Espírito jovem (2019)

Por André Dick

O universo de filmes que tentam captar o ingresso de um personagem na indústria da música teve alguns de de seus momentos mais significativos com os recentes Vox Lux Nasce uma estrela, estrelados, respectivamente, por Natalie Portman e Lady Gaga. Também foi lançado recentemente o bem-humorado, apesar de também dramático, Patti Cake$, em que uma jovem queria se tornar rap. Essas são produções notáveis sobre como uma figura adentra esse universo, tentando se adaptar a ele, equilibrando o aspecto autoral e o marketing para a venda da obra. Espírito jovem segue essa linha, numa estreia na direção de Max Minghella, conhecido por atuações como em A rede social e filho do falecido cineasta Anthony (de filmes como O paciente inglês).

O roteiro traz Elle Fanning como Violet Valenski, uma jovem que mora no interior de uma cidade numa ilha da Costa Sul da Inglaterra e sonha em ser cantora. Sua mãe, Marla (Agnieszka Grochowska), de origem polonesa (alguns diálogos são nessa língua), é bastante rígida. No pub onde trabalha como garçonete, Violet às vezes canta e numa das noites é descoberta por um ex-cantor de ópera, Vlad (Zlatko Buric). Também possui uma rivalidade escolar com Anastasia (Millie Brady). A caminho de uma competição nacional, chamada Teen Spirit, Violeta vai conhecer a agente Jules (Rebecca Hall) e a jovem estrela Keyan Spears (Ruairi O’Connor), com uma personalidade um tanto manipuladora. Cria-se, a partir daí, o contraste entre o universo pastoral do qual ela vem e a cidade de Londres e os meandros de um concurso de música com grande cobertura. Nesses momentos, a história lembra um pouco Sing Street, sem, porém, adotar o discurso mas rebelde da adolescência, de um discurso contra a escola, por exemplo, ou a favor de um romantismo.

A fotografia de Autumn Durald é um dos trabalhos mais significativos do gênero, com um trabalho de luzes impecável, influenciado pela obra de Nicolas Winding Refn, principalmente quando Violet está nos camarins, lembrando a presença de Fanning também em Demônio de neon. Em igual escala, há flashes que lembram o trabalho de Lubezki em A árvore da vida, num ambiente mais campestre onde a personagem central vive, indicando uma faceta europeia. Tudo isso cria um complemento com a proposta mais pop do filme, que destoa do lado negativo de Vox Lux, por exemplo.
Minghella trata os personagens com afeto, a partir da amizade entre Violet e Vlad, como dois deslocados da sociedade, captando algo, nas músicas e luzes, do Flashdance dos anos 80, assim como toques de Fama, quando a personagem central se reúne com uma banda. Há performances muito boas de “Lights” de Ellie Goulding e “Don’t Kill My Vibe” (Sigrid). Fala-se que Minghella gostaria de ter sido diretor de videoclipes e em alguns relances ele vislumbra essa busca aqui, quase colocando alguns completos em meio à trama, num diálogo com os anos 80, abastecido por bandas do rock atual, a exemplo de The Strokes e The Killers (que possui um videoclipe exatamente com Minghella). Isso fornece uma camada de diálogos atmosféricos bem propícia à reação de cada uma das figuras. Ou seja, este filme está para a época atual como Flashdance esteve para os anos 80 e não se duvide da sua tendência a se tornar um cult.

O visual não funcionaria sem a ótima atuação de Fanning, aqui com menos maneirismos do que no início da carreira e mostrando ser uma atriz superior a Dakota, sua irmã que começou muito bem em Guerra dos mundos e depois teve menos destaque, apesar de The Runaways. Há, além disso, a presença emotiva de Burio e Grochowska, como símbolos de uma família que pode se constituir. Por sua vez, Hall faz uma boa representação de uma agente do universo da música, interessada em assinar contrato rapidamente com astros em potencial. Talvez a proposta do filme em nunca esclarecer direito quem é Violet determina sua universalidade, principalmente ao tratar de um movimento cada vez mais presente de se descobrir estrelas pop em programas de televisão. No entanto, esse lado mais comercial não sobrepuja a sensação de que estamos lidando com personagens que se movimentam por sentimentos, e isso se esclarece na própria relação paternal que Violet desenvolve com Vlad. Minghella assina o roteiro, às vezes com lacunas e lugares-comuns, sem, no entanto, isso incomodar. Muitas vezes onde não há diálogos a história cresce de uma maneira inesperada. A montagem apressada (trata-se de um filme relativamente curto) também incomoda o desenvolvimento de algumas situações. Porém, o que se vê é interessante o bastante para investir em sua emoção.

Teen spirit, EUA, 2019 Diretor: Max Minghella Elenco: Elle Fanning, Rebecca Hall, Zlatko Buric, Agnieszka Grochowska, Ruairi O’Connor, Millie Brady Roteiro: Max Minghella Fotografia: Autumn Durald Trilha Sonora: Marius de Vries Produção: Fred Berger Duração: 92 min. Estúdio: Automatik Entertainment, Blank Tape, Interscope Films Distribuidora: Lionsgate, LD Entertainment, Bleecker Street

O bom gigante amigo (2016)

Por André Dick

O bom gigante amigo 19Há cinco anos, Steven Spielberg realizou sua primeira animação, As aventuras de Tintim, baseado no personagem de Hergé, e obteve sucesso com um realismo atípico para o gênero, mesmo com sua revolução contínua. Depois de uma série de filmes baseados na história, a exemplo de Cavalo de guerra, Lincoln e Ponte dos espiões, ele regressa com uma animação mesclada com humanos intitulada O bom gigante amigo, com base num livro de Roald Dahl, o mesmo de O fantástico Sr. Raposo e A fantástica fábrica de chocolate. A adaptação do livro de Dahl, publicado em 1982, foi o último trabalho de Melissa Mathison, a autora de E.T. – O extraterrestre, também desse ano, e Spielberg utiliza seu manancial de imagens para compor uma história melancólica, talvez a mais intensa sua desde A.I. – Inteligência artificial.
Sophie (Ruby Barnhill) é uma jovem que mora num orfanato de Londres e determinada noite ela ouve barulhos da rua, vendo um gigante idoso (Mark Rylance), que a leva para seu país onde há inúmeros gigantes ameaçadores. O gigante, que se intitula Big Friendly Giant (no Brasil, BGA), avisa a Sophie que ela deve ficar no lugar, pois caso contrário poderia contar aos outros sobre a sua existência. Quando um dos gigantes maus, Bloodbottler (Bill Hader), entra em sua casa, Sophie é obrigada a se esconder num vegetal chamado de snozzcumber.

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BFG conta à menina que ele captura sonhos em forma de vaga-lumes num determinado lugar – que parece uma mescla das árvores de Guerra dos mundos com as de Inteligência artificial, além de evocar a majestosa nave de Contatos imediatos do terceiro grau – e os leva para casa, trabalhando-os como poções. Depois, o gigante espalha esses sonhos luminosos com um trompete gigante enquanto as crianças dormem. No entanto, o grande inconveniente da vida de BFG é enfrentar esses gigantes: além de Bloodbottler, há Bonecruncher (Michael David Adamthwaite), Gizzardgulper (Chris Gibbs), Manhugger (Adam Godley), Childchewer (Jonathan Holmes) e Butcher Boy (Daniel Bacon), entre outros. A história vai guiar BFG e Sophie a Elizabeth II (Penelope Wilton), Rainha do Reino Unido, no Palácio de Buckingham, com sua empregada Maria (Rebecca Hall) e seu mordomo, Mr. Tibbs (Rafe Spall).
Com a trilha incessante de John Williams, o início de O bom gigante amigo lembra bastante a adaptação de Spielberg para Peter Pan, Hook – A volta do Capitão Gancho e o episódio que ele dirigiu para No limite da realidade (sendo que neste o espaço era um asilo em que os idosos queriam se transformar novamente em crianças), também escrito por Mathison. Em razão da fraca interpretação de Barnhill, Spielberg não consegue desenvolver o arco da personagem de Sophie de modo a princípio envolvente, mesmo com a boa atuação de Rylance como o gigante e uma sequência irrepreensível em que ele vai se ocultando nas ruas de Londres, passando-se por postes de luz, para não chamar a atenção de moradores.

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À medida que a fotografia de Janusz Kaminski começa a se destacar, Spielberg desenha um universo atrativo: a habitação de BFG é um primor de concepção visual e remete a detalhes de Indiana Jones e o templo da perdição, enquanto sua caminhada atrás de sonhos no lado invertido de uma árvore dialoga com o melhor da animação japonesa e com a parte final de A.I., misturando cores vivas e um tom mais sóbrio. Para um cineasta, no entanto, sempre interessado no universo infantil, é de se surpreender com o fato de que ele não selecionou uma boa atriz para o papel central nem trabalha com o sentimento de solidão da infância como em Império do sol, independente de o tom da história ser mais infantil. Spielberg prefere, aqui, mostrar uma espécie de amargo envelhecimento, por meio da figura do gigante, sempre sendo importunado pelos companheiros com quem não se identifica, inclusive porque perto deles tem um tamanho quase minúsculo e porque, principalmente, ele não devora humanos (a quem os gigantes maus se referem como feijões). O trecho em que ele tenta expulsá-los de sua casa é certamente um dos mais angustiantes da carreira de Spielberg, como se não houvesse tranquilidade aparente à vista. O Palácio de Buckingham se torna aquele espaço em que o gigante se torna ao mesmo tempo admirado e acolhido, e pode-se dizer que é o filme do diretor de Indiana Jones que mais presta tributo a uma certa devoção à tradição real inglesa (spoiler: se, em certo momento, há a presença de militares é porque, para os desavisados, isso já aparece no texto original). E Dahl sempre esteve sob observação de Spielberg, tendo escrito nos anos 40 um livro chamado The Gremlins, sobre criaturas que sabotavam aviões britânicos.

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Pela atuação de Rylance, cujo Oscar de ator coadjuvante por Ponte dos espiões, no lugar de Stallone, foi a surpresa deste ano, BFG é certamente o personagem mais triste da exitosa carreira de Spielberg. Ele tem uma sensação de estar sempre deslocado não apenas pelo tamanho como também pelo que parece ter insegurança para dizer, a exemplo do que acontece no encontro com a rainha, e é isso que mais realça esta obra que se transformou numa das piores bilheterias da carreira do diretor (para um orçamento de 140 milhões de dólares, ele recuperou até agora a metade). Misturando animação e atores reais, o que faz lembrar obras como Uma cilada para Roger Rabbit e Se minha cama voasse, no entanto com uma estranha indeterminação, nesse sentido, O bom gigante amigo não se destina nem especialmente a crianças, e talvez sua história não seja a mais adequada para um público adulto interessado por uma trama mais desenvolvida. A sua autenticidade se localiza num meio-termo entre o talento de Spielberg para compor imagens e sua habilidade em mostrar seres deslocados no espaço. No roteiro, também é possível ver elementos que interessam a Mathison, que escreveu nos anos 90 o filme Kundun para Scorsese, sobre o Buda, uma espécie de solidão cósmica que já se entrevia no seu grande sucesso E.T. No entanto, falta um elo de ligação entre as camadas do filme que poderiam aproximá-lo ainda mais do espectador, que, no entanto, é recompensado por sua beleza plástica de evidente talento e um traço mais contemplativo que pouco lembra outras animações mais comerciais.

The BFG, EUA, 2016 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Mark Rylance, Ruby Barnhill, Jemaine Clement, Rebecca Hall, Penelope Wilton, Bill Hader, Rafe Spall Roteiro: Melissa Mathison Fotografia: Janusz Kaminski Trilha Sonora: John Williams Duração: 117 min. Produção: Frank Marshall, Sam Mercer, Steven Spielberg Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Amblin Entertainment / Kennedy/Marshall Company, The / Reliance Entertainment / Walt Disney Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

Transcendence – A revolução (2014)

Por André Dick

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Quando foi anunciada a estreia de Wally Pfister, diretor de fotografia dos filmes de Cristopher Nolan, com Johnny Depp, à frente de uma grande produção, logo se criou uma grande expectativa. Talvez seja esta mesma expectativa que tenha feito o estúdio colocar Transcendence – A revolução um pouco antes das estreias de verão, como se fosse um blockbuster destinado a arrecadar milhões. Com grande prejuízo nas bilheterias e um rastro de críticas em parte bastante negativas, o filme de Pfister não conseguiu criar uma empatia direta, mesmo com seu elenco: além de Depp, Morgan Freeman e Rebecca Hall, para citar apenas os principais. Filmes de ficção científica com fundo filosófico dificilmente conseguem, de qualquer modo, atrair uma grande bilheteria, independente de seus objetivos: é quando a ficção se mescla com cenas de movimento contínuo que o gênero costuma crescer em todos os sentidos – e se tiver espaçonaves e batalhas espaciais quanto mais melhor. E é importante não esquecer: Godzilla foi um grande sucesso de bilheteria e mesmo elogiado por grande parte da crítica estrangeira, mesmo sendo o filme que, de fato, é.
Daí não ser uma surpresa que Transcendence tenha sido recebido com tanta desconfiança, além, claro, de que sua história não estava interessada em puxar os elementos mostrados para o lado espetacular da questão, preferindo se manter com uma certa reserva e um certo tom de onirismo ao longo de sua narrativa. Esta mostra um cientista, Will Caster (Johnny Deep), casado com Evelyn (Rebecca Hall), que, quando está fazendo uma palestra sobre a inteligência artificial, descobre a existência do grupo Revolutionary Independence From Technology (RITF). Ao mesmo tempo, há a presença do agente do FBI Donald Buchanan (Cillian Murphy), acompanhado do cientista do governo Joseph Tagger (Morgan Freeman), investigando a história. Caster tem o objetivo de retornar de maneira a princípio inacreditável: ele tenta transferir sua consciência para um computador. Tendo o apoio da mulher, mas a desconfiança de seu melhor amigo, Max Waters (Paul Bettany), Caster tentará se tornar uma espécie de humano habitando um sistema de informática, quase uma versão masculina do Ela de Spike Jonze.

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Enquanto isso, Max é perseguido por  Bree (Kate Mara), o líder do RIFT, e, na medida em que terá de se decidir em trair Caster ou segui-lo, e do mesmo modo continuar fiel à imagem de sua amiga, Max se tornará um personagem deslocado pelos acontecimentos.
Caster quer ainda mais: criar no deserto um lugar em que as pessoas possam ir se tratar, com ganhos envolvendo a a biologia, a tecnologia e as nanotecnologias. Estão aí todos os elementos de uma ficção científica de interesse, e Pfister os trabalha com cuidado. No início, dispondo os personagens em cena, já é possível sentir uma certa atmosfera melancólica, inusitada neste tipo de filme. Os personagens estão em contato uns com os outros, mas ao mesmo tempo parece haver um afastamento.  E, se a trama oferece a impressão de andar lenta demais, é mais porque Transcendence, embora pareça, não segue o ritmo da maioria dos blockbusters, preferindo se concentrar na relação entre Caster e Evelyn. Esta é baseada no conhecimento científico e nas descobertas, mas não consegue nunca ganhar corpo porque ambos os personagens se situam e se comportam como pessoas deslocadas. Na verdade, eles parecem sempre estar em sonhos ou transições de energia, como o da internet, nunca em lugares fixos ou determinados. O quarto de Caster e Evelyn, por exemplo, é um exemplo de lugar que aparenta ser acolhedor, mas esconde os conflitos do casal deixados em vida. O fato de se fazer o upload da consciência de Caster para um computador não significa, para Evelyn, que ele de fato exista, mas que pode ser ameaçador e dominador como a rede da internet em que ele pretende sobreviver e se espalhar.
Não é por acaso, neste sentido, que Transcendence, a partir de sua segunda metade, prefira mostrar a tentativa de Caster criar uma comunidade no meio do deserto, na cidadezinha de Brightwood. As imagens de Transcendence neste deserto são ao mesmo tempo vagarosas e contemplativas, sugerindo um espaço-tempo indefinido e lembram as do início do filme 2010 – O ano em que faremos contato, quando o sol está nascendo em frente a placas de energia solar. A direção de arte do filme de Hyams tem semelhanças com a do filme de Pfister, sendo que esta é ainda mais elaborada e evoca sempre um sentimento de solidão e afastamento do mundo. O cenário dialoga com a tentativa de Caster é soar como um deus capaz de regenerar – ou de transcender, conforme o título – toda a humanidade à sua volta. Como Caster, Depp está num limite tênue entre a apatia e a frieza tecnológica, mas talvez seja uma necessidade de não soar como seus personagens ligados aos filmes de fantasia, enquanto Hall demonstra o talento já mostrado em outros filmes, compondo uma mulher situada entre o mundo experimental e a preocupação de lidar com algo que pode fugir ao controle.

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Dentro do que se propõe, ele cumpre o que Pfister organiza com a lentidão de sua narrativa, sem nenhum momento estridente de ação no sentido em que o cinema vem se moldando nos últimos anos. Embora haja elementos de filmes de Nolan, sobretudo de A origem, sobretudo numa certa confluência entre a bela trilha sonora de Mychael Danna (As aventuras de Pi), fotografia de Jesse Hall (The spectacular now) e diálogos, fazendo com que esses soem o tempo todo dispersos ou vagando pelo espaço pelo qual a narrativa se move, os personagens parecem estar sempre conversando com computadores, como se a consciência humana tivesse sido deslocada para esse compartimento, e há imagens de grande sensibilidade, sobretudo quando mostra o corpo como uma coleção de partículas, em contraste com as tormentas que surgem. Transcendence consegue muito mais empregar uma elegância por meio de seu trabalho de fotografia e diálogos breves e soltos, com o apuro de uma montagem não linear, mas que ao longo da narrativa se torna mais confusa e mais evocativa. É interessante como Pfister, por exemplo, mostra os ambientes da universidade, de maneira asséptica, e dos laboratórios e corredores em que Caster passa a trabalhar com as nanotecnologias com a mesma luminosidade de Apichatpong Weerasethakul em Síndromes e um século, assim como é compreensível que o início do filme antecipe o seu final, como uma rede ligada a outra, em que os pontos devem se conectar. Mais ainda é a maneira como Pfister filma, no início, uma gota-d’água num lugar-chave para o casal – e essa gota antecipará a verdadeira transcendência, numa imagem sobretudo elaborada, fixando-se também na semelhança com o campo de placas de energia em Brightwood, que lembram girassóis voltados para o céu. Pfister certamente não está conduzindo a humanidade, em seu filme, a uma fuga dos compromissos modernos e contemporâneos por meio dos computadores, mas vendo a base desse sentimento pela consciência artificial. Neste sentido, Transcendence é um filme que, mais do que pontos bastante interessantes a serem discutidos, foge a qualquer traço de simples filme comercial, daí sua maior originalidade e aquilo que equivale a seu título.

Transcendence, EUA, 2014 Diretor: Wally Pfister Elenco: Johnny Depp, Morgan Freeman, Rebecca Hall, Paul Bettany, Kate Mara, Cillian Murphy, Cole Hauser, Clifton Collins Jr. Roteiro: Jack Paglen Fotografia: Jess Hall Trilha Sonora: Mychael Danna Produção: Andrew A. Kosove, Annie Marter, Broderick Johnson, Kate Cohen, Marisa Polvino Duração: 119 min. Estúdio: Alcon Entertainment / Straight Up Films

Cotação 4 estrelas

 

Homem de ferro 3 (2013)

Por André Dick

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Em 2008, Robert Downey Jr., como o Homem de Ferro, enfrentou um grande vilão, Obadiah Stane (Jeff Bridges). Em 2010, novamente sob a direção de Jon Favreau, ele regressou ao papel de herói, tendo como rivais dois vilões interessantes, Ivan Vanko (Mickey Rourke) e Justin Hammer (Sam Rockwell). Ainda assim, o que se destacava, ainda mais do que o primeiro, era o bom humor de Downey Jr., além da aparição de Samuel L. Jackson e da cena de boxe com a personagem de Scarlett Johansson.
Se este segundo filme subestimado já começava no tribunal, com o Homem de Ferro sendo pressionado a dividir os segredos de sua invenção com o Estado, aqui o herói, já estabelecido e fazendo novos experimentos com sua armadura, começa se lembrando de um episódio ocorrido em 1999 (daqui em diante, spoilers) quando dormiu com uma bióloga, Maya Hansen (Rebecca Hall), na virada do ano em Berna, depois de ser abordado por um homem estranho, Aldrich Killian (Guy Pearce), a fim de tratar de negócios.
Com coadjuvantes de luxo, Favreau se saiu bem nos dois filmes que dirigiu, aliando técnica nos efeitos visuais e uma montagem eficiente, enquanto neste terceiro Shane Black tem uma dificuldade especial de dosar o ritmo. Com essa questão episódica demais – o passado que retorna com todos os seus problemas –, ele parece não conseguir, como Favreau, inserir os personagens em conjunto, apesar de a primeira meia hora ser agradável, e afasta alguns deles da trama durante muito tempo. A relação entre o Homem de Ferro e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow, eficiente como nos outros filmes) parece ter congelado no final do segundo filme. Ela está à frente, nas empresas, enquanto ele está em sua mansão, trabalhando no porão, escondido. Ele também não conversa pessoalmente uma vez sequer com aquele que, em determinado momento, de modo irônico, vai provocar nele um espírito de revanche (nem conversará no fim, o que parece indicar problemas no roteiro).

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Desta vez, ele guarda pesadelos da batalha de Nova York de Os vingadores, mas o afastamento continua o mesmo, e não há exatamente um aprofundamento em sua psicologia, o que havia antes do clímax do segundo. Ou seja, se antes Stark e Pepper estavam quase sempre juntos, aqui parece que eles não têm vínculo estabelecido, apenas uma necessidade de dividir diversas piadas na sala de estar e no quarto. Nesse sentido, o filme não deixa a desejar.
A vida do Homem de Ferro começa a ser ameaçada quando surge um terrorista, Mandarim (Ben Kingsley, que parece saído diretamente do set de O ditador), que remete sobretudo a Bin Laden, e ele consegue invadir, com seus vídeos, todas as redes de televisão, depois de atentados em que não se consegue descobrir a origem das bombas. Embora aqui não estejamos tratando de A hora mais escura, e sua polêmica com as cenas de tortura, há cenas de humor um tanto estranhas (sobretudo aquelas que acontecem no Paquistão), pois trata-se de um filme de diversão que evoca diretamente um contexto muito mais sério. O aspecto cômico do filme acaba abalado por sua tentativa de estabelecer um contato com acontecimentos reais, que não são divertidos. Em algumas dessas sequências, entra em cena aquele que se denomina Patriota de Ferro, que na verdade é Jim Rhodes (Don Cheadle, menos efetivo do que no segundo filme).
Depois de uma catarse sonora e de efeitos especiais, é preciso, para Black, dar vazão ao filme e cultivar seus elementos externos, colocando o Homem de Ferro como amigo de um menino, Harley (Ty Simpkins, bom ator), o que, apesar de soar simpático e render momentos divertidos (sobretudo um diálogo que deve ter sido feito de forma improvisada por Downey Jr.), acaba extraindo boa parte do núcleo do filme e parece querer agradar, de forma apressada, o público infantil. O herói precisa recuperar-se para enfrentar o vilão: porém, o que ele faz é decorar uma garagem como laboratório. Claro que não se deseja achar que filmes que almejam o divertimento têm necessariamente uma faceta dramática, mas pode haver uma pausa para recuperar as ações. Quando acontece a catarse com sua mansão – e ela aparece no trailer –, tratando-se de uma sequência impressionante, com a ótima fotografia de John Toll (Cloud Atlas), onde ele, afinal, abrigava seus projetos, parece não haver a justa medida de sofrimento.

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Num filme de ação, é preciso temer os vilões e se torcer para o herói superar suas dificuldades. Quando o herói parece não sentir dificuldades nem tem desejo de reparar a realidade em que vivia, a tensão, em boa parte, se perde (evidente no fato de que muitas vezes ele não está diretamente envolvido na ação e na conversa final, depois dos créditos). E quando o vilão, Mandarim, revela sua verdadeira faceta, vemos um lado de Kingsley constrangido (o extraordinário ator não escapa ileso da brincadeira).
Black, que fez o roteiro de todos os filmes da série Máquina mortífera (os dois primeiros são especialmente bons), mas também dos fracos O último boy scout e O último grande herói, e antes fez apenas um filme, justamente com Downey Jr., Beijos e tiros, que brincava com o cinema noir e tinha um estilo interessante, demonstra mais competência do que o esperado para cenas de ação grandiosas (e há pelo menos três no filme que parecem superar qualquer outra da série), mas acaba destoando justamente onde se esperava mais: no roteiro bem delineado e com diálogos eficientes. O que se vê é uma sucessão de gags, de todos os estilos, algumas delas divertidas, sobretudo pela atuação de Downey Jr. E, vendo de forma distanciada, um diretor que fez apenas um filme e não dirigia há oito anos não seria a melhor alternativa para imprimir ritmo.
O Homem de Ferro de Downey Jr. não pode ser levado totalmente a sério, mas tampouco soa sem elementos dramáticos ou sem uma relação paterna que o acompanha na criação da própria empresa. Aqui, a porção dramática diminui consideravelmente em passagens com maior tendência à autossátira, quase como o que fez Richard Lester em Superman III, e a crise de ansiedade inventada para Stark parece aleatória. Existe, inclusive, uma sequência que lembra a do personagem de Tom Cruise em Encontro explosivo, satirizando ele próprio em Missão impossível. Pelos trailers, parecia, inclusive, que haveria uma espécie de influência do terceiro Batman pela escuridão das imagens. Não é o que acontece (nem deveria), mas trailers certamente ajudam a estabelecer uma concepção visual prévia para o que irá se assistir. Não se espere, portanto, nenhum traço sombrio. Mas, particularmente, o que tira a energia que deveria haver no duelo entre Homem de Ferro e o empresário Killian é justamente Guy Pearce, ator que tem dificuldade de estebelecer uma ligação com a plateia e parece soar em muitos momentos exagerado. Sua atuação é, particularmente, equivocada, ainda mais por causa do roteiro e quando comparada às de Jeff Bridges, no primeiro, e de Rourke e Rockwell no segundo.
Existe emoção em Homem de ferro 3 quando Downey Jr. consegue mesclar o elemento do bom humor com o drama, quando ele está numa situação delicada e percebe que Pepper pode correr um perigo indesejado. É justamente quando estabelece ligações humanas que Homem de ferro 3 cresce. Quando ele soa com elementos de sátira a outros filmes, inclusive aos da série, ele acaba por não conseguir fazer o que mais quer: divertir.

Iron man 3, EUA, 2013 Diretor: Shane Black Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Ben Kingsley, Paul Bettany, Rebecca Hall, Jon Favreau, Don Cheadle, James Badge Dale, Ashley Hamilton, Yvonne Zima, William Sadler, Ty Simpkins, Miguel Ferrer Produção: Kevin Feige Roteiro: Shane Black, Drew Pearce Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Brian Tyler Duração: 130 min. Distribuidora: Disney Estúdio: DMG Entertainment / Marvel Studios / Paramount Pictures

Cotação 2 estrelas e meia