre foi visto como um diretor sem marca autoral, ao qual estúdios recorrem quando querem alguma competência e o mínimo de riscos. Dos anos 80, quando dirigiu filmes que até hoje servem como referência do gênero fantasia (Splash, Cocoon e Willow) e uma bela comédia familiar (O tiro que não saiu pela culatra), ele passou os anos 90 com um interessante filme sobre a rotina dos bombeiros (Cortina de fogo) e a tentativa de fazer uma espécie de Rede de intrigas mais acessível (O jornal), até ter conseguido respeito com Apollo 13 e, já nos anos 2000, ganhar o Oscar por Uma mente brilhante. Embora não se saiba como ele fez projetos como O Código Da Vinci e O grinch, também realizou os subestimados A luta pela esperança e Frost/Nixon e, mais uma vez com roteiro de Peter Morgan, se recupera com seu novo filme, mostrando competência como diretor de atores. Dificilmente veremos más interpretações nos filmes de Howard, e não é diferente em Rush – No limite da emoção. Também dificilmente veremos uma montagem precária e um trabalho técnico sem cuidado. Embora pareça que o cinema tem mostrado um aperfeiçoamento nesse campo, não significa que se consiga mesclar a ele uma genuína emoção. Quando acerta, Howard consegue, e com aguçado senso de humor.
Rush inicia (daqui em diante, pequenos spoilers) mostrando o duelo entre Niki Lauda (Daniel Brühl) e James Hunt (Chris Hemsworth) já nos bastidores da F3, em 1970, quando Hunt o prejudica para poder vencê-lo. Depois de se desentender com o pai, Lauda busca um patrocinador para que possa disputar a Fórmula 1 e mostra seu talento também como técnico, apontando mudanças no carro para que ele tenha mais velocidade na pista. Hunt, por sua vez, recebe o apoio do milionário Lord Hesketh (Christian McKay). Desajeitado com as mulheres, ao contrário de Hunt, Lauda conhece Marlene Knaus (Alexandra Maria Lara), enquanto seu rival se casa com Suzy Miller (Olivia Wilde), que chegará mais tarde a Hollywood. Howard vai mostrando essa passagem do tempo e esses relacionamentos de maneira interessante, sem sobrecarregar a montagem ou as etapas.

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Pelo contrário, Howard consegue criar um paralelo entre esses corredores, sem prejudicar um ou outro, nem tornar este vínculo criado pela rivalidade em algo exagerado. Com os diálogos de Peter Morgan, que ao mesmo tempo soam despretensiosos e ágeis, Rush se estrutura em sua montagem praticamente perfeita, sem sobras, sobretudo quando passa a mostrar as corridas do campeonato de 1976, quando Lauda e Hunt entraram em disputa direta pelo título, pois ambos possuíam carros sofisticados. São essas corridas, criando uma ligação direta com acontecimentos pessoais, que tornam Rush num filme cujo tema – o desafio à morte, a tentativa de superar as limitações como esportista – ressoa uma emoção baseada nas imagens e no embate entre figuras, não na tentativa de o diretor soar mais complexo à medida que a trama avança. Neste caso, a narrativa tem êxito quando trabalha os conflitos e o sentimento despertado pelo receio de não conseguir chegar ao objetivo final.
Com uma fotografia notável de Anthony Dod Mantle, captando bem a atmosfera dos anos 1970, das corridas, inclusive das arquibancadas dos autódromos, assim como o espaço apertado dos carros, a velocidade deles e a dimensão das pistas, Rush consegue atrair o olhar também para momentos mais sensíveis – sempre em vista de mostrar o olhar de cada figura para as situações, que demandam ou não perigo. Talvez em razão de uma narrativa com figuras tão fortes Howard e o roteirista Morgan tenham deixado um pouco de lado as figuras coadjuvantes, mas isso não chega a atrapalhar o andamento da história e a propriedade com que é contada. Nem mesmo as inevitáveis provocações, até certo ponto previsíveis, entre os dois, reduzindo muitas vezes Lauda e Hunt a polos opostos que se atraem para o embate: o inglês playboy que adora festas e o austríaco que precisa provar a si mesmo que pode dominar a F1 de forma definitiva.

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A fim de que Howard chegue aos seus objetivos, dependeria de seus dois atores, e a resposta é a mais positiva possível. Depois de fazer parte de uma histórias mais marcantes de Bastardos inglórios, Brühl se mostra um ator cada vez mais eficiente, em sua mescla entre humor e arrogância, e Hesworth se mostra aqui muito mais à vontade do que em Thor e outros blockbusters, com inegável talento para contrabalançar a pretensão com uma certa ingenuidade. Ambos conseguem transformar Rush numa das experiências mais interessantes do cinema em 2013, ajudados pela compactação entre a montagem de Daniel P. Hanley e Mike Hill e a trilha sonora de Hans Zimmer, não tão presente quanto na série Batman de Cristopher Nolan, mas ainda assim eficiente para colaborar nos momentos de suspense. Na categoria de filmes envolvendo o duelo entre dois esportistas, não lembro de tal envolvimento desde o fundamental e hoje quase esquecido vencedor do Oscar de 1981, Carruagens de fogo, antológico não apenas pela trilha de Vangelis, como também por ampliar toda a tradição que cerca o esporte. Em filmes dessa natureza, o esporte acaba sendo apenas um motivo para expressar outros temas, que acabam sobrecarregados exatamente pela emoção dele. Rush é certamente um dos mais exemplares.

Rush, EUA/ALE/Reino Unido, 2013 Direção: Ron Howard Elenco: Chris Hemsworth, Daniel Brühl, Christian McKay, Olivia Wilde, Alexandra Maria Lara Roteiro: Peter Morgan Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Hans Zimmer Produção: Andrew Eaton, Brian Grazer, Brian Oliver, Eric Fellner, Ron Howard Duração: 123 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Revolution Films

Cotação 4 estrelas e meia

Willow – Na terra da magia (1988)

Por André Dick

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Este filme foi a concretização de um dos maiores sonhos de George Lucas. Com um custo de 35 milhões de dólares (ainda mais significativos para sua época), e locações excepcionais na Nova Zelândia e País de Gales, Willow teve a desconfiança desde o seu lançamento, como se fosse uma espécie de continuação de Star Wars, passada numa Terra-média de Lucas. O marketing acabou pesando na expectativa de que o resultado correspondesse aos maiores sucessos de Lucas. E, lançado no mesmo verão de Uma cilada para Roger Rabbit, acabou por ficar em segundo plano. Depois de 25 anos e muitas críticas contrárias, é possível voltar a ele, com o olhar de um tempo passado, mas remetendo também ao presente, por meio da edição comemorativa em Blu-ray, que, assim se espera, também seja lançada no Brasil.
Assinado por Ron Howard, com fotografia primorosa e música excelente (de James Horner), um dos problemas normalmente apontados em Willow é o roteiro de Lucas, que mistura várias histórias, mas, fazendo uma releitura dele, isso não estraga o resultado. Olhar para este filme depois de um tempo considerável mostra que, mais do que trazer o peso da nostalgia, ele faz jus a uma década que trouxe filmes memoráveis de fantasia, como A história sem fim, Labirinto e A lenda, com suas falhas e virtudes, todos sem a mesma elaboração visual dos contemporâneos, como O senhor dos anéis, também pela época e pelos efeitos especiais serem feitos de forma quase artesanal, quase sem computadores, mas com uma genuína força própria e não raro cenários criativos.

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A história inicia com o nascimento de um bebê com uma marca determinada de nascença, que, segundo as profecias, destruirá a rainha Bavmorda (Jean Marsh). Ela manda persegui-lo, mas ele é jogado num rio, que o leva à aldeia dos Nelwyn (gente pequena), onde Willow Ugford (Warwick Davis) e sua família o encontram. Com o sonho de ser um feiticeiro de sua aldeia – e o cuidado que se tem com o desenho de produção do local é próprio de Lucas –, Willow tem receio de se manter com o bebê, justamente porque chegam ao seu vilarejo cachorros gigantes com cabeças de porcos tentando encontrá-lo. O feiticeiro líder, High Alwin (Billy Barty), coloca Willow na missão de entregar o bebê a um Daikini (no linguajar do filme, gente grande). Mas a fada Cherlindrea (Maria Holvöe), num momento que remete claramente à obra clássica Peter Pan, de John Barrie, vem avisá-lo que Elora Danan (feita pelas gêmeas Kate e Ruth Greenfield) tem poderes para destruir a rainha. Willow se junta a um herói debochado, Madmartigan (Val Kilmer), encontrado dentro de uma jaula para prisioneiros, e à feiticeira Raziel (Patricia Hayes) para destruir Bavmorda, enquanto precisa passar por bosques, montanhas e outros contratempos, com a parceria de dois brownies (Kevin Pollak e Rick Overton) – homenzinhos minúsculos, que parecem saídos das aventuras de Gulliver. No seu encalço, seguem Sorsha (Joanne Whalley) , filha de Bavmorda, e  General Kael (Pat Roach), que, parecendo um Darth Vader da Idade Média, é, na verdade, uma homenagem às avessas de Lucas a Pauline Kael, a crítica histórica de cinema.

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Acompanhada de um figurino elaborado, a direção de arte reproduz muito bem um tempo-espaço singular, e mesmo as referências à religião e a filmes (há uma perseguição com carroças como se fossem bigas, à la Ben-Hur; os personagens lembram Star Wars, do próprio Lucas), não tiram do filme um ar ingênuo cada vez mais raro. Mas o que realmente salta aos olhos em Willow é seu cuidado visual. Há, nele, uma espécie de resquício do cuidado que vemos em O retorno de Jedi, com as imagens de florestas e, nesse sentido, a sua fotografia, uma cortesia de Adrian Biddle, é uma das maiores conquistas do filme. As locações na Nova Zelândia, com montanhas, lagos, florestas e longas planícies, conseguem dar um pano de fundo notável, e não é por acaso que Jackson também filmou nesse país – além de ser o seu de origem – O senhor dos anéis e O hobbit. Willow, ao mesmo tempo em que se alimenta das jornadas de Tolkien – naquela época em livro –, consegue expandir o seu universo, povoando-o de elementos das mais variadas histórias, não apenas bíblicas, mas cinematográficas. A jornada em que Willow vai se encontrando com outros amigos não deixa de ter também um elo com O mágico de Oz, assim como as suas feitiçarias e mágicas têm um traço de Idade Média e as aldeias, algo que remete a uma idade muito antiga. No entanto, essa mistura feita por Lucas de fábulas e contos clássicos ressurge numa mescla de gêneros, tornando Willow num filme nem para crianças nem para adultos, mas com uma espécie de atmosfera que adota principalmente os elementos universais.

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Willow vai passar pela provação de exercer seu conhecimento sobre feitiçaria, e nisso Warwick Davis é, sem dúvida, excelente. Ele forma uma boa dupla com Kilmer, um ator naquele momento conhecido pela comédia Top Secret! e por ser rival de Tom Cruise em Top Gun. Na pele de Madmartigan, Kilmer tenta transparecer um elo de humor com o Han Solo de Harrison Ford, baseando-se no mesmo estilo de que ele seria apenas um fora da lei, muitas vezes pensando apenas no lado financeiro e de diversão, correspondido pela indefinição entre a atração e a agressividade da personagem de Sorsha, interpretada por Joanna Whaley como se estivesse nos anos 50. Temos alguns momentos que remetem a essa amizade construída depois da perseguição na taverna logo diante de uma cachoeira e depois na subida de uma montanha, uma das chaves da amizade elaborada por Willow.
Estruturado num roteiro com esquema definido, sem grandes intervalos temporais, mas com uma edição talentosa, Ron Howard revela aqui um dos seus trabalhos mais interessantes. É costume se dizer que Howard não sabe dirigir, mas ele tem sensibilidade e boa coordenação sobre os atores, certamente mais do que Lucas. Seus filmes costumam ter boas atuações, como Apollo 13, Uma mente brilhante, A luta pela esperança, Frost/Nixon e Rush e a aversão que se tem à sua obra, ao que parece, é justamente por se tratar de um diretor não autoral que consegue ser indicado seguidamente a prêmios importantes.Em Willow, ele consegue aliar o estilo que mostra em Splash e Cocoon, mesclando realidade e fantasia, com o carisma dos personagens de seus melhores filmes e acrescenta a esta fantasia projetada por Lucas um humor involuntário normalmente ausente em seu criador. Daí este filme de fantasia ser um dos mais antológicos já realizados.

Willow, EUA, 1988 Diretor: Ron Howard Elenco: Warwick Davis, Val Kilmer, Joanna Whalley, Billy Barty, Maria Holvöe, Patricia Hayes, Jean Marsh, Kevin Pollak, Rick Overton, Pat Roach, Kate e Ruth Greenfield Roteiro: Bob Dolman, George Lucas Fotografia: Adrian Biddle Trilha Sonora: James Horner Produção: Nigel Wooll Duração: 130  min. Estúdio: Imagine Entertainment / Lucasfilm Ltd / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)

Cotação 5 estrelas