O predador (2018)

Por André Dick

O filme original da série O predador é de 1987, dirigido por John McTiernan, uma referência em cinema de ação daquela década, a julgar também por Duro de matar, que faria no ano seguinte, rendendo a Bruce Willis sua franquia mais consistente. Ao mostrar um extraterrestre ultraviolento perseguindo militares numa selva da América Central, Arnold Schwarzenegger se destacava no elenco, mas era o visual que o tornava um grande atrativo, assim como o clima claustrofóbico. O predador basicamente era um caçador que farejava a violência. No início dos anos 90, sob outro diretor, Stephen Hopkins, a criatura de outro planeta ressurgiu na cidade grande, em Los Angeles, sendo perseguido por um policial vivido por Danny Glover. Embora nos anos 2000 tenha sido utilizado em filmes da série Alien vs Predador, apenas seu reaproveitamento em Predadores, com Adrien Brody num planeta inóspito, traria verdadeiros acréscimos.

O novo O predador, por sua vez, é uma realização de Shane Black. Desde o roteiro dos quatro filmes da série Máquina mortífera, dos anos 80 e 90, com Mel Gibson e Danny Glover, Black se tornou um especialista em obras sobre duplas. Em O último boy scout, ele colocou, sob direção de Tony Scott, Bruce Willis ao lado de Damon Wayans. Já em 1993, em O último grande herói, ele traz uma homenagem ao cinema de ação, na amizade entre um menino e Arnold Schwarzenegger. Em 2005, Black finalmente estreou na direção com o ótimo Beijos e tiros, uma homenagem ao cinema noir com cores surpreendentes, tendo à frente o dueto entre Val Kilmer e Robert Downey Jr. De qualquer modo, o seu grande ponto alto foi Dois caras legais, uma parceria entre Ryan Gosling e Russell Crowe que teve uma infeliz bilheteria.
Na continuação dos três anteriores, Black e seu roteirista Fred Dekker (que escreveu e dirigiu nos anos 80 o curioso Deu a louca nos monstros), mostram um franco-atirador, Quinn McKenna (Boyd Holbrook), que descobre a figura dos predadores e, antes de ser preso, manda o que restou das armaduras de um para sua casa, numa caixa de correspondência. Ele se separou de Emily (Yvonne Strahovski), com quem vive seu filho Rory (Jacob Tremblay), que possui uma espécie de autismo e sofre bullying no colégio, mas acaba tendo acesso à caixa enviada pelo pai.

O ótimo ator de Moonlight Trevante Rhodes atua como Gaylord “Nebraska” Williams, um ex-fuzileiro naval que participa da operação de caça aos predadores e conhece Quinn num ônibus para prisioneiros militares, enquanto Olivia Munn aparece como Casey Bracket, uma professora e bióloga que logo está em meio ao conturbado universo, tentando ajudar Will Traeger (Sterling K. Brown), agente que investiga a espécie rara. Ainda temos um veterano de guerra, Baxley (Thomas Jane), e Lynch (Alfie Allen), também ex-fuzileiro. Não se pode dizer que no novo O predador haja uma dupla determinada, mas não há dúvida de que Qunn e Nebraska formam uma em momentos decisivos.
É notável que Shane Black, como já havia demonstrado em Homem de ferro 3 e Dois caras legais, tem uma noção clara de como dirigir cenas de ação e, como nesses filmes, ele imprime um humor em situações muitas vezes de tensão. Se o objetivo do espectador é encontrar algo que se aproxime da claustrofobia da selva do primeiro O predador, esta nova empreitada sugere mais um blockbuster com todos os elementos aguardados: o mocinho que tenta se reaproximar do filho, os burocratas do governo querendo estudar uma espécie ameaçadora, os amigos que se juntam num combate que pende mais para o extraterrestre fazer vítimas. Também não há o elemento que se destaca sobretudo nos primeiros filmes, que mostravam um alien sedento por violência.

Há uma mescla clara de gêneros, o que em alguns momentos funciona, em outros não, e é visível que o filme foi editado de outra maneira depois do primeiro trailer vir a público, com destaque sendo dado ao menino Rory. A presença do personagem é muito discreta, e Tremblay não tem possibilidade de mostrar o talento que exibiu em O quarto de Jack, quase como se Black o tivesse inserido para aproximar a franquia de um público infantojuvenil (ele já fizera isso com o garoto que ficava amigo de Tony Stark em Homem de ferro 3), tendo sido impedido por produtores de mostrar mais a sua figura, conforme mostrava o trailer original. De modo geral, o elenco, com exceção de Rhodes e Brown, é bastante limitado, e Holdbrook soa como genérico.
Em termos de efeitos visuais e direção de arte, o novo O predador é competente, dificilmente falhando em ambientações ou explosões que vêm à tona no terceiro ato. Contudo, a simples presença de Shane Black poderia levar o filme a ser o que não se configura: numa grande tomada de ação que pelo menos lembrasse na agilidade e na tensão o de McTiernan, já que, em termos de elenco e localização, a história não propicia maiores momentos. Tudo é muito parecido, na estrutura da história com Super 8, desde o contato de Rory com a nave do predador até as ruas de subúrbio à noite sendo atacadas pelo alien ameaçador – aliás, não por acaso a fotografia é do mesmo Larry Fong que trabalhou com Abrams. Inclusive, há uma sequência num ônibus e outra no colégio de Rory que remetem à maior inspiração de Stranger things. Nesse sentido, a localização pende mais para a despretensão de filmes infantojuvenis dos anos 80 sem nunca aplicar sua própria personalidade e, mesmo que existam momentos até violentos para uma obra assim, eles nunca impedem de ser uma ficção científica comportada em termos de visão e alcance.

The predator, EUA, 2018 Diretor: Shane Black Elenco: Boyd Holbrook, Trevante Rhodes, Jacob Tremblay, Keegan-Michael Key, Olivia Munn, Thomas Jane, Alfie Allen, Sterling K. Brown Roteiro: Fred Dekker, Shane Black Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Henry Jackman Produção: John Davis Duração: 107 min. Estúdio: Davis Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

X-Men: Apocalipse (2016)

Por André Dick

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O terceiro filme que mostra os personagens em sua faceta mais jovem da série X-Men volta a ser dirigido por Bryan Singer, responsável pelos dois primeiros do início dos anos 2000 e pelo anterior a este, com o subtítulo Dias de um futuro esquecido, depois da reinicialização por Matthew Vaughn, em Primeira classe. Singer é um diretor bastante eclético, começando por Os suspeitos, passando por O aprendiz, ambos dos anos 90, até chegar à versão bastante criticada para o homem de aço, Superman – O retorno, e àquele que parece ainda seu maior acerto, Operação Valquíria, uma aventura de guerra com Tom Cruise em meio a nazistas. Recentemente, ele também fez o subestimado Jack e o caçador de gigantes (com o mesmo Hoult que trabalha como um dos X-Men), e seus próximos projetos incluem Broadway 4D (dirigido com Gary Goddard, de Mestres do universo) e uma nova versão de 20.000 léguas submarinas.
A nova história (a partir daqui, possíveis spoilers) começa mostrando En Sabah Nur, ou Apocalipse (um ótimo Oscar Isaac), como o mutante original, que fica por centenas de anos preso numa câmara embaixo da terra, no Cairo, até que é desenterrado. Possuindo poderes cada vez maiores, ele ressurge exatamente em 1983, e conhece uma jovem, Ororoe Munroe (Alexandra Shipp), que se torna sua discípula e, investida de poderes, em Tempestade.

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Por sua vez, na Berlim Oriental, Raven/Mística (Jennifer Lawrence) encontra Kurt Wagner/Noturno (Kodi Smit-McPhee) lutando com Anjo (Ben Hardy), pois seu papel agora parece ser o de libertar mutantes, e não por acaso ela surge como uma referência feminina na parede de Ororoe, que diz querer ser como ela. Ela não consegue impedir que Apocalipse venha atrás não apenas do Anjo, mas de Magneto (Michael Fassbender) e Psylocke (Olivia Munn). No encalço da criatura ressuscitada, está a agente Moira MacTaggert (Rose Byrne), que apareceu pela primeira vez no primeiro X-Men nesta nova franquia.
Por sua vez, o professor Charles Xavier (James McAvoy), para tentar lidar melhor com o passado, procura constituir uma nova família e recebe novos alunos em sua escola em Westchester County, New York, entre os quais Jean Grey (Sophie Turner), que está com problemas para se adaptar a seus superpoderes. Já Scott Summers/Ciclope (Tye Sheridan) é levado por seu irmão, Havok (Alex Summers), assim que começa a ter problemas em manter seus olhos abertos, logo depois de uma sequência escolar que lembra o recente Homem de aço, de Snyder. Ele se aproxima de Jean, em razão dessa falta de adaptação. Na escola, também reaparecem Hank McCoy/Fera (Nicholas Hoult) e Peter Maximoff/Mercúrio (Evan Peters), para tentar impedir o vilão de aumentar os seus poderes sobre os mutantes, sem antes encontrar o Coronel William Stryker (Josh Helman).

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Em X-Men: Apocalipse, como na segunda parcela desta nova franquia esclarece, as décadas passam e com elas se vê a participação dos mutantes em fatos históricos – e o diálogo se estende a Watchmen. Aqui, nos anos 80, o pano de fundo é a Guerra Fria entre os Estados Unidos e União Soviética, e Apocalipse está interessado na desintegração da humanidade e na necessidade de mostrar que há “falsos deuses” entre os heróis. Tudo inicia no que poderia se chamar de uma parte extraída diretamente de A caçada ao outubro vermelho.
Em X-Men, as batalhas históricas se tornam parte de uma grande fantasia e um dos momentos mais dramáticos deste episódio mostra Magneto/Erik Lehnsherr vivendo como um operário numa fábrica de metais da Polônia, país natal, feliz ao lado de esposa, Magda (Carolina Bartczak), e sua jovem filha, Nina (T.J. McGibbon). Procurado pelo mutante original, ele é levado a Auschwitz, onde teria começado a manifestar seus poderes depois da morte de sua família. Não por acaso, é a parte que parece mais interessar a Singer em seus projetos mais pessoais, como O aprendiz e Operação Valquíria: para ele, o peso da Segunda Guerra Mundial marca para sempre Magneto, indefinido entre seguir seus companheiros ou de se vingar pelas situações em que se envolve e são trágicas para sua vida pessoal. Para Fassbender, presente em outro filme referencial sobre a Segunda Guerra, Bastardos inglórios, a essência do personagem é estar, de fato, preso a um passado que se repete a cada dia e cuja família não pode encobrir. Se ele é buscado por um homem que se autodenomina Apocalipse, como não lembrar de Hitler?

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Por sua vez, o Prof. Xavier, na tentativa de dar uma certa tranquilidade aos novos mutantes, é uma espécie de figura que complementa a de Magneto: se este não deseja revelar seus poderes, o professor pretende que os mutantes sejam, afinal, considerados como parte do mundo. Um dos problemas, porém, é que os personagens quase não possuem cenas em conjunto, o que proporcionaria uma maior aproximação deles no sentido de que são figuras complementares, à medida que também lida com a tentativa de Xavier em convencer Magneto a ficar novamente de seu lado.
Por isso, às vezes, a sensação é de que o roteiro de Singer e Simon Kinberg, cujo maior acerto é Sherlock Holmes, de Guy Ritchie, com o apoio ainda de Dan Harris e Michael Dougherty, tem inúmeros personagens à mão e é difícil solucionar a narrativa de cada um, mesmo em quase duas horas e meia, facilitando as transições e diminuindo, no terceiro ato, o peso do vilão, feito com perícia com Isaac. O filme flutua entre uma leveza de Xavier tentar uma aposta romântica e a descoberta de dois jovens de seus poderes, além de referências claras ao ano de 1983, como no figurino do Noturno, ainda mais parecido com aquele utilizado por Michael Jackson no videoclipe “Thriller”. Ele segue os capítulos anteriores com uma sequência de cenas que vão se conectando sem muito esforço para o espectador, com a fotografia de Newton Thomas Sigel, habitual colaborador de Singer, dedicada a uma mescla interessante de cores, principalmente quando o Prof. Xavier acessa o monumental cérebro.

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O roteiro às vezes é tão leve quanto a piada que faz consigo mesmo, quando os jovens saem do cinema e lamentam que O retorno de Jedi é a parte mais fraca de Guerra nas estrelas – Singer não se refere a X-Men – O confronto final, de Brett Ratner, o qual não dirigiu, e sim ao que espera que a crítica falará de seu filme, como de fato ocorreu.
A primeira parcela desta nova geração foi muito bem feita por Vaughn e esta terceira não fica nada a dever em termos de ação e efeitos visuais, embora haja um pouco de CGI carregado demais na sequência da batalha final. Muito boa a participação também do elenco: de McAvoy, Fassbender, Turner, Hoult e Peters, principalmente, servindo como alívio cômico, talvez na melhor sequência do filme, sonorizado por “Sweet Dreams (Are Made of This)”, de Eurythmics. Não fica muito clara qual a participação de Lawrence, mas ela sempre é uma presença eficiente em cena, e Byrne poderia ser melhor aproveitada. Por outro lado, aprecio mais esse elenco do que o da primeira trilogia e o saldo final deste X-Men: Apocalipse é agradavelmente positivo.

X-Men: Apocalypse, EUA, 2016 Diretor: Bryan Singer Elenco: James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Nicholas Hoult, Oscar Isaac, Rose Byrne, Evan Peters, Josh Helman, Sophie Turner, Tye Sheridan, Lucas Till, Kodi Smit-McPhee, Ben Hardy, Alexandra Shipp, Lana Condor, Olivia Munn, Warren Scherer, Rochelle Okoye, Monique Ganderton, Fraser Aitcheson Roteiro: Bryan Singer, Dan Harris, Michael Dougherty, Simon Kinberg Fotografia: Newton Thomas Sigel Trilha Sonora: John Ottman Produção: Lauren Shuler-Donner, Simon Kinberg Duração: 144 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Dune Entertainment / Marvel Entertainment / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas e meia