Submersão (2017)

Por André Dick

O diretor alemão Wim Wenders vem se afastando bastante de seu estilo empregado nos anos 70 e 80, e mesmo nos anos 90, só reiterado ainda no ótimo Estrela solitária, uma homenagem às pinturas de Edward Hopper, e seus documentários, a exemplo do magistral Pina. Pode-se lembrar de O amigo americano ou Alice nas cidades, dos anos 70, e O estado das coisas, Hammett, Paris, Texas e Asas do desejo, dos anos 80, para saber como Wenders conseguiu elaborar um cinema de arte e, ao mesmo tempo, com forte sentido de visual moderno. Nos últimos projetos, ele tem se concentrado em apresentar tramas sem muita complexidade. É o caso de Submersão. Na costa leste da África, o escocês e, a princípio, engenheiro de água James Moore (James McAvoy) é aprisionado por integrantes jihadistas. Ele lembra de quando conheceu, numa praia francesa, Danielle Flinders (Alicia Vikander), uma biomatemática que trabalha com experimentos ligados a mergulhos no oceano, prestes a experimentar as profundezas da Groenlândia a bordo de um minissubmarino.

Wenders se mostra sem muito sentimento nesta visão sobre um casal aproximado pelas lembranças e afastado pelas circunstâncias. É visível que ele possui algumas influências, e é inescapável a de Terrence Malick. Tem como base belas atuações de McAvoy e Vikander, no entanto demora a explorar os meandros de um roteiro baseado em romance de JM Ledgard. O casal inspira essa paixão, porém ela se encontra dispersa ou não se encontra simplesmente na tela: Vikander rende mais quando tem um roteiro como os de A garota dinamarquesa e O agente da U.N.C.L.E. no qual demonstra elementos como o bom humor, do que quando faz alguém mais introspectivo, como em Ex Machina. É curioso como McAvoy lembra aqui o estilo de atuação de Fassbender, com quem Vikander é casada e atuou em A luz entre oceanos. Basicamente, a trama paralela, localizada na Somália, é de James com Yusef (Hakeemshady Mohamed), um líder jihadista, e um médico (Alexander Siddig), além de um soldado, Saif (Reda Kateb), e a personagem de Vikander fica em segundo plano de modo estranho, com pouca participação dramática, apesar da tentativa de se inserir sua amizade com Thumbs (Celyn Jones), o que soa desajeitado.

A maneira como Wenders apresenta o personagem de James como um espião remete a alguns experimentos de Kathryn Bigelow, a exemplo de A hora mais escura, no qual também aparece o ator Kateb, contudo o diretor alemão não tem a mesma consistência dramática para revelar seu sofrimento. A relação do casal a distância poderia conviver com Até o fim do mundo, um de seus melhores filmes dos anos 90, não fosse a montagem um tanto previsível e linear demais, tentando compor sentimentos por meio de enquadramentos estáticos.
O navio onde está Danielle remete, por um lado, ao filme A vida marinha com Steve Zissou, de Wes Anderson, assim como ao Filme socialismo, de Godard, mesmo que não haja a mesma profusão visual, assim como o final tenta capturar uma espécie de mergulho de uma estrangeira no continente europeu, sempre aberto à mudança, e pode-se dizer que em certos momentos lembra de Mediterrâneo, dos anos 60, quando Wenders filma o vento nas árvores do hotel em que o casal se hospeda.

A fotografia de Benoît Debie, o mesmo do belíssimo Enter the void, de Gaspar Noé, é notável, porém, de modo surpreendente, Submersão não tem um design de produção criativo, uma especialidade de Wenders. Quando ele é mais elaborado, sente-se um pouco deslocado, como o próprio lugar onde James fica preso, com uma série de jogos de luz que tira a realidade da situação, ao mesmo tempo que tenta soar mais literal. Isso faz com que os personagens, como é comum em seus melhores filmes, também se traduzam pelos cenários, mesmo que aqui a água represente o vínculo entre ambos. Também se visualiza a correspondência entre o vento nas árvores e nos rochedos do mar, como se os personagens fossem extensões da natureza – e o final deixa claro que uma reação humana pode ser a reprodução de outra, seja em qual parte do mundo estiver. Nesses pontos, Wenders reproduz o que fez seu cinema tão conhecido e respeitado principalmente nos anos 70 e 80 e se lamenta que ele não consiga elaborar melhor seus diálogos, ficando preso demais a termos técnicos. Por instantes, é possível perceber que tudo foi rodado meio que às pressas. Em meio a isso, Submersão vale a pena ser assistido, mas sem muita expectativa.

Submergence, EUA/FRA/ESP, 2017 Diretor: Wim Wenders Elenco: Alicia Vikander, James McAvoy, Hakeemshady Mohamed, Alexander Siddig, Alex Hafner, Celyn Jones, Reda Kateb Roteiro: Erin Dignam Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Fernando Velazquez Produção: Cameron Lamb Duração: 112 min. Estúdio: Backup Films, Lila 9th Productions, Morena Films, Waterstone Entertainment Distribuidora: Mars Distribution, Antena 3, Samuel Goldwyn Films

Lago perdido (2014)

Por André Dick

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Com a reação pouco amistosa do público no Festival de Cannes depois de exibida na amostra “Um certo olhar”, a estreia na direção de Ryan Gosling quase não atingiu seu lançamento comercial. No entanto, com apoio de uma grande distribuidora, a Warner Bros, Lago perdido chega tanto a cinemas do exterior quanto em video on demand, num lançamento simultâneo (sua estreia nos cinemas brasileiros se dará em 23 de julho). Acusado, desde o início, de ser mais uma pose do que um filme, é interessante como, ao mesmo tempo, o mesmo festival de Cannes tenha dado o prêmio do Grande Júri a Mommy e Adeus à linguagem, obras que não se mantêm longe de uma pose de linguagem, principalmente o de Godard, com uma aura de vanguarda que ele não mais carrega desde, pelo menos, o momento em que os rumos da Nouvelle Vague foram capturados pelo cinema em sua amplitude. E ainda o melhor diretor escolhido foi Bennett Miller por seu decepcionante Foxcatcher. Com as críticas pouco favoráveis, imaginava-se que Lago perdido seria o que pode ser chamado de desastre consumado.
Quando se vai ao filme de Gosling, é notório, logo nas primeiras imagens, suas maiores influências: Terrence Malick e David Lynch. A presença desses diretores nas imagens de Lago perdido são claras, e com eles compartilham espaço também Harmony Korine e Dario Argento (um clássico do terror), além de Nicolas Winding Refn, com quem Gosling fez Drive e Apenas Deus perdoa. Há também lances de David Gordon Green, embora este já tenha um diálogo bastante aberto com Malick.

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Gosling, de certo modo, não esconde suas influências, como se fosse exatamente um fã. Mas, se há detalhes que anunciam que esta é uma obra de estreia, pode-se também dar o benefício da dúvida: se todos os filmes com tom de declaração de amor ao cinema alheio tivessem o impacto de Lago perdido já haveria o que se entende de influência do cinema autoral. Gosling não está interessado, e em se tratando de um astro de Hollywood que não precisava arriscar nada é algo inusitado, em preservar a imagem que apresenta como galã: Lago perdido, mais do que uma homenagem ao cinema desses autores, é uma viagem por um trem fantasma, por vezes bastante assustadora.
A cidade fantasma, Lost River, é aquela em que mora o que seria o personagem principal, Bones (Iain De Caestecker) . Ele divide a casa com a mãe, Billy (Christina Hendricks) e o irmão menor (Landyn Stewart), mas há uma dívida de aluguel de três meses. A mãe vai até um banqueiro, Dave (Ben Mendelsohn), a fim de solucionar a questão; ele lhe passa, numa espécie de Cidade dos sonhos, um cartão para que ela procure um emprego. Este se localiza num lugar cuja entrada é realmente a de um trem fantasma – e o que acontece dentro dele remete, tanto por Cat (Eva Mendes, também esposa de Gosling e uma ótima participação especial) quanto pelo banqueiro, aos personagens do underground de Lynch. É esta faceta que Lago perdido mais deve ao cinema do criador de Cidade dos sonhos. Neste lugar em ruínas, casas são destruídas diariamente e Bones o percorre atrás de resíduos de cobre, para que possa vendê-los. No entanto, circula pela cidade Bully (Matt Smith), com um uniforme de artista e microfone à mão que o ameaça, sempre acompanhado pelo assustador Face (Torrey Wigfield).
Numa das fugas, Bones acaba chegando a um lago onde postes de luz estão semisubmersos – e parecem ao longe o monstro do Lago Ness (o título original do filme é justamente Como pegar um monstro). Ao mesmo tempo, tem como vizinha Rat (Saoirse Ronan), que possui a figura de um flamingo em neon que ilumina seu quarto à noite e uma avó (Barbara Steele, de obras clássicas de um mestre do terror, Mario Bava), que fica imóvel diante de uma televisão assistindo a um vídeo antigo. Todas as imagens de Lago perdido não podem ser lidas, como uma peça surrealista, em sua superfície, como o lago que pode cobrir uma cidade; para cada grafite num muro, pode haver uma sala de cores que remetem a uma ficção científica, e casas podem parecer detritos enquanto o clube simetricamente calculado pode esconder o que a cidade esconde.

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Muito em razão da fabulosa fotografia de Benoît Debie – que fez não apenas um ótimo trabalho em Spring Breakers, como sobretudo em Enter the void e The Runaways –, e de uma trilha sonora impactante de  Johnny Jewel (ouça a excelente canção “Tell me”, cantada pela atriz Saoirse Ronan), Lago perdido é um mergulho numa atmosfera ao mesmo tempo acolhedora (as paisagens da natureza no início ou o registro de momentos afetuosos, como o irmão correndo ao lado do carro parado, com o irmão menor à direção) e horripilante: se os passeios pelas ruas abandonadas lembram os passeios do casal de vampiros em Amantes eternos (filmado na mesma Detroit em que Gosling capturou seu filme), as imagens do clube – ou trem fantasma – reservam um subterrâneo dessa cidade que, na verdade, desapareceu. Há muito do trabalho de cores de Dario Argento (principalmente de Suspiria) e de Jodorowsky filtrado por Refn, no entanto Gosling tem um tato para a ambientação mais natural, menos rebuscada, que não se encontra nesses diretores, fazendo com que Lago perdido muitas vezes crie um choque entre um plano onírico e uma vegetação local – o corte da corrida de Bones fugindo de Bully, para o escritório em que sua mãe se reúne com o banqueiro, é exemplar, assim como os momentos em que ela vai para o trabalho com um taxista (Reda Kateb). Tudo tem a sensação de um pesadelo, que pode ser entendido como parte da realidade que se descortina pelos personagens quando em contato sobretudo com a noite.
Nesse sentido, a procura de Bones por uma cidade escondida nas águas é a procura por Lost River, que ele vai percorrer com uma alucinante corrida, mais ao final. Lamenta-se diante deste trabalho apenas que Gosling não tenha conseguido transformar os momentos de aproximação entre os personagens em algo mais corrente: se a relação entre o filho e a mãe logo se estabelece, o seu contato com a vizinha se torna um pouco apressado, o que se deve visivelmente a momentos enigmáticos, no sentido que pode lembrar tanto Apenas Deus perdoa quanto uma ficção científica em que a figura feminina pode ser abafada com um peixe perdido no rio, num ambiente que parece capturar O segredo do abismo, de James Cameron, por mais estranha que seja esta aproximação. Ou seja, em determinado momento, a representação da mãe lutando contra a dominação é a mesma do filho procurando libertar esta cidade, com a grande atuação de Christina Hendricks, que fez Drive junto com Gosling, assim como a de Mendelsohn, seu parceiro em O lugar onde tudo termina.

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Nisso, pode haver também a leitura, menos instigante, de que Lago perdido representa a sociedade norte-americana em ruínas, sendo preferível a de que Gosling quis capturar um momento dela como se fosse uma espécie de trem fantasma do qual é preciso descer em algum momento – ou seja, é preciso se deslocar da fábula para a realidade. Desse modo, o roteiro de Gosling, mesmo que algumas vezes fique a dever no plano dos diálogos, e alguns lances de ingenuidade narrativa, consegue suscitar analogias muito interessantes, pois completamente afastadas do cinema comercial de Hollywood, sem a tentativa de ser uma exposição de galeria de arte vazia como, no ano passado, Sob a pele. Seria interessante que a versão completa exibida em Cannes (com 10 minutos a mais) fosse em algum momento liberada para que se tenha a noção mais exata dessa estreia de Gosling em termos de história; se a crítica às vezes pode ajudar na reconsideração de uma obra, ela também pode subtrair uma obra que poderia ser melhor aproveitada ainda de modo mais completo.
Ainda assim, Lago perdido é uma experiência que ressoa e compromete Gosling com um cinema que não pode lhe trazer uma recepção garantida da plateia: em seu curso, a sensação é de lidarmos com um cinema que não evoca o experimentalismo para se autocongratular, como é visto, e sim como uma maneira de expressão que instiga a conhecer seus diálogos. É uma maneira interessante de expor a criação de um novo diretor, assim como uma nova sensibilidade.

Lost river, EUA, 2014 Diretor: Ryan Gosling Elenco: Ben Mendelsohn, Christina Hendricks, Saoirse Ronan, Eva Mendes, Matt Smith, Iain De Caestecker, Demi Kazanis, Barbara Steele, Landyn Stewart, Reda Kateb Roteiro: Ryan Gosling Fotografia: Benoît Debie Trilha Sonora: Johnny Jewel Produção: Ryan Gosling, David Lancaster, Michel Litvak, Marc Platt, Adam Siegel, Jeffrey Stott Duração: 95 min. Distribuidora: Bold Films, Marc Platt Productions Phantasma Estúdio: Warner Bros

Cotação 4 estrelas

A hora mais escura (2012)

Por André Dick

A hora mais escura.Filme.Jessica Chastain

Antes de Guerra ao terror, que lhe rendeu o Oscar de melhor diretora e o de melhor filme, a cineasta Kathryn Bigelow nunca havia recebido grande atenção, mesmo tendo uma obra de terror comentada nos anos 80 (Quando chega a escuridão) e outra de ação no início dos anos 90 (Caçadores de emoções). A sua competência como diretora começou a ser reconhecida sobretudo por lidar com um sentimento norte-americano que passou a vigorar depois do terrível atentado às duas torres do World Trade Center, em 2001: o receio de novos ataques. Se Guerra ao terror não era um grande filme, era de se esperar que A hora mais escura viesse no mesmo rumo, pois é quase uma continuação daquele, no sentido de ser semidocumental, embora situado dentro do universo investigativo da CIA. Este é um dos motivos pelo qual o filme vem gerando grande polêmica nos Estados Unidos. Discute-se que Bigelow e seu roteirista, Mark Boal, tiveram acesso a informações confidenciais sobre a operação militar que levou a Osama bin Laden. Associado a isso, sofrem críticas as cenas de tortura que introduzem o filme, logo depois de vozes do 11 de setembro, que lembram o documentário Fahrenheit 11/9, de Michael Moore.
É difícil assistir a essas cenas, que transcorrem, com algumas pausas, durante a primeira meia hora. Ou seja, se havia uma possibilidade de se atenuar as tentativas de descobrir onde Bin Laden estava, ela logo desaparece, para dar entrada ao torturador, Dan (Jason Clarke), capaz, mais adiante, até de compartilhar um cigarro com uma de suas vítimas, Ammar (Reda Kateb, em interpretação impressionante). A maneira como Bigelow filma essas sequências, alternando a escuridão do ambiente, com a luz da porta que se abre, ou do teto, e mesmo das luzes acesas no rosto do torturado, conduzem o espectador a um universo que não gostaria certamente de conhecer – universo repleto de black sites, tendo num deles jaulas de prisioneiros dividindo espaço com uma de macacos.
Dito isso, A hora mais escura, embora em nenhum momento se constitua em diversão de Hollywood, não se concentra em tais cenas – mais um retrato desalentador dos fatos do que uma condescendência –, preferindo mostrar os passos da agente Maya (Jessica Chastain) atrás do homem que pode ser o informante de Bin Laden. Ela chega a um escritório coordenado por Joseph Bradley (Kyle Chandler, parecendo fazer quase o mesmo papel de Argo) e faz amizade com Jessica (Jennifer Ehle, parecida com Meryl Streep, mais jovem), sendo assessorada também por Jack (Harold Perrineau). Maya assiste às primeiras cenas de tortura incólume, inclusive pesquisando-as em seu escritório, e mais adiante participa diretamente de outra. Com isso, Bigelow tem a pretensão de considerá-la como parte direta daquele universo, no sentido de tomada de ações, fator para que o filme se torne mais real. A hora mais escura é também a hora da personagem: ela não coloca obstáculos para sua perseguição ter êxito. Do mesmo modo, ela é identificada por Bradley como “assassina”, quando Dan diz que ela parece muito nova para a função. Para Maya, os obstáculos são os outros, e talvez esta parte seja a menos verossímil de A hora mais escura. Sabe-se da tentativa, por anos, de se encontrar Bin Laden, mas no filme, em muitos momentos, tem-se a impressão de que Maya estava agindo quase sozinha, ou assessorada por poucas pessoas, além de receber a desconfiança de um superior decisivo – Leon Panetta (James Gandolfini) – e de George (Mark Strong), diretor de divisão da CIA, para que a ação tenha uma finalidade. De certa forma, esta escolha pela descontextualização atinge a questão ligada aos árabes. A política nunca é suscitada explicitamente, permanecendo nas entrelinhas, assim como a tensão real pode não se dissipar simplesmente com o fato de haver o intermédio de um Lamborguini.

A hora mais escura.Jessica Chastain.Filme 2

A hora mais escura.Imagem.Filme

De qualquer modo, seja pela captura de imagens, por meio da fotografia notável de Greig Fraser, Bigelow nunca faz a narrativa descansar. Ela mostra alguns atentados ocorridos desde o 11 de setembro com realismo, mesclando-os com imagens reais. Ou seja, aqui a Guerra ao terror se espalha justificadamente pelo mundo (e temos locações na Polônia, no Paquistão, no Iraque, na Inglaterra). As tomadas do filme são impressionantes, sobretudo quando a câmera é colocada à distância de pontos-chave, mostrando um céu azul que cria uma ligação com as cores das frutas de beira de estrada, no momento da procura ao esconderijo de Bin Laden, mas contrasta com tudo que cerca a narrativa. Nesse sentido, temos o centro de observação da casa onde Bin Laden estaria escondido com a mesma estrutura de uma equipe de observação de alguma pesquisa espacial, com o objetivo de colher detalhes, a fim de se ter um olhar mais adequado sobre a ação a ser desencadeada e sobre desvendar o que realmente abriga o local, no entanto já sem nenhuma sensação de conquista. Tudo vai da imensidão dos cenários e do barulho das ruas à restrição e ao silêncio de salas, interrompido por chamadas telefônicas.
Por meio de uma montagem que remete a um thriller, Bigelow obtém a pressão de escritórios, reuniões, discussões, dúvidas e brigas e perseguições cegas, por exemplo, no momento da tentativa de se rastrear ligações públicas em meio a um mercado público, com a participação decisiva de dois investigadores, Larry (Édgar Ramírez) e Hakim (Fares Fares), no que é diametralmente o oposto de Argo, cuja narrativa não trazia quase nenhum conflito entre os personagens e o que havia era propositadamente calculado e pouco efetivo. Em relação a Argo, deve-se dizer também que Maya é uma representação mais próxima da realidade, por isso menos admirável se comparada à postura de Tony Mendez naquele filme, apesar, também, de suas ações serem diferentes. Nesse sentido, Argo é patriótico no sentido de que não há falhas a serem vistas, enquanto A hora mais escura mostra não apenas as falhas, a moralidade ambígua, como também a tentativa de apaziguar um sofrimento inerente a cada uma daquelas figuras que o filme mostra de forma tão realista. Do mesmo modo, enquanto o filme anterior de Bigelow, Guerra ao terror, apresentava uma realidade da forma devastadora possível, A hora mais escura faz o mesmo, mas com uma intensidade maior no sentido existencial – a dor do sofrimento e da perda, do conflito pressionado pela política e por ataques, poucas vezes foi registrado de maneira tão explícita.

A hora mais escura.James Gandolfini

A hora mais escura.Quadro

Isso se deve tanto à presença de um elenco memorável quanto à atuação de Jessica Chastain, atriz que apareceu em três filmes de destaque em 2011, A árvore da vida, Histórias cruzadas e O abrigo. É ela, cuja fisionomia vai da preocupação à indiferença, diante de vários acontecimentos, passando por uma espécie de maldade contida (seu olhar diante de uma explosão vista pela tela do computador), ou de indignação, quando confronta Bradley, colocando ou não o véu para esconder o rosto e se mesclar a uma cultura da qual, indiretamente, faz parte, que traz para A hora mais escura um elemento mais humano, perigoso e próximo para espectador compartilhar suas dúvidas e ressalvas sobre o que está vendo. Em meio a uma cena ao afastamento, ela apoia um All Star sobre a mesa para lembrar algo mais remoto. Mais adiante, o olhar dos fuzileiros para ela, que contrasta com sua importância para o ato final, não é diferente daquela situação que precisa vivenciar para passar despercebida. Quando ouve o elogio de um assistente de que Maya é inteligente, o chefe da CIA diz: “Todos nós somos inteligentes”. Mesmo porque a personagem age num plano em que o político, se existe, nunca revela diretamente sua influência (o filme evita mencionar os nomes de Bush e de Obama, embora se mostre a imagem de ambos pela televisão, em diferentes momentos). Não havendo o político, a sua importância, segundo Bigelow, passa a ser quase nula. Não precisamos saber seu passado, nem se ela tem uma família ou teve interesse em se casar e ter filhos: Maya é um protótipo de isolamento autoimposto, pois ela, para o filme, só possui uma finalidade, a de estabelecer a ligação entre as imagens iniciais e a perseguição capaz de conduzir a um final. E, embora sem retórica, é por meio da presença dela diante do líder da CIA, com sua sombra projetada num quadro com a bandeira norte-americana (com a qual muitos personagens, afinal, contracenam), que se constitui uma voz ausente e presente. Mesmo sendo vital para a operação, ela, na verdade, se constitui numa espécie de distância calculada das autoridades. Percebe-se, no final, que Maya está sempre surgindo da escuridão ou sendo encoberta por ela: suas ações são secretas, não podem ganhar um corpo familiar. Perguntada pela amiga se tem amigos ou namorados ou por Panetta sobre qual é seu passado, Maya entrega apenas o silêncio.
À frente das câmeras de Bigelow, Chastain consegue traduzir o que a diretora trabalha em cada sequência. Se a piada do Globo de Ouro em relação a James Cameron foi mordaz, é verdade que Bigelow conseguiu extrair de Cameron o drama pré-resolução, o nervosismo transmitido pelas hélices de um helicóptero sendo ligadas e um grupo de fuzileiros adentrando o recinto para que se constitua uma missão, ao som, aqui, de mais uma trilha sonora primorosa de Alexandre Desplat. E, ao mesmo tempo em que a última meia hora constitui uma das sequências mais elaboradas do cinema recente, com uma impressionante reconstituição dos fatos relatados superficialmente (mesmo em razão da falta de informações detalhadas) pela imprensa, ela também é das mais melancólicas – e evita, a todo custo, qualquer ação ou elemento patriótico. Neste ponto, tanto Bigelow e Chastain conseguem concentrar, na tomada final, tudo aquilo que A hora mais escura apresenta: a solidão do ser humano, sobretudo diante dos fatos e das primeiras falas ecoando no início, assim como das cenas da tortura. Como, depois disso, apagar o início? Como apagar todas as vozes? Não há como, e é justamente nesse olhar da personagem, de uma memória que persistirá, portanto nunca entrará em descanso pleno, que se baseia, a meu ver, a visão de Bigelow. Depois de tudo, a questão lançada seria o que se ganha, na verdade, com todos os acontecimentos anteriores. Se este filme excepcional deixa perguntas soltas no ar, sem querer decisivamente respondê-las, é justamente porque, como o espectador, dificilmente se conhecerá as verdadeiras respostas.

Zero dark thirty, EUA, 2012 Diretor: Kathryn Bigelow Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Jennifer Ehle, Chris Pratt, Taylor Kinney, Kyle Chandler, Édgar Ramírez, Reda Kateb, Harold Perrineau, James Gandolfini, Frank Grillo, Fares Fares, Mark Duplass, Stephen Dillane, Jason Clarke Produção: Kathryn Bigelow, Mark Boal, Megan Ellison Roteiro: Mark Boal  Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 157 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Annapurna Pictures

Cotação 5 estrelas