Resultados do Oscar 2019

Por André Dick

Dos possíveis candidatos ao Oscar que apontei em setembro de 2018 (neste post), quatro chegaram às indicações de melhor filme: Infiltrado na KlanNasce uma estrela, A favorita e Roma. Das repescagens, Pantera Negra e Vice (à época chamado de Backseat). No entanto, as grandes surpresas foram O primeiro homem e Se a Rua Beale falasse, dos diretores que em 2017 quase conquistaram juntos o Oscar de melhor filme por La La Land e Moonlight, lembrados em várias premiações, serem deixados de lado.
Este foi um Oscar surpreendente. Certamente poucos apostavam que Bohemian Rhapsody saísse com o maior número de estatuetas (quatro), seguido por Pantera Negra Green Book – O guia, cada um com três, ao lado de Roma. Interessante é a Academia, no momento menos prestigiado de sua história, recorrer a dois sucessos de bilheteria para manter sua atenção (veremos como isso se refletiu na audiência). Uma curiosidade, pouco recorrente: todos os indicados a melhor filme saíram com pelo menos um prêmio, quando normalmente dois ou três candidatos não saem com nenhum. Apenas se lamenta que o melhor filme de 2018, particularmente, Nasce uma estrela, tenha saído apenas com uma estatueta, depois de ver esvaziado seu hype justamente na época das premiações.
A falta de um apresentador prejudicou substancialmente a festa, que não tinha ninguém para dialogar ou interagir com a plateia e mesmo com o que nela transcorria. Apenas uma voz anunciando a entrada dos atores parecia impessoal, que anunciavam os candidatos para mostrar o resultado como se corressem contra o tempo. Algumas apresentações musicais foram ótimas (como a de “Shallow”), o show inicial do Queen, assim como as participações de Melissa McCarthy (apresentando uma categoria vestida com um figurino espalhafatoso que remetia à rainha de A favorita), Tina Fey, Ana Poehler e Maya Rudolph (que poderiam ter apresentado perfeitamente todo o show) e entre os agradecimentos se destacaram os de Olivia Colman (realmente surpresa), Regina King e Rami Malek. Cuarón, com o feito de conseguir três Oscars, parecia sem qualquer entusiasmo, mostrando que ele privilegia uma certa simetria que há em seus filmes, sem destoar muito do script, o que é uma pena. Foi uma festa sem emoção, talvez a mais mal organizada que vi desde o ano em que passei a acompanhar o Oscar, em 1987.

Melhor filme

A seleção deste ano tem filmes excelentes (RomaNasce uma estrela) dois ótimos (A favorita e Green Book – O guia), dois muito bons (Infiltrado na Klan e Bohemian Rhapsody) e um historicamente interessante e bem interpretado (Vice), apesar de abaixo do esperado, além do sucesso de bilheteria Pantera Negra.
O prêmio dado a Green Book – O guia, de Peter Farrelly, não foi totalmente merecido, mas nem de longe é questionável, levando em conta sua qualidade de atores, narrativa e roteiro. Certamente ele lida com temas sensíveis de modo politicamente incorreto. No entanto, o mais impactante é alguns considerarem um filme preconceituoso, quando, na verdade, mostra parte da trajetória de um pianista afroamericano, Don Shirley, de grande talento e sua amizade com um italiano racista que, aos poucos, compreende o que está em jogo. Que se considere Pantera Negra, um personagem fictício, mais importante e historicamente mais excepcional do que ele é uma incógnita típica da cultura pop. Questionável, a partir disso, é O discurso do rei ganhar de A rede social, Cisne negro e Bravura indômita, ou Argo vencer A hora mais escura, Django livre, Amor e O lado bom da vida, e Spotlight derrotar O regresso. Spike Lee teria se irritado com a premiação. Faz sentido. Há um momento em que Tony, o motorista interpretado por Viggo Mortensen, aconselha o pianista feito por Mahershala Ali a ouvir nomes da música negra da época, a exemplo de Aretha Franklin, Chubby Checker e Little Brown, para fugir um pouco do seu universo clássico de compositores como Chopin, o que soa um pouco forçoso, visto que é como se a figura do afro-americano tivesse de ser guiada pela do branco que aprendeu a reconhecer culturas híbridas. Mas, na verdade, é quase o discurso oposto que Spike Lee apresentava em Faça a coisa certa, quando o personagem do entregador de pizza que interpretava apontava a seu chefe, um pizzaiolo italiano, que seus ídolos eram predominantemente afrodescendentes. Lee sabe, claro, que Peter Farrelly está fazendo uma provocação indireta a ele e sua obra.

Novamente a Academia não atinge 10 concorrentes. Nas duas vagas não preenchidas, os votantes poderiam ter lembrado de Suspiria, de Luca Guadagnino (que recebeu os prêmios de melhor fotografia e elenco no Independent Spirit Awards), O primeiro homem (ignorado em categorias principais, como de diretor, ator e atriz coadjuvante), Se a Rua Beale falasse (com direção, atuações centrais e parte técnica primorosas), Querido menino (com a melhor atuação de um ator coadjuvante do ano, de Timothée Chalamet), Creed II (com grandes atuações de Michael B. Jordan, Tessa Thompson e Sylvester Stallone), A balada de Buster Scruggs (indicado a três Oscars, mas que merecia melhor recepção), No portal da eternidade (com uma fotografia e direção de arte fora de série), 22 de julho (melhor trabalho de Paul Greengrass, já lembrado pelo Oscar em Voo United 93 e Capitão Phillips), Hereditário (com destaque para Toni Colette e o design de produção) e Vida selvagem (estreia na direção do ator Paul Dano). Eu daria mais destaque a Jogador Nº 1 e Animais fantásticos – Os crimes de Grindelwald, menosprezados mesmo nas categorias técnicas.

Melhor diretor

O grande vencedor foi Alfonso Cuarón, por Roma, já premiado anteriormente com Gravidade. É um feito extraordinário que, desde 2015, três mexicanos tenham recebido o Oscar de diretor: Iñárritu por Birdman e O regresso, Guillermo del Toro por A forma da água e agora ele. Praticamente é a visão autoral do cinema originário do México se estabelecendo em Hollywood. Considero seu trabalho impecável, também à frente da fotografia e do roteiro. O grego Lanthimos já havia sido indicado pelo roteiro de O lagosta e por filme estrangeiro em Dente canino. Sua indicação foi bastante merecida por A favorita e reserva uma possível trajetória cada vez mais exitosa em Hollywood, assim como Pawel Pawlikowski ter sido incluído entre os indicados por Guerra fria pode significar sua entrada no mercado norte-americano, mesmo que pareça mais independente que Cuarón e Lanthimos. Spike Lee já fez trabalhos muito melhores que Infiltrado na Klan, como Faça a coisa certa, Malcolm X e Oldboy, mas, de qualquer modo, foi um concorrente à altura. Já o mediano McKay ocupou a vaga de vários possíveis candidatos: Luca Guadagnino (Suspiria), Lynne Ramsay (Você nunca esteve realmente aqui), Bradley Cooper (Nasce uma estrela), Paul Dano (Vida selvagem), Damien Chazelle (O primeiro homem), Felix Van Groeningen (Querido menino), Paul Greengrass (22 de julho) e Joel e Ethan Coen (A balada de Buster Scruggs).

Melhor ator

Embora quase não tenha uma carreira no cinema, sendo mais conhecido pela série Mr. Robot, pela qual recebeu vários prêmios, Rami Malek levou Bohemian Rhapsody a se superar nesta temporada de premiações. Suas atuações em O mestre e em Buster’s mal heart são excepcionais, recorrendo a trabalhos anteriores dessa sua performance detalhista baseada em Freddie Mercury. Ele superou o favoritismo de Christian Bale depois do Critics Choice Awards, abalado pela perda do SAG. Bale realmente não parecia merecer o prêmio (difícil separar onde inicia a atuação e onde acaba o overacting), que eu daria para Viggo Mortensen, por Green Book, ou Bradley Cooper, por Nasce uma estrela. Willem Dafoe fez também um ótimo Van Gogh em No portal da eternidade. A Academia volta a manifestar sua antipatia por Ethan Hawke, premiado no Independent Spirit Awards por Fé corrompida, e Steve Carell, esquecido por Querido menino. Também John David Washington em Infiltrado na Klan, Michael B. Jordan no subestimado Creed II e Joaquin Phoenix em Você nunca esteve realmente aqui estavam melhores que Bale.

Melhor atriz

Glenn Close era a grande favorita. Depois de várias indicações nos anos 80 (O mundo segundo Garp, O reencontro, Um homem fora de série, Atração fatal e Ligações perigosas), e uma nesta década (Albert Nobbs), Close parecia que ia conseguir finalmente o prêmio mais importante da indústria de cinema. Isso não aconteceu: sua atuação não merece, e seu filme, A esposa, é apenas bom. Mesmo Lady Gaga tendo uma atuação muito superior às outras candidatas (e não recebeu o prêmio por preconceito a artista pop que se arrisca em atuar e por ser seu primeiro papel de destaque no cinema, ao contrário de Cher, vencedora da categoria por Feitiço da lua, que já havia aparecido em Silkwood, Marcas do destino e As bruxas de Eastwick), é valoroso lembrar de Melissa McCarthy, a segunda melhor atuação da categoria, por Poderia me perdoar?, e de Yalitza Aparicio, a grande figura de Roma: sua indicação é um reconhecimento. Vencedora em Veneza e do BAFTA, Olivia Colman venceu por A favorita, mesmo não sendo a atriz principal e sim Emma Stone, certamente indicada a coadjuvante porque já ganhou há poucos anos com La La Land. Seu agradecimento foi o melhor momento do show. Acrescento entre as atrizes que poderiam ter sido lembradas: Rosamund Pike (A private war), Elsie Fisher (Eighth grade), Toni Collette (Hereditário), Viola Davis (As viúvas), Juliette Binoche (Deixe a luz do sol entrar), Regina Hall (Support the girls), Carey Mulligan (Vida selvagem) e Charlize Theron (Tully).

Melhor ator coadjuvante

Indicado no ano passado por Me chame pelo seu nome na categoria de melhor ator, Timothée Chalamet poderia ter regressado nessa categoria com uma performance realmente extraordinária, em Querido menino; acabou sendo preterido. Mahershala Ali já havia ganho o prêmio por Moonlight e merecidamente ganha o segundo; sua atuação é repleta de detalhes e sustenta boa parte do filme. Sam Elliott teve uma presença rápida, mas marcante, em Nasce uma estrela. Adam Driver e Sam Rockwell, por Infiltrado na Klan e Vice, respectivamente, não mereciam ser indicados, ocupando possíveis vagas para Steve Carell (Vice), Nicholas Hoult (A favorita), Daniel Kaluuya (As viúvas), Jesse Plemmons (A noite do jogo), Robert Pattinson (Damsel), Jeff Bridges (Maus momentos no Hotel Royale), Ed Oxenbould (Vida selvagem), Russell Crowe (Boy erased), Sylvester Stallone (Creed II) e Jonas Strand Gravli (22 de julho).

Melhor atriz coadjuvante

Regina King confirmou o favoritismo por Se a Rua Beale falasse, mas as melhores atuações eram as de Emma Stone e Rachel Weisz em A favorita, tornando a presença de suas personagens no melhor embate da temporada. Amy Adams não merecia ser indicada por Vice, nem Marina de Tavira por Roma, tirando a vaga de atrizes como Olivia Cooke (Puro-sangue), Zoe Kazan (A balada de Buster Scruggs), Rachel McAdams (Desobediência), Tilda Swinton (Suspiria), Elizabeth Debicki (As viúvas) e Nicole Kidman (Boy erased).

Melhor roteiro original

Apesar de o roteiro de A favorita ter mais camadas narrativas, o vencedor, Green Book, assinado por Brian Hayes Currie, Peter Farrelly e Nick Vallelonga, é simples e, ao mesmo tempo, lida com temas complexos. A grande falha é a inclusão de McKay nessa categoria, por um roteiro no máximo competente em Vice.

Melhor roteiro adaptado

Spike Lee, David Rabinowitz, Charlie Wachtel e Kevin Willmott venceram por Infiltrado na Klan, embora Nasce uma estrela Se a Rua Beale falasse tenham melhor desenvolvimento e o dos Coen para A balada de Buster Scruggs, premiado no Festival de Veneza, seja memorável. Spike Lee nunca havia recebido um Oscar, o que, por sua trajetória, era injusto.

Melhor filme estrangeiro

Há anos não havia um favorito tão grande quanto Roma (talvez o último tenha sido Amor). Seu concorrente principal era Guerra fria, também com uma extraordinária fotografia em preto e branco. Imagino que a péssima distribuição de A árvore dos frutos selvagens, de Ceylan, que estreou apenas este ano nos Estados Unidos, tenha colaborado na sua não nomeação (o filme de Ceylan é melhor que o de Cuarón).

Melhor animação

Há filmes inventados pela crítica e Homem-Aranha no aranhaverso é um deles. É recebido como uma animação inovadora, mas neste campo aquela que se destaca é Ilha dos cachorros, de Wes Anderson. Sou apreciador de Os incríveis 2 e WiFi Ralph – Quebrando a Internet também, muito bem solucionados em sua despretensão.

Melhor documentário em longa-metragem

Free Solo

Melhor documentário em curta-metragem

Period. End of sentence

Melhor curta em animação

Bao

Melhor curta-metragem

Skin

Melhor fotografia

Alfonso Cuarón recebeu o seu Oscar por Roma, mesmo que minha aposta fosse em Lukasz Zal, por Guerra fria, ambos com fotografia em preto e branco. O trabalho de Robbie Ryan em A favorita e Matthew Libatique em Nasce uma estrela eram notáveis, o que aumenta a qualidade da vitória. Lembremos que, no ano passado, Paul Thomas Anderson fez a fotografia também de seu excepcional Trama fantasma e não foi indicado. Na época, disseram que era por uma “defesa” dos diretores de fotografia.

Melhor trilha sonora

A vitória de Ludwig Goransson por Pantera Negra deve ter quebrado com algumas bolsas de aposta. O favorito era Nicholas Britell, pela trilha irretocável de Se a Rua Beale falasse, e Alexandre Desplat tinha um belo trabalho em Ilha dos cachorros, assim como Terence Blanchard em Infiltrado na Klan. O melhor trabalho, no entanto, de Justin Hurwitz, de O primeiro homem, sequer tinha sido indicado.

Melhor canção original

A performance da noite foi a do grande vencedor desta categoria, “Shallow”, de Nasce uma estrela, cantada por Bradley Cooper e Lady Gaga. Deve-se considerar que “When a Cowboy Trades his Spurs for Wings”, de A balada de Buster Scruggs também é muito bela.

Melhor design de produção

Hannah Beachler e Jay Hart ganharam por Pantera Negra, superando A favorita, Roma, O primeiro homem e O retorno de Mary Poppins, todos trabalhos de alto nível. Fico um pouco em dúvida quanto ao uso de CGI, de excesso de computação gráfica, como trabalho de design de produção tão sofisticado quanto aquele com objetos reais. A favorita, por exemplo, lembra Barry Lindon em seus detalhes e O primeiro homem simplesmente reproduz as salas e corredores da Nasa nos anos 60.

Melhor figurino

Quem venceu foi Ruth E Carter, por Pantera Negra, superando A favorita e Duas rainhas, principalmente, além de O retorno de Mary Poppins. Com influência do figurino de O jardineiro fiel e Rainha de Katwe, Carter mescla influências de costura africana com elementos futuristas.

Melhor edição

O trabalho de John Ottman em Bohemian Rhapsody não tem a agilidade de Green Book – O guia e é cronologicamente confuso, no estabelecimento de algumas fases da banda e alguns shows dos quais ela participou. O trabalho de Vice era muito bom, no sentido frenético.

Melhor maquiagem e cabelo

Merecido prêmio para Vice, com um trabalho de caracterização de Dick Cheney em Christian Bale e George W. Bush em Sam Rockwell irretocável.

Melhor edição de som

O grande vencedor foi Bohemian Rhapsody, superando o favoritismo de O primeiro homem. É um trabalho competente e consegue lidar com materiais de gravação do Queen com sons criados especialmente para a obra.

Melhor mixagem de som

Novamente o grande vencedor foi Bohemian Rhapsody, superando o favoritismo de O primeiro homem.  A obra de Chazelle parecia mais detalhista neste quesito e possui uma função na narrativa que não há na obra de Singer. No entanto, o melhor trabalho nesse campo parece estar em Nasce uma estrela, com seu uso poderoso e menos artificial do som dos espetáculos e dos eventos a que os personagens comparecem na narrativa, mais realista.

Melhores efeitos visuais

O único Oscar de O primeiro homem veio na categoria em que mais merecia. Duvidar de sua vitória frente a trabalhos questionáveis e que sequer deveriam ter sido lembrados nesta categoria (com seu excesso de CGI e de má qualidade) não parecia plausível. Seu único concorrente forte era Jogador Nº 1, sobretudo por causa da cena que homenageia uma obra de Kubrick, antológica. A obra de Chazelle talvez seja a primeira a recuperar momentos de verdadeira angústia no espaço desde 2001 – Uma odisseia no espaço, uma referência clara no pouso da lua, além de muitos serem extremamente próximos da realidade (os experimentos com os astronautas, tendo à frente Neil Armstrong). Este é um dos filmes mais injustiçados pelo Oscar.