Jogador Nº 1 (2018)

Por André Dick

Há sete anos, Steven Spielberg realizou seu primeiro desenho animado, As aventuras de Tintim, baseado no personagem de Hergé, e obteve sucesso com um realismo atípico para o gênero, mesmo com sua revolução contínua. Depois de uma série de filmes baseados na história, a exemplo de Cavalo de guerraLincoln e Ponte dos espiões, ele regressou com uma animação mesclada com humanos intitulada O bom gigante amigo, com base num livro de Roald Dahl, o mesmo de O fantástico Sr. Raposo e A fantástica fábrica de chocolate. No ano passado, Spielberg fez o “Oscar bait” The Post – A guerra secreta, chegando, talvez, a seu limite como realizador de obras guiadas por fatos, através de um veículo com o objetivo de buscar nomeações a prêmios e sem a devida autenticidade.

Menos de meio ano depois, ele regressa ao universo pop com Jogador Nº 1, baseado em romance de Ernest Cline. A história mostra o jovem Wade Watts (Tye Sheridan), que vive a maior parte do tempo em seu avatar, Parzival, dentro da realidade virtual intitulada Oasis, criada por James Haliday/Anorak (Mark Rylance), com a ajuda de Ogden Morrow (Simon Pegg). Morando em Columbus, Ohio, ele está interessado por uma garota participante do jogo, chamada Art3mis, ou melhor, Samantha Cook (Olivia Cooke), que o ajuda numa missão determinada com amigos Aech (Lena Waithe), Sho (Philip Zhao) e Daito (Win Morisaki), em busca de um “easter egg”, e pretende descobrir o que pretende Nolan Sarrento (Ben Mendelsohn). Sarrento quer ter o domínio sobre Oasis, com a colaboração direta do monstro i-R0k (TJ Miller). A história se passa em 2045, quando toda a terra parece ter sido erguido sobre favelas – embora os primeiros momentos lembrem mais Speed Racer, das irmãs Wachowski, e uma estranha movimentação de edifícios lembre A origem, de Nolan.

Se O bom gigante amigo trazia imagens que mesclavam as árvores de Guerra dos mundos com as de Inteligência artificial, além de evocar a majestosa nave de Contatos imediatos do terceiro grau, Jogador nº 1 é uma coleção de referências cinematográficas diversas. O início remete a De volta para o futuro (com Watts num DeLorean) e King Kong, além de i-R0K ter um peito em forma de caveira, aquela da caverna de Indiana Jones e o templo da perdição, e há uma passagem fantástica (spoiler a seguir) que insere o espectador nos corredores e quartos do Overlook de O iluminado. Trata-se de um alívio, pois finalmente se sabe onde Spielberg estava nas filmagens de The Post: filmando na verdade Jogador Nº 1.
À medida que a fotografia de Janusz Kaminski começa a se destacar de maneira brilhante, Spielberg desenha um universo atrativo. Jogador Nº 1, ao contrário dos cenários pálidos dos últimos filmes do cineasta, é um primor de concepção visual e remete ao melhor da configuração em video game já mostrada no cinema, a de Tron. A ambientação da casa de Wade Watts – que diz ter sido assim batizado como um Peter Parker ou Bruce Banner – lembra as de Minority Report e A.I., misturando cores soturnas e uma conjunção de imagens computadorizadas. Para um cineasta, no entanto, sempre interessado no universo infantil, ele localiza aqui a de solidão não da infância, como em Império do sol, e sim da adolescência. Em seu roteiro, os jovens não têm praticamente uma “vida real”: eles sobrevivem por meio do jogo. Nisso, os anos 80 povoam o imaginário do filme, também musicalmente, com “Jump”, do Van Halen, por exemplo, assim como numa festa temos New Order.

Misturando imagens de video game e atores reais – que lembra em alguns instantes o subestimado Warcraft –, no entanto com uma estranha indeterminação, nesse sentido, Jogador Nº 1 não se destina nem especialmente a crianças, e talvez sua história não seja a mais adequada para um público adulto interessado por uma trama mais desenvolvida. A sua autenticidade se localiza num meio-termo entre o talento de Spielberg para compor imagens e sua habilidade em mostrar seres deslocados no espaço. Graças às atuações de Sheridan e Cooke, o cineasta consegue entregar certa dramaticidade a partir dessa ideia, embora não extraia notas diferenciadas de Mendelsohn (praticamente o vilão do cinema atual) ou Pegg (um pouco subaproveitado). Talvez se lamente que os atores não apareçam tanto como suas peças virtuais, pois todos exercem uma química em conjunto. Ao contrário do que demonstra no quase desastroso The Post, Spielberg se sente à vontade de regresso à cultura pop que ele ajudou a organizar, desta vez com a colaboração na trilha de Alan Silvestri no lugar de John Williams, que já concede um ritmo diferente – e faz várias referências a seu trabalho em De volta para o futuro. As cenas de ação se sentem vívidas, como aquelas de As aventuras de Tintim, com um senso de realismo mesmo na irrealidade representada.

Talvez ele tenha sido aqui o que menos se revela ultimamente: um autor até discreto. Em poucos momentos, ele homenageia a si mesmo. Ele prefere fazer reverência aos filmes oitentistas de John Hughes, Robert Zemeckis (um de seus “alunos”) e coloca O gigante de ferro, da animação dos anos 90 de Brad Bird, como uma espécie de exterminador do futuro de James Cameron. Em termos conceituais, o roteiro de Zak Penn não traz nada de especialmente relevante, com uma mensagem até previsível, porém Spielberg não se mostra aberto ao excesso de sentimentalismo que por vezes desconcerta sua obra, principalmente ao final. Ele prefere se basear na ideia de um universo múltiplo, uma espécie de Avatar adolescente, para retomar elementos que foi esquecendo ao longo dos últimos anos, praticamente desde o contestado Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Há uma certa despretensão bem-vinda, com uma intensidade notável até a primeira parte, que conduz tudo a um desfecho direto e sem contorcionismos para enfeitar esse universo.

Ready player one, EUA, 2018 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Tye Sheridan, Olivia Cooke, Ben Mendelsohn, T.J. Miller Simon Pegg, Mark Rylance Roteiro: Zak Penn Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: Alan Silvestri Produção: Steven Spielberg, Donald De Line, Dan Farah, Kristie Macosko Krieger Duração: 140 min. Estúdio: Warner Bros. Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, Village Roadshow Picture, De Line Pictures, Farah Films & Management Distribuidora: Warner Bros. Pictures