RoboCop 2 (1990)

Por André Dick

A maior parte da crítica elogiou RoboCop, com sua atmosfera de filme B, em ritmo de histórias em quadrinhos, elevando-o, com o tempo, ao status de obra-prima. O diretor holandês Paul Verhoeven faria sucesso, realizando em seguida obras como O vingador do futuro e Instinto selvagem. Com o talento de não esquecer o lado humano em suas histórias, Verhoeven mostra um policial, Alex Murphy (Peter Weller), que morre e tem seu corpo aproveitado para uma criação tecnológica, o RoboCop. Ele continua a se lembrar da época em que tinha uma parceira de trabalho, Anne Lewis (Nancy Allen), a mulher e o filho. As lembranças incluem também a gangue de traficantes que o assassinou numa de suas batidas. Da metade para o final, ele busca se vingar. A armadura criada para o policial, em design de Rob Bottin, depois de inúmeras experiências, é espetacular. Há muita violência – uma característica do diretor –, inclusive um vilão que derrete no ácido de uma fábrica. Forte, humano, com bom roteiro e sem maniqueísmo, é indispensável para se conhecer uma influência nos filmes de super-herói contemporâneos.

Na continuação, Verhoeven deu espaço a Irvin Kershner, conhecido por Os olhos de Laura Marse, 007 – Nunca mais outra vez (a volta temporária de Sean Connery ao papel de James Bond nos anos 80) e O império contra-ataca, considerada a melhor sequência de Star Wars. É verdade que o primeiro RoboCop não chegou a ser um grande sucesso de bilheteria pelas cenas de violência que continha. Kershner não segue outro caminho, com roteiro a cargo de Frank Miller, o quadrinista de O cavaleiro das trevas, um clássico lançado poucos anos antes que daria origem a Batman vs Superman, e Elektra, entre outros. E a sequência estreou num verão fabuloso dos Estados Unidos, ao lado de títulos como Gremlins 2, Dick Tracy, Duro de matar 2, Dias de trovão, De volta para o futuro III e O vingador do futuro, fracassando infelizmente nas bilheterias.
No prosseguimento da história, novamente passada numa Detroit futurista, RoboCop age ao lado da antiga parceira, Nancy, contra uma nova droga poderosa, que mata quando usada, a nuke. Os traficantes dela são liderados por Cain (Tom Noonan), ao lado de Angie (Galyn Görg) e Hob (Gabriel Damon), de 12 anos, que obtém informações de dentro da polícia de Duffy (Stephen Lee). Para tomar o lugar de RoboCop, o novo líder da corporação OCP (Don O’Herlihy), que projetou o policial do futuro, cria uma arma capaz de combater o crime, um robô programado pela doutora Juliette Faxx (Belinda Bauer), construído com a mente de um indivíduo pouco propenso a entendimento. Ao mesmo tempo, há conflitos da OCP com o prefeito Marvin Kuzak (Willard E. Pugh, com um elemento cômico saudável), cuja administração possui uma dívida milionária na área de segurança.

Embora a trilha sonora seja assinada por Leonard Rosenman, substituindo a de Basil Poledouris sem o mesmo brilho, Kershner faz uma continuação honrando o original, com uma proposta de mostrar que no futuro a humanidade será substituída por robôs. Também prosseguem as propagandas com humor corrosivo, desde a inicial com um assaltante sendo surpreendido ao tentar roubar um carro. A narrativa de Miller concentra o tempo todo um clima de história em quadrinhos e não há comparação com o primeiro, no qual os personagens pareciam muito mais reais e maléficos. Enquanto o filme de Vehoeven, mesmo com seu pessimismo ainda tinha como intuito mostrar que havia um futuro, a sequência prefere adotar o pessimismo extremo. Segundo Miller, a criança representa uma ameaça para o futuro da humanidade, não apenas pela figura de Hob, como também na invasão de um time de beisebol infantil a uma loja e a agressividade de uma turma de rua quando RoboCop tenta ensinar boas maneiras. O melhor das sequências é mostrarem algo de novo, e exatamente isso acontece aqui. Em determinado momento, RoboCop se sente incapaz de agir com violência por causa de uma nova programação da OCP. Nisso, opera-se um novo duelo entre RoboCop e o robô maléfico, com ação vertiginosa e boas sequências, com a ajuda na montagem de Lee Smith, num de seus primeiros trabalhos, antes de se tornar colaborador de Christopher Nolan.

Weller e Allen estão bem nos papéis centrais, e Kershner utiliza os bons efeitos especiais com sua agilidade. Há uma certa atmosfera de perversidade imprópria para crianças, sugerindo sempre uma violência incontida, e onde a montagem mais funciona é quando Kershner coloca os personagens em segundo plano para dar liberdade à parte técnica. Destaca-se como esta sequência é incomparavelmente superior à primeira em termos técnicos, com uma luta final muito bem desenvolvida, embora novamente o final soe abrupto. Num momento em que Neill Blomkamp planeja fazer RoboCop returns ignorando essa sequência, como se ela não existisse, é interessante observar que, tirando alguns elementos, trata-se de um filme tão bom quanto o de Verhoeven, injustamente menosprezado. Ele conta com uma assinatura particular de Kershner e um trabalho narrativo que não menospreza as atuações e o roteiro de Miller.

RoboCop 2, EUA, 1990 Diretor: Irvin Kershner Elenco: Peter Weller, Nancy Allen, Daniel O’Herlihy, Tom Noonan, Belinda Bauer, Gabriel Damon Roteiro: Frank Miller e Walon Green Fotografia: Mark Irwin Trilha Sonora: Leonard Rosenman Produção: John Davison Duração: 117 min. Distribuidora: Orion Pictures

Além da escuridão – Star Trek (2013)

Por André Dick

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Em 1979, os produtores pediram ao diretor Robert Wise um Jornada nas estrelas – O filme mais comercial, na linha de Guerra nas estrelas; Wise não fez isso e até hoje o filme é lembrado por ser uma tentativa de reproduzir 2001, a obra-prima de Kubrick, com efeitos visuais que utilizaram boa parte do orçamento milionário. Mas, em seguida, vieram as continuações (quatro delas nos anos 80), que, ao contrário do primeiro, fizeram mais sucesso e apontaram um caminho de maior divertimento – sobretudo o segundo, com o antológico Ricardo Montalban como Khan, e o sexto e derradeiro desfecho pelas mãos de Nicholas Meyer.
No final da década passada, o diretor J.J. Abrams conseguiu trazer de volta os personagens da série Star Trek, criada por Gene Roddenberry, que havia tido o último filme de cinema no início dos anos 90. Privilegiado por retomar algumas séries, a julgar também pelos dois mais recentes Missão impossível (o terceiro e subestimado dirigido por ele) e o próximo Guerra nas estrelas, Abrams, tanto no primeiro Star Trek quanto neste segundo, Além da escuridão – Star Trek, apresenta seus traços como autor, a partir de uma criação alheia. É precipitado, a partir daí, considerar que o novo Star Trek seja apenas mais um blockbuster com ação frenética. Como em outros filmes seus, mesmo em Super 8, que homenageia as turmas dos anos 80, sobretudo a de Os Goonies, há, por trás da ação frenética, personagens e motivações. Assim, embora Abrams esteja em voga, seria injusto colocar sua presença no cenário como prejudicial ou excessiva. Capaz de mesclar a compreensão de fantasia de Spielberg, George Lucas e Peter Jackson, ele consegue sempre atingir a dramaticidade por meio de peças que parecem simplesmente estrondosas.

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Como o primeiro filme da nova franquia, Além da escuridão, junto com a ação, aprimora o senso de humor em meio a um discurso político, que não pende para o exagero, mas se equilibra dentro da narrativa com algumas referências. Se no primeiro explosões de planetas, fugas de monstros, viagens no tempo justificavam uma grande celebração do encontro dos personagens, inclusive remetendo à sua infância, e os atores se entregavam a isso de forma despretensiosa, mas, ao mesmo tempo, fazendo dos diálogos afiados um ponto claro para a empreitada, nesta continuação, os personagens precisam enfrentar um dilema referente a matar ou prender um criminoso.
O início é nada menos do que espetacular (e parece que As aventuras de Tintim já tem companhia como o filme que melhor utilizou o 3D nos últimos anos), levando, em seguida, os personagens a uma sala de reuniões em que é discutido um ataque terrorista feito por John Harrison (Benedict Cumberbatch), em Londres. A Enterprise precisa novamente partir em missão e o almirante Marcus (Peter Weller, excelente), da Frota Estelar, dá a ordem para que isso aconteça. Ele ordena que a Enterprise leve um misterioso armamento, a fim de ser lançado, se necessário, num determinado planeta (qualquer diálogo com a perseguição a Bin Laden no Afeganistão e Paquistão não seria mera coincidência, mas o filme, de forma acertada, não se fundamenta nessa analogia externa).
Enquanto James T. Kirk teve um passado problemático e foi levado para a Enterprise pelo capitão Christopher Pike (o convincente Bruce Greenwood), tendo com ele uma dívida de confiança, que se acentua aqui, Spock é um vulcano que recorre à humanidade para contrabalançar suas dúvidas existenciais e o interesse amoroso pela oficial Uhura (Zoe Saldana). Nesta continuação, a humanidade de Spock é posta novamente em prova, e a arrogância de Kirk se coloca como uma esperança em reencontrar seu amigo, ao mesmo tempo em que é testado seu respeito por Pike. Desde o início espetacular, Spock conclui que a tripulação vale mais do que sua vida, mas, para Kirk, ele deve entender justamente o contrário, de que um amigo deve ser salvo sem que isso constitua um adendo para relatórios burocráticos. Por sua vez, Uhura precisa ser testada em seus conhecimentos, para que a harmonia da Terra não seja ameaçada, assim como deve traçar uma compreensão maior diante da desistência romântica de Spock.

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Temos novamente Chris Pine como Kirk, desta vez menos pretensioso, e Zachary Quinto, como Spock, que apenas aparenta não ter insegurança e mostra estar à altura de Leonard Nimoy, e ambos os atores parecem, também pela experiência, mais à vontade e convincentes, principalmente Pine. É essa amizade com desentendimentos, mas com sensibilidade, que dá força a um conflito que poderia ser no máximo repetitivo e traz o interesse novamente pela série, apoiado também no elenco coadjuvante: o ator que faz Leonard McCoy, Karl Urban, por exemplo, é ótimo, assim como Anton Yelchin, no papel do navegador Chekov, e Simon Pegg, especialmente, como Scotty, acompanhado da estranha criatura do primeiro, cuja inexpressividade chega a ser divertida. Mais do que em Missão impossível III e Super 8, é em suas versões de Star Trek que Abrams comprova sua habilidade à frente dos atores e dá espaço decisivo a cada um para o desenvolvimento da narrativa, contrabalançando a ação e os diálogos. E é o personagem de Scotty que vai lembrar a Kirk que a Enterprise serve para explorações espaciais, e não para armamentos alimentares, indicando que Abrams guarda um discurso de paz. Não há, aqui, nenhuma opressão dos interrogatórios de Maya em A hora mais escura; é um Star Trek com fundo pós-11 de setembro, ainda assim realçando a mitologia da série, com a criação de cenários grandiosos, cuja sensação, para os olhos, nunca é excessiva (como na segunda trilogia de Star Wars). Também o novo vilão de Star Trek, ao contrário do romulano Nero (Eric Bana) do filme anterior, é mais complexo, em razão, também, de Benedict Cumberbatch ter um desempenho notável.
Críticas apressadas têm concluído que o filme, por um lado, não respeita a mitologia da série original e, por outro, a segue em excesso, com referências múltiplas. Há ainda aquelas que julgam o filme simplesmente oco (natural, à medida que Prometheus, no ano passado, também foi considerado). É mais interessante se comparar este Star Trek com as grandes continuações de ficção, a exemplo de O império contra-ataca. Ele consegue ao mesmo tempo remeter ao original, de 2009, e apresentar acréscimos dramáticos de vigor, sem circunscrever os personagens num determinado limite, ou seja, faz exatamente o que deveriam trazer as continuações. O roteiro de Alex Kurtzman, Damon Lindelof e Roberto Orci não tem excessos, e cria surpresas na medida apropriada. Mesmo sem a nostalgia de Super 8, e talvez por causa disso, Abrams vê o espaço sideral como extensão da humanidade – não à toa, a referência ao pai de Kirk (Chris Hemsworth) é trazida sempre à lembrança, por ter salvo uma nave em perigo, e por isso colocam tanta expectativa em seu filho, do mesmo modo que Spock coloca expectativa na permanência da sabedoria de seus ancestrais (e há uma surpresa, novamente, nesse sentido). Desta vez, Kirk não é apenas mais alguém querendo ser capitão de uma espaçonave, e sim alguém que pretende ter uma liderança referencial em relação aos demais, além de conseguir entregar a confiança necessária para que cada um realize seu trabalho da melhor maneira, mesmo sob pressão. Com um olhar impressionante para cenas de ação, a partir dos efeitos visuais e sonoros não menos que excelentes, e uma afinidade com a bela direção de arte, Abrams compõe uma espécie de aventura ritmada em cima das peças de composição de Michael Giacchino. Estamos longe de uma nova tentativa de 2001 que Robert Wise apresentou no belo Jornada das estrelas – O filme (1979). Mas Abrams, mesmo que não agrade a todos, consegue humanizar os personagens de modo intenso, sem simplificá-los. Seu novo Star Trek, como o êxito do anterior já antecipava, é espetacular.

Star Trek Into Darkness, EUA, 2013 Direção: J.J. Abrams Roteiro: Alex Kurtzman, Damon Lindelof, Roberto Orci Elenco: Chris Pine, Zachary Quinto, Karl Urban, Benedict Cumberbatch, Zoe Saldana, Alice Eve, Simon Pegg, Anton Yelchin, John Cho, Leonard Nimoy, Bruce Greenwood, Peter Weller Produção: Alex Kurtzman, Bryan Burk, Damon Lindelof, J. J. Abrams, Roberto Orci Fotografia: Daniel Mindel Trilha Sonora: Michael Giacchino Duração: 129 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Bad Robot / Kurtzman Orci Paper Products / Paramount Pictures / Skydance Productions

Cotação 5 estrelas