Doutor Sono (2019)

Por André Dick

Em O iluminado, Stanley Kubrick trouxe às telas talvez a adaptação mais conhecida de um romance de Stephen King, um dos nomes que mais tiveram um acesso amplo no meio cinematográfico. O escritor não chegou a apreciar a adaptação feita, apontando mais qualidades na versão realizada para a TV anos depois. No entanto, pode-se dizer que a história de Jack Torrance (Jack Nicholson) e sua mulher, Wendy (Shelley Duvall) e o filho Danny (Danny Lloyd) no hotel Overlook, nas montanhas rochosas, é uma das mais interessantes já mostradas no universo do terror e do suspense graças ao talento de Kubrick.
Agora, quase 40 anos depois, o diretor Mike Flanagan adaptou a sequência escrita pelo mesmo Stephen King, intitulada Doutor Sono. A história inicia mostrando Danny Torrance (Roger Dale Floyd) e sua mãe, Wendy (Alex Essoe), vivendo na Flórida. Ele ainda é abalado pelos fantasmas do Hotel, principalmente a mulher do banheiro do quarto 237 e se comunica com o fantasma de Dick Halloran (Carl Lumbly). Ao mesmo tempo, há uma seita chamada True Knot, tendo como líder Rose the Hat (Rebecca Ferguson), que atravessa os Estados Unidos num trailer em busca de iluminados do qual possam sugar um determinado vapor capaz de dar vitalidade.

Esse traço King parece ter extraído de O cristal encantado de uma seita que lembra a de Quando chega a escuridão, filme de vampiros dos anos 80 feito por Kathryn Bigelow, com acréscimo de um figurino por vezes excessivamente excêntrico ou a de Quadrilha de sádicos, de Wes Craven. Eles estão vigiando Snakebite Andi (Emily Alyn Lind), uma jovem com poderes telepáticos, indo até um cinema, no qual se evoca um pouco Corrente do mal.
Ainda abalado pelos acontecimentos do passado, Danny tem problemas que reproduzem o do pai e vai trabalhar numa cidade pequena, onde tem como amigo com Billy Freeman (Cliff Curtis, bem, mas subaproveitado), e depois vai parar num hospício. Ao mesmo tempo, ele é rastreado por Abra Stone (Kyliegh Curran), uma menina com poderes telecinéticos parecidos com os seus. Esses momentos, principalmente quando ele é entrevistado por John Dalton (Bruce Greenwood), responsável nas reuniões dos Alcóolicos Anônimos das quais participa Danny e coordenador do hospício, são idênticos à primeira ida de Torrance ao Overlook no filme de Kubrick, do mesmo modo que os atores Floyd, Assoe e Lumbly são parecidos com Lloyd, Duvall e Scatman Crothers (não desrespeitando o original, como poderia) e as inscrições nas paredes do quarto onde vai morar Danny tenham ligações com o ato final da obra de 1980. São os quarenta minutos iniciais que mais lembram a obra de Kubrick, intensificando o mistério e a contemplação, assim como a trilha sonora, os efeitos sonoros e a transição elegante das cenas.

Há um cuidado na atmosfera e Flanagan cresce como cineasta em comparação a seu trabalho anterior, Jogo perigoso, também baseado em King, e mesmo a Hush No entanto, há diferenças claras: não há a fotografia nem o design de produção brilhantes da obra de Kubrick, embora o trabalho de Michael Fimognari seja competente na captação de imagens e conceda ao filme um padrão visual baseado no verde musgo do banheiro de O iluminado. Se Doutor Sono for visto diretamente em comparação com a peça de 1980, ele é muito diferente, como 2010 em relação a 2001. No entanto, ele tem suas qualidades: apesar de sua história ser mais direta, menos psicológica numa comparação com o original, mesmo que a atuação de Ewan McGregor seja notável em seu comedimento, ao contrário da antológica de Jack Nicholson. Do mesmo modo, Ferguson, como a vilã Rote, e Curran, como a jovem Abra. complementam bem esse trio envolvido num embate, além de ótimas (apesar de breves) participações de Jacob Tremblay e Henry Thomas. Há momentos que parecem dialogar mais com o universo de X-Men, soando estranho no contexto de um filme de terror, principalmente uma passada num bosque, mas chama a atenção que King quis uma continuação realmente distanciada da peça de Kubrick, da qual não gostou. E seria difícil outra continuação repetir Blade Runner 2049. Por outro lado, há uma passagem notável que ecoa Os vampiros de Salem, de Tobe Hooper, do final dos anos 1970, no melhor uso de efeitos visuais da trama.

Flanagan, porém, é visivelmente um admirador de O iluminado: ele utiliza algumas figuras e imagens de maneira muito interessante, principalmente quando o espectador tem acesso a sequências emocionantes, capazes de despertar uma nostalgia e, ao mesmo tempo, inseri-las num novo contexto e um novo sentido. É quando Doutor Sono mais se aprofunda nas ligações com o anterior, na maneira como as recordações podem perdurar como traumas dentro de um personagem, e a volta do passado significa encontrar literalmente fantasmas, que a trama mais toma um caminho instigante e mesmo surpreendente. O iluminado, além de uma obra-prima, é uma referência da cultura pop e possui um brilhante campo de diálogos por meio de suas imagens. Flanagan logo no início faz o mesmo: entre figuras ameaçadoras, coloca uma vestida como Wendy, a mãe de Danny, no início do filme de Kubrick. É um aceno de que os sustos podem permanecer por décadas e mesmo se reproduzir numa sequência a princípio dispensável e, agora que existe, com qualidades evidentes.

Doctor Sleep, EUA, 2019 Diretor: Mike Flanagan Elenco: Ewan McGregor, Rebecca Ferguson, Kyliegh Curran, Cliff Curtis, Emily Alyn Lind, Dale Floyd, Alex Essoe, Carl Lumbly Roteiro: Mike Flanagan Fotografia: Michael Fimognari Trilha Sonora: The Newton Brothers Produção: Trevor Macy e Jon Berg Duração: 151 min. Estúdio: Intrepid Pictures, Vertigo Entertainment Distribuidora: Warner Bros. Pictures

Missão: impossível – Efeito Fallout (2018)

Por André Dick

O primeiro Missão: impossível, ainda dos anos 90, mostrou a volta, na época, do diretor Brian De Palma, estruturado em momentos de suspense, depois do desapontamento financeiro de A fogueira das vaidades e Síndrome de Caim. Nele, Ethan Hunt (Tom Cruise), um agente principal da IMF (Impossible Mission Force), é acusado de traição e precisa buscar uma lista oficial de espiões norte-americanos para a misteriosa Max (Vanessa Redgrave), a fim de provar sua inocência. Auxiliado por uma dupla (Ving Rhames e Jean Réno) e tendo em torno Claire (Emmanuelle Béart), o agente tenta chegar ao computador que contém a lista. Mesmo não apresentando muitos momentos de ação, a expectativa da história criada por De Palma vale a sessão, com uma passagem final memorável, em que a fotografia do colaborador habitual do diretor, Stephen H. Burum, era um trunfo. Se o segundo filme, dirigido por John Woo, tinha prevalência de estilo sobre substância, o terceiro, de J.J. Abrams elevou a série a um novo patamar, com o agente Hunt, dividido entre o trabalho e o casamento com Julia (Michelle Monagan). No entanto, ela não sabe de sua vida dupla, e ele parte em nova missão, para capturar Owen Davian (o ótimo Philip Seymour Hoffmann), que tem um objeto, o Pé de Coelho. O filme basicamente é sobre sua tentativa de reencontrar a namorada, mas Abrams concede ao personagem traços humanos.

No quarto filme, de Brad Bird, com o subtítulo Protocolo fantasma, além da curiosa presença de Léa Seydoux, as sequências de ação e a beleza das paisagens, na tempestade do deserto antológica, eram um acréscimo à competência narrativa, o que se repetiu na quinta parte, Nação secreta. O diretor desta, Christopher McQuarrie, volta em Missão: impossível – Efeito Fallout.
O filme dá prosseguimento ao que aconteceu no anterior. O que sobrou da organização de Solomon Lane (Sean Harris) se transformou num grupo terrorista. Ethan Hunt, em Belfast, precisa interromper a venda de plutônio para integrantes desse grupo, para outro cliente, John Lark. Ele recebe a ajuda novamente de Benjamin Dunn (Simon Pegg) e Luther Stickell (Ving Rhames). No entanto, acontece um imprevisto, que vai colocar Hunt em ação. Mesmo sob ordem de Alan Hunley (Alec Baldwin), ex-agente da CIA e secretário do IMF, para acompanhar Hunt, a agente Erica Sloane (Angela Bassett) escolhe o agente August Walker (Henry Cavill) e a primeira passagem é para a Cidade das Luzes, onde MvQuarrison filma cenas de ação antológicas, sob influência clara de John Wick 2 (a luta no banheiro entre os heróis e um personagem feito por Liang Yang) e do James Cameron de O exterminador do futuro 2, na perseguições de motos e carros. Lá, Hunt conhece a White Widow (Vanessa Kirby), enquanto tenta encontrar os integrantes ex-aliados de Lane, ao mesmo tempo que reencontra Ilsa Faust (Rebecca Ferguson), ex-agente do MI6, que aparecia em Nação secreta.

Efeito Fallout tem, primeiramente, excelentes locações (toda a sequência que se passa em Paris), assim como acontecia no terceiro, passado em grande quantidade no Japão (onde Ethan tinha uma passagem que inspiraria Batman em seu segundo filme de Nolan). As peripécias do agente são obviamente difíceis de acreditar, mas Quarrie filma com tanta veracidade e com uma fotografia alternando ângulos que sabemos estar diante de uma obra de aventura incomum. Tudo soa espetacular, com efeitos especiais de ponta e design de produção detalhista (o clube noturno, por exemplo), auxiliado por uma montagem trepidante.
McQuarrie concentra uma carga mais humana no personagem de Hunt, ou seja, coloca medo e reflexão na maneira como ele age diante do perigo. Isso fazia falta sobretudo no segundo da série. No primeiro, De Palma fazia um filme de ação quase orquestrado – num meio caminho entre os policiais que fez (Os intocáveis) com o aspecto cult de Femme fatale. Por sua vez, Abrams fazia uma espécie de peça de espionagem em que, à medida que acelera, consegue estabelecer cada um dos componentes de interesse entre cada personagem – ou seja, parecia que estávamos em meio à ação e o personagem de Hunt tentava encontrar a sua amada para se reconectar a uma vida ilusória. As conversas de Luther com a personagem de Rebecca Ferguson são as que melhor retomam essa tentativa de experimentar uma vida cotidiana.

Se o quarto e o quinto filmes foram interessantes, no entanto concentrados na parte visual, é neste sexto que McQuarrie estabelece melhor ainda a peregrinação de Hunt com o peso de escolher entre a humanidade e os amigos, de forma destacada no primeiro ato. E, mesmo que Pegg e Rhames continuem boas presenças, trazendo doses bem-vindas de humor, é, de forma surpreendente, que Cavill, um ator normalmente restrito apenas ao personagem de Superman e poucas variações (no ótimo O agente da U.N.C.L.E.), se destaque. Por isso, talvez, ele se ressinta, em alguns momentos, de reviravoltas no ato final, quando tudo se estabelece de maneira mais direta e Tom Cruise continue se afastando de um roteiro em que atue menos fisicamente. Surge uma personagem surpresa de um dos filmes passados e, ao contrário de explorar a sua presença, McQuarrie prefere se concentrar apenas na ação, o que diminui uma certa conexão do público. De qualquer modo, blockbuster de grande qualidade, Efeito Fallout acaba concedendo mais responsabilidade para as próximas obras de 007, a única franquia que possui a mesma quantidade de cenas de ação em intensidade, em que o espectador não apenas testemunha a ação, como se corresponde com a corrente emocional dos personagens. Existe aqui uma narrativa funcional, sem desenvolvimentos desnecessários, parecendo-se muito com Operação Skyfall nesse aspecto, abrindo os personagens para uma continuação possivelmente ainda mais grandiosa e capaz de reunir elementos do passado de Hunt e o futuro da humanidade contra grupos ameaçadores.

Mission: Impossible – Fallout, EUA, 2018 Diretor: Christopher McQuarrie Elenco: Tom Cruise, Henry Cavill, Ving Rhames, Simon Pegg, Rebecca Ferguson, Sean Harris, Angela Bassett, Alec Baldwin Roteiro: Christopher McQuarrie Fotografia: Rob Hardy Trilha Sonora: Lorne Balfe Produção: Tom Cruise, JJ Abrams, David Ellison, Dana Goldberg, Don Granger, Christopher McQuarrie, Jake Myers Duração: 147 min. Estúdio: Bad Robot, Skydance Media, Alibaba Pictures Distribuidora: Paramount Pictures

Boneco de neve (2017)

Por André Dick

Responsável por Deixa ela entrar e O espião que sabia demais, ambos considerados referenciais do cinema contemporâneo, o diretor sueco Tomas Alfredson enfrentou uma bateria de críticas pesadas a Boneco de neve, baseado em livro de Jo Nesbø. Ele mesmo veio a público se desculpar por não ter conseguido terminá-lo da maneia que gostaria. Não se sabe exatamente o que não deu certo junto ao público e à crítica, mas certamente nem mesmo a produção de Martin Scorsese e a montagem de sua habitual parceira, Thelma Schoonmaker, junto a Claire Simpson, tiraram o peso de decepção com que o filme foi recebido.
Basicamente, é a história de Harry Hole (Michael Fassbender), um detetive que investiga o desaparecimento de uma mulher no início do inverno numa cidade em torno de Oslo, na Noruega. O suspeito é um serial killer chamado “The Snowman” (“Boneco de Neve”, como o título brasileiro antecipa), que já esteve na ativa, pois deixa exatamente uma figura desse boneco no gelo indicando suas vítimas. A primeira a desaparecer é Birte Becker (Genevieve O’Reilly), casada com Filip (James D’Arcy), pais de Josephine (Jeté Laurence). Como ajudante, Hole recebe a chegada de Katrine Bratt (Rebecca Ferguson), que diz ter estudado seus casos na academia. A aproximação entre os dois não chega a se consumar de fato, pois Hole está imerso em problemas alcóolicos e Bratt esconde um detalhe de seu passado que pode ajudar a explicar seu comportamento presente.

Se Deixa ela entrar tinha problemas, a fotografia não era um. Neste novo filme, ela novamente é um destaque. O trabalho de Dion Beebe carrega uma atmosfera que mescla referenciais claros, como os trabalhos de Atom Egoyan, e mesmo os filmes dos anos 80. O detetive feito por Fassbender lembra, pelo jeito e figurino, o Rick Deckard de Blade Runner. Ele tem relação com a ex-esposa, Rakel Fauke (Charlotte Gainsbourg), e seu filho adolescente, Oleg (Michael Yates). Ela namora Mathias (Jonas Karlsson), um médico que tenta ser agradável com Hole, a fim de evitar atritos familiares. E no meio da história ainda se insere uma espécie de ricaço e que tenta levar Oslo a sediar as Olimpíadas de Inverno, Arve Stop (J.K. Simmons). Alfredson mostra de modo interessante como o comportamento e o sistema familiar se intensificam em tempos diferentes e como podem perturbar a mente de um homem. Os personagens são desenvolvidos mais em seu aspecto enigmático e expositivo, e é muito diferente assistir a Boneco de neve: pouco existe aqui de cinema comercial. E o que se mostra de apelo mais popular é, ao mesmo tempo, misterioso, calcado em imagens diferenciadas.

Há alguns flashbacks que focam o personagem de outro detetive, Gert Rafto (Val Kilmer, quase irreconhecível), que investigou o serial killer do boneco de neve anos antes e, se este material certamente teria mais agilidade com outro diretor, há exatamente um certo fascínio em acompanhar essa história com a lentidão empregada, com toques ainda do Insônia, de Nolan, e o igualmente subestimado À procura, de Egoyan. Fassbender é um dos melhores atores da atualidade e ele confere uma presença determinada a cada cena, representando a frieza do lugar que o cerca: suas atitudes são mecânicas e remotas, mesmo por causa do seu problema com o álcool. No entanto, a investigação o leva, mais do que adotar métodos já utilizados em outras investigações, a enfrentar o que não gostaria: o passado, tanto representado por Rafto quanto pela casa onde se dão alguns momentos-chave do serial killer. A casa, para Hole e o criminoso, representa uma mudança de tempo e atitude.

Também há outro elemento interessante rondando suas peregrinações: Alfredson o pressiona dentro de ônibus, casas, escritórios, como se não tivesse uma saída adequada de seu problema central. Ferguson, como sua companheira, é muito interessante, com uma presença magnetizante, assim como Gainsbourg. É uma narrativa que poderia lembrar Millennium, de Fincher, caso tivesse mais subtramas e desenvolvimento; o que permanece, contudo, me parece estar muito acima do que vem sendo dito, sobretudo pela atmosfera construída, com planos abertos mostrando a solidão desses lugares enfocados da Noruega, que se estende a seus personagens. O que se fala de Boneco de neve se espalhou como acontece às vezes: basta a crítica inventar que um filme é fraco e muitos passam a considerar o mesmo. As críticas mais notáveis se baseiam em detalhes essenciais para a história: o personagem central ter problemas com a bebida e os crimes serem anunciados por um boneco de neve (este é o mote do romance, então não haveria motivo para mudanças, e Alfredson opta por um caminho correto ao mostrar a figura). Mal se sabe que, guardadas as comparações, este filme não fica a dever para outros do gênero.

The snowman, EUA, 2017 Diretor: Tomas Alfredson Elenco: Michael Fassbender, Rebecca Ferguson, Charlotte Gainsbourg, Val Kilmer, J. K. Simmons Roteiro: Hossein Amini, Peter Straughan, Søren Sveistrup Fotografia: Dion Beebe Trilha Sonora: Marco Beltrami Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Robyn Slovo, Peter Gustafsson Duração: 119 min. Estúdio: Perfect World Pictures, Working Title Films, Another Park Film Distribuidora: Universal Pictures

Vida (2017)

Por André Dick

Qualquer filme situado no espaço sideral com uma ameaça iminente de um ser indefinido remete a Alien, o clássico de Ridley Scott. A obra de Scott foi tão definidora para o gênero que todas que tentam repeti-la – inclusive o diretor, em Prometheus – são criticadas, com exceção de John Carpenter em O enigma de outro mundo, embora baseado numa ficção dos anos 50 e localizado numa estação da Antártida. Quando se trata de um filme que inicia uma sequência sem cortes mostrando astronautas em uma estação espacial, uma homenagem a Emmanuel Lubezki, pode-se perceber que a outra influência é mais clara ainda: Gravidade, de Alfonso Cuarón. Esses dois elementos se reúnem em Vida, dirigido pelo sueco de ascendência chilena Daniel Espinosa. E apenas essa mescla serviu para que a crítica em geral demitisse o filme ou o classificasse como sem nenhuma qualidade à vista. Embora não haja como fugir à comparação, não há por que destituí-lo de qualidades por causa justamente disso.
Seu roteiro mostra inicialmente a rotina de seis membros da Estação Espacial Internacional: o diretor médico David Jordan (Jake Gyllenhaal); a oficial britânica Miranda North (Rebecca Ferguson); o engenheiro de sistemas Rory Adams (Ryan Reynolds); o piloto japonês Sho Murakami (Hiroyuki Sanada); o biólogo britânico Hugh Derry (Ariyon Bake); e a comandante russa Ekaterina Golovkina (Olga Dihovichnaya).

Essa equipe multiétnica aguarda uma sonda que volta de Marte com uma pequena amostra do solo capaz de trazer alguma evidência de que há vida no planeta vermelho. Estudada por Hugh, ela logo se torna um organismo complexo, embora mais parecido com uma folha de planta em movimento saída de alguma animação da Pixar, e recebe o apelido de “Calvin”. Pode-se perceber o diálogo com outro biólogo que habitou o planeta, justamente o personagem de Matt Damon em Perdido em Marte. Por sua vez, Reynolds, que trabalhou com o diretor em Protegendo o inimigo, ao lado de Denzel Washington, mostra uma composição dramática eficiente que faz lembrar um de seus melhores momentos como ator, em À procura, e Gyllenhaal, dentro do que se propõe, entrega a ênfase necessária para seu personagem. No entanto, de todos no elenco, são Rebecca Ferguson e Ariyon Bake que mostram a sensação própria que caracteriza a obra de Espinosa: esta parece uma cápsula congelada na qual o espectador adentra com certa resistência.
O que aproxima Vida ainda mais é o fato de que o filme não se passa num futuro longínquo e sim com matéria atual, em que os personagens veem a Terra da estação sideral e querem trazer para a ciência a descoberta de algo novo: eles não estão em busca de minério, como a nave de Alien, e sim à espera do que anuncia Marte (cada vez mais em voga). Junto a essa visão de uma equipe com pessoas de vários países, Vida se sente mais realista do que uma ficção científica concebida para fugir ao gênero: o que vai acontecendo surge com o choque de partir de elementos reais ou que tentam se aproximar mais da realidade. Como no projeto de Cuarón, esses homens e mulheres podem estar em qualquer estação espacial fora da Terra.

Com uma fotografia excepcional de Seamus McGarvey, habitual colaborador de Joe Wright, e uma trilha imponente de Jon Ekstrand, Vida poderia ser apenas mais um genérico. No entanto, em seus elementos de produção, ele não fica nada a dever aos melhores filmes de ficção científica. A direção de arte de Steven Lawrence (Rogue One e Batman – O cavaleiro das trevas) e e os efeitos visuais são excepcionais, principalmente quando mostra os personagens fora da estação ou percorrendo seus túneis. Mais: se Espinosa não traz questionamentos existenciais, o seu suspense não fica a dever para os melhores de seu gênero, principalmente no sentido de criar sustos. O roteiro de Rhett Reese e Paul Wernick, parceiros também em Deadpool e Zumbilândia, mescla um senso de espaço e de desespero depois de meia hora que poucas vezes se vê em filmes ambientados no espaço, mesmo porque quase inexistem. Se há algum problema se encontra no prólogo dado aos personagens antes de desencadear a situação-chave, nunca devidamente interessante: o espectador é apresentado muito rapidamente a cada personagem, vendo suas características básicas, embora mesmo assim nos interessemos por cada um deles, por causa das atuações, muitas delas minimalistas dentro do contexto em que são oferecidas, mas verossímeis, com envolvimento em cada cena.

Ao mesmo tempo, Vida causa um desconforto não apenas em relação ao isolamento dessas figuras no espaço quanto a real claustrofobia de se encontrar numa situação bastante inesperada. O diretor utiliza o capacete dos astronautas para acentuar esse ambiente sufocante com extrema eficácia. Isso é visto poucas vezes no cinema de maneira tão clara – a última vez foi exatamente em Gravidade. Se no filme de Cuarón a saudade da astronauta feita por Sandra Bullock era da Terra, aqui se pensa em apenas uma coisa: em evitar que qualquer ameaça de fora chegue ao planeta. Essa batalha é travada com diálogos suficientemente angustiantes para dar à história um tom de perplexidade. Que o baixo orçamento desse filme (58 milhões), um pouco mais do que metade daquele de Gravidade, mais do que visíveis na tela, tenha retornado tão pouco em termos de bilheteria até agora (68 milhões), é de se lamentar. Vida é um exemplar que se insere num padrão esperado e ainda assim consegue ser mais do que eficiente.

Life, EUA, 2017 Diretor: Daniel Espinosa Elenco: Jake Gyllenhaal, Rebecca Ferguson, Ryan Reynolds, Hiroyuki Sanada, Ariyon Bakare, Olga Dihovichnaya Roteiro: Paul Wernick, Rhett Reese Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Jon Ekstrand Produção: Bonnie Curtis, Dana Goldberg, David Ellison, Julie Lynn Distribuidora: Sony Pictures / Sony Pictures Home Entertainment Estúdio: Columbia Pictures / Skydance Media / Sony Pictures Entertainment (SPE)