Han Solo – Uma história Star Wars (2018)

Por André Dick

O diretor Ron Howard tem mantido uma sólida filmografia desde os anos 80, quando foi responsável por algumas referências de seus respectivos gêneros, a exemplo de SplashCocoonWillow – Na terra da magia e O tiro que não saiu pela culatra. Nos anos 90, trouxe o melhor filme sobre bombeiros já feito (Cortina de fogo), além de uma história interessante sobre o universo jornalístico (O jornal), outra sobre os primeiros desbravadores nos Estados Unidos (Um sonho distante) e uma ficção indicada ao Oscar (Apollo 13). Nos anos 2000, ele recebeu seu primeiro Oscar com Uma mente brilhante e encadeou ótimos filmes (A luta pela esperança e Frost/Nixon) com outros de menos interesse (O Código Da VinciO Grinch). Em 2013, Howard inaugurou uma nova parceria com o astro Chris Hemsworth, por meio do belo filme sobre Fórmula 1, Rush, parceria que ele repetiu em No coração do mar, sobre a origem do romance Moby Dick, de Herman Melville.

Também ator e cujo trabalho de direção recebeu apoio do mentor George Lucas, para quem trabalhou em American grafitti,  Howard foi chamado a ocupar o posto de diretor de Han Solo – Uma história Star Wars quando a dupla Cristopher Miller e Phil Lord, dos dois Anjos da lei e de Uma aventura LEGO, foi demitida pela produtora Kathleen Kennedy por divergências de concepção – e quando, ao que se sabe, já havia sido rodada boa parte do filme.
A narrativa começa com Han Solo (Alden Ehrenreich) e sua amante Qi’ra (Emilia Clarke) em Corellia, um centro de construção naval da galáxia, tentando escapar de uma gangue local. No despiste de tropas imperiais, acaba acontecendo uma separação, o que vai levar Han, três anos depois, a uma batalha num planeta chamado Mimban. Ele conhece um grupo de criminosos que têm à frente Tobias Beckett (Woody Harrelson), que age com a esposa Val (Thandie Newton) e o alienígena Rio Daurant (voz de Jon Favreau). No meio do caminho, isso vai levar o personagem central a uma cela onde conhecerá seu amigo Chewbacca (Joonas Suotamo). Han tem a sorte de falar a língua do companheiro, Shyriiwook. A partir daí, a história envereda por um roubo de carga liderado pelo mesmo Beckett, a serviço de Dryden Vos (Paul Bettany, usando uma camisa social), líder do clã criminoso Crimson Dawn. Claro que, depois de algumas peripécias, Solo se encontrará com Lando Calrissian (Donald Glover), afinal esta é uma prequela das aventuras localizadas na trilogia de George Lucas.

Howard é um diretor talentoso e sabe lidar, a maior parte do tempo, com os atrasos impostos pela primeira filmagem de Miller e Lord. Ele tem um talento para a técnica de efeitos especiais, o que já mostrou em outras obras. No entanto, é certo que o roteiro de Jonathan e Lawrence Kasdan não é o mais interessante. Lawrence é autor de Os caçadores da arca perdida e O império contra-ataca, clássicos dos anos 80, e, a partir da década passada, quando dirigiu O apanhador de sonhos, não teve mais acertos. Sua parceria com J.J. Abrams em O despertar da força rendeu novos personagens até certo ponto sólidos, porém nunca instigantes como os da trilogia original.
A tarefa de dar vida à juventude de Solo esbarraria em duas coisas: o ator obviamente não seria Harrison Ford e este personagem tinha mais justificativa com Luke Skywalker e Princesa Leia a seu lado. Seu início de amizade com Chewbacca é uma coleção de momentos previsíveis, sem nenhum traço do humor que constituiria a dupla na trilogia de Lucas – e talvez este pudesse ter sido melhor explorado por Lord e Miller, que teriam entendido o filme como uma comédia, ao contrário da Disney.

Por mais que consigamos vê-lo de maneira autônoma, Han Solo não é um personagem suficientemente complexo para receber uma história à parte, ao menos não com um roteiro disperso. Talvez se imaginasse que ele, se Ford fosse mais jovem, rendesse um novo Indiana Jones. Sua participação não foge ao esquema de um personagem apaixonado que conhece novos amigos e precisa antecipar várias referências do que aparece na trilogia de Lucas principalmente.  Ehrenreich tem boa vontade e certo talento, demonstrado antes em Ave, César! e Regras nãos e aplicam, mas não supre a ausência de mais carisma, independente do fato de acertadamente não tentar uma imitação de Ford.
Também se percebe que a atenção visual dada ao restante da série não comparece aqui, pelo menos não depois da satisfatória primeira meia hora. O filme de Howard, além de se basear numa fotografia inadequada de Bradford Young – responsável pelo trabalho primoroso de O ano mais violento –, centrada demais na cor marrom (a mesma do uniforme de Han e do pêlo de Chewbacca), variando com o cinza e um azul esmaecido, não tem assessoria de um figurino e direção de arte ricos (uma sala em que ocorrem alguns dos momentos-chave é particularmente desinteressante). No segundo ato, é visível a falta de criatividade para a criação de lugares múltiplos para esse mundo estendido, numa configuração eterna de paisagens desérticas e rochosas sem o mínimo de atrativo. A falta de criatividade parece repercutir nas atuações pouco inspiradas do habitualmente ótimo Harrelson e de Glover, levando-se ainda em conta que Emilia Clarke não tem carisma o suficiente para sustentar sua personagem, embora pareça a mais centrada no que está acontecendo a seu redor. Do mesmo modo, os personagens – mesmo Chewbacca – se sentem apenas componentes de um universo forçadamente estendido. Esse não era um traço de Rogue One, um semiépico espacial despretensioso e muito eficaz em sua construção de novos personagens capazes de anteceder a obra de 1977 sob um viés até mesmo trágico.

A trilha sonora de John Powell tem o incômodo de ser uma mescla de acordes novos com outros extraídos do trabalho icônico de John Williams: nos momentos de ação, surge a trilha de Williams em meio aos estilhaços de tentativa de fazer uma nova. É uma tentativa de se aproveitar da nostalgia do espectador em todos os momentos, principalmente numa sequência praticamente semelhante a uma que acontece em O império contra-ataca. Isso faz crer que não apenas a nova trilogia Star Wars se baseia demais na antiga, como Han Solo se nutre das aventuras do personagem já vistas anteriormente em outra companhia. Esse caminho causa um incômodo eficaz para que o espectador nunca se desvencilhe do fato de que essa é apenas uma introdução a algo mais importante – e talvez quem se contente com o que se convencionou chamar de fan service saia mais satisfeito da sessão. Nem mesmo algumas referências ao gênero do faroeste, na parte final, sustentam o fato de que todas as sequências de ação soam por demais genéricas, embora muito bem feitas e com uma parte técnica praticamente irreparável. Sob esse ponto de vista, é lamentável que Howard nunca consiga inserir seu ritmo de ação em meio ao drama, já comprovado em Willow, Rush e No coração do mar, por exemplo. Ele sempre parece aqui apenas um nome para conduzir uma obra iniciada por outros diretores e que tentou consertar ao máximo o estrago, como profissional competente. Do mesmo modo, o elenco visivelmente sentiu o peso das refilmagens. Se a Millennium Falcon sempre atinge um poder de recuperação, Howard, infelizmente, não conseguiu o mesmo.

Solo – A Star Wars history, EUA, 2018 Diretor: Ron Howard Elenco: Alden Ehrenreich, Joonas Suotamo, Woody Harrelson, Emilia Clarke, Donald Glover, Thandie Newton, Phoebe Waller-Bridge, Paul Bettany, Jon Favreau, Linda Hunt, Ian Kenny, John Tui, Warwick Davis Roteiro: Jonathan Kasdan, Lawrence Kasdan Fotografia: Bradford Young Trilha Sonora: John Powell e John Williams Produção: Kathleen Kennedy, Allison Shearmur, Simon Emanuel Duração: 135 min. Estúdio: Lucasfilm Ltd. Distribuidora: Walt Disney Studios

Vingadores – Guerra infinita (2018)

Por André Dick

Se  há uma qualidade que já havia ficado clara nos dois Os vingadores anteriores é que Joss Whedon tinha uma disposição de desenvolver esses super-heróis em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. No segundo, havia imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remetia a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los. Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses serviam como impulso para uma das melhores sequências, ligada a um ambiente campestre e no qual podíamos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação.

Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não ficava a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato preparava a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais eram tão boas ou ainda melhores do que as do original, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas situações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco.
Em Vingadores – Guerra infinita, os irmãos Anthony e Joe Russo, responsáveis por Capitão América – O soldado invernal e Capitão América – Guerra Civil, assumiram o lugar de Whedon. A história começa com Thor (Chris Hemsworth) e Loki (Tom Hiddleston) enfrentando o temível Thanos (Josh Brolin), desde sempre atrás das Joias do Infinito. Localizados no espaço, não por acaso logo teremos a presença dos guardiões da galáxia: Peter Quill/Starlord (Chris Pratt), Gamora (Zoe Saldana), Drax (Dave Bautista), Rocket (Bradley Cooper) e Baby Groot (Vin Diesel), acompanhados de Mantis (Pom Klementieff).

Em meio a tudo, aparecem Tony Stark/Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), Stephen Strange/Dr. Estranho (Benedict Cumberbatch) e Peter Parker/Homem-Aranha (Tom Holland), com a companhia de T’Challa/Pantera Negra (Chadwick Boseman). Muitos outros personagens adentram em cena: Wanda Maximoff/Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e Visão (Paul Bettany) estão de volta, assim como Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo) e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), além de James Rhodes (Don Cheadle), Sam Wilson/Falcão (Anthony Mackie) e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow).
Em seus Vingadores, Whedon os desenvolve como seres mitológicos e trabalhava com emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como todos ganham em seus filmes linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark, sempre, de certo modo, ligados ao passado. Se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais é obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.

Não há nenhuma discussão no plano conceitual em Vingadores – Guerra infinita. Trata-se apenas do embate de um vilão literalmente sem traços próprios – com a colaboração de um CGI perturbador – contra os vingadores, que parecem unidos apenas na campanha de marketing. Há pelo menos dois anos o universo MCU vem tendo dificuldades de unir seus traços de humor e drama em filmes irregulares como Doutor Estranho, Thor: Ragnarok, Capitão América – Guerra Civil e Pantera Negra. Todos parecem parte de uma linha de produção sem nenhuma tentativa de inovar, sob a liderança de Kevin Feige, o produtor que planifica histórias para encaixar sua visão de cinema.
Desde a saída de Whedon, o MCU só contou com três momentos muito bons: Homem-Formiga, Guardiões da galáxia 2 e Homem-Aranha – De volta ao lar. Até certo ponto, como Guerra Civil não era um filme do Capitão América, este novo Vingadores parece um Guardiões da galáxia 3. Os irmãos Russo, no entanto, não têm o olho para o visual dinâmico de James Gunn e desde Arrested development, a série de humor que ajudaram a solidificar com êxito, não sabem identificar interação entre personagens. Todos em Guerra infinita aparecem e desaparecem sem criar o devido impacto. Há lacunas consideráveis entre as aparições de uns e outros, nunca formando uma unidade, e mesmo durante as batalhas os encontros se dão sem nenhuma sensação de vínculo ou proximidade. Não há uma ligação clara entre os diferentes grupos enfocados, embora um dos méritos desse universo compartilhado seja exatamente sabermos em que ponto da história desses personagens nos encontramos, o que, por outro lado, não acrescenta qualidade especial. Filmes devem se manter por si só e construir relações entre os personagens, mesmo que já hajam outros a apresentá-los, mesmo porque a reunião deles é inédita.

O mais afetado pela história apressada, mesmo com os 149 minutos de duração, é Banner, numa participação não apenas distinta daquela de Thor: Ragnarok, basicamente humorística, cuja relação com a Viúva Negra não se estabelece sequer com uma conversa, apenas um olhar distanciado (isso desde o afastamento da obra de Whedon há três anos). Talvez Quill se destaque, junto com Thor e o Rocket; de resto, nem o carisma de Downey Jr. consegue dar sentido ao fato de o Homem de Ferro estar aqui, e Holland, que demonstrou ser um bom Homem-Aranha, é subutilizado de maneira inegavelmente injusta. Os diretores não têm tempo a perder: Guerra infinita é uma sucessão de sequências de ação vazias, sem nenhum senso de perigo ou realização, pouco se importando com personagens ou as consequências do que fazem.
Os Russo acreditam oferecer um ar dramático ao vilão Thanos, mas se trata de uma figura tão carregada digitalmente (e que nem as expressões de Brolin conseguem realçar, ao contrário de Serkis ao interpretar Cesar em Planeta dos macacos) que soa, a cada instante em que aparece, artificial como a história que o cerca. Existem os conflitos físicos, no entanto os embates de ideias existentes nos melhores filmes do MCU desaparecem, em virtude do roteiro limitado de Christopher Markus e Stephen McFeely, que tenta passar do trágico para o cômico de forma tragicômica.

Uma caminhada no parque de Stark e Pepper, lembrando a comicidade saudável dos dois primeiros Homem de Ferro, é interrompida por um inesperadamente denso Doutor Estranho, sem mais tempo para piadas com os livros da biblioteca. Os Russo não possuem a menor ideia de constituir um ambiente fantasioso, apegando-se a interiores escuros de naves e um CGI de qualidade discutível, que extrai qualquer atrativo pela fotografia. Excluindo a parte final e algumas cenas numa metrópole, tudo parece ter sido filmado em estúdios e à frente de um chroma key. Mesmo nos seus filmes com o Capitão América, a dupla de diretores, usando um estilo de thriller, enveredavam por um caminho que tentava interligar seus personagens. Neste filme, eles parecem interessados exclusivamente em focar o caos. Acabam por fazer a obra menos interessante de todo o universo MCU, uma falha de ignição notável, que nenhuma bilheteria conseguirá sobrepujar. Talvez a quarta parte, já em realização, com um pré-aviso: os Russo são novamente os diretores.

Avengers – Infinity war, EUA, 2018 Diretor: Anthony Russo e Joe Russo Elenco: Robert Downey Jr., Chris Hemsworth, Mark Ruffalo, Chris Evans, Scarlett Johansson, Benedict Cumberbatch, Don Cheadle, Tom Holland, Chadwick Boseman, Paul Bettany, Elizabeth Olsen, Anthony Mackie, Sebastian Stan, Danai Gurira, Letitia Wright, Dave Bautista, Gwyneth Palthrow, Zoe Saldana, Idris Elba, Josh Brolin, Chris Pratt, Vin Diesel, Bradley Cooper Roteiro: Christopher Markus e Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Kevin Feige Duração: 149 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

 

Capitão América – Guerra Civil (2016)

Por André Dick

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Se o primeiro filme da nova fase de Capitão América era dirigido pelo competente Joe Johnston, um especialista em obras de fantasia, com uma ótima ambientação e uma atuação excelente de Stanley Tucci, a sua continuação, Capitão América 2 – O soldado invernal, parecia indicar realmente uma narrativa diferenciada, com toques de thriller de espionagem e uma cena de luta coreografada num elevador. Chris Evans se tornou uma boa referência para o personagem depois do primeiro filme de Joe Johnston – em que o destaque era o início, mostrando o surgimento do personagem – e Scarlett Johansson novamente tinha boa presença.
Apesar de ótimas cenas de ação, há uma sensação incômoda de que o visual da segunda parte de Capitão América tende a lembrar mais a de um telefilme do que a imaginação do primeiro, claramente causado pela mudança de cenário; no entanto, ela é brusca e o design de produção não é atraente para os olhos, assim como a fotografia. Ao final, os efeitos especiais e as cenas de ação lembravam Os vingadores de forma demasiada para dar a sensação de que havia realmente algo original a ser visto nele – embora tivéssemos a atuação de Robert Redford e Samuel L. Jackson cumprindo bem o seu papel.

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No entanto, o que realmente decepciona no segundo filme é a direção dos irmãos Joe e Anthony Russo, mais interessada em seguir o roteiro da Marvel do que investir naquele caminho que apresentam na primeira hora – quando há até um pouco de elementos autorais. Nesta terceira parte, Capitão América – Guerra Civil, novamente dirigida por eles, temos já desenhado o duelo – demarcado principalmente por certa cota da crítica – entre o que seria o estilo da Marvel e o da DC Comics. Mesmo com os três Homem de Ferro, os dois Hulk e Thor, é este o momento em que Batman enfrenta Superman no cinema e as comparações passam a ser do filme de Snyder com a obra dos irmãos Russo. E um fato notável: cada peça lançada de super-heróis da Marvel passa a ser a maior já feita no gênero, parecendo ignorar o que já fizeram cineastas como Tim Burton, Richard Donner, Richard Lester, Ang Lee, Edgar Wright, Jon Favreau, Kenneth Branagh, Sam Raimi, Cristopher Nolan e aquele ao qual foi entregue, inadvertidamente, a placa de prepotência desse universo: Zack Snyder. Não passa a ser desconhecimento, e sim uma consciente e infeliz falta de memória.
Nos dois primeiros Capitão América, faltava uma ligação mais interessante do personagem com os outros; ele se sentia sempre isolado, em conflito, mesmo como Steve Rogers, afora seu interessante contato com o criador feito por Stanley Tucci – e a série passa de uma quase fantasia do primeiro para um thriller no segundo. É um personagem sem o carisma dos outros, principalmente Stark, embora Evans faça o possível para tornar seus diálogos ágeis e seja, digamos, a parte mais melancólica do grupo, devido a ser alguém do passado vivendo numa época turbulenta.

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Aqui os irmãos Russo colocam o personagem numa situação delicada: ele quer defender seu amigo de longa data, Bucky Barnes (Sebastian Stan), o soldado invernal, capturado e transformado pela Hydra em assassino, do que ele imagina ser uma conspiração. Para complicar, houve um problema num país no Quênia, África do Sul, provocado tanto pelo Capitão América quanto pelo Falcão (Anthony Mackie), Feiticeira Escarlate (Elizabeth Olsen) e a Viúva Negra (Scarlett Johansson).  Causam um certo alvoroço e o governo dos Estados Unidos, pela figura do secretário de Estado Thaddeus Ross (William Hurt), ex-general e inimigo de Hulk, deseja enquadrar os vingadores. A partir daí, o mote é a lembrança do que eles já fizeram nos filmes anteriores – sobretudo em Nova York e em Sarkovia. Stark se encontra num momento particularmente difícil e parece longe seu desafio às autoridades sobretudo de Homem do ferro 2, quando ele pretende privatizar a paz mundial. Aqui, ele parece mais preocupado em acertar um determinado acordo com a ONU e convencer o Capitão América – com quem se desentende desde o primeiro Os vingadores – que surge principalmente nas figuras de T’Chaka (John Kani) e seu filho T’Challa (Chadwick Boseman). Em meio a tudo, surge uma figura chamada Helmut Zemo (o talentoso Daniel Brühl, inevitavelmente desperdiçado).
Os irmãos Russo, como no segundo filme, apresentam uma primeira hora de grande qualidade, com uma colocação acertada dos personagens e uma trama misteriosa que está no nível dos bons thrillers. Eles sabem fazer cenas de contato físico aproximado, o que não é uma especialidade de Joss Whedon, mais interessado na grandiosidade dos cenários, principalmente nas batalhas finais dos dois Os vingadores. Os irmãos Russo também possuem um bom ouvido para o diálogo; ele não soa forçado, mesmo que as situações pareçam excessivamente implausíveis. Porém, eles não apresentam o que seria um diferencial no gênero da fantasia: a ambientação.

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Tudo neste Capitão América, como no anterior, se passa em cenários duramente reais, sem um design de produção atraente. Por isso, a comparação deste estilo com o de Zack Snyder – o diretor que, junto a Nolan, projetou o visual dos filmes da DC Comics –, um criador com toque visual delirante, é improvável e deslocada. O que eles mostram aqui é uma deliberada ponte entre o humor e a ação, a especialidade de Joss Whedon, ou seja, não há evolução aqui como deseja parte da crítica e do público, aceitem ou não seus críticos, e um interesse em tratar da política e do modo como a segurança é vista – ou deve ser vista – em relação ao ser humano, embora esse tema não chegue a ser original.
Por estarem incumbidos de apresentar um filme com uma quantidade insuspeita de heróis – e talvez falar neles possa remeter a spoilers –, eles tentam facilitar as coisas assumindo tudo numa única sequência que surpreende pela coreografia impecável das lutas e por um efeito visual específico, mesmo que sem nenhum tom de ameaça (pelo contrário, os personagens parecem apenas se apresentar para o próximo episódio) e cujo cenário é absolutamente comum, sem nenhuma criatividade. Se é isso que certa crítica aponta como sendo o problema de Snyder (o CGI), pode-se dizer que estamos falando de outra coisa: a decisão da Marvel de fazer uma ambientação seca, sem, inclusive, o que víamos nos dois Thor, torna suas produções visualmente muito limitadas. Tanto que, quando em determinado momento (spoiler), surge uma prisão marítima espetacular, parece que o espectador adentra em outro filme (se fosse em Snyder, certamente a concepção da prisão seria excessivamente dark).

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Em termos de simbologia, também não há qualquer semelhança dos irmãos Russo com Snyder. Capitão América é um personagem envolvido com corporações, mas sua dedicação à amizade coloca em xeque sua amizade exatamente com alguns companheiros de batalha. No entanto, enquanto Snyder aprofunda o fato de que os heróis não são assim porque querem, a alegria dos heróis da Marvel é justamente serem o que são. Não ver essas diferenças é uma desonestidade consciente, quando Capitão América, em seus melhores momentos, entrega um ritmo não no nível de Whedon ou mesmo do Homem-formiga – particularmente o maior acerto da companhia –, mas de um filme de ação muito bem feito. Ainda assim, faltam motivações claras por parte do vilão, além de ele se distanciar da narrativa com um tempo considerável para quase ser esquecido, e nenhum até agora conseguiu se equivaler ou superar o Loki de Tom Hiddleston – e William Hurt, com sua habitual competência, acaba assumindo às vezes o posto de forma involuntária. Isso é contrabalançado por Chris Evans e por um ótimo Robert Downey Jr., em participação superior às que apresenta no terceiro Homem de Ferro e no segundo Os vingadores – e o ator aparece no início do filme em versão jovem revolucionária, como se estivesse em De volta às aulas ou Mulher nota mil.
Embora Capitão América – Guerra Civil sobreviva muito bem às duas primeiras partes, sendo o melhor por diferença considerável, há alguns elementos que poderiam ser melhor trabalhados no sentido, principalmente, psicológico. A maneira como Stark se aprofunda em sua memória poderia ser melhor trabalhada, em relação como a maneira que o Capitão América tenta proteger um amigo por ser, na verdade, seu único elo vivo com o passado. Stark é o homem da modernidade e o Capitão América se conserva com certo classicismo. A Viúva Negra fica procurando por uma conciliação, mas é difícil quando os comportamentos são opostos. Isso não fica empregado do melhor modo pelos irmãos Russo, pela necessidade de incluir tantos super-heróis, embora eles consigam delinear as relações entre os personagens com desenvoltura, tudo acaba parecendo disperso, mesmo que em ritmo adequado (poucas vezes se repara na excessiva metragem) e com um final realmente surpreendente e que costura algumas tramas paralelas do melhor modo. No entanto, o que é um filme divertido não significa ser de fato superior aos outros, mesmo aos da Marvel, apenas para os que não viram (realmente) os de Whedon, Branagh, Ang Lee: como a presença de Stan Lee, as cartas estão sempre marcadas.

Captain America: War civil, EUA, 2016 Diretores: Anthony Russo, Joe Russo Elenco: Chris Evans, Robert Downey Jr., Scarlett Johansson, Sebastian Stan, Anthony Mackie, Don Cheadle, Jeremy Renner, Chadwick Boseman, Elizabeth Olsen, Paul Bettany, Daniel Brühl, Paul Rudd, William Hurt  Roteiro: Christopher Markus, Jack Kirby, Joe Simon, Stephen McFeely Fotografia: Trent Opaloch Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: Kevin Feige Duração: 146 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Entertainment / Marvel Studios

Cotação 3 estrelas

 

Dogville (2003)

Por André Dick

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Se existe um cineasta que procura, a cada filme, subverter a linguagem cinematográfica nos últimos anos é o dinamarquês Lars von Trier. Sua melancolia em quadros e com ritmo de ópera é justamente a de evidenciar o universo do qual faz parte sob um olhar negativo ao extremo e, se diria, sempre incomparável. Depois de receber a Palma de Ouro em Cannes por Dançando no escuro – em que colocava Bjork num musical excêntrico e excepcional –, ele tentou novamente o prêmio com seu Dogville. Desta vez, não teve êxito, mas não por falta de tentativa. Dogville tem todos os elementos que podem ser percebidos em sua filmografia: um trato com o roteiro na medida mais ajustada, aparando os excessos, e com o elenco, em seu estado mais interessante, desde Nicole Kidman, passando por Paul Bettany e Lauren Bacall, até Ben Gazarra e Philip Baker Hall. São todas figuras conhecidas do cinema mainstream, mas Von Trier não deseja colocá-los num cenário comum.
Narrada por John Hurt, a história de Dogville se passa nas Montanhas Rochosas dos Estados Unidos durante a Depressão dos anos 30. Um morador, Thomas Edison Jr. (Bettany) ouve, certa noite, tiros e surge Grace Margaret Mulligan (Kidman), tentando se esconder de um carro com figuras que parecem mafiosos. Aceita por ele, Grace decide ficar na cidade, mas precisa ser aceita como parte integrante da comunidade. Depois de uma reunião na igreja do local, quando se decide se ela fica ou irá embora, temos a medida mais afetiva de Dogville: Grace se transforma numa espécie de ajudante (possíveis spoilers a partir daqui).

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Ela ajuda Jack McKay (Ben Gazzara), um cego, e deve cuidar dos filhos de Vera (Patricia Clarkson) e Chuck (Stellan Skarsgård), que a violenta sexualmente. Ainda há, entre os moradores, Bill (Jeremy Davies), sua mulher (Blair Brown) e Liz Henson (Chloë Sevigny), além de Madame Ginger (Lauren Bacall). E o escritor da cidade sempre está à sua volta, querendo fazê-la, a princípio, feliz. Não se sabe, porém, de onde ela é. O problema é que no dia 4 de julho (data simbólica dos Estados Unidos) começam a surgir policiais na cidade pregando a imagem dela como uma ladra procurada. Os habitantes da comunidade começam a ficar incomodados com a situação, mesmo que depois de a receberem de braços abertos.
Tudo está para mudar em Dogville, mas Von Trier prefere um palco de teatro para delimitar as ações do que os espaços abertos da vida real. O espectador precisa lidar com o fato de que, ao se referir às belíssimas Montanhas Rochosas, estamos, na verdade, vendo o fim do palco, antecedido por algumas rochas possivelmente de papelão. Quando os personagens estão em suas casas, podemos vê-los, pois apenas o que as delimita são traçados de giz no chão – e a câmera de Von Trier os mostra algumas vezes de cima, como se cada personagem fosse uma espécie de peça de xadrez, o qual o diretor vai movimentando, conforme deseja e à sua conveniência. E, quando tudo parece tranquilo, Von Trier antecipa a melancolia que se abate sobre Kirsten Dunst de outro modo, mas ainda assim impactante.

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Já se falou o quanto Dogville pode ser visto como um filme antiamericano. Embora se diga que o diretor nunca visitou os Estados Unidos, ele procura traçar um panorama da época da depressão de modo cabal. Todos da comunidade de Dogville estão tentando um lugar ao sol, e as economias parecem depender da plantação de maçãs, mas o intelecto do escritor é que parece mais indefinido entre a ajuda e a ameaça. Parece que Von Trier quer dizer que os Estados Unidos reservam uma espécie de segunda pele ameaçadora e exploradora, e que a Depressão, afinal, cai como uma luva nesses vilarejos destinados ao esquecimento.
É quando Von Trier, com sua necessidade de levar a narrativa a um clímax que possa despertar o espectador, ou simplesmente destituí-lo de imaginação além do que está vendo (como em Melancolia), mostra exatamente sua pretensão, ao eleger a máfia como uma espécie de purgatório desta nação condenável que o filme aponta para linhas baseadas em Brecht, mas acaba deixando uma dívida consequente e uma indagação: afinal, Von Trier visualiza a mulher como uma espécie de expiação da infelicidade humana, para que brote alguma plantação capaz de indicar uma renovação, junto com a primavera? Se Von Trier concebe Dogville sob esse ponto de vista, é mais do que claro, mas por que exatamente Grace precisa, antes, entregar a sua dignidade, a ponto de causar revolta? O que há nela, para Von Trier, que merece esse castigo constante diante de quem a cerca? É apenas para justificar a violência que paira e ronda sobre cada um desses habitantes? Nesse sentido, toda a estrutura de Dogville acaba sendo ligada, de modo mais ou menos consciente, a seu final, ou seja, as ações do filme justificam a chegada derradeira do que deve ser enfrentado e, afinal, da vingança, pura e simples.

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Von Trier colocar “Young americans” de David Bowie, depois que começam a rolar os créditos, pode ser visto como algo genial, por todo o contraponto que se estabelece. No entanto, é importante dizer que, ao fazer isso, está apenas cumprindo sua satisfação pop: a de que segue a cartilha de Hollywood, e Dogville, mesmo com seu cenário teatral anti-mainstream, parece esconder outra sub-realidade, que é na verdade a de si mesmo, como filme. Não há nenhuma diferença, em determinados momentos, de Von Trier para um cineasta que pretende mostrar a sede do cumprimento da vingança. Quando encurta a câmera para vislumbrar um cão a princípio imaginário, no fundo trata disso: do seu deslocamento das Montanhas Rochosas do teatro para o verão da Califórnia, o que está em discussão é a essência do ser humano e da civilização. Seu experimentalismo é apenas uma vertente do mesmo comércio que critica com a figura dos mafiosos, e Von Trier imagina que, certamente, seu filme tem toda a beleza caótica do que imagina mostrar. E, apesar de sua pretensão, muitas vezes tem e é o que o diferencia.

Dogville, Dinamarca/ Suécia/ França/ Noruega/ Holanda/ Finlândia/ Alemanha/ Itália/ Reino Unido, 2003 Diretor: Lars von Trier Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Paul Bettany, Blair Brown, James Caan, Patricia Clarkson, Jeremy Davies, Ben Gazzara, Philip Baker Hall, Thom Hoffman, Siobhan Fallon, John Hurt, Zeljko Ivanek, John Randolph Jones, Udo Kier, Cleo King, Miles Purinton, Bill Raymond, Chloë Sevigny, Shauna Shim, Stellan Skarsgård, Evelina Brinkemo, Anna Brobeck, Tilde Lindgren, Evelina Lundqvist, Helga Olofsson, Ulf Andersson, Jan Coster, Mattias Fredriksson, Andreas Galle, Barry Grant, László Hágó, Niklas Henriksson, Mikael Johansson, Hans Karlsson, Lee R. King, Oskar Kirkbakk, Ingvar Örner, Erich Silva, Kent Vikmo, Eric Voge, Ove Wolf Roteiro: Lars von Trier Fotografia: Anthony Dod Mantle Trilha Sonora: Antonio Vivaldi Produção: Vibeke Windeløv Duração: 178 min. Distribuidora: Lions Gate Entertainment

Cotação 4 estrelas e meia

 

Chamada.Filmes dos anos 2000

Vingadores – Era de Ultron (2015)

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Desde o grande sucesso do primeiro Os vingadores, a mobilização dos estúdios Disney e da Marvel para os filmes dos super-heróis ligados a esta franquia tem sido mais assídua. Logo após os acontecimentos que colocaram Nova York em estado de alerta para possíveis invasões vindas do espaço, foi lançado Homem de ferro 3, seguido por Thor – O mundo sombrio e, no ano passado, Capitão América 2 – O soldado invernal, com a presença também da Viúva Negra. Além desta e do Gavião Arqueiro, Hulk também continua ainda sem o filme próprio com Mark Ruffalo, levando em conta que tem as versões com Eric Bana e Edward Norton. Se Os vingadores continua ainda sendo confundido com uma marca, mais do que uma obra ou adaptação de história em quadrinhos de Stan Lee, e se queira às vezes considerá-lo como mais um blockbuster, deve-se dizer que Vingadores – Era de Ultron traz Joss Whedon ainda tentando lidar com suas primeiras impressões como diretor, mesmo que nesse intervalo tenha feito Muito barulho por nada, uma adaptação moderna de Shakespeare e em preto e branco. Whedon, antes de ganhar esta oportunidade, era mais conhecido como o criador da série Buffy – A caça-vampiros e roteirista de Toy Story, e, de certo modo, tem um manancial de escolhas depois de realizar a primeira parte, entre elas a de lidar com atores que possuem uma carreira própria e mesmo em filmes ditos de público mais restrito, como Scarlett Johansson em Ela e Sob a pele; Ruffalo em Margaret e Mesmo se nada der certo; e Hemsworth em Rush e Hacker. Isso oferece a ele um caminho interessante, de colocar atores não normalmente vistos neste gênero – apesar de também terem suas trajetórias ligadas a ele, como Hemsworth – no centro da ação.

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Na primeira parte de Vingadores, Whedon revela uma determinada tentativa de já colocar todos os personagens em ação, literalmente invadindo a tela num salto em conjunto, numa missão a Sokovia, país fictício do leste europeu, em combate ao Barão Wolfhang von Strucker (Thomas Kretschmann). Ao invés de coordenar um grupo de experiência com outro intuito – político –, o barão Strucker está à frente de uma equipe que tem usado o cetro usado por Loki e como resultado de sua experiência com humanos, ligada à Hydra, os gêmeos Pietro (Aaron Taylor-Johnson) e Wanda Maximoff (Elizabeth Olsen) adquirem super-poderes. Esta passagem por Sokovia antecede uma série de experiências que o próprio Stark tentará fazer, com a ajuda do Dr. Banner, o que pode colocar em risco não apenas o seu grupo, como a própria humanidade – e aqui Whedon desliza para uma discussão que vem desde o primeiro filme de Homem de ferro: até onde pode ir a ciência para que não se coloque em risco a humanidade, envolvendo Jarvis (Paul Bettany), o sistema com inteligência artificial de Stark.
No entanto, os vingadores estão dispostos a fazer uma pausa, e compartilham uma festa na mansão de Stark; nesta longa sequência, desenham-se alguns caminhos tanto para a narrativa presente quanto para os próximos, que incluem não apenas Steve Rogers, o Capitão América, com seu amigo Sam Wilson (Anthony Mackie), que aparece em O soldado invernal, como também a relação entre Bruce Banner e Natasha Romanoff, a “Viúva Negra” (Scarlett Johansson), e a amizade de Stark por James Rhodes (Don Cheadle). Há uma tentativa clara de Whedon, também, em esclarecer o paradeiro de outros personagens que não aparecem aqui, como Pepper Potts (Gwyneth Paltrow) e Jane (Natalie Portman) e, nessa preocupação, se esvaem alguns minutos que certamente não compreenderiam a história, pois se trata de uma explicação estranha, à medida que, por um lado, pode não ter havido espaço no roteiro ou simplesmente as duas atrizes não puderam interpretá-las.

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Essas explicações, ao mesmo tempo que soam necessárias para quem acompanha todos os filmes de Marvel, fazem com que o roteiro se desvie em alguns momentos de seu foco principal. Mas, se há uma qualidade que já havia ficado clara com o primeiro Os vingadores é que Whedon tem uma disposição de desenvolver esses personagens em dois planos: o da mitologia e o da humanidade. Desta vez, ele coloca os heróis não apenas diante de uma ameaça enigmática, que pode colocar a ciência em xeque, como também em contrapor e unir todos em relação aos gêmeos. Nisso, há imagens estranhas do passado ou possível futuro de cada um, o que remete a Linha mortal, em que jovens faziam experiências com a morte e eram atormentados por visões estranhas e que poderiam, inclusive, defini-los, o que era incentivado no primeiro filme por Philip Coulson (Clark Gregg). Embora este recurso se fundamente em desvios da trama, esses acabam servindo como impulso para uma das melhores sequências, que se liga a um ambiente campestre e no qual podemos ter uma divisão da trama antes de uma grande contribuição de Whedon para o cinema de ação (além de criar um diálogo com a ficção científica Interestelar, em que um aviador se escondia na pele de um fazendeiro e poderia ajudar a humanidade a se salvar de um desastre). Se as cenas de ação dos filmes dos heróis isolados parecem interessantes, nenhuma soa tão grandiosa quanto aquelas que víamos em Os vingadores.
Nesse sentido, Vingadores – Era de Ultron não fica a dever para seu antecessor: enquanto seu primeiro ato parece preparar a história para algo maior, como o primeiro, as duas partes finais soam tão boas ou ainda melhores do que as da primeira parte, não apenas pelo fluxo oferecido por Whedon – em alternar explosões e perseguições com um verdadeiro sentimento de perigo e humanidade empregada nas sitações –, como em igual intensidade pelo visual magnífico, que soa original e espetacular, com o auxílio da fotografia de Ben Davis (o mesmo de Guardiões da galáxia), e pela atuação do elenco,

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Em meio às sequências de ação, há uma sucessão contínua de traços de humor, no entanto, pendendo mais para a série Thor do que para o terceiro Homem de ferro, eles conseguem dar uma solidez para a narrativa. Whedon tem uma agilidade grande em captar essas cenas sem que elas pareçam exageradas ou desprovidas de algum elemento humano, e neste ponto o que poderia ser apontado como desconexão entre algumas linhas de roteiro se transforma naquilo que é essência: esses heróis, para Whedon, são mitológicos e trabalham com as mesmas emoções básicas, sobretudo o medo da morte e de realmente transformar o mundo. É interessante como, aqui, todos ganham linhas de roteiro apontando esse sentimento, sobretudo Romanoff, Banner, Rogers e Stark: eles estão, de certo modo, sempre ligados ao passado – e a única maneira apontada para uma condição de satisfação humana é aquela do Arqueiro. Este, inclusive, ressoa uma fala de Coulson do primeiro Os vingadores quando trata do uniforme feito para Steve Rogers. Mas, se Banner e Stark parecem sempre estar com o pensamento no que podem criar de novo no laboratório, Rogers se encontra encapsulado nos anos 40, dos quais foi obrigado a se distanciar, assim como os gêmeos não conseguem esquecer a imagem gravada na infância do nome Stark, e Romanoff tem receio do que as visões podem lhe mostrar sobre ser uma assassina letal. No caso dela, acalmar Banner não é apenas uma ironia do destino quando ela, de fato, não atinge nenhuma tranquilidade.
Todos os super-heróis conseguiram desenvolver também, com a ajuda dos filmes próprios, uma personalidade características, e são auxiliados pelas atuações de Johansson, Hemsworth e Evans, além de Ruffalo e Renner (que no anterior passava quase toda a metragem sob domínio de Loki). Downey Jr. não desaponta no papel, entretanto é cada vez mais visível seu desconforto, assim como no terceiro Homem de ferro. Não apenas pelo roteiro, é exatamente o personagem de Banner que mais se destaca, muito pela presença de Ruffalo, cuja atuação mais interessante é aquele empregada em Zodíaco, mas que consegue, aqui, seguir na linha de Bill Bixby, da série de TV.

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Embora faça falta exatamente Loki (em razão do ótimo ator Tom Hiddleston), o vilão deste filme, por causa da voz de James Spader, soa com um fundo ameaçador, ainda que não totalmente desenvolvido por causa da quantidade de perspectivas que a narrativa adota, com ações ocorrendo ao mesmo tempo e em lugares diferentes, com vários personagens. Ainda assim, mesmo os coadjuvantes, como o próprio Aaron Taylor-Johnson, Olsen, Claudia Kim (como a cientista Helen Cho), Andy Serkis (como o traficante de armas Ulysses Klaw) e Cobie Smulers (como Maria Hill) estão bem em seus respectivos papéis, além de uma inesperada Linda Cardellini (da saudosa série Freaks and geeks) num papel discreto, mas eficiente. Este conjunto muitas vezes consegue levar o roteiro de Whedon para um estágio em que os vínculos entre as pessoas podem ser o único motivo, como no primeiro Os vingadores, de a humanidade ter, realmente, a sua sobrevivência. E, como o primeiro, o fato de este ter quase duas horas e meia não registra o tempo transcorrido: se o espectador está disposto a se entregar a um universo desta espécie, verá um grande encontro, já desde a primeira sequência.

Avengers: age of Ultron, EUA, 2015 Diretor: Joss Whedon Elenco: Robert Downey Jr.,  Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Mark Ruffalo, Chris Evans, Chris Hemsworth, Aaron Taylor-Johnson, Andy Serkis, Anthony Mackie, Claudia Kim, Cobie Smulders, Don Cheadle, Elizabeth Olsen, Samuel L. Jackson, Idris Elba, James Spader,  Linda Cardellini, Paul Bettany, Stan Lee, Stellan Skarsgård Roteiro: Joss Whedon Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Danny Elfman e Brian Tyler Produção: Kevin Feige Duração: 141 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

Transcendence – A revolução (2014)

Por André Dick

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Quando foi anunciada a estreia de Wally Pfister, diretor de fotografia dos filmes de Cristopher Nolan, com Johnny Depp, à frente de uma grande produção, logo se criou uma grande expectativa. Talvez seja esta mesma expectativa que tenha feito o estúdio colocar Transcendence – A revolução um pouco antes das estreias de verão, como se fosse um blockbuster destinado a arrecadar milhões. Com grande prejuízo nas bilheterias e um rastro de críticas em parte bastante negativas, o filme de Pfister não conseguiu criar uma empatia direta, mesmo com seu elenco: além de Depp, Morgan Freeman e Rebecca Hall, para citar apenas os principais. Filmes de ficção científica com fundo filosófico dificilmente conseguem, de qualquer modo, atrair uma grande bilheteria, independente de seus objetivos: é quando a ficção se mescla com cenas de movimento contínuo que o gênero costuma crescer em todos os sentidos – e se tiver espaçonaves e batalhas espaciais quanto mais melhor. E é importante não esquecer: Godzilla foi um grande sucesso de bilheteria e mesmo elogiado por grande parte da crítica estrangeira, mesmo sendo o filme que, de fato, é.
Daí não ser uma surpresa que Transcendence tenha sido recebido com tanta desconfiança, além, claro, de que sua história não estava interessada em puxar os elementos mostrados para o lado espetacular da questão, preferindo se manter com uma certa reserva e um certo tom de onirismo ao longo de sua narrativa. Esta mostra um cientista, Will Caster (Johnny Deep), casado com Evelyn (Rebecca Hall), que, quando está fazendo uma palestra sobre a inteligência artificial, descobre a existência do grupo Revolutionary Independence From Technology (RITF). Ao mesmo tempo, há a presença do agente do FBI Donald Buchanan (Cillian Murphy), acompanhado do cientista do governo Joseph Tagger (Morgan Freeman), investigando a história. Caster tem o objetivo de retornar de maneira a princípio inacreditável: ele tenta transferir sua consciência para um computador. Tendo o apoio da mulher, mas a desconfiança de seu melhor amigo, Max Waters (Paul Bettany), Caster tentará se tornar uma espécie de humano habitando um sistema de informática, quase uma versão masculina do Ela de Spike Jonze.

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Enquanto isso, Max é perseguido por  Bree (Kate Mara), o líder do RIFT, e, na medida em que terá de se decidir em trair Caster ou segui-lo, e do mesmo modo continuar fiel à imagem de sua amiga, Max se tornará um personagem deslocado pelos acontecimentos.
Caster quer ainda mais: criar no deserto um lugar em que as pessoas possam ir se tratar, com ganhos envolvendo a a biologia, a tecnologia e as nanotecnologias. Estão aí todos os elementos de uma ficção científica de interesse, e Pfister os trabalha com cuidado. No início, dispondo os personagens em cena, já é possível sentir uma certa atmosfera melancólica, inusitada neste tipo de filme. Os personagens estão em contato uns com os outros, mas ao mesmo tempo parece haver um afastamento.  E, se a trama oferece a impressão de andar lenta demais, é mais porque Transcendence, embora pareça, não segue o ritmo da maioria dos blockbusters, preferindo se concentrar na relação entre Caster e Evelyn. Esta é baseada no conhecimento científico e nas descobertas, mas não consegue nunca ganhar corpo porque ambos os personagens se situam e se comportam como pessoas deslocadas. Na verdade, eles parecem sempre estar em sonhos ou transições de energia, como o da internet, nunca em lugares fixos ou determinados. O quarto de Caster e Evelyn, por exemplo, é um exemplo de lugar que aparenta ser acolhedor, mas esconde os conflitos do casal deixados em vida. O fato de se fazer o upload da consciência de Caster para um computador não significa, para Evelyn, que ele de fato exista, mas que pode ser ameaçador e dominador como a rede da internet em que ele pretende sobreviver e se espalhar.
Não é por acaso, neste sentido, que Transcendence, a partir de sua segunda metade, prefira mostrar a tentativa de Caster criar uma comunidade no meio do deserto, na cidadezinha de Brightwood. As imagens de Transcendence neste deserto são ao mesmo tempo vagarosas e contemplativas, sugerindo um espaço-tempo indefinido e lembram as do início do filme 2010 – O ano em que faremos contato, quando o sol está nascendo em frente a placas de energia solar. A direção de arte do filme de Hyams tem semelhanças com a do filme de Pfister, sendo que esta é ainda mais elaborada e evoca sempre um sentimento de solidão e afastamento do mundo. O cenário dialoga com a tentativa de Caster é soar como um deus capaz de regenerar – ou de transcender, conforme o título – toda a humanidade à sua volta. Como Caster, Depp está num limite tênue entre a apatia e a frieza tecnológica, mas talvez seja uma necessidade de não soar como seus personagens ligados aos filmes de fantasia, enquanto Hall demonstra o talento já mostrado em outros filmes, compondo uma mulher situada entre o mundo experimental e a preocupação de lidar com algo que pode fugir ao controle.

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Dentro do que se propõe, ele cumpre o que Pfister organiza com a lentidão de sua narrativa, sem nenhum momento estridente de ação no sentido em que o cinema vem se moldando nos últimos anos. Embora haja elementos de filmes de Nolan, sobretudo de A origem, sobretudo numa certa confluência entre a bela trilha sonora de Mychael Danna (As aventuras de Pi), fotografia de Jesse Hall (The spectacular now) e diálogos, fazendo com que esses soem o tempo todo dispersos ou vagando pelo espaço pelo qual a narrativa se move, os personagens parecem estar sempre conversando com computadores, como se a consciência humana tivesse sido deslocada para esse compartimento, e há imagens de grande sensibilidade, sobretudo quando mostra o corpo como uma coleção de partículas, em contraste com as tormentas que surgem. Transcendence consegue muito mais empregar uma elegância por meio de seu trabalho de fotografia e diálogos breves e soltos, com o apuro de uma montagem não linear, mas que ao longo da narrativa se torna mais confusa e mais evocativa. É interessante como Pfister, por exemplo, mostra os ambientes da universidade, de maneira asséptica, e dos laboratórios e corredores em que Caster passa a trabalhar com as nanotecnologias com a mesma luminosidade de Apichatpong Weerasethakul em Síndromes e um século, assim como é compreensível que o início do filme antecipe o seu final, como uma rede ligada a outra, em que os pontos devem se conectar. Mais ainda é a maneira como Pfister filma, no início, uma gota-d’água num lugar-chave para o casal – e essa gota antecipará a verdadeira transcendência, numa imagem sobretudo elaborada, fixando-se também na semelhança com o campo de placas de energia em Brightwood, que lembram girassóis voltados para o céu. Pfister certamente não está conduzindo a humanidade, em seu filme, a uma fuga dos compromissos modernos e contemporâneos por meio dos computadores, mas vendo a base desse sentimento pela consciência artificial. Neste sentido, Transcendence é um filme que, mais do que pontos bastante interessantes a serem discutidos, foge a qualquer traço de simples filme comercial, daí sua maior originalidade e aquilo que equivale a seu título.

Transcendence, EUA, 2014 Diretor: Wally Pfister Elenco: Johnny Depp, Morgan Freeman, Rebecca Hall, Paul Bettany, Kate Mara, Cillian Murphy, Cole Hauser, Clifton Collins Jr. Roteiro: Jack Paglen Fotografia: Jess Hall Trilha Sonora: Mychael Danna Produção: Andrew A. Kosove, Annie Marter, Broderick Johnson, Kate Cohen, Marisa Polvino Duração: 119 min. Estúdio: Alcon Entertainment / Straight Up Films

Cotação 4 estrelas

 

Homem de ferro 3 (2013)

Por André Dick

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Em 2008, Robert Downey Jr., como o Homem de Ferro, enfrentou um grande vilão, Obadiah Stane (Jeff Bridges). Em 2010, novamente sob a direção de Jon Favreau, ele regressou ao papel de herói, tendo como rivais dois vilões interessantes, Ivan Vanko (Mickey Rourke) e Justin Hammer (Sam Rockwell). Ainda assim, o que se destacava, ainda mais do que o primeiro, era o bom humor de Downey Jr., além da aparição de Samuel L. Jackson e da cena de boxe com a personagem de Scarlett Johansson.
Se este segundo filme subestimado já começava no tribunal, com o Homem de Ferro sendo pressionado a dividir os segredos de sua invenção com o Estado, aqui o herói, já estabelecido e fazendo novos experimentos com sua armadura, começa se lembrando de um episódio ocorrido em 1999 (daqui em diante, spoilers) quando dormiu com uma bióloga, Maya Hansen (Rebecca Hall), na virada do ano em Berna, depois de ser abordado por um homem estranho, Aldrich Killian (Guy Pearce), a fim de tratar de negócios.
Com coadjuvantes de luxo, Favreau se saiu bem nos dois filmes que dirigiu, aliando técnica nos efeitos visuais e uma montagem eficiente, enquanto neste terceiro Shane Black tem uma dificuldade especial de dosar o ritmo. Com essa questão episódica demais – o passado que retorna com todos os seus problemas –, ele parece não conseguir, como Favreau, inserir os personagens em conjunto, apesar de a primeira meia hora ser agradável, e afasta alguns deles da trama durante muito tempo. A relação entre o Homem de Ferro e Pepper Potts (Gwyneth Paltrow, eficiente como nos outros filmes) parece ter congelado no final do segundo filme. Ela está à frente, nas empresas, enquanto ele está em sua mansão, trabalhando no porão, escondido. Ele também não conversa pessoalmente uma vez sequer com aquele que, em determinado momento, de modo irônico, vai provocar nele um espírito de revanche (nem conversará no fim, o que parece indicar problemas no roteiro).

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Desta vez, ele guarda pesadelos da batalha de Nova York de Os vingadores, mas o afastamento continua o mesmo, e não há exatamente um aprofundamento em sua psicologia, o que havia antes do clímax do segundo. Ou seja, se antes Stark e Pepper estavam quase sempre juntos, aqui parece que eles não têm vínculo estabelecido, apenas uma necessidade de dividir diversas piadas na sala de estar e no quarto. Nesse sentido, o filme não deixa a desejar.
A vida do Homem de Ferro começa a ser ameaçada quando surge um terrorista, Mandarim (Ben Kingsley, que parece saído diretamente do set de O ditador), que remete sobretudo a Bin Laden, e ele consegue invadir, com seus vídeos, todas as redes de televisão, depois de atentados em que não se consegue descobrir a origem das bombas. Embora aqui não estejamos tratando de A hora mais escura, e sua polêmica com as cenas de tortura, há cenas de humor um tanto estranhas (sobretudo aquelas que acontecem no Paquistão), pois trata-se de um filme de diversão que evoca diretamente um contexto muito mais sério. O aspecto cômico do filme acaba abalado por sua tentativa de estabelecer um contato com acontecimentos reais, que não são divertidos. Em algumas dessas sequências, entra em cena aquele que se denomina Patriota de Ferro, que na verdade é Jim Rhodes (Don Cheadle, menos efetivo do que no segundo filme).
Depois de uma catarse sonora e de efeitos especiais, é preciso, para Black, dar vazão ao filme e cultivar seus elementos externos, colocando o Homem de Ferro como amigo de um menino, Harley (Ty Simpkins, bom ator), o que, apesar de soar simpático e render momentos divertidos (sobretudo um diálogo que deve ter sido feito de forma improvisada por Downey Jr.), acaba extraindo boa parte do núcleo do filme e parece querer agradar, de forma apressada, o público infantil. O herói precisa recuperar-se para enfrentar o vilão: porém, o que ele faz é decorar uma garagem como laboratório. Claro que não se deseja achar que filmes que almejam o divertimento têm necessariamente uma faceta dramática, mas pode haver uma pausa para recuperar as ações. Quando acontece a catarse com sua mansão – e ela aparece no trailer –, tratando-se de uma sequência impressionante, com a ótima fotografia de John Toll (Cloud Atlas), onde ele, afinal, abrigava seus projetos, parece não haver a justa medida de sofrimento.

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Num filme de ação, é preciso temer os vilões e se torcer para o herói superar suas dificuldades. Quando o herói parece não sentir dificuldades nem tem desejo de reparar a realidade em que vivia, a tensão, em boa parte, se perde (evidente no fato de que muitas vezes ele não está diretamente envolvido na ação e na conversa final, depois dos créditos). E quando o vilão, Mandarim, revela sua verdadeira faceta, vemos um lado de Kingsley constrangido (o extraordinário ator não escapa ileso da brincadeira).
Black, que fez o roteiro de todos os filmes da série Máquina mortífera (os dois primeiros são especialmente bons), mas também dos fracos O último boy scout e O último grande herói, e antes fez apenas um filme, justamente com Downey Jr., Beijos e tiros, que brincava com o cinema noir e tinha um estilo interessante, demonstra mais competência do que o esperado para cenas de ação grandiosas (e há pelo menos três no filme que parecem superar qualquer outra da série), mas acaba destoando justamente onde se esperava mais: no roteiro bem delineado e com diálogos eficientes. O que se vê é uma sucessão de gags, de todos os estilos, algumas delas divertidas, sobretudo pela atuação de Downey Jr. E, vendo de forma distanciada, um diretor que fez apenas um filme e não dirigia há oito anos não seria a melhor alternativa para imprimir ritmo.
O Homem de Ferro de Downey Jr. não pode ser levado totalmente a sério, mas tampouco soa sem elementos dramáticos ou sem uma relação paterna que o acompanha na criação da própria empresa. Aqui, a porção dramática diminui consideravelmente em passagens com maior tendência à autossátira, quase como o que fez Richard Lester em Superman III, e a crise de ansiedade inventada para Stark parece aleatória. Existe, inclusive, uma sequência que lembra a do personagem de Tom Cruise em Encontro explosivo, satirizando ele próprio em Missão impossível. Pelos trailers, parecia, inclusive, que haveria uma espécie de influência do terceiro Batman pela escuridão das imagens. Não é o que acontece (nem deveria), mas trailers certamente ajudam a estabelecer uma concepção visual prévia para o que irá se assistir. Não se espere, portanto, nenhum traço sombrio. Mas, particularmente, o que tira a energia que deveria haver no duelo entre Homem de Ferro e o empresário Killian é justamente Guy Pearce, ator que tem dificuldade de estebelecer uma ligação com a plateia e parece soar em muitos momentos exagerado. Sua atuação é, particularmente, equivocada, ainda mais por causa do roteiro e quando comparada às de Jeff Bridges, no primeiro, e de Rourke e Rockwell no segundo.
Existe emoção em Homem de ferro 3 quando Downey Jr. consegue mesclar o elemento do bom humor com o drama, quando ele está numa situação delicada e percebe que Pepper pode correr um perigo indesejado. É justamente quando estabelece ligações humanas que Homem de ferro 3 cresce. Quando ele soa com elementos de sátira a outros filmes, inclusive aos da série, ele acaba por não conseguir fazer o que mais quer: divertir.

Iron man 3, EUA, 2013 Diretor: Shane Black Elenco: Robert Downey Jr., Gwyneth Paltrow, Guy Pearce, Ben Kingsley, Paul Bettany, Rebecca Hall, Jon Favreau, Don Cheadle, James Badge Dale, Ashley Hamilton, Yvonne Zima, William Sadler, Ty Simpkins, Miguel Ferrer Produção: Kevin Feige Roteiro: Shane Black, Drew Pearce Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Brian Tyler Duração: 130 min. Distribuidora: Disney Estúdio: DMG Entertainment / Marvel Studios / Paramount Pictures

Cotação 2 estrelas e meia