O estranho que nós amamos (2017)

Por André Dick

Exibido pela primeira vez no Festival de Cannes, no qual recebeu o prêmio de melhor direção, para Sofia Coppola, O estranho que nós amamos é uma nova adaptação de um romance de um Thomas P. Cullinam. Ele já havia sido transposto para o cinema em 1971, por Don Siegel, tendo à frente do elenco Clint Eastwood e Geraldine Page. Quase esquecido, pode-se dizer que a versão de Sofia o colocou novamente em circuito para debate e comparação.
A história se passa em 1864, quando um internato com arquitetura própria da Virgínia, no Sul do Estados Unidos, administrado por Martha Farnsworth (Nicole Kidman), durante a Guerra Civil Americana, serve de repouso para um soldado ferido de guerra e fugitivo, John McBurney (Colin Farrell). Ele é descoberto no bosque, capaz de lembrar um pouco o cenário de A lenda do cavaleiro sem cabeça, de Tim Burton, semelhante a uma pintura, por uma das alunas da mansão, Amy (Oona Laurence). McBurney passa a ser cuidado tanto por Martha quanto, especialmente, por Edwina Morrow (Kirsten Dunst). As outras jovens da casa são Alicia (Elle Fanning), Jane (Arroz Angourie), Emily (Emma Howard) e Marie (Addison Riecke).

O estranho que nós amamos tem todos os elementos de um filme de Sofia Coppola, principalmente porque mostra, antes de tudo, um retrato da solidão humana. Assim como em As virgens suicidas, essas mulheres estão à espera de algo que aconteça em suas vidas, e isso é simbolizado por McBurney, e como Encontros e desencontros não parece haver uma sintonia entre o desejo e o que se manifesta dessa aproximação. Sofia fez o decepcionante Bling Ring há alguns anos, tendo apresentado depois apenas o especial A very Murray Christmas, para a Netflix, uma ótima peça com o ator Bill Murray. Em O estranho que nós amamos ela retoma o talento exibido em Maria Antonieta e Um lugar qualquer, dos quais este novo filme também se aproxima por certo tédio existencial e um classicismo que tenta fazer as coisas permanentes.
Que esta obra seja considerada inferior por alguns à de Don Siegel de 1971 só pode ser por nostalgia ou culto a Eastwood – no mesmo ano, diretor e ator fizeram o primeiro Dirty Harry. Não há nenhum sentido em compará-los: a obra de Sofia é uma visão por vezes assustadora sobre um grupo de mulheres que visualiza no homem a essência de permanecer exatamente onde estão e como são, e Farrell faz uma espécie de vampiro (a analogia com o personagem que interpreta em A hora do espanto não é desprezível) querendo colocá-las umas contra as outras. Ele queria ser salvo e se esconder num lugar, e conseguiu. O que ele ignorava é: não se pode enganar ninguém num espaço tão reduzido. Não há elogios à figura masculina: McBurney é uma intromissão necessária, porém dispensável para o andamento da rotina.

No filme de Siegel, tudo era excessivamente voltado a construir uma imagem de Velho Oeste deslocada para uma casa onde mulheres procuravam a companhia de um homem. O design de produção era previsível, assim como o figurino não evocava uma imersão no período enfocado, apesar das qualidades interpretativas de Clint Eastwood. Na versão de de Sofia, o cenário não raras vezes, com as árvores encobrindo quase toda a paisagem, evoca Cabo do medo, de Scorsese, e os candelabros, Barry Lindon.
Eastwood, no original, era um soldado querendo usar métodos de galã em relação às personagens que os cercavam – Farrell escolhe um ar de mistério ameaçador, de alguém com o intuito de cuidar das flores do jardim, mas sem saber o quanto há de espinhos nelas. Sofia usa uma história que às vezes soa teatral demais em alguns momentos para fazer uma espécie de Os outros em ritmo de história norte-americana. Para estabelecer paralelos com a obra de Siegel, apenas num plano superficial: a fotografia de Phillipe Le Sord (O grande mestre), do filme de Sofia, é sublime e ajuda a contar essa história de maneira que realmente sintamos estar diante de uma grande obra. Além disso, suas temáticas ficam encobertas e subentendidas. Do que Sofia está tratando aqui? Certamente mais do que sobre um período da história dos Estados Unidos, tanto que ela não entra em maiores detalhes sobre a escravidão, como havia no filme de Don Siegel. Isso equivale a dizer que essas mulheres estão completamente afastadas da realidade, sendo quase fantasmas à espera de uma razão para existir. As cores de seu figurino (branco, rosa e azul celeste) representam uma leveza não existente no lugar onde moram; elas também se escondem por trás dele.

E elas encontram na figura do soldado uma certa razão para tentarem se revelar. Esse ingresso de um estranho em suas vidas é acompanhado por um tom soturno e pausado, sem espaço para grande alegria, a não ser tentativas de vivê-la, a exemplo dos cantos ao piano. Qualquer conversa entre os personagens é milimetricamente calculada, um tanto sem vida, porque o que eles escondem sempre se pronuncia em primeiro lugar. O elenco, todo, é melhor: Kidman está num de seus melhores momentos (embora Geraldine Page faça muito bem o papel no original), Dunst é minuciosa nos gestos de uma jovem melancólica, Farrell é notável, entre uma certa ingenuidade e uma tentativa de manipular, e Fanning acerta no tom de fingimento (o único senão é sua pouca presença, ao contrário de sua personagem na versão de 1971). Por esses elementos, entende-se que Sofia Coppola volta a seus melhores momentos, de Maria Antonieta e Um lugar qualquer, mas com um desenvolvimento ainda maior de temas discretos, que não se apresentam para o espectador com uma necessidade de convencê-lo sobre determinadas abordagens. Para Sofia, o mistério da humanidade está escondido no bosque como o soldado, à espera de atendimento. Não parece por acaso a maneira como a diretora utiliza a névoa do amanhecer como uma espécie de convite a tentar desvendar esse mistério insondável.

The beguiled, EUA, 2017 Diretora: Sofia Coppola Elenco: Nicole Kidman, Kirsten Dunst, Elle Fanning, Colin Farrell, Angourie Rice, Addison Riecke, Oona Laurence, Emma Howard Roteiro: Albert Maltz, Irene Kamp, Sofia Coppola Fotografia: Philippe Le Sourd Trilha Sonora: Laura Karpman, Phoenix Produção: Sofia Coppola, Youree Henley Estúdio: American Zoetrope, FR Productions Distribuidora: Universal Pictures

Meu amigo, o dragão (2016)

Por André Dick

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Esta refilmagem atualizada do clássico de 1977 em que o grande destaque era Mickey Rooney, passado nos anos 1900, envolvendo pescadores e o dragão do título, acompanhados de várias canções e sua mistura de humanos com animação – na época, mais de uma década após o sucesso de Mary Poppins e alguns anos depois do êxito de Se minha cama voasse – se dá num momento em que a Disney atravessa uma fase de grandes sucessos de animação, como Zootopia, e live action, como Mogli – O menino lobo. A companhia tem sido exitosa em recuperar algumas obras clássicas sob nova roupagem, emulando a mesma atmosfera de seu período mais áureo, dos anos 40 aos anos 60, além de conceder espaço à série Star Wars em grande escala depois de George Lucas vender seus direitos.
A história inicia mostrando Pete (Levi Alexander), um menino de cinco anos, que viaja com seus pais (Gareth Reeves e Esmée Myers) quando o carro acaba sofrendo um acidente. O menino se vê obrigado a entrar na floresta de Millhaven, à margem da estrada, onde passa, depois de perseguido por lobos, a ser protegido por um dragão. É um momento-chave para a história, à medida que depois desse acontecimento tudo se transformará em sua vida. Ele dá o nome de Elliot ao dragão, em razão de ser o nome do cachorro de seu livro favorito. E, se há uma coisa que os estúdios Disney gostam de fazer, é mostrar dragões em suas histórias, não apenas no clássico a partir do qual este filme parte, mas Dragonslayer, de 1981, com efeitos visuais até hoje interessantes, assinado por Matthew Robbins.

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Depois de seis anos, Pete (agora Oakes Fegley) vê o integrante de uma serraria que surge para fazer uma obra na floresta de Pacific Northwest, Gavin (Karl Urban, fazendo um personagem diferenciado do McCoy de Star Trek), e é perseguido por Natalie (Oona Laurence), filha de Jack (Wes Bentley). Quando Natalie acidentalmente cai da árvore onde tenta alcançar Pete, seus gritos atraem seu pai, e sua namorada, uma guarda florestal, Grace Meacham (Bryce Dallas Howard). Pete tenta fugir, no entanto Gavin, irmão de Jack, o derruba. O pai de Grace (Robert Redford) sempre contou sobre uma lenda de dragão nas redondezas às crianças, mas sua filha nunca acreditou nele. Isso é um bom início para mudar de ideia. E, a partir de determinado momento, o xerife Dentler (Isiah Whitlock Jr.), também vai querer conhecer melhor essa história. Nenhum dos personagens, porém, segue uma linha de completa bondade ou de vilania – todos se mantêm num meio-termo.
Se Meu amigo, o dragão conserva a magia do original, é acrescido, pelo diretor David Lowery, um tom que lembra inicialmente O quarto de Jack e Super 8, não apenas pela aparência do menino principal, como pelo drama de não ter uma família evidente. Pete é sozinho e tem em Elliot – não por acaso, nome do menino de E.T. – sua grande companhia existencial, que creem ser imaginária, inicialmente: ambos dormem numa caverna e passam o dia pela floresta, entre escaladas de árvores e passeios pelo rio (porém, o dragão, às vezes, pode não ser visto).

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A amizade entre Pete e Grace se faz rapidamente, no sentido mais apurado da fantasia e da aceitação familiar, pois é um menino que procura um núcleo. Como poucas peças hoje em dia, este é um filme que possui coração e uma certa magia que retoma elementos perdidos em algum passado longínquo. Há uma espécie de ingenuidade no bom sentido nas ações dos personagens que levam a narrativa a um espaço amplo de aceitação do espectador. Não há dúvida de que o diretor Lowery utiliza vários encaixes comuns a esse tipo de história – desta vez, porém, a arquitetura é realmente interessante, e mesmo o que poderia se transformar numa ode à defesa do meio ambiente se converte mais numa melancolia passageira relacionada aos homens que sobrevivem da floresta e de sonhos abrigados (ou esquecidos) nela.
Há elementos também de Mogli e o dragão nem de longe lembra Smaug (sendo uma criação da empresa de Peter Jackson), mas é muito mais primo distante do cão de A história sem fim – e pode-se imaginar que Pete o imagina assim também por causa de sua história favorita. O diretor Lowery fez há alguns anos um filme indie, Amor fora da lei, com Ryan Fleck e Rooney Maara, e a montagem de um cult de Shane Carruth, Upstream color. Em Meu amigo, o dragão ele focaliza bosques enevoados e um clima gélido, cercado pelo calor familiar e de Grace, com boas atuações de todo o elenco, principalmente de Fegley e Dallas Howard, atriz subestimada desde Histórias cruzadas, em que fazia um personagem que era contraponto ao de Jessica Chastain, com quem é muito parecida plasticamente, e aqui numa oposição oposta à de A vila.

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No ano passado, ela participou do grande sucesso Jurassic world, entretanto com uma personagem não exatamente interessante. Redford também está bem, com seu aspecto envelhecido sem forçar a sabedoria da idade, evocando talvez Junior Boomer, dos anos 70, o homem branco que largava a civilização para habitar a natureza, e Lowery lida com este elenco multiestelar com talento insuspeito e grande acerto na condução de cada um.
De modo geral, Meu amigo, o dragão é muito bem realizado, com efeitos visuais discretos e eficientes e um contínuo tom de descompromisso, no roteiro escrito por Lowery em parceria com Toby Halbrooks. Não há mais as canções do original, e sim algumas canções, como de Leonard Cohen, St. Vincent e The Lumineers, criando, por vezes, uma atmosfera indie de origem do diretor, com sua tentativa de dialogar com Malick. Superior a outras refilmagens, como a de Cinderela, Meu amigo, o dragão é agradável no ponto certo, emocionante sem cair na pieguice e por vezes dramático no melhor sentido.

Pete’s dragon, EUA, 2016 Diretor: David Lowery Elenco: Bryce Dallas Howard, Robert Redford, Oakes Fegley, Oona Laurence, Wes Bentley, Karl Urban, Isiah Whitlock Jr. Roteiro: David Lowery, Toby Halbrooks Fotografia: Bojan Bazelli Trilha Sonora: Daniel Hart Produção: James Whitaker Duração: 103 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Walt Disney Productions

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