Meu amigo, o dragão (2016)

Por André Dick

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Esta refilmagem atualizada do clássico de 1977 em que o grande destaque era Mickey Rooney, passado nos anos 1900, envolvendo pescadores e o dragão do título, acompanhados de várias canções e sua mistura de humanos com animação – na época, mais de uma década após o sucesso de Mary Poppins e alguns anos depois do êxito de Se minha cama voasse – se dá num momento em que a Disney atravessa uma fase de grandes sucessos de animação, como Zootopia, e live action, como Mogli – O menino lobo. A companhia tem sido exitosa em recuperar algumas obras clássicas sob nova roupagem, emulando a mesma atmosfera de seu período mais áureo, dos anos 40 aos anos 60, além de conceder espaço à série Star Wars em grande escala depois de George Lucas vender seus direitos.
A história inicia mostrando Pete (Levi Alexander), um menino de cinco anos, que viaja com seus pais (Gareth Reeves e Esmée Myers) quando o carro acaba sofrendo um acidente. O menino se vê obrigado a entrar na floresta de Millhaven, à margem da estrada, onde passa, depois de perseguido por lobos, a ser protegido por um dragão. É um momento-chave para a história, à medida que depois desse acontecimento tudo se transformará em sua vida. Ele dá o nome de Elliot ao dragão, em razão de ser o nome do cachorro de seu livro favorito. E, se há uma coisa que os estúdios Disney gostam de fazer, é mostrar dragões em suas histórias, não apenas no clássico a partir do qual este filme parte, mas Dragonslayer, de 1981, com efeitos visuais até hoje interessantes, assinado por Matthew Robbins.

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Depois de seis anos, Pete (agora Oakes Fegley) vê o integrante de uma serraria que surge para fazer uma obra na floresta de Pacific Northwest, Gavin (Karl Urban, fazendo um personagem diferenciado do McCoy de Star Trek), e é perseguido por Natalie (Oona Laurence), filha de Jack (Wes Bentley). Quando Natalie acidentalmente cai da árvore onde tenta alcançar Pete, seus gritos atraem seu pai, e sua namorada, uma guarda florestal, Grace Meacham (Bryce Dallas Howard). Pete tenta fugir, no entanto Gavin, irmão de Jack, o derruba. O pai de Grace (Robert Redford) sempre contou sobre uma lenda de dragão nas redondezas às crianças, mas sua filha nunca acreditou nele. Isso é um bom início para mudar de ideia. E, a partir de determinado momento, o xerife Dentler (Isiah Whitlock Jr.), também vai querer conhecer melhor essa história. Nenhum dos personagens, porém, segue uma linha de completa bondade ou de vilania – todos se mantêm num meio-termo.
Se Meu amigo, o dragão conserva a magia do original, é acrescido, pelo diretor David Lowery, um tom que lembra inicialmente O quarto de Jack e Super 8, não apenas pela aparência do menino principal, como pelo drama de não ter uma família evidente. Pete é sozinho e tem em Elliot – não por acaso, nome do menino de E.T. – sua grande companhia existencial, que creem ser imaginária, inicialmente: ambos dormem numa caverna e passam o dia pela floresta, entre escaladas de árvores e passeios pelo rio (porém, o dragão, às vezes, pode não ser visto).

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A amizade entre Pete e Grace se faz rapidamente, no sentido mais apurado da fantasia e da aceitação familiar, pois é um menino que procura um núcleo. Como poucas peças hoje em dia, este é um filme que possui coração e uma certa magia que retoma elementos perdidos em algum passado longínquo. Há uma espécie de ingenuidade no bom sentido nas ações dos personagens que levam a narrativa a um espaço amplo de aceitação do espectador. Não há dúvida de que o diretor Lowery utiliza vários encaixes comuns a esse tipo de história – desta vez, porém, a arquitetura é realmente interessante, e mesmo o que poderia se transformar numa ode à defesa do meio ambiente se converte mais numa melancolia passageira relacionada aos homens que sobrevivem da floresta e de sonhos abrigados (ou esquecidos) nela.
Há elementos também de Mogli e o dragão nem de longe lembra Smaug (sendo uma criação da empresa de Peter Jackson), mas é muito mais primo distante do cão de A história sem fim – e pode-se imaginar que Pete o imagina assim também por causa de sua história favorita. O diretor Lowery fez há alguns anos um filme indie, Amor fora da lei, com Ryan Fleck e Rooney Maara, e a montagem de um cult de Shane Carruth, Upstream color. Em Meu amigo, o dragão ele focaliza bosques enevoados e um clima gélido, cercado pelo calor familiar e de Grace, com boas atuações de todo o elenco, principalmente de Fegley e Dallas Howard, atriz subestimada desde Histórias cruzadas, em que fazia um personagem que era contraponto ao de Jessica Chastain, com quem é muito parecida plasticamente, e aqui numa oposição oposta à de A vila.

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No ano passado, ela participou do grande sucesso Jurassic world, entretanto com uma personagem não exatamente interessante. Redford também está bem, com seu aspecto envelhecido sem forçar a sabedoria da idade, evocando talvez Junior Boomer, dos anos 70, o homem branco que largava a civilização para habitar a natureza, e Lowery lida com este elenco multiestelar com talento insuspeito e grande acerto na condução de cada um.
De modo geral, Meu amigo, o dragão é muito bem realizado, com efeitos visuais discretos e eficientes e um contínuo tom de descompromisso, no roteiro escrito por Lowery em parceria com Toby Halbrooks. Não há mais as canções do original, e sim algumas canções, como de Leonard Cohen, St. Vincent e The Lumineers, criando, por vezes, uma atmosfera indie de origem do diretor, com sua tentativa de dialogar com Malick. Superior a outras refilmagens, como a de Cinderela, Meu amigo, o dragão é agradável no ponto certo, emocionante sem cair na pieguice e por vezes dramático no melhor sentido.

Pete’s dragon, EUA, 2016 Diretor: David Lowery Elenco: Bryce Dallas Howard, Robert Redford, Oakes Fegley, Oona Laurence, Wes Bentley, Karl Urban, Isiah Whitlock Jr. Roteiro: David Lowery, Toby Halbrooks Fotografia: Bojan Bazelli Trilha Sonora: Daniel Hart Produção: James Whitaker Duração: 103 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Walt Disney Productions

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Até o fim (2013)

Por André Dick

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Depois de saírem as indicações ao Oscar, Robert Redford, visto até então como um dos possíveis nomeados na categoria de melhor ator por seu papel em Até o fim, disse que possivelmente não havia sido lembrado em razão de o cinema ser uma indústria e o estúdio não chegou a acreditar na divulgação do filme de J.C.Chandor (Margin Call). Indicado, no entanto, à categoria do Spirit Awards, Redford já ganhou o Oscar por sua direção em Gente como a gente, e já protagonizou filmes ganhadores do prêmio principal (como Golpe de mestre e o próprio Gente como a gente). Quando vemos o seu novo filme, temos a ideia de que ele realmente não tinha uma pretensão especial para ser indicado às categorias principais. Trata-se de um filme feito especialmente com a ideia de sobrevivência – e tenta fazer dela seu conceito.
Nos últimos anos, tivemos alguns grandes filmes com este tema, especialmente dois que acabaram justamente se destacando nos Oscars: As aventuras de Pi e Gravidade. De As aventuras de Pi, temos o fato de Até o fim também ser um filme sobre um homem enfrentando os perigos em alto-mar a partir do momento em que seu barco passa a ter problemas. Mas, se na fantasia de Ang Lee havia o tigre Richard Parker, em Até o fim temos apenas o personagem de Redford, a exemplo de Tom Hanks de Náufrago. Mas, ao contrário do filme de Zemeckis, não sabemos a quem o homem de Até o fim precisa pedir desculpas em carta. Finalmente, temos o exemplo de Gravidade, o filme que rendeu a melhor atuação de Sandra Bullock, em sua fuga da morte espaço afora, tentando se prender à Terra.

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Até o fim

O filme de Chandor cede a todos os apelos de um filme nesse sentido: não raro, o espectador se sente angustiado com a citação, pois vê o personagem isolado nele, sem ter a quem pedir ajuda. Em Até o fim, parece, ainda, que o homem retratado é velejador e experiente, tamanha a sua perícia em lidar com os problemas que vão surgindo pouco a pouco – e se os restos de um cargueiro são o principal vilão, o rádio de comunicação passa a ser o único intermédio com a civilização. Com o máximo de empenho, Chandor vai buscando cada uma das ações do personagem na tentativa de sobreviver em alto-mar, tentando basear sua localização num mapa que parece mais longínquo ainda do que a ajuda para seu estado. Até o fim vem calculadamente como um engenho de roteiro prático, em que cada movimento acaba valendo mais do que uma discussão entre personagens e um conflito. O espectador é convidado a reconhecer cada um dos passos do personagem nessa tentativa de sobrevivência durante alguns dias, certamente insuficientes diante da situação que estabelece.
No entanto, talvez isto não seja o bastante para configurar uma situação ainda mais dramática. Talvez porque seja difícil ter uma proximidade maior com o personagem de Robert Redford. Sua atuação é interessante e compenetrada, mas lhe falta uma camada mais emocional. Tudo soa muito controlado num acontecimento desesperador. Redford tem uma difícil atuação por desempenhar um filme em que precisa segurar de ponta a ponta uma narrativa em que o conflito com os humanos está ausente – sendo a natureza aquela que pode ajudá-lo ou definir seu destino – e consegue se notabilizar pela paciência justamente em ter pouco a dizer. Trata-se, nesse sentido, de uma proeza. Mas o filme se contenta justamente em estabelecer esta proeza do comedimento. Em certo momento, é difícil acreditar na paciência e tranquilidade do personagem – Redford parece, neste personagem sem nome, situar seu envolvimento com a palavra em apenas um momento, e este momento é suficiente para determinar que tudo o mais parece ter sido filmado para mostrá-lo, tornando-se o núcleo e, inevitavelmente, seu problema.

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Alguns espectadores do filme ficariam contrariados, considerando que isso tiraria do filme sua atmosfera mais enigmática e abstrata: a questão é que se sente falta de conhecer mais sobre este personagem além daquilo que a narrativa revela. Não se trata de uma linearidade, mas de um estabelecimento de que a humanidade não depende apenas de um estado, mas de um vínculo. E o fato de o filme deixar questionamentos a respeito do personagem não o torna necessariamente, como é o caso, complexo – pode ser uma escolha de estrutura da narrativa apenas condensada, mas sem ser efetiva. Em certos momentos, é como se Chandor tivesse tentado filmar no mar aquela passagem do astronauta em 2001, na transição do osso para a espaçonave. Precisávamos imaginar o que ele faz naquele nesse espaço, mais do que aquilo que nos é dado. Mas Kubrick é, sensivelmente, mais diretor do que Chandor no sentido de não se querer lidar apenas com a situação, mas com o vínculo que pode se estabelecer neste espaço. Da maneira como ele estabelece as pontas do filme, parece que  estava mais preocupado com o preciosismo da motivação central, esquecendo-se do restante – e da maneira como mostraria Redford chegar a um determinado ponto de limite. Há um aspecto de documentário até a metade do filme, que a fotografia e o trabalho de som (indicado ao Oscar) não conseguem encobrir, em que a emoção é relegada em favor de um pragmatismo, e, se ele melhora em sua parte final, sobretudo porque passa a mostrar um pouco mais a expectativa do personagem no que se refere a uma possível solução, tornando-o mais plausível, não parece que muda seu estado de vida. Ou seja, se J.C. Chandor filma com competência e a trilha sonora de Alex Ebert tem bons momentos, até emocionantes, trazendo uma certa caracterização delicada aos percalços do personagem, e tornam Até o fim um filme ao menos de respeito, o resultado final acaba sendo próximo do desapontador.

Al is lost, EUA, 2013 Diretor: J.C. Chandor Elenco: Robert Redford Roteiro: J.C. Chandor Fotografia: Frank G. DeMarco, Peter Zuccarini Trilha Sonora: Alex Ebert Produção: Anna Gerb, Justin Nappi, Neal Dodson, Teddy Schwarzman Duração: 106 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Before The Door Pictures / Black Bear Pictures / Washington Square Films

Cotação 2 estrelas e meia