Vício inerente (2014)

Por André Dick

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Vício inerente parecia ser, pelo trailer, o filme mais acessível de Paul Thomas Anderson, sucedendo sua obra-prima O mestre. É possível entender que a adaptação feita pelo diretor do romance de Thomas Pynchon, lançado em 2009, procura, como o livro, fazer uma homenagem às investigações policiais dos anos 50 no cenário dos anos 70. O diretor já revisitou essa época em Boogie Nights, mas Vício inerente oferece um passeio muito mais hermético, por se basear numa escrita com várias referências explícitas ou não e uma linguagem entre o pop – no caso de Vício inerente, dessa linguagem que faz referência principalmente à geração hippie – e o que é considerado cult, os romances de detetive (e suas descrições detalhadas parecem homenagear tanto autores do gênero policial quanto os beats). Há uma diversidade de personagens na prosa de Pynchon, um entra e sai deles, nem sempre esclarecidos, diálogos que acontecem como se estivéssemos escutando os personagens de perto e uma ambientação concentrada.
Anderson respeita o romance que lhe serve de inspiração na mesma medida que lança seu olhar próprio: os zooms lentos sobre cada personagem em algumas situações, além de remeterem a Altman, mais claramente, possuem a técnica de exatamente diminuir a velocidade da prosa de Pynchon. Desse modo, o que Anderson faz não é exatamente fácil: ele retira todo o movimento dito moderno de Pynchon e coloca suas figuras, com jeito de estarem nas praias californianas, situadas entre tramas estranhas e distantes da realidade. Há um choque – e nisso se concentra a especialidade de Vício inerente. Sem deixar de ser fiel ao livro, o filme de Anderson é outra energia, como diria seu personagem principal, o detetive e hippie juramentado Doc Sportello.

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Doc mora em Gordita Beach, uma praia fictícia em Los Angeles, e é procurado por uma antiga namorada, Shasta Fay Hepworth (Katherine Waterston), para encontrar o amante dela, Mickey Wolfmann (Eric Roberts), um ricaço do meio imobiliário e ligado a uma organização misteriosa chamada Golden Fang. A trama labiríntica que parte daí e evoca tanto o lado solar quanto a escuridão da noite, além de uma porção de nomes, desde o delegado da polícia de Los Angeles Bigfoot Bjornsen (Josh Brolin), além de alguns ativistas, é típica do gênero e fascinante para quem se interessa. Ao mesmo tempo em que precisa encontrar Wolfmann, Doc é procurado por Hope (Jena Malone) para encontrar seu marido, também desaparecido, Coy (Owen Wilson), um saxofonista. Para o caso de Wolfmann, recebe a ajuda de Sauncho Smilax (Benicio del Toro), levando-o ao veleiro Golden Fang, enquanto tem encontros futivos com Penny Kimball (Reese Witherspoon) e interrogatórios no mínimo estranhos com Tariq Khalil ( Michael Kenneth Williams), integrante dos Panteras Negras, o Dr. Rudy Blatnoyd (Martin Short), a prostituta Jade (Hong Chau) e a esposa de Wolfmann, Sloane (Serena Scott Thomas), precisando usar seu caderninho para entender o que seria ou não resultado de uma paranoia ou alucinação pessoal. Em determinados momentos, a elaboração nas tramas lembra também a de Dália negra, obra injustamente esquecida de Brian De Palma, adaptada de Elroy, por sua profusão de caminhos e interligações, com a narração de Sortilège (Joanna Newsom, cantora e compositora), que tenta esclarecer alguns detalhes, para descontrair a história.
Embora seja vendido como uma comédia, e tenha realmente momentos de humor, Vício inerente é um filme que joga com elementos policiais clássicos com a mesma competência de Hammett, dos anos 80, dirigido por Wim Wenders, e, apesar de parecer, ele pouco tem relação com O grande Lebowski, dos irmãos Coen. Nesse sentido, ele possui tanto humor quanto Sangue negro, ao se mostrar os conflitos entre o desbravador de poços de petróleo e o pastor da localidade onde concentra sua empresa, e O mestre, quando este mostra o líder de uma seita que precisa de um homem para lidar com ações menos reflexivas, como encostar algum detrator de suas ideias contra a parede.

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Por meio dos personagens, Anderson sempre procura encontrar o lado tanto ensolarado quanto nebuloso de uma América prometida nos livros de história. E, ao contrário de Magnólia, ainda o mais visto de Anderson, não existe aqui nenhum apelo ao pop ou ao movimento: a maneira como Vício inerente foi filmado é aparentemente simples, modesta, sem os travellings a que Anderson se acostumou no início de carreira e usou sobretudo em Embriagado de amor, e isso pode ser percebido também na direção de arte e nos figurinos, que apenas complementam os personagens e nunca são um elemento à parte no cenário. Ele se parece visualmente com Boogie Nights, principalmente ao apresentar o interior dos lugares, sem nenhum exagero ou cores excessivas, ou seja, é realmente o filme em que Anderson se distancia de qualquer apoio que não seja a história e o elenco.
Filmado com um rigor descompromissado, Vício inerente é apenas aparentemente um filme ingênuo ou que apena sublinha a quantidade de drogas na cultura dos anos 70; vê-lo como uma história sobre pessoas que se utilizam de misturas ilícitas não desenvolve sua riqueza e imaginar que sua trama confusa é fruto apenas de estados alterados no mínimo equivocado (este não é um segundo Medo e delírio, também com Del Toro, em que Johnny Deep fazia um jornalista mergulhado no uso de substâncias proibidas). Isso pode ser sentido não apenas no encadeamento inicial, quando há um longo diálogo entre Doc Sportello e Shasta, até o início de suas investigações, que o levam até a gangue que pode ajudar a esclarecer onde afinal está Mickey Wolfmann. Anderson em nenhum momento, como um grande diretor, esclarece por que a história vai tendo algumas rupturas, quando, visualmente, tudo transcorre de maneira fluida e interligada. Nesse sentido, o filme só se mostra de fato confuso quando se deixa de imaginar que Anderson e, antes dele, Pynchon, queria fazer uma homenagem referencial à cultura do cinema noir, no qual as luzes e sombras desempenham papel fundamental.
Em Vício inerente, Anderson torna esse jogo de luzes e sombras com cores distintas não apenas no início, certamente aquele momento que mais se mostra fiel ao livro e determina todo o ritmo, como também no momento em que vai a uma mansão onde pode encontrar um determinado personagem. Se a delegacia é um lugar sempre iluminado, os seus personagens nunca o são: tanto Bigfoot quanto os integrantes do departamento são confusos. Bigfoot é claramente uma visão da era Nixon, da tentativa de obter um controle sobre sua própria imagem – e ele se decepciona ao perceber que não lhe dão o espaço que considera merecer. E Doc Sportello está longe de ser uma caricatura de hippie como costuma ser descrito: Phoenix lança sobre o personagem quase uma consternação melancólica, de não entender o que se passa à sua volta não exatamente em termos de efeitos psicodélicos, mas morais: Sportello está perdido nessa mudança brusca de comportamentos e conspirações por todos os lados, a começar pela do seu próprio governo.

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Anderson continua sendo um diretor fenomenal de atores, extraindo grandes atuações de Phoenix (que passa de Amantes para O mestre e Ela com a naturalidade de ser o melhor atuação da sua geração) e Brolin, mas também do elenco coadjuvante, com rápidas (e essenciais) participações de Waterston, Wisterphoon, Short e Del Toro. Além disso, Anderson homenageia também o estilo de filmagem de Robert Altman, com propriedade: há sequências memoráveis e uma ambientação impecável, levando o espectador a cada lugar enfocado. Se Altman havia tentado (particularmente sem conseguir) em Um perigoso adeus exatamente essa busca por uma revitalização do cinema que mostra investigadores envolvidos em tramas nebulosas, Anderson consegue efetuar uma modernização dessas ideias, assim como se mostrava em A ponta de um crime, em que Gordon-Lewitt interpreta um estudante de colégio em meio a uma narrativa misteriosa. Apesar da longa duração (148 minutos) e da dificuldade de acompanhar os acontecimentos – misturados à psicodelia pessoal de “Doc” Sportello –, o filme de Anderson, em meio à sua lentidão, na correspondência nunca confirmada entre diálogos e fatos, nunca é menos do que original, por aliar narrativa e atores de um modo inusitado e mesmo impressionante quando se sabe o quanto Hollywood se afasta deste tipo de tratamento narrativo.
Como pano de fundo, com esse retrato da geração hippie – o delegado feito por Brolin como o aparente extremo contrário de “Doc” –, existe ainda o surgimento de ativistas na aurora dos anos 70, a paranoia com uma possível invasão russa por meio de ideias desconexas, os cabelos ao vento das mulheres na praia, as ondas e um espaço para se avistar o horizonte entre duas casas (numa imagem recorrente da obra anterior de Anderson, O mestre).  Não apenas um retrato de época e uma brincadeira com gêneros, Vício inerente mostra toda a melancolia que existe na passagem de gerações e nos movimentos culturais, quando o personagem precisa olhar para o retrovisor, mas seguir em frente. Essa escolha está presente também na maneira como Robert Elswit trabalhou com as locações do filme: dificilmente vemos o brilho de fundo dos cenários porque a câmera está concentrada nos personagens e no que eles têm dizer e, quando há um brilho, é apenas relance de um sol. E essa é a ruptura clara entre gerações, que Doc Sportello consegue sintetizar de maneira clara, mesmo com sua aparente confusão. Com todo o seu descompromisso, Vício inerente é fascinante.

Inherent vice, EUA, 2014 Diretor: Paul Thomas Anderson Elenco: Joaquin Phoenix, Katherine Waterston, Josh Brolin, Owen Wilson, Benicio del Toro, Reese Witherspoon, Maya Rudolph, Eric Roberts, Michael Kenneth Williams, Joanna Newsom, Martin Short, Martin Donovan, Jena Malone, Sasha Pieterse, Hong Chau, Peter McRobbie, Keith Jardine Roteiro: Paul Thomas Anderson Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Jonny Greenwood Produção: Daniel Lupi, JoAnne Sellar, Paul Thomas Anderson Duração: 148 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Warner Bros.

Cotação 5 estrelas

Livre (2014)

Por André Dick

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No ano passado, o diretor canadense Jean-Marc Vallée teve grande sucesso com seu filme Clube de compras Dallas, bem aceito pelo público e pela Academia de Hollywood, recebendo três Oscars, inclusive os de ator (McConaughey) e ator coadjuvante (Jared Leto). Em Livre, ele mostra as memórias de Cheryl Strayed, interpretada por Reese Whiterspoon, que decide sair em viagem pelos Estados Unidos, passando por paisagens desertas, estradas sem nenhum movimento, estabelecimentos quase abandonados: essa viagem era feita pelos beatniks nos anos 60, sobretudo partindo de San Francisco, mas Cheryl está mais interessada em rever e refletir sua vida até então.
Whiterspoon havia desaparecido das premiações desde o excelente Johnny & June, pelo qual havia ganho o Oscar de melhor atriz. Depois de sua imagem ter ficado colada a Legalmente loira, ela foi perdendo a referência de atriz indie, conquistada com muito esforço no curioso A vida em preto e branco, no ótimo Eleição e na vingança pop baseada em Ligações perigosas, Segundas intenções. Aqui ela tenta, como nos recentes Amor bandido e Sem evidências, uma espécie de regresso àquela época em que era um rosto do cinema independente, fazendo um papel muito mais físico e talvez mais difícil. Ainda assim, algo de sua empatia – que seria essencial para Livre – acabou se perdendo; ela parece de fato uma atriz que não consegue transpor para as telas o drama existencial do papel.

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Desde o início, com a personagem caindo na estrada, o filme tem uma atmosfera que remete a uma das obras mais melancólicas deste século, Na natureza selvagem, de Sean Penn. No entanto, logo se percebe que a obra de Vallée não procura exatamente o mesmo que a de Penn: Cheryl não está em viagem para exatamente fugir dos preceitos e exigências sociais; ela viaja para esquecer seu próprio passado, em que há um risco moral permanente por causa de suas escolhas. Vallée vai introjetando, a cada sequência de Livre, flashbacks da vida anterior de Cheryl. Esta escolha, sendo consciente, pois costura toda a narrativa, parece ser o que atrai o interesse para o material adaptado pelo escritor Nick Hornby das memórias de Cheryl. Como os escritos de Hornby, a personagem terá contato com poemas de Emily Dickinson e outras leituras. Mas Cheryl é uma personagem, mais do que o de Chris McCandless, em Na natureza selvagem, permanentemente solitária – e o espectador, convidado a participar de sua viagem, em nenhum momento parece se sentir próximo a ela.
Livre é uma espécie de filme-conceito em que a liberdade é representada por ficar presa a lembranças permanentes, que perseguem a personagem principal de maneira contínua, não havendo respiros para o espectador. Nesse sentido, o diretor adota uma montagem arriscada: enquanto acompanhamos a viagem de Cheryl, na verdade pouco interessa nela, pois tudo se concentra em flashes do passado. Com isso, o filme, numa espécie de montanha-russa da montagem, vai e vem no tempo sem nunca estar exatamente em algum lugar – e, apesar de Vallée imaginar que isso traria originalidade, acaba por arrastá-lo a um beco sem saída. Ou seja, as paisagens imensas e o ar livre, a atmosfera de liberdade, de contato com os animais e a natureza, representa, na verdade, uma imersão no que a personagem considera sua melancolia: a vida familiar e o apego à mãe (Laura Dern, uma excelente atriz prejudicada pela montagem e incluída no Oscar desta vez de modo injusto, quando havia Jessica Chastain em O ano mais violento). Tudo o que significa sua liberdade desse contexto remete a livros lidos à luz de velas, e é para isso que serve a literatura, afinal, segundo Hornby e Vallée: para que o contato com a natureza se materialize numa estética.

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Desse modo, Livre acaba sendo quase todo uma viagem de estética: de estética para vermos as paisagens fotografadas quanto para acompanharmos o esforço físico da personagem. Mas nunca estamos de fato com os pensamentos nela; há algo nesses pensamentos um tanto desgovernados e um incapazes de prender a atenção do espectador, levado a navegar entre vários até que todos desapareçam finalmente. Livre acaba trazendo um cansaço que, longe de ser o mesmo da viagem que retrata, é desanimador de algum modo, pois entende-se que a personagem está em permanente infelicidade sem sabermos exatamente o que a levou a tal condição, até que vamos montando as peças. Essas se mostram, enfim, bastante previsíveis, como se Vallée quisesse deixar sofisticado um drama, apesar de comovente, bastante simples – e esta simplicidade faria bem à narrativa. Ou seja, parece um filme que foi definido na sala de montagem, e o diretor quis fazer algo diferente (além de extremamente longo). Além disso, a personagem, de fato, quer conviver com sua solidão, e o espectador, ao acompanhá-la, parece na verdade importuná-la. Os únicos momentos em que o espectador se sente mais próximo é quando Cheryl se interessa em conversar com seres humanos, pois é justamente esses que a levam nessa jornada. No entanto, como ela constantemente presa ao passado e às ausências que ele proporciona, é como se não nos interessássemos também pelo presente que ela vivencia. Para Hornby, assim, a natureza não traria nenhuma saída, e com isso o sentimento é de dupla tristeza, pela personagem e pela narrativa. No entanto, Livre é, acima de tudo, um filme que depende muito da simpatia que o espectador tem pela personagem: Witherspoon, apesar de tentar um papel difícil, particularmente, não parece a escolha adequada. Era preciso uma atriz que trouxesse mais dor real ao personagem e uma mistura de sensações. A única sensação é de que o espectador não se sente livre ao vê-la se perder nessas paisagens, ou seja, nos últimos anos, Whiterspoon, exceto em Sem evidências e no recente Vício inerente, pelo qual, este sim, poderia ter sido lembrada pelo Oscar, não consegue passar uma variedade de conflitos. O olhar dela é sempre o mesmo do início, e nisso Vallée acaba perdendo boa parte de sua história.

Wild, EUA, 2014 Diretor: Jean-Marc Vallée Elenco: Reese Witherspoon, Michael Huisman, Gaby Hoffmann, Laura Dern, Thomas Sadoski, Kevin Rankin, Brian Van Holt, Charles Baker, W. Earl Brown, Cliff De Young Roteiro: Cheryl Strayed, Nick Hornby Fotografia: Yves Bélanger Produção: Bruna Papandrea, Reese Witherspoon Duração: 116 min. Distribuidora: Fox filmes Estúdio: Fox Searchlight Pictures

Cotação 2 estrelas

 

Amor bandido (2012)

Por André Dick

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Há muito tempo o cinema de Hollywood tem se afastado de histórias simples ou visto com certa desconfiança aquelas que têm um certo tom de descoberta juvenil num cenário real, preferindo se concentrar em produções com o objetivo de alcançar um público que prefere esses mesmos elementos com mais ação. Nos anos 80, tínhamos filmes como Conta comigo, em que uma turma, caminhando por um trilho de trem, ia em busca de um corpo desaparecido. Baseada em Stephen King, a história apresentava elementos, como este recente Amor bandido, de Mark Twain e Charles Dickens. O novo filme de Jeff Nichols, recém-saído do sucesso de crítica O abrigo, com Michael Shannon, que regressa aqui num pequeno papel, e Jessica Chastain inseridos numa parábola sobre o fim do mundo, procura encontrar este síntese, apresentando a história de um menino, Ellis (Tye Sheridan), que vê o casamento de seu pai, Senior (Ray McKinnon, num diálogo visual direto com o personagem de Harry Dean Stanton em Paris, Texas), e de sua mãe, Mary Lee (Sarah Paulson), se desintegrar lentamente. Eles vivem no Rio Mississippi, na altura do Arkansas, em uma casa flutuante, deixada pela família de Mary Lee. Quando se separarem, o governo destruirá a propriedade. Desde o início, Nichols consegue inserir o espectador neste ambiente, criando uma atmosfera sólida, com a fotografia particularmente acertada de Adam Stone, sustentada por um extraordinário design de som, capaz de captar a natureza. E avisa: este é um filme naturalmente acessível, composto por pedaços de narrativa reconhecíveis e ainda assim naturalmente emotivos e cuja ressonância é sincera.

Amor bandido

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Ellis está em conflito existencial e, numa das peregrinações pelo rio, com o amigo Neckbone (Jacob Lofland), descobre um barco pendurado numa árvore em uma pequena ilha abandonada da região, deparando-se, logo em seguida, com Mud (traduzindo literalmente, Lama), que pede por comida, uma situação que contrasta com sua camisa impecavelmente branca, da qual não se livraria, como ele diz, nem antes de sua arma. Diz que morou no Rio quando era criança e está ali à espera de uma moça. Este fragmento de história é suficiente para que Ellis se interesse em ajudá-lo. Adentrando na adolescência e sem a idealização do amor em sua rotina, interessado por colegas mais velhas que se reúnem em frente a postos de gasolina, principalmente May Pearl (Bonnie Sturdivant), ele se sente deslocado e sem ter alguém para dividir seus conflitos. Embora Neckbone não se interesse muito pela história, ambos passam a ter um vínculo com Mud, que pede a eles para procurar um homem da região, Tom Blankenship (um contido e excelente Sam Shepard), com a franca possibilidade ajudá-lo, enquanto o tio de Neckbone, Galen (Michael Shannon), se mostra preocupado com o que possa estar ocorrendo.
Nichols começa aí sua espécie de conto moral sobre como um menino pode, ao mesmo tempo, buscar o perigo para recuperar aquilo que perdeu com o passar da idade. Quando entra em cena Juniper (Reese Whiterspoon, tentando fugir da imagem deixada por comédias), surgem novos conflitos e é preciso, mais do que desafiar a si mesmo, tentar substituir as próprias escolhas para investir numa história que pode ser diferente da sua. Mud, para Ellis, não pode ter uma história como a sua: por meio dele, é possível recuperar a ideia de uma certa unidade familiar, capaz de trazer ainda conforto e certeza. E a figura da mulher é associada a uma entrada na maturidade, tanto para compreender as escolhas familiares quanto aquelas que irão definir as reuniões no colégio. Em correspondência direta com esta definição, existe a reconstrução do barco para que se possa abandonar o cenário longínquo de uma infância não mais possível de ser alcançada.

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É interessante como Amor bandido se constrói em cima de uma base muito simples e direta, sem colocar histórias paralelas a fim de impedir a naturalidade da narrativa. Isso, no cinema atual, pode ser visto até mesmo como uma espécie de conservadorismo e retomada de uma certa ideia clássica. Mas quanta diferença pode fazer não apenas um diretor competente, como Nichols é, como também um elenco à altura. Depois de Killer Joe, McConaughey entrega a sua grande atuação do ano, um personagem com variações de tom. Com poucos diálogos, mas uma composição de personagem sólida, ele é apoiado pela figura de Tye Sheridan, um ator excepcional, conhecido do público desde A árvore da vida, e por Jacob Lofland, que sempre entra em cena para conseguir sustentá-la e aparar as arestas, assim como Joe Don Baker tem uma presença assustadora. Há algumas sequências que só possuem vitalidade pela interação do elenco, quando a história parece escapar para saídas mais rotineiras, sobretudo em seu terceiro ato, embora ainda com impacto e narrativa fluente. No entanto, Nichols filma tudo com uma habilidade própria e a colaboração fundamental de Julie Monroe na montagem de suas peças que Amor bandido parece transparecer uma espécie de clássico perdido, de uma história tantas vezes contada que parecemos às vezes esquecer de como ela é vital.

Mud, EUA, 2012 Direção: Jeff Nichols Elenco: Matthew McConaughey, Tye Sheridan, Jacob Lofland, Reese Witherspoon, Sarah Paulson, Ray McKinnon, Sam Shepard, Michael Shannon, Bonnie Sturdivant, Paul Sparks, Joe Don Baker Roteiro: Jeff Nichols Fotografia: Adam Stone Trilha Sonora: David Wingo Produção: Aaron Ryder, Lisa Maria Falcone, Sarah Green Duração: 135 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Everest Entertainment / FilmNation Entertainment

Cotação 4 estrelas

Alexander Payne e seus descendentes

Por André Dick

Em As confissões de Schmidt, de Alexandre Payne (1961), um dos cineastas contemporâneos mais interessantes (o texto segue com spoilers), Jack Nicholson tem uma das melhores atuações de toda a sua carreira, o que não é pouco. Ele interpreta Warren Schmidt, que acaba de ficar viúvo de Helen (June Squibb) e de se aposentar, mas deseja retomar a vida. Para isso, ele quer fazer uma viagem pelo interior dos Estados Unidos para chegar, em Denver, ao casamento da filha, Jeannie (Hope Davies), o qual quer impedir, pois não gosta do genro, Randall Hertzel (Dermot Mulroney), que, logo à primeira vista, lhe pede dinheiro para negócios pessoais. Além disso, pretende ajudar um menino, Ndugu, da África do Sul por meio de uma agência de caridade. São objetivos de quem, como ele mesmo diz, gostaria de ser visto como alguém importante, generoso e atencioso, e aparecer nas capas de revista, porém está contido dentro de suas amarras.
O filme traz a característica básica dos filmes de Alexander Payne: o personagem central que deseja se encontrar. É aqui que Nicholson consegue ser ainda mais brilhante. Fazendo o Schmidt recém-aposentado e viúvo, que descobre uma traição da mulher com o melhor amigo (a cena em que esvazia o armário dela mostra-se antológica), ele se destaca mais do que todo o elenco, só tendo como equivalente Kathy Bates, como Roberta, a a mãe de Randall. A viagem dele pelo interior dos Estados Unidos é subliminar, mostrando por que gostaria de ser lembrado, numa tentativa de voltar à infância e à juventude, simbolizando a aventura que constitui a formação dos Estados Unidos (a ida ao museu faz parte disso). Trata-se, portanto, de um sujeito que pretende progredir, mas como progredir se a velhice chegou e se os compromissos com a família precisam ser mantidos, caso contrário se cai em solidão absoluta? Nesse sentido, ele é o oposto do produtor de música que Nicholson interpretou no ano seguinte, em Alguém tem que ceder – infelizmente outra de suas últimas atuações até agora (o que é de se lamentar, pois é de 2003; a de Como você sabe não está à sua altura).
A relação com a filha, problemática, é o núcleo de conflito no filme, que se revela cada vez mais interessante a cada passo da trama (entrecortada por pequenos incidentes, embora todos de relevo), escrita por Payne com seu habitual parceiro Jim Taylor. Quando ele precisa se deparar com toda a família do genro, e lembrar da memória da esposa, que acabou de perder, surge um dos momentos mais solitários que o cinema nos mostrou, muito por causa da atuação de Nicholson – e Payne procura no realismo das situações a sua poesia, na sua tentativa de compreender o que o cerca, em que contexto precisa se inserir para que não se sinta abandonado, ou mais próximo das estrelas. Trata-se de um humor patético, característica que ele guarda em comum com Wes Anderson (de Os excêntricos Tenembaums, por exemplo). Esta cena cria um enlace com aquela em que Schmidt está num camping e acaba beijando uma mulher casada, depois de quase torná-la sua psicóloga, mostrando a sua mescla entre infantilidade e insegurança adulta. Ali, já sabemos que as confissões mais profundas de Schmidt se atritam com a realidade. E para Payne, como é comum em sua filmografia, enfrentar o dia a dia rotineiro, como o faz Warren, tem a mesma importância dos descobridores da América – mas não há condescendência nenhuma em relação às suas atitudes.

Warren Schmidt remete ao professor de Eleição, Jim McAllister, interpretado por Matthew Broderick, conhecido pelo Ferris Bueller de Curtindo a vida adoidado, incumbido de organizar uma eleição para diretoria de alunos de seu colégio. É o motivo para ele se deparar com a sua aluna mais ambiciosa, Tracy Flick (Reese Witherspoon, em seu melhor papel até hoje), que pretende ganhar a eleição a qualquer custo. Ele quer colocar outros concorrentes para atrapalhá-la, entretanto só encontra um jogador do time de futebol e um ingênuo, Paul Metzler (Chris Klein, de American Pie, excelente).
Na verdade, Payne, como em seus outros filmes, fala de um indivíduo que gostaria de ser visto pelas conquistas pessoais – que não chamam a atenção – e sair da mesmice. O professor quer vingar através disso o amigo, também professor, que se envolveu com essa aluna e acabou denunciado. Tenta ter filhos com a mulher, Dianne (Molly Hagan), mas está interessado ainda mais em ter uma amante, Linda (Delaney Driscoll) – porém, tudo é visto, por Payne, sem o olhar moralista, em tom de humor e corrossão típicos de sua filmografia. Os personagens nunca agem como se esperava deles, e a lucidez disso é a melhor desculpa para ver um dos bons filmes de colégio já feitos, um dos poucos com real inteligência. Há uma crítica ao comportamento de cada personagem, como ao de uma menina, Lisa (Frankie Igrassia), que, para provocar Tammy Metzler (Jessica Campbell), irmã do outro candidato, o jogador, passa a andar com ele para magoá-la. A irmã resolve se candidatar por vingança ao irmão e à ex-amiga, apenas para tumultuar o ambiente – e Payne é mestre em tumultuar ambientes comuns, porém sempre por meio de uma dramaticidade travada, sem exageros e sem desviar o foco dos personagens para elementos cinematográficos que possam se destacar (seus filmes têm uma direção de arte e uma fotografia sempre naturais, apesar de cuidadosas, por exemplo). Eleição acaba sendo um retrato bastante interessante de certo comportamento político: a da menina que, para não ver a própria mediocridade, passa a ver todos contra ela e seus objetivos – Tracy Flick é o retrato mais bem acabado dessa questão. De qualquer modo, o que mais pode ser acentuado é sua questão entre o que é público e privado – e como os desejos pessoais podem contrastar com o que é considerado justo e dentro das normas.

O filme seguinte sobre os anti-heróis de Payne, Sideways começa como se fosse uma comédia fútil, com piadas e gracejos, mas logo se torna mais densa e séria, com a descoberta de que o personagem principal, um escritor, Miles Raymond (Paul Giamatti), abandonado pela mulher e que sai em viagem com o amigo Jack Lopate (Thomas Haden Church), que está para se casar e é mulherengo, é na verdade um alcoólatra. Em sua obsessão por experimentar vinhos – a viagem é feita por lugares com vinícolas do interior dos Estados Unidos, em Santa Ynez Valley –, Payne desenha o painel de um escritor que não consegue publicar o que considera sua obra-prima, nos moldes joycianos, e tenta preencher sua vida com um novo amor, todavia é sobretudo o retrato de um homem de meia-idade que tenta se encontrar na vida, como acontece em seus roteiros e filmes (como As confissões de Schmidt e Os descendentes).
Giamatti tem uma atuação bastante eficiente, mostrando toda sua desconfiança em relação a uma nova vida e seu desespero de ser aceito, apoiado por um elenco em grande estilo. E Payne novamente mostra o interior norte-americano, o que já acontecia em As confissões de Schmidt, com seus restaurantes de beira de estrada e o isolamento oferecido pela frustração, uma espécie de road movie quase estático e sem aventura. O seu amigo, especialmente, o coloca em várias situações constrangedoras, e representa uma espécie de tentativa de evidenciar a masculinização forçada.
Mas há a sensibilidade insegura de Miles, revelada pela sequência em que ele e seu amigo vão para casa de duas mulheres – Miles se interessa por uma garçonete, Maya Randall, feita por Virginia Madsen, enquanto o amigo fica com Stephanie, a talentosa Sandra Oh. Trata-se de uma pausa romântica muito bem feita, neste sentido, depois com a volta ao isolamento do hotel e, finalmente, um pouco da vivência do bucólico, pelo qual Payne está interessado sobretudo para mostrar o que pode esconder de mais real na estrutura psicológica dos seus personagens.

Estabelecendo relação direta com Sideways, em Os descendentes, Payne está preocupado em tirar de George Clooney a melhor atuação de sua carreira e por isso o filme tem um aspecto trágico familiar, mostrando emoções e constrangimentos dos personagens, característica do cineasta. Ele não gosta desse personagem como gostava do escritor problemático de Sideways – que gostaria de ver sua carreira artística reconhecida –, mesmo que sua assinatura esteja no estilo e na trama, com sua desenvoltura para um roteiro que poderia existir em outros filmes, sendo melhor trabalhado agora. Clooney faz Matt King, um pai de família que mora no Havaí, com duas filhas rebeldes, Alexandra (Shailene Woodley, excepcional) e Scottie (Amara Miller), e cuja mulher, Elizabeth (Patricia Hastie), está na UTI. Para acentuar seu drama pessoal, ela descobre que ela tem um amante – um vendedor de imóveis do lugar (Matthew Lillard), também casado, com Julie (Judy Greer, atriz inexpressiva, que aqui não atrapalha).
O filme basicamente mostra essa busca dele pelo amante da esposa, em meio à venda de um grande terreno da sua família, pretendido sobretudo por seu primo (Beau Bridges), mas é apenas um motivo para mostrar desencontros entre personagens. E o momento em que ele o encontra é o ponto alto desta tensão dispendida ao longo de todo o tempo e do que ele precisa suportar para criar as duas filhas problemáticas, acompanhadas por um rapaz, Sid (Nick Krause), meio namorado de Alexandra, em cuja solidão Matt se apoia para entender a sua própria.
O cenário das praias do Havaí não atenuam este sentimento de perda, e Payne quer que vejamos os personagens como complementares a esta paisagem – por isso, sabemos que eles não podem se desviar do seu passado, que volta a cada instante (seja por meio do coma da mulher, seja por meio do Mal de Alzheimer da sogra), como acontece com Schmidt, McAllister e Milles Raymond – dos outros filmes do cineasta –, exatamente num momento decisivo para a vida de cada um, que concentra todos os momentos, passados ou futuros.
O filme procura, em alguns momentos, representar a ética familiar, e Payne desenvolve isso com talento, dispondo os personagens da maneira mais sóbria, como se fosse um documentário familiar, adquirindo ainda mais intensidade do que aquela mostrada em As confissões de Schmidt e Sideways. As conversas do marido com a mulher em coma permitem a Clooney desempenhar cenas com as quais não estava acostumado, pois em algum momento sempre caía no exagero. Aqui é diferente. Clooney se coloca como um pai de família comum, e acreditamos nisso, com seu ar cansado e corpo arqueado. O momento em que ele reúne os familiares e amigos da esposa para contar a verdade é antológico. Payne filma tudo com mais luz natural do que cinematográfica, o que dá um aspecto de verdade ao que acontece e leva o espectador a se interessar ainda mais pela trama e por esta descendência.

Election, EUA, 1999 Diretor: Alexander Payne Elenco: Matthew Broderick, Reese Witherspoon, Loren Nelson, Chris Klein Produção: Albert Berger, David Gale, Keith Samples, Ron Yerxa Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor Fotografia: James Glennon Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 103 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Paramount Pictures / Bona Fide Productions / MTV Films

Cotação 4 estrelas e meia

About Schmidt, EUA, 2002 Diretor: Alexander Payne Elenco: Jack Nicholson, Kathy Bates, Hope Davis, Dermot Mulroney, June Squibb, Howard Hesseman, Len Cariou, Harry Groener, Connie Ray, Mark Venhuizen, Cheryl Hamada, Phil Reeves Produção: Michael Besman, Harry Gittes Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor Fotografia: James Glennon Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 125 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: New Line Cinema

Cotação 5 estrelas

Sideways, EUA, 2004 Diretor: Alexander Payne Elenco: Paul Giamatti, Thomas Haden Church, Virginia Madsen, Sandra Oh, Patrick Gallagher,Missy Doty, M.C. Gainey Produção: Michael London Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Rolfe Kent Duração: 123 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Fox Searchlight Pictures / Michael London Productions / Sideways Productions Inc.

Cotação 4 estrelas e meia

The descendents, EUA, 2011 Diretor: Alexander Payne Elenco: George Clooney, Judy Greer, Shailene Woodley, Matthew Lillard, Beau Bridges, Robert Forster, Rob Huebel, Michael Ontkean, Mary Birdsong, Sonya Balmores, Amara Miller Produção: Jim Burke, Alexander Payne, Jim Taylor Roteiro: Alexander Payne, Nat Faxon, Jim Rash Fotografia: Phedon Papamichael Duração: 117 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Ad Hominem Enterprises

Cotação 5 estrelas