A forma da água (2017)

Por André Dick

O diretor mexicano Guillermo del Toro sempre esteve entre os principais nomes situados entre a fantasia, o terror e o suspense. Nos últimos anos, ele entregou dois filmes completamente distintos: Círculo de fogo, uma ficção científica mais pop, mostrando a invasão de monstros (kaijus), na Terra, e A colina escarlate, com uma história mais clássica, sempre com uma parte técnica irretocável. E, apesar de se inspirar muitos em fábulas e lendas populares, ele sempre foi reconhecido pela originalidade. Por isso, a polêmica que surgiu de que seu novo filme, A forma da água, fosse inspirado sem dar crédito à peça teatral Let Me Hear You Whisper, do ganhador do Pulitzer Paul Zindel, surgida na semana passada, talvez coloque seu favoritismo ao Oscar ameaçado. Se a premissa de seu filme é igual à da peça (que também virou filme, em menor escala, nos anos 90), ainda assim a obra de Del Toro pode ser vista como, mais do que uma relação estranha, um retrato de época. Diretor também dos dois primeiros Hellboy e um dos roteiristas da trilogia O hobbit, o mexicano é uma referência do gênero de fantasia, no sentido mais épico.

A forma da água conta a história da faxineira muda Elisa Esposito (Sally Hawkins), que trabalha num laboratório governamental secreto no início dos anos 1960, durante a Guerra Fria, e tem como melhor amiga Zelda Fuller (Octavia Spencer). Neste laboratório, ela conhece uma estranha criatura aquática (Doug Jones), que está sendo investigada pelo coronel Richard Stricklandor (Michael Shannon) e pelo Dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg).
Elisa tem como melhor amigo o companheiro de prédio Giles (Richard Jenkins, em ótimo momento), sendo que moram em cima de um cinema, Orpheum. Este nome é a senha para o filme mostrar algo que lembra a mitologia grega de Orfeu e Eurídice: o monstro representa aquela figura que deve ser resgatada. Num diálogo com outro filme, há muito de O fabuloso destino de Amélie Poulain aqui, inclusive na trilha sonora notável de Alexandre Desplat, assim como de Splice, produzido por Del Toro e que mostra uma relação estranha como a desse filme, embora com mais violência e voltada mais ao plano da sexualidade. Em O labirinto do fauno, também havia a história de uma menina inserida num mundo histórico em transformação (a Guerra Civil Espanhola), que se refugiava na fantasia.

Não precisaríamos ir muito longe para ver as influências de Del Toro: sendo a figura aquática da Amazônia, certamente Del Toro conhece a lenda do boto que deu origem a um filme com Carlos Alberto Riccelli nos anos 80, e mesclou essa lenda ao seu arsenal de estranhezas. Del Toro possui um talento raríssimo para compor uma reconstituição de época da Guerra Fria de modo perfeito, com ambientes externos e internos feitos com esmero por Paul D. Austerberry, começando pelo início que estabelece como fonte A árvore da vida, de Malick. O visual insere o espectador na história, que, mais do que sobre a aproximação de uma humana de uma criatura, trata de temas como o subúrbio norte-americano de Baltimore, do american way of life, o preconceito contra os negros e gays, contra hispânicos, sem nunca destoar de uma história baseada no fantástico nem parecer pouco orgânico. É uma cidade em composição e decomposição, como vemos por meio de Stricklandor. Del Toro demonstra seu amor por filmes através do cinema Orpheum, localizado embaixo do apartamento de Elisa, com imagens de uma plasticidade bem dosada, com a fotografia de Dan Laustsen. Assim como por meio de Giles, que é pintor e faz cartazes para filmes.

O vilão feito por Shannon em determinados momentos se sente um pouco caricato pelo rumo oferecido pelo roteiro, mas o ator entrega, por outro lado, uma de suas melhores composições, e há um momento do segundo ato em que a história se dispersa um pouco, sem que Del Toro deixe a narrativa cair em gestos banais, respeitando uma certa poeticidade que dialoga com o ambiente enfocado, com seu verde que remete ao musgo da água original, de onde veio a estranha criatura. Sally Hawkins tem uma atuação excelente, assim como Spencer se mostra novamente uma coadjuvante bastante especial, numa história que consegue sintetizar o melhor de Del Toro num formato que se contrabalança entre o fantástico e a visão romântica sobre o mundo do cinema (spoiler: não por acaso, em determinado momento há uma cena musical que remete tanto a O artista quanto a La La Land). O trabalho dele por vezes registra um grau inusual de violência perto de produções típicas de Hollywood, mas em A forma da água ele não parece tão interessado em mostrá-la, o que poderia prejudicar o tom de sua história.

Mais do que sobre uma paixão extraordinária, A forma da água é uma lembrança de Del Toro do poder do cinema sobre a personagem central, quando conversa com seu vizinho vendo filmes na TV, mas estabelece vínculo mesmo com os experimentos de Spielberg no âmbito dos anos 80 (a exemplo de E.T.) e John Carpenter (Starman). O filme trata exatamente da solidão desses personagens, em vínculo com a da sala de cinema, com poucos espectadores, assim como com a música, na impossibilidade do diálogo. Há alguns elementos que Del Toro colocou anteriormente em sua trajetória, contudo são melhor resolvidos aqui. Mesmo em relação ao A colina escarlate, subestimado, A forma da água se sente com temas mais complexos e distribuídos em camadas iguais. E a água é, afinal, o símbolo da libertação da narrativa. Todas as sequências que a envolvem dão uma sensação de que a opressão causada por determinados humanos é colocada em segundo plano e os personagens encontram a sua essência. Em A colina escarlate, já havia uma metáfora da terra. Além disso, como em A espinha do diabo e O labirinto do fauno, Del Toro faz com que seus personagens em transformação também combatam a guerra que há nos bastidores de suas existências.

The shape of water, EUA, 2017 Diretor: Guillermo del Toro Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Doug Jones, Michael Stuhlbarg, Octavia Spencer Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: J. Miles Dale e Guillermo del Toro Duração: 123 min. Estúdio: TSG Entertainment, Double Dare You Productions Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

O homem da máfia (2012)

Por André Dick

O homem da máfia.Filme

Quando Andrew Dominik filma uma rua dos Estados Unidos como se fosse o último pedaço da América, com sua desolação árida, lembrando um faroeste, já sabemos estar não de uma exata reprodução do seu filme anterior, O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford, mas diante de uma obra que tentará transformar suas imagens numa alegoria sobre uma determinada situação dos personagens. Dois bandidos, Frankie (Scoot McNairy) e Russell (Ben Mendelsohn), encontram Johnny “Squirrel” Amato (Vincent Curatola) para combinar um assalto a Markie Trattman (Ray Liotta), que tempos atrás havia sido esperto ao trapacear diversos envolvidos com jogos de carta noturnos. A cada cena, parece que Dominik quer reproduzir o que faz Scorsese em Os bons companheiros (também com Liotta). Além disso, temos trechos de debates da campanha à presidência dos Estados Unidos de 2008, entre Barack Obama e John McCain, e menções à política econômica de George Bush, naquele período retratado por O homem da máfia especialmente desoladora.
Um dos maiores incômodos ao se assistir O homem da máfia é este: o discurso, por um lado, de mafiosos com o mesmo ritmo de palavrões desgastados, e, por outro, a necessidade de deixar isso claro, pois sua analogia com a política é feita de maneira pouco sutil. Para Dominik, os mafiosos, pelo menos no período do filme, estão bastante interessados em política e na situação econômica. Eles podem estar num jogo de cartas noturno, mas seus ouvidos estão sintonizados nos discursos dos candidatos à presidência dos Estados Unidos.
Brad Pitt destoa como aquele que, segundo o título original, “mata suavemente”. Com uma linha de atuação já utilizada de maneira eficaz em O homem que mudou o jogo, ele interpreta Jackie Cogan, contratado por um advogado (Richard Jenkins) para, com o apoio de Mickey (James Gandolfini, de outra série de gângsteres, A família Soprano), tentar consertar as coisas. Sua composição às vezes flutua entre o bom humor de um sujeito pacato e de alguém que vai matar alguém até com certo semblante romântico, mas a necessidade de o diretor querer transformá-lo numa extensão de algum filme de Sam Peckinpah fica pelo caminho. Seu personagem não consegue ganhar vida, nem em suas conversas com o advogado, nem com Mickey. Pitt está visivelmente deslocado neste papel em que precisa exercer uma ambiguidade, entre o extremo da violência e a calmaria. É o personagem de Gandolfini, porém, o indício do que poderia ter sido O homem da máfia, com sua frustração pessoal em relação à amada e seu vício com a bebida.

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São homens desolados: Jackie é apenas um assassino e coloca os negócios sempre acima, a dupla que realiza o assalto vaga sem rumo, e todos os homens que os cercam se mostram interessados apenas em conseguir um espaço a mais para a venda de almas e a punição franca contra aqueles que traem o andamento das coisas, mesmo que fora da lei. O diretor Dominik, com apoio do fotógrafo Greig Fraser, filma tudo como se fosse não apenas uma continuação dos filmes de gângsteres mais conhecidos, como também um retrato da América, assim como Friedkin faz em Killer Joe. Inúmeros são os lugares com a bandeira dos Estados Unidos (e há sempre a ameaça de algum duelo). O grande problema é que a narrativa principal acaba sempre cedendo espaço a uma segunda narrativa, que se pretende implícita, mas se torna ostensiva ao longo da metragem, encobrindo a primeira.
A partir de determinado momento, o interesse pelos personagens vai diminuindo, pois, para o diretor, é mais interessante filmar a trajetória de balas em meio a gotas de chuva, ou mostrar a violência de uma surra, detalhando a mistura das gotas da chuva com o sangue, com a estética de um videoclipe.
Nenhum sinal das críticas de Cronenberg, em Cosmópolis, tanto ao capitalismo quanto aos integrantes de protestos contra Wall Street. Parece um tanto constrangedor Dominik considerar que os resultados da economia americana também afetam os mafiosos, como se esses dependessem do estado de um país (há mesmo um que viaja em classe econômica, pelo menos, ele espera, até a posse do novo presidente). Fica parecendo, nesse sentido, que O homem da máfia tem exatamente muito a dizer ou desvendar. Pelo contrário, no filme, os bandidos em uníssono fazem uma coisa só: fingem ser o que não são. Tudo no filme de Dominik, como a fala pausada de Pitt e o recorrente fuck you, man, é apenas pose.

Killing Them Softly, EUA, 2012 Diretor: Andrew Dominik Elenco: Brad Pitt, Ray Liotta, James Gandolfini, Scoot McNairy, Ben Mendelsohn, James Gandolfini, Vincent Curatola, Richard Jenkins, Trevor Long, Sam Shepard Produção: Dede Gardner, Anthony Katagas, Brad Pitt, Paula Mae Schwartz, Steve Schwartz Roteiro: Andrew Dominik Fotografia: Greig Fraser Duração: 97 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Plan B Entertainment / 1984 Private Defense Contractors / Annapurna Pictures / Chockstone Pictures / Inferno Entertainment

2  estrelas

O segredo da cabana (2012)

Por André Dick

O segredo da cabana

Depois de tantas séries de terror, como Sexta-feira 13, Halloween e Pânico, não se pode dizer que o gênero não tem representantes. Com tantos caminhos já aproveitados, chega um momento em que a desculpa para situar personagens sendo colocados em situação delicada numa cabana de bosque (como em outra série, de Sam Raimi, Evil Dead), passa a ser baseada na metalinguagem e nas referências a todo o gênero, mais ainda do que vemos em Pânico. É o que acontece em O segredo da cabana, que, de certo modo, conseguiu o que poucos filmes do gênero conseguem: transformar-se numa espécie de cult, uma referência pop, desde o seu lançamento. Não faltam elementos para isso: o filme aproveita, por exemplo, a popularidade de Chris Hemsworth (que de Thor e Os vingadores, passando por Star Trek, a Branca de Neve e o caçador, passou a ser um ator onipresente em blockbusters) e o roteiro, em parceria com o diretor, de Joss Whedon, que se transformou numa referência de adaptações dos quadrinhos para as telas com Os vingadores, mas já havia mostrado seu trabalho de roteirista antes em alguns filmes, como Toy Story.
Whedon conhece cultura pop e seu Os vingadores consegue ser divertido na medida certa. Já no roteiro de O segredo da cabana, ele explora seu lado cinéfilo, compondo uma trama propositadamente repleta de clichês. Já começa em ritmo de saída para as férias de um grupo de jovens universitários – em clima de ida para a Califórnia –, Curt (Chris Hamsworth), Dana (Kristen Connolly, que está em um filme muito mais assustador, do ano passado, The bay), Marty (Fran Kranz), Jules (Anna Hutchison), e Holden (Jesse Williams), cada um visto como estereótipo. Depois de passarem por um posto de gasolina quase deserto, obviamente com um dono misterioso, eles chegam à cabana. Ela está no alto de uma montanha, afastada de tudo e todos.

O segredo da cabana.Imagem 2

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O que não se sabe é que ela está sendo vigiada por uma equipe, como se fosse o cenário para uma espécie de reality show, coordenado por uma dupla (Bradley Whitford e Richard Jenkins), que fazem apostas, por exemplo, para saber como será a ação de cada um. Claro que esses jovens vão ter um certo envolvimento, usar drogas e descer ao porão da cabana, e mesmo uma das jovens vai dialogar e fazer outras coisas com a cabeça de um lobo na parede como se ele fosse real. E, claro, o casal do filme vai se dirigir ao bosque para ter um momento de isolamento. No entanto, não se trata de colocar os personagens apenas em momentos previsíveis e constrangedores, e sim para ameaçá-los com zumbis e criaturas que não se sabe ao certo de onde vêm – a não ser pelo fato de que o chão pode guardar várias entradas e saídas.
Este Evil Dead que se transforma, a partir de tudo, em metalinguagem em ritmo de pavor nunca guarda, como outros filmes referenciais, uma claustrofobia simétrica. O que se vê em O segredo da cabana é mais uma brincadeira com repetições. Se estamos acostumados ao fato de que os personagens podem se sair de uma determinada situação porque, afinal, eles estão ainda dentro de um ambiente em que têm liberdade para tomarem decisão, em O segredo da cabana eles atuam apenas como fantoches de uma vontade tanto do diretor quanto do roteirista em brincar com seus destinos. Não se trata, nem um pouco, de algo diferente, apenas curioso. E a dupla de coordenadores da cabana, que ficam torcendo pelo topless de uma das jovens, parece atuar como produtores numa sessão-teste, para saber se aquilo trará contentamento a uma plateia, mesmo que aqui ainda invisível. Os personagens, ao contrário de filmes como Sexta-feira 13, nunca têm o mesmo tempo de espera para que possam tentar escapar do inevitável. É tudo excessivamente rápido e sem grandes detalhes ou desenvolvimento.

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Não que se esperasse exatamente isso. Não existe, entre as habilidades do diretor Drew Goddard, uma sutileza capaz de emular os pavores de um Poltergeist, por exemplo, no entanto ele se esmera em tornar o seu lado cinéfilo numa colcha de retalhos capaz de agradar, mesmo que com um impacto maléfico e desproposital em relação ao filme. É quando O segredo da cabana se torna uma espécie de Os caça-fantasmas misturado com O nevoeiro que as artimanhas do roteiro de Whedon saltam aos olhos e, sobretudo, ao nervosismo proporcionado pelas cenas.
Há muitos elementos desagradáveis, mas talvez sejam eles que escondam uma das poucas originalidades do filme, e percebe-se que, ao lado de seu lado apaixonado pelo cinema de gênero, temos, na verdade, uma espécie de comédia trash escondida. Na verdade, apresenta-se aqui de forma cômica o que víamos em outro roteiro, este lamentável, de Whedon, para Alien – A ressurreição (que encerrou a série antes da retomada em Prometheus). Há tantos exageros e tanta desproporção nas imagens que o espectador, inevitavelmente, tende a olhar tudo não apenas com desconfiança, mas com certo afastamento. Os minutos finais do filme são de um impacto um tanto assustador – assim como o desfecho para um dos personagens que tenta uma travessia desastrada – e é quando o diretor consegue, de fato, entrelaçar a ideia exibida no início, um tanto previsível, com uma espécie de mitologia – superficial, mas divertida –, trazendo, inclusive, à cena uma atriz em participação surpreendente. Mesmo assim, isso, diante do restante, parece apenas um verniz para esconder de fato o que O segredo da cabana mostra: que não é exatamente ao brincar com clichês do gênero que sua própria história deixará de ser um clichê e o filme se tornará, como desejavam diretor e roteirista, pelo menos numa referência.

The cabin in the woods, EUA, 2012 Diretor: Drew Goddard Elenco: Kristen Connolly, Chris Hemsworth, Anna Hutchison, Fran Kranz, Jesse Williams, Richard Jenkins, Bradley Whitford, Brian White, Amy Acker, Tim De Zarn, Tom Lenk, Dan Payne, Jodelle Ferland Produção: Joss Whedon Roteiro: Joss Whedon, Drew Goddard Fotografia: Peter Deming Trilha Sonora: David Julyan Duração: 95 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: AFX Studios / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / Mutant Enemy / United Artists

2  estrelas