Baseado em fatos reais (2018)

Por André Dick

O mais recente filme de Roman Polanski, Baseado em fatos reais, foi lançado no Festival de Cannes de 2017 e passou quase despercebido. Algo estranho, em se tratando de ser a primeira parceria do diretor no roteiro com o cineasta Olivier Assayas, baseado no romance de Delphine de Vigan. A narrativa se concentra na vida da escritora Delphine (Emmanuelle Seigner), que publica seu primeiro grande sucesso, dedicado à mãe. Durante uma noite cansativa de autógrafos, ela conhece uma admiradora enigmática, chamada Elle (Eva Green), que depois reencontra numa festa para intelectuais. O interessante é que Baseado em fatos reais parece lembrar justamente a atmosfera de Elle, com Isabelle Huppert, não apenas pelo clima parisiense, como pela dualidade das personagens centrais. É de se perguntar o quanto a obra de Verhoeven também sofreu uma influência desse romance em que Baseado em fatos reais se baseia, lançado em 2015.

Delphine tem como principal interlocutor o ex-marido François (Vincent Perez), apresentador de um programa cultural de TV, e se sente constantemente solitária. Elle como que surge para oferecer mais vida à sua existência. Seu comportamento é estranho, no entanto possui certas características que parecem levar a escritora a reavaliar sua vida de compromissos com o lançamento da sua obra. Dizer o que acontece a partir de então seria incorrer em spoilers, por isso pode-se dizer que esta obra é tipicamente de Polanski. Cada vez mais envolvido em polêmicas no que se refere à sua vida pessoal suspeitíssima e que tem um périplo por tribunais (isso desde os anos 60), além de ser proibido de ir aos Estados Unidos (foi banido este ano da Academia de Hollywood, que lhe concedeu, no entanto, um Oscar de direção em 2003 por O pianista), o diretor parece não ter mais a mesma receptividade crítica que teve com A pele de Vênus, seu filme anterior, muito inferior, mas recebido como obra-prima. Não se fica muito à vontade quando se tenta tratar de seus filmes, pelos casos já conhecidos na imprensa, porém Polanski tem importância no plano cinematográfico, em função principalmente de Tess e Chinatown. Aqui ele utiliza uma fotografia sempre sugestiva de Pawel Edelman e uma bela trilha sonora do excelente Alexandre Desplat, além de ser mais objetivo que em obras clássicas, a exemplo de Repulsa ao sexo.

Embora as duas personagens pareçam ter um interesse mútuo, Polanski não chega a desenvolvê-lo, preferindo se concentrar mais na visão psicológica que elas proporcionam – e a figura da mulher desconhecida é como se fosse a extensão dos sentimentos de culpa da escritora. Ela também recebe cartas anônimas sempre ameaçadoras (inspirado claramente em Caché, de Haneke), o que dá ao filme uma sensação de thriller. Nunca fica muito claro quem é ela, uma característica fundamental nesse gênero no qual Baseado em fatos reais ingressa. Todos os caminhos são um pouco distorcidos, e a noite filmada por Polanski tem muito daquela de Holy Motors, de Leos Carax. Seigner, no papel central, tem uma bela atuação – e é mais uma na parceria que mantém com o diretor, com quem é casada, desde Busca frenética e que tem em Lua de fel seu melhor momento. Ela concede um nervosismo, acentuado pela presença da quase sempre eficiente Green, a qual tende a atuar em overacting quando tem mais liberdade (por exemplo, em Sombras da noite, de Tim Burton) e se revelou para o mundo no transgressor Os sonhadores, uma tentativa de Bertolucci reviver O último tango em Paris em ritmo juvenil. São atrizes representando personagens escondidas atrás de máscaras, de comportamentos não totalmente verdadeiros.

Aqui Seigner brilha em momentos tensos e utiliza sua plasticidade para se contrapor ao cansaço que se sente em Delphine. Esta se sente quase ao longo de toda a narrativa cansada, envelhecida, enquanto a parceira está sempre reluzente. Tais detalhes são bem trabalhados por Polanski, como já fizera, dentro desse mesmo contexto, em O escritor fantasma. Também há um dos seus primeiros filmes que desenvolve a tensão existente neste novo: A faca na água. E funciona: durante toda a história, mesmo quando surgem os lugares-comuns e uma influência notável de De Palma (que também emulou muito o Polanski dos anos 60 e 70), o espectador fica interessado no que irá acontecer. Seu potencial fica um tanto incompleto, também pela pressa narrativa. Tudo é excessivamente polido, estranho para um roteiro que tem Assayas entre seus autores e que busca em suas obras mais recentes, como Personal shopper, maior estranheza e indefinição. Por outro lado, sua atmosfera é rara em filmes contemporâneos, ao mesmo tempo que conta com duas atrizes de notável talento para justificar o andamento.

D’après une histoire vraie, FRA/ITA/POL, 2018 Diretor: Roman Polanski Elenco: Eva Green, Emmanuelle Seigner, Vincent Perez Roteiro: Olivier Assayas e Roman Polanski Fotografia: Paweł Edelman Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Wassim Béji Duração: 110 min.

Personal shopper (2016)

Por André Dick

Uma das lendas propagadas por determinada crítica é de que Kristen Stewart se transformou numa boa atriz apenas quando iniciou sua parceria com Olivier Assayas em Acima das nuvens, justamente porque foi a primeira atriz norte-americana a receber o César, o Oscar do cinema francês. Pode-se lembrar, inclusive, das piadas feitas com ela numa cerimônia do Oscar, numa época em que poucos a consideravam como atriz. Outra lenda é de que ela se transformou numa atriz realmente após a série Crepúsculo. São avaliações equivocadas de quem certamente não assistiu a suas atuações em O quarto do pânico, Na natureza selvagemO silêncio de Melinda, feitos antes de Crepúsculo (série na qual tem a mesma base de interpretação, apenas com um roteiro de apelo mais pop), e em The Runaways, O lenço amarelo, Adventureland, Na estradaAmerican Ultra e Café Society, feitos ao mesmo tempo que ou após a série, nos quais apresenta atuações destacadas e de uma atriz que procura caminhos diferentes, embora mantenha um determinado estilo. Diante disso, a constatação é a seguinte: Stewart só teve seu talento valorizado quando destacada pelos franceses, igual a outros artistas desde o século passado.

Em Personal shopper, ela interpreta Maureen Cartwright, que perdeu o irmão gêmeo Lewis e tenta se conectar com ele por meio da mediunidade, elemento que ele também possuía. Ela trabalha exatamente como “personal shopper”, escolhendo roupas para uma celebridade, Kyra (Nora von Waldstätten), cujo namorado é Ingo (Lars Eidinger). O filme de Assayas mostra ela entre a tentativa de contactar o irmão, mas é muito mais sobre a falta de diálogo entre as pessoas vivas. Há um casal de amigos (Audrey Bonnet e Pascal Rambert), interessado em comprar a casa onde ela e Lewis viviam, mas Maureen quer primeiro reencontrar, de algum modo, o irmão. Essa tentativa de voltar à casa onde se morou retoma certamente um dos temas de Assayas em Horas de verão, sobre o reencontro de uma família, e as folhas amarelas de outono que caem na sacada do lugar representam essa mudança existencial.
Situado entre Paris e Londres, Personal shopper tem uma atmosfera muito interessante – uma mistura entre arthouse e obra sobre paranormalidade – e, além da belíssima fotografia de Yorick Le Saux, apresenta uma das melhores atuações de Stewart, atriz que certamente acrescentou a seu repertório um traço de atriz europeia, bem mais arriscado daquele a que o espectador está acostumado. É uma atuação comovente até determinado ponto, pois é sua busca pelo irmão a todo custo e contra qualquer vestígio material, mesmo tentando se manter ligada à ex-namorada dele, Lara (Sigrid Bouaziz).

Vaiado no Festival de Cannes de 2016, onde foi lançado e no qual recebeu o prêmio de melhor diretor (dividido com Cristian Mungiu, do excelente Graduation), Personal shopper talvez seja o filme mais estranho de Assayas. Ele está a todo momento contrapondo mundo material (roupas, joias) ao mundo espiritual (que se reflete em luzes e sombras, principalmente quando Maureen passa a noite numa casa vazia a fim de ver se recebe algum sinal do irmão), assim como usa smartphones e computadores como um meio de estabelecer relações com aqueles que existem (mas também inexistem), a exemplo de seu namorado Gary (Ty Olwin), que trabalha no Oriente Médio, ou não estão presentes e surgem a princípio como curiosidades para se transformarem em stalkers (as conversas durante uma viagem dela a Londres por meio de celular são especialmente bem feitas, utilizadas de maneira realmente funcional como no drama Homens, mulheres e filhos). A relação de Maureen com Kyra é tão fantasmagórica quanto qualquer matéria intangível: ao ser um manequim vivo da celebridade, Maureen vive de reflexos e de uma existência ao mesmo tempo vazia de vínculos. Ela se divide entre um ar resignado e sofrido (da mesma maneira que se apresenta no recente A longa caminhada de Billy Lynn) e procurando uma sexualidade que visualiza em Kyra.

O momento mais contundente neste sentido é quando ela resolve experimentar as roupas de Maureen no apartamento dela: é um diálogo com a tentativa de viver realmente como outra pessoa, embora seu drama pessoal seja não encontrar mais seu irmão. Com toques de suspense e assustador em determinadas sequências, Personal shopper tem características do melhor Assayas, aquele de Boarding gate, que também trazia a imagem de uma mulher solitária num universo do crime, e de Clean, sobre uma junkie que tem uma banda de rock com o marido e, depois de determinado acontecimento, encontra-se solitária. A obra de Assayas, apostando no drama em que é especialista, embora às vezes irregular, não deixa de ser um thriller disfarçado de Hitchcock por meio da paisagem parisiense, com toques de Leos Carax e seu Holy Motors, além de uma interessante analogia final com Oslo, 31 de agosto, por meio da presença do ator Anders Danielsen Lie. Assim como na obra de Carax, a tecnologia parece deixar o cinema “antigo” para trás: a sensação, aqui, é que Assayas está tratando do cinema digital em primeiro lugar por meio de uma trama instigante. Há uma cena que define isso: quando Maureen está diante de um acontecimento que mudará sua trajetória, há barulhos e luzes distantes que remetem a uma sala de cinema. O que estará acontecendo lá? Para Assayas, está acontecendo essa procura por sua própria identidade. É estranho, diferente e assustador, como Personal shopper.

Personal shopper, FRA, 2016 Diretor: Olivier Assayas Elenco: Kristen Stewart, Sigrid Bouaziz, Anders Danielsen Lie, Pascal Rambert, Lars Eidinger, Nora von Waldstätten, Ty Olwin, Audrey Bonnet Roteiro: Olivier Assayas Fotografia: Yorick Le Saux Produção: Charles Gillibert Duração: 105 min. Estúdio: arte France Cinéma / CG Cinéma / Detailfilm / Poisson Rouge Pictures / Scope Pictures / Sirena Film / Vortex Sutra