Short Cuts – Cenas da vida (1993)

Por André Dick 

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O cineasta Robert Altman, no início dos anos 90, havia voltado à cena com o sucesso em Cannes de O jogador, uma homenagem a Hollywood com sua sátira mordaz, que encontramos em MASH, por exemplo. No ano seguinte, ele lançou Short Cuts – Cenas da vida, em que reúne contos de Raymond Carver para contar várias histórias ao mesmo tempo. Temos certeza de que o tema está em outros filmes de Altman, sobretudo Nashville: a desilusão de um ser humano com o outro, ainda que exista um otimismo; o entrelaçamento de histórias, como uma espécie de elo existencial. A literatura de Carver é repleta de detalhes, mas quem emprega um ritmo incomum a elas é Altman. Por isso, ele está interessado em mostrar casais entendiados com a vida a partir de uma sequência inicial com helicópteros fazendo uma pulverização na cidade de Los Angeles. Um policial, Gene Shepard (Tim Robbins), incomodado com os latidos do cachorro que só agrada aos filhos, trai compulsivamente a mulher, Sherri (Madeleine Stowe), com Betty Weathers (Frances McDormand). Esta se separou de Stormy (Peter Gallagher), piloto de helicóptero, ao que parece não muito satisfeito com a situação. O Dr. Ralph Wyman (Matthew Modine) está em conflito com a mulher pintora, Marian Wyman (Julianne Moore), desconfia de uma traição, e não consegue agir de forma acertada no hospital, enquanto Stuart Kane (Fred Ward) vive com Claire (Anne Archer), que trabalha como palhaça de festas infantis, parada pelo policial Gene numa de suas escapadas porque “está dirigindo devagar demais”. Temos ainda Doreen Piggot (Lily Tomlin), atendente numa lanchonete, onde Earl (Tom Waits), chofer com problemas de bebida, aparece constantemente. Ambos são pais de Honey (Lily Taylor), apaixonada por ver peixes no aquário do apartamento vizinho e casada com um maquiador, Bill (Robert Downey Jr.). Amigos de Lois Kaiser (Jennifer Jason Leigh), que faz programa telessexo em casa, diante dos filhos, e Jerry (Chris Penn), limpador de piscinas, obviamente reprimido pela situação à volta, Honey e Bill são os personagens mais enigmáticos do filme, e não por acaso, ao final, eles participam diretamente de uma determinada situação definitiva.

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Altman também mostra alguns amigos se reunindo para pescar, entre os quais Stuart Kane (quando encontram um corpo boiando, mas pensam que, se forem fazer uma denúncia, perderão o fim de semana), além de uma história que ajuda a estabelecer contato com outras: a de um menino, Casey (Zane Cassidy), filho de Howard Finnigan (Bruce Davidson), um âncora conhecido de TV, e Ann (Andie McDowell), que é atropelado, na ida para a escola. Ele acaba voltando para casa, dorme e entra em coma. As histórias aconteçam parelalamente, também em torno de uma cantora de jazz, Tes (Annie Hoss) e sua filha, Zoe (Lori Singer), uma violoncelista melancólica, que moram ao lado da casa dos Finnigans. Por isso, o centro é o atropelamento, que faz ligar todas as outras de modo incomum por Altman.
A maneira como o diretor entrelaça essas histórias, já demonstrada por ele mesmo em Nashville, seria inspiração para filmes como Magnólia e Crash, mas só aqui conseguimos ver com eventual clareza como as pessoas estão, descompromissadamente, interligadas. Não é motivo para Altman querer desenhar o perfil da humanidade, mas um retrato um tanto tedioso (embora sublime) dos Estados Unidos. Nele, não temos os neons entre cowboys de Thelma e Louise, mas uma frequente indagação diante do que não quer se deixar claro, na atitude dos personagens.
Uma constelação de figuras e imagens, além de conversas em profusão, tornam Short Cuts um dos filmes mais representativos dos anos 90, e uma espécie de síntese para os dias atuais, com sua ligação ininterrupta, antes dos tempos de internet, em que todos parecem conectados (para não falar em Cloud Atlas, que faz, em tempos diferentes, o que Altman apresenta aqui). Altman lança figuras como a do confeiteiro Andy Bitkower (Lyle Lovett) e do avô do menino Finnigan, Paul, que vai ao hospital desabafar com o filho, é feito por um extraordinário Jack Lemmon.

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Na verdade, é em Short Cuts, com suas ligações abruptas, que Altman antecipa o cinema nervoso dos dias atuais. Um cinema em que a montagem é peça fundamental para que o espectador se sinta inserido na narrativa. A constelação de personagens é uma espécie de significado para o fato de que a ação de um interfere nas ações de outros, mas não de forma evidente ou previsível. Pelo contrário: Altman coloca, nesse efeito, que personagens a princípio atenciosos na verdade não o são; que personagens tristes e melancólicos podem se recuperar em cumplicidade mútua.
Vejamos, por exemplo, como interfere o médico na condição do menino atropelado; ou como uma personagem que ouve a história da menina encontrada morta se emociona mais do que aqueles diretamente envolvidos pela situação, considerando-a apenas bizarra; ou como as pessoas dependem da vontade alheia para repercutirem a sua rotina por gerações e gerações. Do mesmo modo, como a simples escuta pode fazer um homem cercado de filhos entrar em pane e uma filha que tenta se aproximar da mãe por meio da música, sem conseguir ser bem-sucedida, preferindo fingir que está morta na piscina. Inevitável perceber como Altman vai construindo uma série de analogias: entre a mulher do rio e a menina da piscina; entre o menino doente e o casal que brinca com a agressão; entre o avô que espera uma chance de ajudar, sem saber se será verdadeira, e a mulher que vai ao velório da menina encontrada morta, sem conhecê-la; entre a pessoa que realmente tem sentimentos pela outra e o policial que acaba servindo de herói derradeiro para a família; entre o homem que deseja recuperar o filho no presente e o pai que só pretende lembrar do passado para justificar os erros cometidos. Consegue-se captar, nesse sentido, uma combinação entre o tédio e o patético, que oferecem uma comicidade ligeira, e o trágico, na própria indefinição dos personagens em agirem ou não conforme estão desejando. E a surpresa da ação de cada um: leva-se um peixe para um jantar pescado no mesmo rio da menina encontra morta; destrói-se uma casa porque sua dona partiu em viagem com o amante; uma mulher fica nua apenas para provocar o marido da amiga; e as amigas riem da angústia dos maridos em descobrirem se elas estão tramando algo.
Altman atinge escalas expressivamente humanas e desumanas nesta espécie de épico do cotidiano, sem concessão a batalhas ou feridas abertas de forma evidente. Os personagens estão buscando suas coisas, e entre elas está a própria vida que Altman concede a eles. Os cenários vislumbrados de Los Angeles soam, na maior parte do tempo, realistas, sem nenhum trabalho elaborado no que se refere à fotografia ou às imagens – apenas com o conhecido zoom de Altman –, mas é aí que reside o poder sensorial de Short Cuts, um filme que pode mesmo soar cansativo (suas três horas são percebidas em certos momentos), mas nunca desnecessário. Quando voltamos a ele, sabemos que, mais do que um filme, composto por um roteiro complexo e atores em fantástica exposição (de Lemmon, passando por Robbins, Tomlin, McDowell, até os que menos aparecem, como Chris Penn), estamos diante de um momento captado das vidas humanas.
Do alto, dos helicópteros, como Altman anuncia no início do filme, parecem apenas pontos brilhando na noite, alguns solitários se locomovendo para lá e para cá. Mas quando Altman os filma de perto, com a intimidade conhecida em sua obra e elimina qualquer senso de interpretação, a certeza é de uma obra brilhantemente arquitetada, em todos os seus detalhes. E as luzes se intensificam cada vez mais.

Short Cuts, EUA, 1993 Diretor: Robert Altman Elenco: Andie MacDowell, Bruce Davison, Jack Lemmon, Matthew Modine, Lane Cassidy, Julianne Moore, Anne Archer, Fred Ward, Jennifer Jason Leigh, Chris Penn, Lili Taylor, Robert Downey Jr., Madeleine Stowe, Tim Robbins Produção: Robert Altman, Cary Brokaw Roteiro: Raymond Carver, Robert Altman Fotografia: Walt Lloyd Trilha Sonora: Mark Isham Duração: 188 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: New Line Cinema

Cotação 5 estrelas

Popeye (1980)

Por André Dick

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Cercado de problemas durante a produção, Popeye, revisto hoje em dia, já com a distância demarcando suas qualidades e defeitos, mostra que poderia, antes de mais nada, haver uma transposição cuidadosa das histórias do marinheiro para o cinema. O roteiro de Jules Feiffer, baseado nos quadrinhos de E. C. Segar, é correto, simples, na medida certa, mas sem nunca cair no excessivamente infantil e o elenco, excepcional, com destaque para Robin Williams, em seu segundo filme, ainda sem os maneirismos característicos e fazendo Popeye com talento, com a direção de Robert Altman. Fazer esta adaptação era uma tarefa bem ao gosto do diretor, que nunca apreciou repetir fórmulas. Ele havia feito cinco anos antes Nashville, considerado sua obra-prima, e acabaria, por causa desse filme, injustamente, tendo sua carreira quase apagada na década de 80, voltando apenas com força em O jogador e Short Cuts no início dos anos 90. Somado a isso, Popeye ficaria marcado com uma obra falha dos estúdios Disney, apesar de ter tido uma boa bilheteria, mas como uma das obras menos consideradas de Altman. Trata-se de uma injustiça.
Depois de mostrar o personagem em desenho animado, dizendo que está no filme errado, mostra sua chegada, em versão humana, a Sweethaven, uma pequena cidade portuária, à procura de seu pai. Ali, conhece Olívia Palito (a brilhante Shelley Duvall, no mesmo ano em que fez O iluminado, com outras características, e que já havia feito Nashville; Altman brigou com os produtores para tê-la no papel), adota o bebê Gugu (Wesley Ivan Hurt, neto de Altman) e vira inimigo do temido Brutus (Paul Smith, o mais parecido com o personagem dos desenhos). As canções são apenas para deixar o filme mais simpático – ele não chega a ser, pelas características, um musical completo – e o clima é de desenho animado, até com alguns sons característicos nas cenas de briga, entre Popeye e os homens de um bar e com um lutador que chega à cidade, acompanhado de sua mãe (Linda Hunt), mas sem nunca cair no previsível. Pelo contrário, desde o início, quando Popeye se hospeda na casa da família de Olívia Palito, defendida pela comunidade por causa de Brutus querer casar com ela – e o ingresso dele na casa, junto aos convidados, é antológico –, o personagem é um solitário, e Williams consegue, em momentos demarcados, mostrar sua insegurança e tristeza por ter sido abandonado pelo pai ainda pequeno (antevendo o talento que mostraria em obras como Bom dia, Vietnã e Sociedade dos poetas mortos), quando chega à festa de Olívia Palito, sem ser cumprimentado, refugiando-se na beira do porto.

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Ele é recebido como realmente um forasteiro, com desprezo por estar no lugar, e perseguido por um fiscal (Donald Moffat), que cobra multas por cada pergunta e anda numa bicicleta com a bandeira norte-americana. Trata-se não apenas uma referência à depressão dos Estados Unidos – o filme se baseia mais nas tiras de quadrinhos dos anos 30 do que os desenhos posteriores de Max Fleischer –, mas aos efeitos da Segunda Guerra Mundial, e Sweethaven aparenta parece estar alheia a isso. Brutus, que manda no fiscal, segue as ordens de um comodoro misterioso, o qual ninguém vê e que coloca ordem no lugar. Dudu (Paul Dooley), que come continuamente hamburgueres, ao ver que o nenê deixado para Popeye numa cena – com a promessa da mãe vir buscá-lo depois de pagar todas suas dívidas, em 25 anos – pode fazê-lo acertar em corridas de cavalos de brinquedo, porque teria uma espécie de “paranormalidade” (numa tirada episódica do roteiro), decide sequestrá-lo. Com os ganhos na casa de jogos, em que vigora também um bordel, avisa que poderá comer hamburgueres por um longo tempo. Quando Popeye acaba jogando o fiscal na água, a cidade se reúne para erguê-lo como um libertador da opressão, mas ele, na verdade, continua querendo reencontrar apenas o pai.
O seu romance com Olívia Palito se desenrola de maneira quase ingênua, desde o flerte quando chega à casa dela, e tem suas malas jogadas para fora da cama, até o momento em que ela canta a bela “He Needs Me” (que Paul Thomas Anderson reproduziria com Adam Sandler e Emily Watson em Embriagado de amor; Anderson era, sabe-se, um seguidor de Altman, a julgar também por seu Magnólia).

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Altman sempre foi muito vivo ao situar os personagens em cenários reais. A cidade de Sweethaven é fantasiosa, mas Altman a construiu cuidadosamente na ilha de Malta, e ela existe hoje, conhecida como Vila Popeye, com um fabuloso desenho de produção de Wolf Kroeger (O último dos moicanos, O feitiço de Áquila). Há, nela, um aspecto teatral minucioso, e os personagens se movimentam como se estivessem num palco representando, assim como reproduzindo os movimentos das histórias em quadrinhos e do desenho animado. No momento, por exemplo, em que Popeye carrega as malas de Olívia Palito e ambos não sabem ao certo para onde ir a presença dos quadrinhos é evidente. E algumas brigas são evidentemente circenses, como aquela que envolve Castor Palito (Donovan Scott), assim como o comportamento de alguns moradores da ilha.
No entanto, Altman está mais interessado no que se passa nas entrelinhas do seu filme do que na própria adaptação do personagem antológico, assim como fez em seus mais notáveis filmes. Ainda assim, em momento algum, desconfiamos que os atores não se parecem extremamente com seus desenhos de origem – suas ações são, por outro lado, mais humanas. Altman consegue dar um sentido exato e criativo às saídas que o roteiro oferece, embora a última meia hora passe apressadamente (a produção teve problemas de financiamento), mas sem esconder a belíssima fotografia de Giuseppe Rotunno, colaborador habitual de Fellini, transformando Popeye numa peça a ser redescoberta e uma referência de seu tempo.

Popeye, EUA, 1980 Diretor: Robert Altman Elenco: Robin Williams, Shelley Duvall, Ray Walston, Paul Smith, Paul Dooley, Donovan Scott, Wesley Ivan Hurt Produção: Robert Evans Fotografia: Giuseppe Rotunno Trilha Sonora: Harry Nilson e Tom Pierson Distribuidora: Walt Disney e Paramount Pictures Duração: 92 min.

Cotação 4 estrelas