A vigilante do amanhã – Ghost in the shell (2017)

Por André Dick

O diretor Rupert Sanders estreou com um grande blockbuster há alguns anos, Branca de neve e o caçador, um dos mais interessantes do gênero de fantasia, mesmo com sua má recepção em geral, com Kristen Stewart e Charlize Theron vivendo um duelo transposto do conto de fadas. Sanders já demonstrava um talento interessante para a composição de imagens diferenciadas, em que o fantástico se mesclava com um tom que remetia aos filmes dos anos 80, a exemplo de A lenda e Labirinto, e Cruzada e Gladiador, de Ridley Scott, principalmente na grandiosidade de algumas cenas de batalha.
Em seu novo filme, A vigilante do amanhã – Ghost in the shell, ele procura outro universo, baseado no mangá criado por Masamune Shirow. Num futuro não muito distante do Japão, a Hanka Robotics desenvolve o projeto de um corpo que, ao invés de simplesmente ser uma inteligência artificial, carrega um cérebro humano. No caso, Mira Killian (Scarlett Johansson) é um jovem sobrevivente de um ataque em que seus pais morreram. A Dra. Ouelet (Juliette Binoche) é a sua idealizadora e Cutter (Peter Ferdinando), o responsável pela Hanka, decide usá-la para combater o terrorismo.

Killian, depois de certo tempo, se torna uma major no Setor 9, trabalhando com Batou (Pilou Asbæk) e Togusa (Chin Han) sob as ordens de Daisuke Aramaki (Takeshi Kitano). Killian, no entanto, como RoboCop, vem tendo lembranças do seu passado e quer descobrir, afinal, sua origem. Esta é a busca de Batty em Blade Runner, e A vigilante do amanhã trabalha no mesmo universo cyberpunk, em que o corpo humano é confrontado com o tecnológico – e muitos detalhes remetem também à adaptação do conto de Phillip K. Dick Minority Report, feita por Spielberg. Depois de uma determinada missão, Killian se depara com uma figura desconhecida chamada Hideo Kuze (Michael Pitt). Kuze e Killian podem ter mais algo em comum do que o aparente universo que os afasta.
O filme de Sanders tem um design de produção notável, influenciado tanto por Blade Runner quanto pela Seul futurista de Cloud Atlas, das irmãs Wachowski e Tom Tkywer, e pelo Japão psicodélico de Enter the void, embora seus temas possam dialogar mais com Matrix, a ficção científica referencial do final dos anos 90, e RoboCop, de Paul Verhoeven. O design funciona em conjunto com a narrativa, que parece às vezes contemplativa, em termos de ação e de envolvimento emocional. A escolha de Scarlett Johansson foi muito criticada por ela não ser uma atriz oriental, mas deve-se dizer que a figura original tinha traços ocidentais, e a atriz tenta utilizar a falta de emoção da personagem como resultado apenas de sua configuração tecnológica.

O segmento de Cloud Atlas em que se mostra Sonmi-451, interpretada por Doona Bae, dialoga aberta com A vigilante do amanhã. Bae era uma atriz que conseguia imprimir certa emoção mesmo com poucos gestos, já que lá também era um experimento tecnológico que estava à frente de uma revolução. Por sua vez, Johansson nunca transparece grandes sentimentos em suas personagens (curiosamente, aquele filme em que mais transpareceu afeto foi Ela, em que fazia um dispositivo virtual romântico) e aqui ela consegue transparecer uma humanidade diferente da superfície gelada – melhor do que em Lucy e Sob a pele, no qual fazia uma alienígena. Fala-se que esta escalação é o que levou o filme a uma dificuldade clara de obter uma bilheteria condizente com seu orçamento. Não se trata disso, e sim do fato de que o roteiro tem um rumo filosófico, embora alguns personagens não tenham o desenvolvimento adequado, principalmente da personagem de Binoche, excepcional atriz francesa, tão subaproveitada quanto em Godzilla e fazendo uma parceria indireta com a Marion Cotillard de Assassin’s creed.
Se já existia uma animação clássica baseada nesse mangá, dos anos 90, A vigilante do amanhã se sente bem feito em suas sequências de ação, lembrando Assassin’s creed, mas se equivoca em alguns momentos em depositar suas chances numa possível continuação, sem desenvolver suficientemente a história.

Ainda, assim a importância que dá ao visual – plano em que a atuação de Johansson ganha uma nuance de destaque, pelos efeitos visuais incríveis – se vê expandida por esta busca da personagem por seu eu verdadeiro e, mesmo que a trama principal seja simples, o que se passa na tela não necessariamente fica esclarecido, deixando uma sensação de mistério interessante. Há cenas que dialogam com o segundo John Wick, deste ano, com sua profusão de neons, porém A vigilante do amanhã desenvolve imagens simbólicas, como a da casa oriental que a personagem vislumbra e pode remeter a algo mais íntimo, assim como o mergulho na água pode representar tanto adentrar na vida quanto na mente alheia ou na morte. E Keanu Reeves, sendo seu personagem quase uma máquina, parecia ter um sentimento de angústia permanente, o que não acontece com Johansson.
O roteiro de Ehren Kruger, William Wheeler e Jamie Moss se sente lento e, ao mesmo tempo, apressado, dando ao filme uma camada existencial interessante. Enquanto não vemos todos os personagens se desenvolvendo, percebemos que o diretor não está também interessado em cobrir a lacuna do problema com ação ruidosa, que excluiria da história seu diferencial. O que torna o espetáculo mais atrativo ainda é, além do design de produção e dos efeitos visuais, a fotografia de Jess Hall, que colaborou em Transcendence. Hall tem um olhar interessante para a composição de cores e os enquadramentos. Veja-se o olhar que ele lança para uma repartição de edifícios visitada por Killian, com o céu ao alto. Dentro do material e da narrativa em que seu trabalho é inserido, ele se sente bem o quanto poderia: A vigilante do amanhã é surpreendentemente profundo.

Ghost in the shell, EUA, 2017 Diretor: Rupert Sanders Elenco: Scarlett Johansson, Takeshi Kitano, Michael Pitt, Pilou Asbæk, Chin Han, Juliette Binoche, Lasarus Ratuere, Danusia Samal, Yutaka Izumihara, Tawanda Manyimo, Peter Ferdinando, Pete Teo Roteiro: Jamie Moss, William Wheeler, Ehren Kruger Fotografia: Jess Hall Trilha Sonora: Lorne Balfe, Clint Mansell Produção: Avi Arad, Steven Paul, Michael Costigan Duração: 107 min. Estúdio: DreamWorks Pictures, Reliance Entertainment, Arad Productions, Shanghai Film Group Corporation, Huahua Media Distribuidora: Paramount Pictures

Lucy (2014)

Por André Dick

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É cada vez mais difícil encontrar filmes que conseguem mesclar uma pretensa realidade com toques de ficção científica e extraordinário. Neste ano, tivemos Sob a pele, com Scarlett Johansson, ficção bastante elogiada e com cenários estranhos, ligados ao interior da Escócia, permeados por uma sensação solitária, de afastamento da Terra – e o visual nunca chegava a combinar diretamente com a narrativa. Tendo no elenco a mesma Scarlett, Luc Besson fez este Lucy. Bastante conhecido desde os anos 80, quando fez o cult movie Subway, com Cristophe Lambert (um dos produtores de Lucy) e Isabelle Adjani, Besson se consagrou principalmente no início dos anos 90, quando realizou O profissional, um belo thriller com Jean Reno, Gary Oldman (no papel de um vilão assustador) e a revelação Natalie Portman. Mas alguns anos ele já realizado um filme com nível parecido, Nikita, sobre uma agente assassina e com passado obscuro. Nesses filmes, Besson mudava totalmente seu estilo mais contemplativo de seus experimentos iniciais, o referido Subway e Imensidão azul. Ainda nesta década, em 1997, ele realizou a ficção científica mais cara já feita na Europa, O quinto elemento, protagonizado por Bruce Willis e Milla Jovovich, trazendo uma direção de arte bastante interessante. Ainda com Milla Jovovich, ele compôs o grandioso Joana D’Arc, mas algo em seu cinema havia se perdido, o que se constatou na primeira década deste século.
O ritmo angustiante de O profissional pode ser percebido na primeira meia hora de Lucy, quando a personagem-título é levada por um namorado recente, Richard (Pilou Asbæk), a entregar uma pasta num hotel direcionada a um determinado Sr. Jang (Choi Min-sik). Levando-se em conta que ela está em Taipé, Taiwan para estudar e seu novo namorado é um cowboy com certo ar psicodélico, isso não é um bom sinal. Em poucos minutos, o plano não tem o melhor resultado, e Lucy é conduzida a um mundo desconhecido, do qual não conseguirá libertar tão cedo, mesmo porque precisa carregar dentro de si alguns pacotes com uma fórmula experimental capaz de alterar não apenas o comportamento, como a força e a inteligência. Nessa primeira meia hora, bastante audaciosa no sentido do ritmo e da montagem, a presença de Lucy é alternada com um discurso do cientista e professor Samuel Norman (Morgan Freeman, depois de Transcendence sempre envolvido com inteligências fora do habitual), tratando da inteligência humana, além de se criar uma analogia entre a situação dela e a de animais na natureza.

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Essas sequências têm uma beleza visual própria ao melhor cinema de Besson e parecem reservar algo grande. O que vem daí por diante, no entanto, muito possivelmente não compreenda as melhores características do cinema de Besson – aquelas dos anos 80 e 90 –, principalmente porque Scarlett Johansson, a princípio numa bela atuação, mostrando a angústia de se encontrar numa situação sem saída aparente, não consegue tornar o roteiro verossímil. Que Lucy tenha comparações com A árvore da vida e 2001 parece muito mais por brincadeira do que realmente ter algo para dizer de substancial. Avaliar que há um elemento divertido nessas comparações diz muito mais do roteiro problemático do que sua qualidade, tanto que Lucy, um sucesso de bilheteria incomum (mas não podemos esquecer que este ano Godzilla também o foi), foi recebido com certo ânimo não emprestado a filmes significativamente melhores. Há quem diga que se trata de uma “porcaria muito divertida”, seja lá o que isto quer dizer.
Em que pese a grandiosidade pretendida por Lucy, o filme vai se revelando, no seu encadeamento, numa enigmática decepção, pelos envolvidos e pelo inesperado caráter de obra realizada com certo descompromisso no mau sentido, uma espécie de filme B sem autoconsciência (e o diretor avaliar, numa entrevista, que mescla O profissional, A origem e 2001 não ajuda em sua simplicidade nem sugere que ele tenha consciência sobre o que filmou). Às vezes, a dúvida seria se a contagem colocada ao longo da história não deveria ser regressiva, simbolizando talvez o esgotamento da paciência do espectador diante da sucessão de acontecimentos imprevisíveis. Ou seja, Lucy reserva uma camada de leveza em sua temática – quando a personagem, por exemplo, precisa enfrentar seus poderes –, mas logo isso é esquecido no sentido de se buscar algo como o Neo de Matrix (e Besson utiliza a câmera tecnológica usada por David Fincher principalmente em Clube da lutaO quarto do pânico). Enquanto vemos a transformação de Lucy, vemos o filme se transformar também numa grande bagunça.

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Besson possui características que apontam como um cineasta de linha de montagem, mas Nikita e O profissional eram filmes muito bem feitos e pensados, e se O quinto elemento não justificava sua ambição de ser uma ficção científica de ponta, pelo menos conduzia sua narrativa a momentos de diversão interessantes. Sua predileção por figuras femininas à frente de seu cinema sempre foi motivo para descobrirmos personalidades interessantes e complexas. No entanto, em Lucy, Besson não consegue, nesse meio tempo, costurar os personagens, todos desenvolvidos num plano superficial e também por causa da metragem reduzida. Veja-se, por exemplo, o policial Amr Waked (Pierre Del Rio), que surge em determinado momento e não estabelece nenhuma ligação entre o que vem antes e depois, a não ser para lembrar que Besson nasceu em Paris (sendo que é visto com muitas reservas na França por ter feito parte de sua carreira dentro da indústria de cinema dos Estados Unidos) e a recepção desconfiada do cientista à existência de Lucy, que nem Freeman, com sua habitual competência, consegue justificar o suficiente. Johansson mostra um potencial subaproveitado, como em Sob a pele, não conseguindo ainda alcançar com plenitude o desempenho que teve com a voz em Ela. A impressão é que Besson quis fazer uma narrativa extremamente sintética, aliviada por cenas de lutas e perseguições de carros, mas que não combina com sua tentativa de discussão científica e mesmo filosófica, relacionada a conceitos, que exigiriam maior atenção. Desse modo, mesmo trazendo belas imagens algumas vezes, o filme não consegue transpirar confiança no que está tentando elaborar. Diante de críticas a Transcendence, por exemplo, este ano, Lucy se descobre este sim como aquilo que, segundo certo consenso, Transcendence seria: uma história capaz de atrair o espectador, mas não tem o impacto necessário para fazê-lo confiar no que está vendo.

Lucy, EUA/FRA, 2014 Diretor: Luc Besson Elenco: Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Choi Min-sik, Amr Waked, Julian Rhind-Tutt, Pilou Asbæk Roteiro: Luc Besson Fotografia: Thierry Arbogast Trilha Sonora: Eric Serra Produção: Christophe Lambert, Luc Besson, Virginie Silla Duração: 89 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Universal Pictures

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