Aliados (2016)

Por André Dick

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Depois de apostar em animações na década passada, como Beowulf, O expresso polar e Os fantasmas de Scrooge, Robert Zemeckis vai aos poucos regressando aos filmes com atores: primeiro, foi O voo, com uma atuação notável de Denzel Washington, o segundo A travessia, apresentando Joseph Gordon-Levitt num papel curioso, e agora Aliados. Zemeckis foi uma das grandes descobertas de Steven Spielberg. Revelado no divertido Febre da juventude, sobre um grupo de jovens que tentava chegar aos Beatles antes de eles se apresentarem num programa dos Estados Unidos, Zemeckis coescreveu 1941 e realizou algumas pérolas dos anos 80, a exemplo de Tudo por uma esmeralda, De volta para o futuro e Uma cilada para Roger Rabbit, esses dois últimos produzidos por Spielberg. Nos anos 90, completou a trilogia de De volta para o futuro e dirigiu Forrest Gump, que lhe deu os Oscars de melhor filme e direção, além da já clássica ficção científica Contato, tendo Jodie Foster e Matthew McConaughey à frente do elenco. Ainda na virada do século ele realizou uma das melhores obras com Tom Hanks, Náufrago.
Baseado num roteiro de Steven Knight, Zemeckis mostra o encontro na Segunda Guerra Mundial de um oficial da inteligência canadense Max Vatan (Brad Pitt) e a integrante da Resistência Francesa Marianne Beausejour (Marion Cotillard). Eles viajam para Casablanca, no Marrocos, a fim de empreenderem uma missão contra nazistas. Isso porque Marianne tem contatos com os alemães e faz com que ambos possam ingressar num determinado local.

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Ambos se mostram interessados em serem verdadeiramente um casal, também para disfarce, principalmente por parte de Marianne. A aproximação surge aos poucos, embora a princípio Max queira se concentrar apenas nas suas tarefas como espião, e uma tempestade no deserto é vista como o ponto de conciliação entre duas pessoas solitárias. Já envolvido, ele passa a desconfiar que Marianne pode ser uma espiã da Alemanha. Os seus superiores, principalmente Frank Heslop (Jared Harris) e um oficial da SOE (Simon McBurney), passam a querer que ele faça testes a fim de provar isso, e o filme segue a linha de um thriller de espionagem com toques de romance.
Max entra em contato com alguns homens, Guy Sangster (Matthew Goode), e um piloto chamado George Kavanagh (Daniel Betts), a fim de descobrir se ela de fato pode não ser a pessoa que diz que é. Sua única familiar a dividir seus receios é a irmã Bridget (Lizzy Caplan, subaproveitada) e, a partir desse ponto, Aliados se mostra como a construção de um homem acuado por um futuro que terá de construir em desconfiança. Nesse sentido, Cotillard constrói uma Marianne de maneira interessante: se, por um lado, sabemos que ela tem um preparo para o combate, ela se mostra vulnerável na maioria das vezes. O espectador, porém, não tem certeza se ela é uma pessoa que pode prejudicar ou não Max e viver uma vida tranquila com ele.

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A narrativa simples trata, na verdade, do enigma de estar apaixonado por alguém que verdadeiramente não se conhece, o que rende, por parte do roteiro, sequências em que o personagem de Pitt se sente realmente conturbado. É interessante como ele em nenhum momento se sente disponibilizado às tarefas que precisa efetuar e, nesse sentido, a possível vida tranquila que poderia ter com Marianne representa o reencontro com suas próprias origens longe da carreira que empreendeu. Os símbolos que Zemeckis distribui ao longo da história remetem algumas vezes a outras obras, como Império do sol e Ponte dos espiões, ambos de Spielberg, principalmente na empatia melancólica que os personagens centrais despertam – longe de qualquer manifestação de êxito, esses são personagens que procuram apenas o sossego em meio ao eclipse humano de uma Guerra Mundial.
Até certo ponto, parece que Zemeckis deseja oferecer uma versão romântica da Segunda Guerra Mundial – e as batalhas aéreas que ele filma lembram sobretudo as de Esperança e glória, dos anos 80 – quando, na verdade, está mostrando como esta faceta pode ser colocada em dúvida ou mesmo corrompida quando não existe num ambiente capaz de mantê-la.

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A química entre Pitt e Cotillard só perde em destaque para a fotografia brilhante de Don Burgess e para a reconstituição de época detalhista. Existe aqui, no mote da história de Knight, autor de roteiros como o de Senhores do crime, de Cronenberg, não apenas uma clara homenagem ao clássico Casablanca, como referências a O céu que nos protege e Bastardos inglórios. Como nesses filmes – o de Bertolucci mostra especificamente um casal em crise numa viagem pelo Saara depois da Segunda Guerra Mundial –, os personagens são enigmáticos, e não se sabe muito bem qual o posicionamento de cada um. O clima é de uma peça europeia, bem mais lento do que normalmente um filme norte-americano costuma ser, com revelações sendo feitas aos poucos, sem nenhuma pressa. Possivelmente faltam alguns elementos: a narrativa não desenvolve os personagens centrais de maneira que o espectador possa se interessar mais por eles, e algumas soluções soam excessivamente fáceis. De qualquer modo, esta é uma história com reais atrativos e que Zemeckis entrega ao espectador com sua competência habitual de artesão.

Allied, EUA, 2016 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Brad Pitt, Marion Cotillard, Jared Harris, Matthew Goode, Lizzy Caplan,Simon McBurney Roteiro: Steven Knight Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Graham King, Robert Zemeckis, Steve Starkey Duração: 124 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: GK Films / Paramount Pictures

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Uma cilada para Roger Rabbit (1988)

Por André Dick

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Duas crianças causam muitos problemas aos pais, até o dia em que pedem uma nova babá. Quem chega, voando de guarda-chuva, é Mary Poppins(Julie Andrews), que transforma a vida dessa família tradicional, administrada por Mr. Banks (David Tomlinson). O melhor amigo dela é um rapaz que faz apresentações no parque – talvez a interpretação mais conhecida de Van Dyke neste filme de 1964. Enquanto Mary viaja com as crianças por um mundo encantado (a primeira mistura perfeita de humanos com animação), Banks pretende associá-las ao banco onde trabalha. Alguns o consideram um musical, outros um filme direcionado ao público infantil, mas é difícil negar sua qualidade e números de dança, como o da chaminé, na qual se mistura a realidade e a fantasia para recriar um novo mundo. Desde a parte técnica, passando pela direção e elenco, Mary Poppins, de Robert Louis Stevenson, marcou época.
Em 1971, na mesma linha, foi realizado Se minha cama voasse, do mesmo diretor de Mary Poppins, também com algumas cenas animadas. A atriz da Broadway Angela Lansbury faz uma aprendiz de feiticeira na época da invasão nazista. Utiliza uma de suas mágicas para fazer uma cama voar e leva junto três crianças. Juntas, viajam para um mundo animado (com cenas que lhe valeram o Oscar de efeitos especiais).
Outra referência distante a misturar desenho animado com atores foi A canção do sul, de 1946, também dos estúdios Disney, ganhador do Oscar de canção (“Zip-A-Dee-Doo-Dah”), e com cenas antológicas. É o retrato de uma criança, que vai viver no sul dos Estados Unidos com a mãe. Lá, acaba fazendo amizade com um homem (James Baskett), contador de histórias sobre um coelho, uma raposa e um urso – as cenas animadas são ótimas –, o que acaba provocando a vaidade da mãe do garoto. É uma pequena obra-prima.

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Uma cilada para Roger Rabbit, baseado no romance homônimo de Gary K. Wolf, reuniu as técnicas desses filmes do final dos anos 1980 com os ganhos da Industrial Light & Magic de Goerge Lucas. Tecnicamente impecável – ganhou Oscars de montagem, efeitos sonoros, efeitos especiais e melhor animação especial –, é um dos melhores filme de Robert Zemeckis (Febre de juventude, De volta para o futuro e Forrest Gump), também porque consegue mostrar uma ambientação histórica (a Hollywood dos anos 40, mais exatamente de 1947, ou seja, durante a II Guerra Mundial), mais rara em sua trajetória. Ele acerta desde a escolha do elenco até os atores que dublam os desenhos.
Começa em plena ação animada, em que o coelho Roger tenta salvar Baby Herman (voz impagável de Lou Hirsch) de um tombo. Em seguida, Baby sai resmungando do estúdio, empurrando os  humanos. Isso porque os desenhos animados vivem em Toontown, em Hollywood, convivendo com seus criadores. R.K. Maroon (Alan Tilvern) contrata o detetive Eddie Valiant (Bob Hoskins, excelente) para investigar se Jessica, a mulher de um desenho animado, Roger Rabbit (com voz trepidante de Charles Fleischer), que trabalha para a Maroon Desenhos, está cometendo traição.
Depois de ser informado da possível traição de Jessica com Marvin Acme (Stubby Kaye), dono da Corporação Acme e proprietário da Toontown, este é morto e Roger Rabbit vira o principal suspeito. O coelho procura Valiant para tentar se salvar. O detetive, com a ajuda da namorada Dolores (Joanna Cassidy) e psicologicamente abalado depois da morte do irmão, precisa repensar na ideia de tentar ajudar um desenho – cuja imagem ainda lhe traz calafrios. Quando chega ao local do crime, o detetive conhece o juiz da Corte Superior Distrital de Toontown, Doom (Cristopher Lloyd, o Doc Brown de De volta para o futuro), que procura por Roger.

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Mistura-se a essa ideia inicial o fato de que Acme havia feito um testamento deixando Toontown para os desenhos, que não interessa a Doom, que pretende construir uma autoestrada no lugar. No entanto, ele quer mais: destruir os desenhos animados com um caldo químico verde capaz de dissolvê-los, e anda cercado de doninhas que dirigem um furgão policial.
A intensidade de cores se completa com cenas brilhantes – a perseguição no carro Benny, os personagens dos estúdios Disney desfilando pelos cenários (personagens de Fantasia, Dumbo, Peter Pan, Mickey Mouse) – e humor na medida certa (o momento em que Valiant encontra Betty Boop no show de Jessica). Os elementos anteriores da trajetória de Zemeckis estão aqui: como em Febre da juventude e De volta para o futuro, Zemeckis emprega uma sucessão de situações divertidas, mas sem o peso descartável de grande parte dos blockbusters. Do mesmo modo, consegue humanizar personagens que poderiam ser vistos apenas como rótulos. Embora Valiant represente um detetive situado nos anos 40 e numa situação, apesar de diferente, típica do cinema noir, ele consegue se desvencilhar sempre de uma pretensão extra, embora pareça, ao mesmo tempo, atingido por seu passado – e que conduz sua desconfiança ao mundo das animações. Zemeckis também consegue colocar num limite a figura de Roger Rabbit sem que ele soe insuportável, quando no início ele assiste a uma apresentação de Donald e Patolino (cada qual em seu piano, prestes a uma mútua destruição) e depois acaba tendo seu lado emotivo e transtornado à mostra – isso sem falar na cena em que ele está no cinema se divertindo com Pateta, para ele o maior astro. Com a voz de Kathleen Turner certamente reprisando Corpos ardentes e influenciada pelas divas dos anos 40, Jessica também consegue marcar presença entre Valiant e os vilões.
No entanto, há um subtexto bem mais grave nos gracejos de Uma cilada para Roger Rabbit, que é a própria condução de um personagem que deseja exterminar uma cidade de desenhos animados com um caldo químico capaz de fazê-los desaparecer (a partir daqui, spoilers). Os requintes de maldade do juiz Doom e a necessidade de passar por cima dos bondes para dar visibilidade ao seu desejo é também a necessidade de, em meio à II Guerra Mundial, lucrar não mais por meio da arte, mas em cima da destruição. O juiz Doom, de certo modo, consegue simbolizar que o maior inimigo esconde, por trás, a própria composição daqueles que combate – composição desvirtuada – e o seu figurino é similar ao do nazista de Os caçadores da arca perdida. Ou seja, ele, mais do que destruir sua origem, quer, por meio dela, atingir outra fonte de faturamento. Por isso, a cena de Roger e Jessica pendurados no final tentando fugir de uma mangueira com o produto químico que pode destruí-los, contra um muro que se abre para a cidade de Toontown, representam a linha que, assim como separa a realidade da fantasia, aproxima as duas, assim como Se minha cama voasse. Para Zemeckis, durante a II Guerra Mundial, a ideia de infância da humanidade era apagada pela tragédia. E por isso Uma cilada para Roger Rabbit conseguiu se tornar uma obra única no gênero, um dos responsáveis por reerguer o campo das animações e que, mais do que acrescentar agradáveis surpresas e reviravoltas bem delineadas, é um acabado produto histórico.

Who framed Roger Rabbit, EUA, 1988 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Bob Hoskins, Christopher Lloyd, Charles Fleischer, Joanna Cassidy, Stubby Kaye, Alan Tilvern, Lou Hirsch, Richard Le Parmentier, Betsy Brantley, Joel Silver Roteiro: Jeffrey Price, Peter S. Seaman Fotografia: Dean Cundey Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Frank Marshall, Robert Watts Duração: 104 min. Estúdio: Amblin Entertainment / Touchstone Pictures / Silver Screen Partners III

Cotação 4 estrelas e meia

O voo (2012)

Por André Dick

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Demasiada carga leva o diretor Robert Zemeckis, depois de receber o Oscar de melhor filme e diretor por Forrest Gump em vez de Tarantino e seu Pulp Fiction. Zemeckis é, antes de tudo, um artesão descoberto por Steven Spielberg sobretudo depois de sua joia Febre da juventude, em homenagem aos Beatles, e que nos anos 80 voltou a capturar parte da juventude e da infância na trilogia De volta para o futuro e Uma cilada para Roger Rabbit, projetos de ponta. Se depois de Forrest Gump, o diretor só voltaria a acertar novamente em Contato e Náufrago, dedicando-se por um tempo a animações um tanto desajeitadas (como O expresso polar e Beowulf), desta vez ele retoma a agilidade da ação exibida em seus melhores momentos nos anos 80 e 90 em O voo, o filme que também marca a maior atuação de Denzel Washington desde Dia de treinamento, pelo qual recebeu o Oscar de melhor ator.
Ele interpreta Whip Whitaker, um piloto de avião movido a drogas, cocaína e álcool, principalmente (daqui em diante, possíveis spoilers). Inicia-se o filme com ele dividindo a cama com uma aeromoça, Katerina Márquez (Nadina Velazquez), colega de trabalho, num hotel perto de um aeroporto. Com voo marcado para a manhã, Whitaker não parece tão alterado como deveria, apesar do copiloto, Ken (Brian Geraghty), e de outra aeromoça, Margaret (Tamara Tunie), perceberem algo estranho. Depois de enfrentar uma tempestade na decolagem, o percurso fica mais tranquilo, até o surgimento de um problema técnico. Zemeckis filma esta sequência com perícia, colocando o espectador no meio de uma manobra arriscada para Whitaker tentar salvar sua tripulação. Com o feito realizado, ele acorda numa cama de hospital, sendo logo cercado por policiais e por Charlie (Bruce Greenwood), amigo que trabalha no Sindicato. No hospital, além de receber a visita do amigo traficante Harling Mays (John Goodman, divertido), ele conhece Nicole (Kelly Reilly), cuja ação na primeira parte divide as atenções com as manobras de Whitaker. É esse encontro entre os personagens que Zemeckis pretende filmar e o que o personagem precisa perder para que haja um reencontro com a sua fazenda de infância. Diante do seu estado físico e emocional, ele precisará explicar, com a ajuda do advogado Hugh Lang (Don Cheadle), como conseguiu pilotar se estava sob efeito de drogas. E, aos poucos, como o personagem de Tom Hanks, em Náufrago (com o qual O voo, não só pelo diretor, tem semelhanças, também por seu início), ele irá valorizar determinadas coisas para as quais não dava importância.

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A princípio, O voo está situado num limiar entre a investigação de um acidente e a procura de provas, de ambos os lados, do sindicato e da National Transportation Safety Board (NTSB), que investiga a ação dos pilotos, para se provar ou negar determinadas situações examinadas, e a compreensão de que o personagem de Washington tem problemas alcóolicos que o imobilizam tanto diante de uma nova relação quanto com sua família, que não deseja vê-lo. Parece ser apenas uma recorrência a velhos clichês, mas Zemeckis não verte isso de maneira fácil e o personagem sendo um piloto de avião não se apresenta de maneira tão óbvia. O diálogo entre Whitaker, Nicole e um jovem acometido pelo câncer na escadaria do hospital é especialmente bem construída, com suas peças sendo jogadas aos poucos, até que se convença o espectador sobre cada personagem. No meio de toda sua situação pessoal trágica, encontra-se a crença ou não em Deus e na religiosidade.
Whitaker tenta convencer a todos que só ele poderia realizar a manobra feita e que dependeu apenas de si mesmo, sem nenhuma ajuda divina. Os laudos técnicos lhe dão razão. Mas como Whitaker pode entrar numa reunião de alcóolicos anônimos se ele, na verdade, se considera um herói inatingível, capaz de superar tudo o que pode ser crença pessoal, mesmo independente da religião? É esta medida que o roteiro de John Gatins, indicado ao Oscar, faz de maneira sensível. Neste sentido, O voo não está centrado apenas numa cena jurídica, que pode inocentar ou culpabilizar o personagem central, e sim numa cena de dilemas, ética e crença naquilo que não pode ser rapidamente entendido e no vício que não pode ser enfrentado sem o enfrentamento pessoal e do que ele mesmo próprio acredita (lamenta-se que, nesta etapa, a participação de Kelly Reilly diminua).

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Washington atua de modo excepcional como Whitaker, revelando minúcias e relutâncias de um verdadeiro personagem, pois O voo é um estudo sobre seus movimentos e sobre sua percepção da realidade. Ele é um ator completo num momento especialmente talentoso: seu trabalho com o olhar, demonstrando sua insegurança e angústia, e, ao mesmo tempo, sua raiva contida, é apenas para grandes performances. Num ano com Day-Lewis e Phoenix em grande forma, Washington mostra que não fica nada a dever, construindo um personagem enigmático. Não se trata exatamente de um personagem exatamente confiável, mas com falhas, com problemas na relação com o filho e a ex-mulher e na sua dificuldade de lidar com o que deve ser revisto na sua passagem pelo avião antes do acidente, o que faz com que o espectador se aproxime dele – e em momentos cruciais passe a querer que ele de fato consiga se estabelecer de forma mais equilibrada, sem que isso soe afetado. Sua tentativa de se inserir no meio político para tentar fugir de suas responsabilidades e suas relações atribuladas com o advogado que tenta representá-lo do melhor modo, e no entanto é ignorado quase sempre em cena, são algumas das características que se inserem no trabalho de Zemeckis para demonstrar que na verdade estamos diante de um personagem absolutamente solitário, mas por seu próprio desinteresse em se modificar diante de seu passado.
Lamenta-se apenas que O voo não desenvolva alguns relacionamentos e personagens da melhor forma e insista, ao final, com uma espécie de mensagem para tudo o que aconteceu, menosprezando um pouco a compreensão do espectador e sua liberdade de imaginar que o personagem de Whitaker não é um molde feito para indicar determinados caminhos ou não. Este final é apontado, de fato, como seu grande problema. No entanto, não apaga o que vem antes: O voo é um filme dramático, com ótimo elenco, capaz de prender a atenção e mesmo apresentar uma discussão interessante por trás de sua narrativa.

Flight, EUA, 2012 Diretor: Robert Zemeckis Elenco: Denzel Washington, James Badge Dale, Don Cheadle, John Goodman, Kelly Reilly, Bruce Greenwood, Melissa Leo, Nadine Velázquez, Tamara Tunie Produção: Laurie MacDonald, Walter F. Parkes, Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis Roteiro: John Gatins Fotografia: Don Burgess Trilha Sonora: Alan Silvestri Duração: 138 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Paramount Pictures / Parkes/MacDonald Productions

Cotação 3 estrelas e meia