Zabriskie Point (1970)

Por André Dick

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No início dos anos 1970, depois de uma trajetória muito bem definida no cinema europeu, com obras como O eclipse e Blow-Up, o italiano Michelangelo Antonioni fez sua estreia nos Estados Unidos com um filme marcado inicialmente pela polêmica, Zabriskie Point. Visto como uma tentativa de Antonioni em realizar uma síntese da contracultura dos anos 1960, ainda em expansão no início da década seguinte, a obra carrega, por um lado, as marcas de sua época: lá estão os temas apresentados de maneira evidentemente clara para que o espectador possa entendê-los sem recorrer excessivamente a tramas ou diálogos. Por outro lado, o diretor consegue, de maneira bastante eficaz, produzir uma espécie de cenário de sonho para sua narrativa simples.
Mark (Mark Frechette) está em uma reunião com estudantes quando, vendo que não acrescentaria nada, diz que prefere morrer, mas de tédio. Antonioni ingressa na narrativa colocando esse personagem como um símbolo de juventude rebelde, sobretudo quando tenta fazer uma visita a um de seus amigos na prisão e se identifica nominalmente pelo nome que ninguém percebe ser daquele que serviria de parâmetro, contudo não para Antonioni, que o coloca junto com um liquidificador cultural, em que todos são absorvidos.

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Depois de uma passagem por uma loja de armas, com um amigo, ele é confundido com uma homem que acaba atirando num policial durante um protesto juvenil. Isso é motivo claro para que ele tente escapar, a bordo de um avião. Ao mesmo tempo, acompanhamos os passos de uma jovem, Daria (Daria Halprin), que decide largar o seu trabalho e partir numa jornada de autoconhecimento. Embora seu chefe, Lee Allen (Rod Taylor), queira impedi-la, Daria vai parar no deserto dos Estados Unidos, rumo ao lugar em que encontrará Mark e que reserva o título do filme, além de uma justificativa para a contracultura e a liberdade do amor. Mark e Daria são dois personagens que parecem unidimensionais, como assim foram vistos por Roger Ebert e Pauline Kael em suas críticas ferinas contra a obra de Antonioni. Entretanto, eles servem mais como símbolos de uma busca inalcançável, que o cineasta italiano focalizava na sua trilogia dos anos 60 (A aventura, A noiteO eclipse), seguida pelo não menos necessário Red desert, no Vale da Morte, em que se conhecem e em que irão se aproximar, como se fossem escolhidos um para o outro. Mark grita, em meio ao deserto, que eles podem ser os pioneiros do lugar, e as cenas em seguida reservam mais uma cena edênica onde não há árvores nem água nem alívio, mas uma reunião teatral de corpos.
Não se pode esquecer que esta passagem é antecedida pela chegada de Daria a uma cidadezinha, em que, num bar, se desenha a tradição do interior dos Estados Unidos, com crianças tentando apedrejá-lo. Mas ainda mais quando, depois de avançarem no vale, surge um policial tentando descobrir o que está acontecendo ali, como uma espécie de vigia. Não há limites para a liberdade, aponta Antonioni, num diálogo direto com outras obras do mesmo ano, como De volta ao vale das bonecas, mas esta liberdade tem um preço.

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Zabriskie Point coloca o personagem do empresário Lee, feito por Taylor, como uma representação dos Estados Unidos (conforme a cena em que ele conversa em seu escritório, com a bandeira do país ao alto) e um símbolo do desbravador, embora não de todo consciente ou receptivo. A sua casa no deserto é construída sobre um rochedo, mas o domínio é o mesmo que existe do arranha-céu na cidade: embora numa paisagem mais inóspita, mantém-se a piscina em desacordo com a água escorrendo pela rocha logo ao lado.
Com uma trilha que vai de Pink Floyd a Rolling Stones, Zabriskie Point é uma lembrança excepcional de como se pode realizar um filme baseado principalmente em sons e imagens. Não estamos tão longe, embora não pareça, dos experimentos de Kubrick no final da década de 1960, com uma tendência evidente a lançar imagens como se fossem enigmas a serem desvendados pelo espectador. O fio narrativo, no qual também colaborou o dramaturgo e ator Sam Shepard (Paris, Texas), é muito tênue, e Antonio não esconde isso, nem pretende fazê-lo.

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O fato de no início haver uma alternância entre as imagens de protestos juvenis e o de propagandas ensolaradas, que remetem a uma espécie de pop art com outdoors, anúncios de todos os tipos e tamanhos, reserva – muito mais do que uma contestação ao sistema financeiro – a ideia de que, para Antonioni, predomina  em seus personagens o discurso individual. É desta maneira que Mark e Daria agem: sempre contrários a uma pretensa comunidade, em que se gritam palavras de ordem sem efetivamente visar alguma mudança. Esta faceta antecipa, inegavelmente, o trabalho de Terrence Malick em Terra de ninguém, em que o pai da jovem que fugia com o cowboy urbano feito por Martin Sheen era um pintor de outdoors. As cores vivas se espalham ao longo das imagens de Zabriskie Point, destacadas pela fotografia de Alfio Contini. A própria imagem do avião pilotado por Mark e em determinado momento pintado com várias tonalidades representa os jovens que partiram, na época, para o Vietnã. Para Antonioni, com ou sem volta, não há saída para esses jovens.

Zabriskie Point, EUA, 1970 Diretor: Michelangelo Antonioni Elenco: Daria Halprin, Mark Frechette, G. D. Spradlin, Kathleen Cleaver, Paul Fix, Rod Taylor Roteiro: Clare Peploe, Franco Rossetti, Michelangelo Antonioni, Sam Shepard, Tonino Guerra Fotografia: Alfio Contini Produção: Carlo Ponti Duração: 112 min. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) Distribuidora: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)