Seven – Os sete crimes capitais (1995)

Por André Dick

Em 1992, Alien 3, continuação de Alien e Aliens, foi dirigida pelo talentoso estreante David Fincher, que havia feito até então videoclipes de Madonna, Mark Knopfler, George Michael, Sting, Paula Abdul, Iggy Pop e Billy Idol, entre outros. Ele pode ter salvo uma ficção científica com muitos problemas de produção: estouro de orçamento, abandono de dois diretores – Vincent Ward e Renny Harlin –, muitos roteiros, reclamações de Sigourney Weaver, que não queria voltar à série. Fincher nunca considerou essa sequência de Aliens como realmente parte de sua carreira, porém seu clima claustrofóbico já anunciava um dos cineastas mais interessantes do cinema norte-americano contemporâneo.

Seu filme seguinte, Seven – Os sete crimes capitais, com elementos fortes de suspense e até terror, confirmou isso. Nele, Brad Pitt e Morgan Freeman interpretam a dupla principal de investigadores abalada pelo surgimento de um serial killer em Nova York que se inspira nos sete pecados capitais para guiar o espectador por crueldades cometidas ao longo da narrativa. David Mills (Pitt) recém chegou à metrópole, com sua esposa Tracy (Gwyneth Palthrow).  O veterano policial William Somerset interpretado por Freeman, prestes a se aposentar, vai atrás da Divina comédia, de Dante Alighieri, a fim de buscar pistas. O chefe de ambos (R. Lee Ermey, conhecido por interpretar o sargento de Nascido para matar), não os pressiona – de qualquer modo, as manchetes dos jornais atrapalham ainda mais a progressão.
Trata-se de um duelo surpreendente entre dois policiais e um psicopata que evita deixar qualquer pista, antecedendo outra obra exemplar de Fincher, Zodíaco, e, principalmente, Millennium – Os homens que não amavam as mulheres e sua série exemplar Mindhunter, sobre os primeiros investigadores que mesclaram o entendimento da psicanálise na tentativa de identificar psicopatas.

Além de ser um bom artesão, Fincher sabe compor personagens e criar interesse contínuo. Em Seven, os diálogos não se mostram tão importantes quanto o clima, mórbido e vigoroso já revelado no seu episódio de Alien acentuado pela ótima fotografia de Darius Khondji, trazendo a experiência visual que mostrou em Delicatessen, de Jean-Pierre Jeunet. Ainda assim, ele talvez contenha a escrita mais bem elaborada de um thriller da década de 90, mesclando discussões sobre uma amizade forçada entre os detetives e sua tentativa de convivência em meio a discussões sobre a influência de uma obra literária em crimes horrendos ou para se adentrar na mente de um psicopata. Os sete pecados capitais na obra de Dante são também a ponte para que ele possa adentrar o Paraíso. O que esses personagens teriam a dizer sobre isso?
O que evidencia o talento do roteiro de Andrew Kevin Walker é a perplexidade diante dos acontecimentos. É evidente que Seven adiantou boa parte da obra posterior de Fincher, embora se inspire em Blade Runner, por exemplo, com sua chuva contínua e seus ambientes úmidos. É raro algum momento em que os policiais não estão em algum lugar soturno, com lanternas (antecipando Zodíaco em todos os aspectos), e mesmo ambientes acolhedores e calmos, como a da biblioteca municipal de Nova York, soam ameaçadores. Talvez o momento mais acolhedor seja o do jantar, e é também, por causa das grandes atuações de Freeman, Pitt e Palthrow, aquela sequência em que os personagens mais se revelam, por meio do descompromisso.

Fincher praticamente cria um estilo aqui influenciado por Hitchcock, Jonathan Demme (O silêncio dos inocentes) e novamente Ridley Scott (há momentos que remetem ao seu irregular Chuva negra), principalmente, mas sobretudo dele próprio. Sua mistura entre uma cidade perturbadora e sempre lotada com os ambientes vazios nos quais os detetives ingressam para recolher provas cria um contraste interessante, assim como ele consegue, em momentos detalhados, um certo humor corrosivo, por meio do personagem de Somerset (subentendendo “summer set”, numa espécie de contraponto ao clima chuvoso). Trata-se de uma figura ao mesmo tempo seca e emotiva, a exemplo do diálogo que tem em determinado momento com Tracy, deixando implícita a sua vida anterior àquele momento decisivo. David se mostra sempre jovem e impaciente, entregando também os melhores recursos de Brad Pitt já despontando como astro, e Fincher aproveita a diferença.
Quando a identidade do serial killer é revelada, o roteiro se descostura um pouco, no entanto ainda assim mantém a qualidade. É bastante difícil encarar o final sem deixar se abalar pela estrutura que acaba prendendo a narrativa a uma ideia mais conceitual. Fincher pinta um retrato cruel da sociedade (recebendo recentemente uma homenagem de David Lynch em Twin Peaks – O retorno, num momento decisivo para o agente Cooper em seu duplo), mas sobretudo impactante e que este filme tenha arrecadado quase dez vezes o seu custo mostra o encontro entre qualidade e recepção à altura.

Seven, EUA, 1995 Diretor: David Fincher Elenco: Brad Pitt, Morgan Freeman, Gwyneth Paltrow, R. Lee Ermey, Richard Roundtree, John C. McGinley Roteiro: Andrew Kevin Walker Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Arnold Kopelson, Phyllis Carlyle Duração: 127 min. Estúdio: Cecchi Gori Pictures, Juno Pix Distribuidora: New Line Cinema

Shaft (2019)

Por André Dick

O personagem do detetive particular Shaft teve, além de uma breve série de TV, três filmes, o mais conhecido de 1971 com Richard Roundtree, dirigido por Gordon Parks, e o mais contemporâneo de 2000, estrelado por Samuel L. Jackson e tendo atrás das câmeras John Singleton, falecido lamentavelmente de forma precoce. Este novo filme com o personagem surge como uma espécie de sequência dos outros, mostrando John Shaft II (Samuel L. Jackson), que se separou da Maya Babanikos (Regina Hall), deixando-a com o filho John “JJ” Shaft Jr. (Jessie Usher), depois que um traficante, Pierro “Gordito” Carrera (Isaach de Bankolé), tentou matá-los.
A esposa não aceita o estilo de vida de Shaft e, duas décadas depois, o seu filho trabalha na área de segurança cibernética do MIT do FBI. Determinado dia, seu amigo desde criança, Karim (Avan Jogia), aparece morto por causa de uma overdose de heroína. Isso é motivo para Shaft Jr. começar a perseguir quem pode estar envolvido na morte, o que o leva a um grupo de traficantes.

Namorado de Sasha (Alexandra Shipp), o jovem integrante do FBI recorre a seu pai, que tem um escritório no Harlem, para ajudá-lo a encontrar os responsáveis pela morte do amigo, o que vai levá-lo a uma trama intrincada de suspeitos, incluindo Bennie Rodriguez (Luna Lauren Vélez). No entanto, ele desconfia que seu pai aceita colaborar com ele para, na verdade, encontrar outro criminoso que ele persegue há décadas. É interessante como Tim Story, o diretor do novo Shaft, tenha em seu currículo obras um descartáveis, como o decepcionante Quarteto fantástico de 2005, embora algumas divertidas dentro do que se propõe, como os dois Policial em apuros. Desta vez, ele consegue, de certo modo, se inspirar no estilo de Dois caras legais, que emulava o cinema dos anos 70, inclusive com a trilha sonora típica. Mesmo a química entre Jackson, saindo aqui do universo Marvel, e Usher, é bastante parecida, com trocas de ofensas e desentendimento risíveis.
O filme mais funciona nesse plano do humor do que propriamente em seus elementos de narrativa policial. E, como na obra de Shane Black com Crowe e Gosling, a fotografia de Larry Blanford é muito elegante, proporcionando imagens da cidade de Nova York de maneira rebuscada e dialogando com a excelência da recente série John Wick. As cenas de ação, com isso, acontecem em lugares de rotina, mas embelezadas por um visual detalhado, o que não era característica das obras anteriores de Story, significando um amadurecimento em sua carreira.

Um dos elementos mais adequados à obra é de que ela não se leva a sério. Há um determinado momento que o próprio Jackson faz uma brincadeira com a roupa que veste e com ator de outra série, bastante parecido com ele. Do mesmo modo, as conversas familiares entre os Shaft não têm nenhuma preocupação em ter um senso de responsabilidade, pelo contrário acabam usando uma linguagem imprópria para obras mais comedidas – o que é melhor: parece não ligar nem um pouco para qualquer polêmica que seja despertada O roteiro é assinado por Kenya Barris (Viagem das garotas e Black-ish) e de Alex Barnow (Uma família da pesada), trazendo as características dos seus trabalhos anteriores em outro contexto. As conversas podem ser vistas com certa desconfiança, de tom vulgar, no entanto nunca se sentem ofensivas porque exatamente o elenco não as conduz de maneira imprópria. Nisso, atrizes como Regina Hall, recentemente um destaque em Support the girls, apesar de não terem o melhor roteiro, acabam se destacando pela eficiência com que empregam seus diálogos.

Ainda assim, nesta falta de pretensão evidente, Story consegue introduzir questões familiares e o conflito entre os pais separados do jovem Shaft se situam num espaço difícil de ser percorrido sem cair no lugar-comum. Hall e Jackson formam uma boa dupla, trazendo envolvimento a este laço nunca desfeito com o passado, enquanto o filho tenta se adequar a uma nova maneira de ação. Se o original dos anos 70 continua uma referência para seu gênero e o de 2000 possuía um vilão mais elaborado, graças à atuação de Christian Bale, este novo Shaft, apesar de recebido com descrédito, é um acerto. Não se duvide que, caso tenha um bom número de visualizações na Netflix e uma boa bilheteria nos Estados Unidos, ganhe uma sequência, e seria muito interessante rever esses atores em seus personagens.

Shaft, EUA, 2019 Diretor: Tim Story Elenco: Samuel L. Jackson, Jessie Usher, Regina Hall, Alexandra Shipp, Richard Roundtree,Luna Lauren Vélez Roteiro: Kenya Barris e Alex Barnow Fotografia: Larry Blanford Trilha Sonora: Christopher Lennertz Produção: John Davis Duração: 111 min. Estúdio: New Line Cinema, Davis Entertainment, Khalabo Ink Society, Warner Bros. Pictures Distribuidora: Warner Bros. Pictures (Estados Unidos), Netflix (Internacional)