Jojo Rabbit (2019)

Por André Dick

O diretor Taika Waititi se tornou mais conhecido com O que fazemos nas sombras, um filme divertido sobre um grupo de vampiros que se unia numa cidadezinha para suportar junto a eternidade, uma produção modesta e eficiente. Antes, porém, ele já tinha feito Loucos por nada, que anunciava em parte  inspiração no  universo criado pro Wes Anderson, repetida em A incrível aventura de Rick Baker. Já em Thor: Ragnarok, ele explorava um visual oitentista baseado em Flash Gordon. Agora, com Jojo Rabbit, ele amplia seu universo para o âmbito histórico, da Segunda Guerra Mundial, baseado no livro Caging skies, de Christine Leunens Trata-se de um diretor que sempre teve como intuito mesclar um universo próprio e outro imaginado, seja adaptado de quadrinhos, seja baseado num contexto mais próximo da realidade, em conflitos familiares e descobertas de uma vida.

Seu novo filme acompanha a vida de Johannes “Jojo” Betzler (Roman Griffin Davis), um menino de dez anos que é um mininazista, dedicado aos ideais de Adolf Hitler (Taika Waititi), que imagina frequentemente como um amigo imaginário. Jojo mora com a mãe, Rosie (Scarlett Johansson), e seu pai está servindo na guerra, enquanto sua irmã mais velha recém faleceu. O ditador o acompanha no campo de treinamento da Juventude Hitlerista, comandado pelo capitão Klenzendorf (Sam Rockwell), num momento do filme que se parece muito com Moonrise Kingdom. No lugar, há os mais variados absurdos, sempre em diálogo com  que realmente aconteceu – a queima de livros –, sob um certo viés de sátira.
Depois de uma situação com um coelho, ele é apelido de Jojo Rabbit e acaba sofrendo um acidente que o “rebaixa” de posto, tendo de espalhar folhetos de propaganda nazista pela cidadezinha onde mora. Nesse meio tempo, ele descobre escondida em sua casa a Elsa Korr (Thomasin McKenzie), uma adolescente judia, ex-colega da irmã que faleceu.

Ele fica com receio de contar à mãe, do que aconteceria com ela, e Waititi visualiza essa situação de maneira agridoce. Mais maduro do que em Rick Baker, embora acompanhe novamente a trajetória de um menino antes da entrada na adolescência, Waititi continua utilizando um visual que lembra Anderson – as imagens referentes ao nazismo remetem a O grande Hotel Budapeste –, no entanto empregando em momentos decisivos um caminho mais dramático. Algumas situações rotineiras, como um passeio de Jojo com a mãe, ganham um lirismo quase escondido por trás de uma sátira que parece óbvia. E o próprio Waititi no papel de Hitler, embora tente fazer lembrar Chaplin, inigualável, consegue ser o ponto para que o espectador pense sobre todo esse cenário já visto no cinema de maneira mais trágica, contudo não no sentido de atenuar, mas de revelar as ideias ridículas por trás de um sistema que se pretendia sério e secular. A maneira como Waititi aborda a visão infantil sobre os judeus é como se fossem parte de outro universo, e os adultos alemães tentam confirmar essa impressão. Por isso, a primeira aparição de Elsa lembra o encontro de Elliott com o E.T. no filme de Spielberg. É visível como Waititi visualiza tudo como se fosse parte de um livro infantojuvenil, que, em meio a todo drama histórico, precisa ser revisto sob o ponto de vista justamente da infância, para que se tente descobrir alguma explicação sobre a barbárie.

Para desmontar uma ideia, o humor é utilizado de maneira decisiva em muitos filmes, principalmente no que se refere a conceitos pretensamente utilizáveis por todos. Nesse sentido, o filme de Waititi, tentando empregar um realismo às vezes próximo do ato final de O regaste do Soldado Ryan, porém com elementos de humor, consegue transitar bem entre extremos a partir de determinado ponto de vista irreconciliáveis. Com fotografia de Mihai Mălaimare Jr., o mesmo de O mestre, capaz de criar uma textura de época para as imagens, com uma atmosfera verdadeiramente europeia, e não apenas genérica, e uma trilha sonora muito boa de Michael Giacchino, que recebe os acréscimos de canções pop (“I Want To Hold Your Hand”,  dos Beatles), Jojo Rabbit se mostra até determinado momento um pouco forçado.
Contudo, as atuações de Griffin Davis e Johansson passam a se sobressair, e McKenzie (revelada no melancólico Sem rastros) é excelente, além de Rockwell acertar o tom de seu papel e Archie Yates quase roubar toda a cena em que aparece, como o amigo de Jojo. A obra de Waiteti se baseia na parte técnico e no elenco para acentuar uma narrativa que, até determinado ponto, poderia ser fraca e ligeiramente esquecível. Há elementos, claro, de A vida é bela, de se imaginar uma realidade paralela àquela que se impõe. Nisso, Waititi consegue ser mais interessante do que Benigni, fazendo uma sátira que a todo momento se lembra de ser séria – e, mesmo que entregue uma mensagem evidente, o faz de maneira calibrada e emocional, capaz de suscitar sentimentos imprevistos. As cartas, os poemas e as bibliotecas fazem parte de uma possível mudança de perspectiva e as janelas que lembram olhos chorando representam a autodescoberta da vida do personagem central. Isso consegue levar a uma comoção baseada na ideia de que são as crianças que vão escrever novas páginas direcionadas ao futuro, com um novo otimismo e necessidade de revitalizar a história. É uma ideia que parece óbvia, mas que Jojo Rabbit entrega com rara ênfase e cuidado.

Jojo Rabbit, EUA, 2019 Diretor: Taika Waititi Elenco: Roman Griffin Davis, Thomasin McKenzie, Taika Waititi, Rebel Wilson, Stephen Merchant, Alfie Allen, Sam Rockwell, Scarlett Johansson Roteiro: Taika Waititi Fotografia: Mihai Mălaimare Jr. Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Carthew Neal, Taika Waititi, Chelsea Winstanley Duração: 108 min. Estúdio: Fox Searchlight Pictures, TSG Entertainment, Defender Films, Piki Films Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

Sem dor, sem ganho (2013)

Por André Dick

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Depois do díptico de Bad Boys e da série Transformers – que continua –, o nome de Michael Bay foi ligado exclusivamente ao uso do sentimento de destruição nas telas do cinema, como em Pearl Harbor, com suas externas tentando evocar filmes dos anos 50, e Armageddon, ambos com Ben Affleck à frente e mais propensos serem reconhecidos como videoclipes mais extensos. Seu novo filme, Sem dor, sem ganho, inicia com um personal trainer, Daniel Lugo (Mark Wahlberg), malhando de ponta-cabeça, quando chega uma equipe de operações da SWAT. Mesmo com a explicação de que a história a ser vista é baseada em fatos reais, lá está o estilo de Bay: as cores explosivas, o cenário da Flórida evocando um verão constante, ou um refrigerador, com luzes e neons dispersos, o estilo de voice-over que remete a uma propaganda da Budweiser e um elenco pronto para entrar em ação.
Sem dor, sem ganho não é, em primeiro lugar, igual à série Transformers, porque aqui existe uma crítica direta ao american way of life, tão direta quanto a sutileza de Bay para abordar este personagem, Lugo, uma espécie de continuação do Psicopata americano de Bale, que pretende ser um “realizador”, uma espécie de novo conquistador dos ideias da América, imaginando um passeio num trator em meio ao campo esverdeado e frequentando cursos de autoajuda de Johnny Wu (Ken Jeong) para a vida pessoal, enquanto trabalha como personal trainer.

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Sem dor, sem ganho

Bay deposita, no início, os lances mais variados de humor, quando Lugo conhece Paul (Dwayne Johnson, o The Rock), um ex-presidiário que tenta se adaptar à vida numa igreja, e Adrian (Anthony Mackie), e tem o plano de extrair o dinheiro de um milionário, Victor Kershaw (Tony Shalhoub), que frequenta a sua academia.
Se o filme basicamente trata de um grupo de fisiculturistas que resolve dar cabo da existência de um dono de lanchonete, seria ainda assim curioso. Mas aumenta a bateria de críticas quando Paul tenta seguir os ensinamentos religiosos e Adrian precisa ir ao médico porque não tem conseguido manter relações sexuais por causa de esteroides que anda tomando e se depara com uma enfermeira, Robin Peck (Rebel Wilson). Bay consegue, de forma eficaz, produzir uma série de críticas de maneira divertida, embora muitas vezes inconsequente, como se trouxesse a conversa dos bastidores para frente da tela. O milionário perseguido é cruel com seus funcionários e ganancioso; ou seja, é um estereótipo. Para um tipo desses, Bay encadeia uma série de fatalidades – algumas desagradavelmente engraçadas, outras excessivas.
Sem dor, sem ganho ganharia muito com um corte substancial na montagem e se pudesse transformar o personagem de Daniel Lugo não apenas em um símbolo da crítica ao american way of life, mas num indivíduo que não fosse como nos filmes de Bay apenas uma figura em cena, do mesmo modo que o excelente Ed Harris como um detetive. Wahlberg consegue trabalhar bem o papel, sendo às vezes perigoso, outras apenas ingênuo, embora de estilo um tanto doentio (como o psicopata americano de Bale). Quem reserva as cenas mais divertidas é The Rock, com uma série de gags engraçadas, embora Bay não lhe dê, ao final, um limite, ultrapassando barreiras, inclusive de guardas. Mas Bay é mestre em ultrapassar qualquer limite: seus filmes sempre parecem durar o dobro de tempo, pelos cortes que ele vai imprimindo, com situações ostensivamente longas (aquelas que envolvem o milionário, principalmente, embora Shalhoub seja um ator no mínimo interessante, têm uma dezena de minutos a mais). Em Sem dor, sem ganho, não basta ele fazer com que uma stripper, Sorina (Bar Paly), imagine pertencer à equipe da CIA, mas explorar toda a sátira possível a respeito disso, assim como colocar as mulheres obviamente apenas interessadas em dinheiro e plásticas e os policiais da Flórida como avessos a qualquer pessoa que venha da Colômbia. O universo de Bay, entre o machismo e o preconceito contra a presença feminina, se volta contra o seu próprio filme: ele é seu maior crítico aqui.

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É exatamente este elemento que extrai a energia que poderia haver – e certamente há em muitos momentos – de Sem dor, sem ganho, com sua sequência de cenas com a bandeira dos Estados Unidos e uma sátira incessante. Ainda que com escolhas problemáticas, Bay consegue desenhar um retrato de determinado universo contemporâneo, que valoriza os ideias de beleza física, colocando, inclusive, o figurino dos personagens a serviço de um ganho narrativo, para cenas de humor visuais. Ao mesmo tempo em que os cortes na verdade desaceleram a história, dando ao filme uma camada de cenas muito grande e variada, Bay consegue empregar, pelo menos até determinado ponto, a voice-over de maneira correta, dando uma quebra a determinadas cenas de modo engraçado. Que ele não consiga manter isso, a partir da metade e sobretudo no terço final, é justamente em função da montagem, não dando um desfecho razoável a uma quantidade de cenas muito bem feitas, embora cada vez mais se assemelhem a um videoclipe extenso, como é característico de sua filmografia. No entanto, comparado a outros filmes recentes (como Spring breakers e Bling Ring) com elementos de sátira, Sem dor, sem ganho tem uma qualidade, embora não o torne exatamente diferenciado: é aquele que menos se leva a sério.

Pain and gain, EUA, 2013 Diretor: Michael Bay Elenco: Mark Wahlberg, Dwayne Johnson, Anthony Mackie, Ken Jeong, Rebel Wilson, Ed Harris, Rob Corddry, Tony Shalhoub Produção: Donald De Line, Ian Bryce, Michael Bay Roteiro: Christopher Markus, Stephen McFeely Fotografia: Ben Seresin Trilha Sonora: Steve Jablonsky Duração: 129 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Platinum Dunes

Cotação 2 estrelas e meia