A forma da água (2017)

Por André Dick

O diretor mexicano Guillermo del Toro sempre esteve entre os principais nomes situados entre a fantasia, o terror e o suspense. Nos últimos anos, ele entregou dois filmes completamente distintos: Círculo de fogo, uma ficção científica mais pop, mostrando a invasão de monstros (kaijus), na Terra, e A colina escarlate, com uma história mais clássica, sempre com uma parte técnica irretocável. E, apesar de se inspirar muitos em fábulas e lendas populares, ele sempre foi reconhecido pela originalidade. Por isso, a polêmica que surgiu de que seu novo filme, A forma da água, fosse inspirado sem dar crédito à peça teatral Let Me Hear You Whisper, do ganhador do Pulitzer Paul Zindel, surgida na semana passada, talvez coloque seu favoritismo ao Oscar ameaçado. Se a premissa de seu filme é igual à da peça (que também virou filme, em menor escala, nos anos 90), ainda assim a obra de Del Toro pode ser vista como, mais do que uma relação estranha, um retrato de época. Diretor também dos dois primeiros Hellboy e um dos roteiristas da trilogia O hobbit, o mexicano é uma referência do gênero de fantasia, no sentido mais épico.

A forma da água conta a história da faxineira muda Elisa Esposito (Sally Hawkins), que trabalha num laboratório governamental secreto no início dos anos 1960, durante a Guerra Fria, e tem como melhor amiga Zelda Fuller (Octavia Spencer). Neste laboratório, ela conhece uma estranha criatura aquática (Doug Jones), que está sendo investigada pelo coronel Richard Stricklandor (Michael Shannon) e pelo Dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg).
Elisa tem como melhor amigo o companheiro de prédio Giles (Richard Jenkins, em ótimo momento), sendo que moram em cima de um cinema, Orpheum. Este nome é a senha para o filme mostrar algo que lembra a mitologia grega de Orfeu e Eurídice: o monstro representa aquela figura que deve ser resgatada. Num diálogo com outro filme, há muito de O fabuloso destino de Amélie Poulain aqui, inclusive na trilha sonora notável de Alexandre Desplat, assim como de Splice, produzido por Del Toro e que mostra uma relação estranha como a desse filme, embora com mais violência e voltada mais ao plano da sexualidade. Em O labirinto do fauno, também havia a história de uma menina inserida num mundo histórico em transformação (a Guerra Civil Espanhola), que se refugiava na fantasia.

Não precisaríamos ir muito longe para ver as influências de Del Toro: sendo a figura aquática da Amazônia, certamente Del Toro conhece a lenda do boto que deu origem a um filme com Carlos Alberto Riccelli nos anos 80, e mesclou essa lenda ao seu arsenal de estranhezas. Del Toro possui um talento raríssimo para compor uma reconstituição de época da Guerra Fria de modo perfeito, com ambientes externos e internos feitos com esmero por Paul D. Austerberry, começando pelo início que estabelece como fonte A árvore da vida, de Malick. O visual insere o espectador na história, que, mais do que sobre a aproximação de uma humana de uma criatura, trata de temas como o subúrbio norte-americano de Baltimore, do american way of life, o preconceito contra os negros e gays, contra hispânicos, sem nunca destoar de uma história baseada no fantástico nem parecer pouco orgânico. É uma cidade em composição e decomposição, como vemos por meio de Stricklandor. Del Toro demonstra seu amor por filmes através do cinema Orpheum, localizado embaixo do apartamento de Elisa, com imagens de uma plasticidade bem dosada, com a fotografia de Dan Laustsen. Assim como por meio de Giles, que é pintor e faz cartazes para filmes.

O vilão feito por Shannon em determinados momentos se sente um pouco caricato pelo rumo oferecido pelo roteiro, mas o ator entrega, por outro lado, uma de suas melhores composições, e há um momento do segundo ato em que a história se dispersa um pouco, sem que Del Toro deixe a narrativa cair em gestos banais, respeitando uma certa poeticidade que dialoga com o ambiente enfocado, com seu verde que remete ao musgo da água original, de onde veio a estranha criatura. Sally Hawkins tem uma atuação excelente, assim como Spencer se mostra novamente uma coadjuvante bastante especial, numa história que consegue sintetizar o melhor de Del Toro num formato que se contrabalança entre o fantástico e a visão romântica sobre o mundo do cinema (spoiler: não por acaso, em determinado momento há uma cena musical que remete tanto a O artista quanto a La La Land). O trabalho dele por vezes registra um grau inusual de violência perto de produções típicas de Hollywood, mas em A forma da água ele não parece tão interessado em mostrá-la, o que poderia prejudicar o tom de sua história.

Mais do que sobre uma paixão extraordinária, A forma da água é uma lembrança de Del Toro do poder do cinema sobre a personagem central, quando conversa com seu vizinho vendo filmes na TV, mas estabelece vínculo mesmo com os experimentos de Spielberg no âmbito dos anos 80 (a exemplo de E.T.) e John Carpenter (Starman). O filme trata exatamente da solidão desses personagens, em vínculo com a da sala de cinema, com poucos espectadores, assim como com a música, na impossibilidade do diálogo. Há alguns elementos que Del Toro colocou anteriormente em sua trajetória, contudo são melhor resolvidos aqui. Mesmo em relação ao A colina escarlate, subestimado, A forma da água se sente com temas mais complexos e distribuídos em camadas iguais. E a água é, afinal, o símbolo da libertação da narrativa. Todas as sequências que a envolvem dão uma sensação de que a opressão causada por determinados humanos é colocada em segundo plano e os personagens encontram a sua essência. Em A colina escarlate, já havia uma metáfora da terra. Além disso, como em A espinha do diabo e O labirinto do fauno, Del Toro faz com que seus personagens em transformação também combatam a guerra que há nos bastidores de suas existências.

The shape of water, EUA, 2017 Diretor: Guillermo del Toro Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Doug Jones, Michael Stuhlbarg, Octavia Spencer Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: J. Miles Dale e Guillermo del Toro Duração: 123 min. Estúdio: TSG Entertainment, Double Dare You Productions Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

Estrelas além do tempo (2016)

Por André Dick

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Em Estrelas além do tempo, o diretor Thedore Melfi utiliza as mesmas características já apresentadas em seu filme anterior, Um santo vizinho: uma história inspiradora com elenco em grande momento. Se nesse Melfi mostrava Bill Murray como um senhor de idade em transformação ao conhecer uma criança que muda sua vida, na nova obra os personagens estão também a um passo da mudança que pode ocasionar um impacto, principalmente na época enfocada. Ambientado em 1962, quando a segregação racial estava vigente nos Estados Unidos, o roteiro de Melfi com Allison Schroeder, adaptado de um romance de Margot Lee Shetterly, mostra um trio feminino à frente seu tempo. Katherine Johnson (Taraji P. Henson) trabalha numa equipe de mulheres negras na Nasa, ao lado de Mary Jackson (Janelle Monáe), que pretende ser engenheira, e Dorothy Vaughan (Octavia Spencer), que supervisiona essa equipe. Porém, elas trabalham num departamento à parte, onde não há os mesmos direitos dos demais.

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Para enfrentar o sucesso dos russos na ida para o espaço, Al Harrison (Kevin Costner, lembrando o Jim Garrison de JFK), diretor do Space Task Group, precisa providenciar a ida de um norte-americano às estrelas. Katherine passa a fazer parte de sua equipe para obter cálculos exatos para a programação de viagens, mas precisa se remeter ao engenheiro principal Paul Stafford (Jim Parsons). Extremamente perspicaz com os cálculos, ela logo se torna uma referência em seu departamento, mesmo que precise se deslocar, de forma inconveniente, todos os dias, do prédio onde está trabalhando, por motivo de segregação e sem dizer aos colegas.
As suas amigas também tentam seguir seus caminhos, como Dorothy, que tenta uma promoção, mas é barrada sempre por Vivian Mitchell (Kirsten Dunst),  e está preocupada com a chegada de computadores da IBM numa sala próxima da sua. Já Mary Jackson tenta entrar em aulas de engenharia, destinadas apenas aos homens brancos. Em meio à rotina, surge a figura do coronel Jim (Mahershala Ali), que, infelizmente, não é tão aproveitado quanto sugere a boa interpretação do seu ator.

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Com uma ótima direção de arte e música de notas comoventes de Hans Zimmer, Pharrell Williams (um dos produtores) e Benjamin Wallfisch, além da bela fotografia de Mandy Walker, constituindo de fato uma atmosfera que insere a narrativa nos anos 60, Estrelas além do tempo traz à discussão tanto os sonhos quanto o racismo do período enfocado. Se ele não desenvolve totalmente alguns personagens – mesmo a relação do trio se dilui um pouco, quando não vemos uma compartilhar sua realização pessoal com a outra, extraindo parte de sua dramaticidade –, este filme desenha bem a tentativa de ser lembrado e pertencer à história. Com alguns momentos que lembram Os eleitos, de Kaufman, por evocar a mesma situação, na figura de John Glenn (Glen Powell, numa bela participação), Melfi não chega a armar conflitos intensos entre os personagens; tudo transcorre de maneira calma e bem feita.
Em certos momentos, ele evoca, igualmente, Histórias cruzadas, ao tratar de um tema delicado de forma bem-humorada e com cenas de apelo direto (talvez, sob certo ponto de vista, forçadas), sobretudo aquelas protagonizadas por Costner. Pode-se imaginar por que Melfi, afinal, não utilizou tais personagens para de fato tratar os temas de forma espinhosa: não era seu objetivo, e nem por isso o material que tem em mãos diminui. Ele não se concentra no problema do racismo em si e sim em como reagir a ele, de forma contundente e individual. O melhor momento, nesse sentido, é aquele em que Katherine se dirige de maneira oportuna a seus colegas de trabalho; é o melhor momento da atuação de Henson.

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No elenco, a atuação de Henson é bela nos momentos certos, e Spencer é competente como é de forma habitual, num papel à altura que teve em Histórias cruzadas, pelo qual recebeu o Oscar de atriz coadjuvante, mas é Monáe (de Moonlight) que se destaca nas cenas em que interagem, assim como Dunst entrega uma personagem que poderia ser maquiavélica em uma interpretação discreta, tal como Parsons, embora este numa figura pouco desenvolvida, sem aproveitar o seu potencial, já revelado antes no drama The normal heart. Não se entende como seu personagem não possui, ao longo de toda a narrativa, uma conversa substancial. Ali, por sua vez, é um destaque como em Moonlight: sua calma ressoa em todas as cenas em que aparece. Todos eles fazem de Estrelas além do tempo um filme interessante sobre como a corrida espacial pôde inspirar figuras diferentes a seguirem suas aspirações. Alguns dirão que este filme tende a glorificar ainda mais o destaque aos astronautas, o que se trata de um pensamento tendencioso: sob esse ponto de vista, seriam apenas destacáveis aqueles que surgem, nesta história, sob holofotes. Ou seja, o preconceito passa a ser justamente em relação às figuras que fazem um trabalho que não se torna conhecido pela maioria das pessoas, mas tampouco deixa de ser essencial para a chegada do homem às estrelas. Sob esse ponto de vista, o preconceito passa a existir de modo enviesado, igualmente sem justificativa. E não é disso que obviamente Estrelas além do tempo trata.

Hidden figures, EUA, 2016 Diretor: Theodore Melfi Elenco: Taraji P. Henson, Octavia Spencer, Janelle Monáe, Kevin Costner, Jim Parsons, Mahershala Ali, Kirsten Dunst Roteiro: Allison Schroeder, Margot Lee Shetterly, Theodore Melfi Fotografia: Mandy Walker Trilha Sonora: Benjamin Wallfisch, Hans Zimmer, Pharrell Williams Produção: Donna Gigliotti, Jenno Topping, Peter Chernin, Pharrell Williams, Theodore Melfi Duração: 127 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Chernin Entertainment / Fox 2000 Pictures / Levantine Films

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Fruitvale Station – A última parada (2013)

Por André Dick

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Um filme baseado em fatos reais às vezes fica comprometido de modo excessivo com a história da qual surge, resultando numa narrativa mecânica quando não encontra seu realizador mais adequado. Quando assistimos os minutos iniciais de Fruitvale Station – A última parada, é esta a sensação que temos. O diretor estreante Ryan Coogler mostra uma sequência gravada do acontecimento em que o seu filme se baseia e parece sintetizar tudo a partir dele. Para o espectador menos informado sobre o acontecimento, o filme pode ter um crescimento diferente, pois não se sabe o desfecho; para quem conhece a história, talvez não haja o mesmo impacto, no entanto é interessante, pelo tratamento dado à narração e ao elenco, acompanhá-lo.
A partir desse momento captado numa câmera de vídeo, Coogler passa a mostrar um dia na vida de Oscar Grant (Michael B. Jordan), 22 anos, que foi dispensado do trabalho e está à procura de uma ocupação. O que ele teria a fazer, a princípio, seria andar de carro e vender drogas, como fez antes de ir para a prisão, mas este dia enfocado não é apenas de véspera do ano novo, como também do aniversário de sua mãe, Wanda Johnson (Octavia Spencer), e o dia em que ele precisa fazer escolhas, diante da namorada, Sophina (Melonie Diaz), e da filha, Tatiana (Ariana Neal). Ele não consegue contar a ela que não trabalha mais no supermercado de onde foi dispensado, e essa preocupação o persegue ao longo de todo o filme, destacado pelo diretor por meio de cenários quase isolados, como o do posto de gasolina e uma sequência em seguida filmada com extrema perícia, e nada tem de calculadamente emotiva, mas essencialmente diz respeito à situação do personagem, a como ele se sente.

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Esses momentos diante da família, ou de uma conversa com a avó ao telefone, são verdadeiramente humanos e a peça central para fazê-lo funcionar é justamente seu ator principal, Jordan. Ele consegue aliviar os momentos em que o roteiro carrega nas tintas dramáticas, assim como Octavia Spencer, mesmo com poucas linhas de diálogo, desenha uma mãe essencialmente de vigor. Em Fruitvale Station, é a figura da mãe o que acaba servindo de guia para a compreensão do personagem central, aquela que acaba alimentando a narrativa a partir de sua ausência, mesmo estando próxima. Em uma narrativa de pouco mais de 80 minutos, Coogler mostra os sonhos do personagem e a necessidade de concretizar a família na qual nunca se imagina inserido – e o momento em que ele conversa com um desconhecido, mais ao final do filme, basta para definir este entendimento. Tampouco parece que ele esconde algo para tornar o personagem numa referência intocada; pelo contrário, ele desenha apenas um momento determinado na vida de um jovem de pouco mais de 20 anos, diante da tentativa de abandonar o passado e seguir em frente ou se entregar ao impulso daquilo que o imobiliza de todo modo. A pergunta que pode ser feita é: se o jovem fosse mostrado como alguém sem solução o seu desfecho teria um motivo racional?
Os movimentos podem lembrar um filme de Gus Van Sant (a exemplo de Elefante e Paranoid Park), com uma espécie de sentimento bruto, em que o personagem tenta se desvencilhar do seu passado e acaba tendo de enfrentar a incompreensão. No entanto, Coogler filma com mais dispersão, deixando o personagem independente na maior parte do tempo, à frente da câmera acertadamente emocional instável de Rachel Morrison, sem cair no tom de um documentário, e captando a atmosfera solitária de Oakland, Califórnia, e de figuras dispersas. Apenas se lamenta que, com isso, algumas conversas não sejam tomadas de modo mais denso, e Coogler escolha por um certo distanciamento dos cenários em que elas acontecem. Por outro lado, ele esvazia o tom que poderia existir, mais teatral, dando espaço a coadjuvantes como Melonie Diaz se destacarem. Isso ocorre, ao mesmo tempo, pela presença, ao longo do filme, de celulares e câmeras digitais, localizando a tecnologia como um ponto de proximidade e separação entre os personagens – a julgar pelo início, peça central para esclarecer um acontecimento –, principalmente quando as palavras digitadas ficam em relevo, ocupando o espaço das falas.

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A princípio um filme independente (depois foi distribuído por Harvey Weinstein), Fruitvale Station tem Forest Whitaker como um de seus produtores, e ele esteve justamente em O mordomo da Casa Branca, bastante prestigiado nos Estados Unidos e com bela reconstituição de época. O realismo que falta a O mordomo, no entanto, marca presença neste filme, em que Jordan tem a presença mais identificada com o público. Certamente por isso a sua acolhida no Festival de Sundance, em que foi escolhido como melhor filme pelo júri e pelo público, e seu prêmio na mostra “Um certo olhar”, do Festival de Cannes. As escolhas feitas pelo diretor neste sentido o tornam mais interessante. Acusado de contemporizar o que realmente aconteceu, Coogler não se ressente de uma direção hábil de atores. Com ele, todos têm um desempenho perto do imaginado para uma situação como a do filme, e é isso que realmente importa ao vê-lo. Não há um excesso narrativo, mas a composição de quadros que vão se unindo e compondo a figura do personagem central. E é interessante como ele consegue, por meio da montagem de Claudia Castello e Michael P. Shawver, se concentrar em circunstâncias essenciais para a motivação do personagem. Isso se deve à presença da atriz mirim Ariana Neal, que faz sua filha e protagoniza uma cena fantástica em que eles se encontram num colégio. Mas não apenas este momento: Coogler em vários momentos equilibra a sensação de liberdade de Oscar com a da prisão, como a de um momento em que ele observa o sol se pôr numa baía e tem um flashback definidor daquilo que o trouxe àquele momento e vai estabelecer uma ligação com seu desfecho, notável, por mais dolorosa e mesmo sentimental que seja. É Jordan quem acaba trazendo a ideia de que algo diferente poderá acontecer, desviando-se dos fatos, e é este fio de esperança que sustenta a narrativa. Pode-se assistir este filme com o pensamento de que se trata de uma história banal – sobretudo porque pode se confundir um ser humano com estatísticas –, mas Fruitvale Station nos faz lembrar de momentos que definem toda uma existência e a necessidade do afeto. Num momento em que o cinema perde dois referenciais, como Philip Seymour Hoffman e Eduardo Coutinho, é um filme, sob os moldes de uma pretensa inovação, até comedido, mas extremamente humano.

Fruitvale Station, EUA, 2013 Direção: Ryan Coogler  Elenco: Michael B. Jordan, Melonie Diaz, Octavia Spencer, Ariana Neal, Ahna O’Reilly, Kevin Durand Roteiro: Ryan Coogler Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Ludwig Goransson Produção: Forest Whitaker, Nina Yang Bongiovi Duração: 85 min. Distribuidora: The Weinstein Company Estúdio: Forest Whitaker’s Significant Productions / OG Project

Cotação 4 estrelas

 

Histórias cruzadas (2011)

Por André Dick

Este drama, baseado em romance de Kathryn Stockett, possui alguns méritos evidentes: tem um elenco competente (sobretudo Viola Davis, Octavia Spencer, premiada com o Oscar de atriz coadjuvante, e Jessica Chastain, que surgiu em A árvore da vida) e uma reconstituição notável (com uma direção de arte e figurinos destacáveis, além de uma fotografia detalhada).
Ao lidar com o preconceito existente na sociedade norte-americana dos anos 60, o filme evidencia esse panorama, mostrando o dia a dia de algumas empregadas domésticas negras, Abileen (Viola) e Minny (Octavia Spencer), e o afastamento que elas sofrem, por não terem direitos iguais – há cenas que tratam do problema muito bem filmadas pelo diretor, Tate Taylor. Essas empregadas acabam contando suas histórias a uma jornalista, Skeeter Phelan (Emma Stone), que volta à sua cidade natal, Jackson, no Mississipi, e, entre reuniões com mulheres que se encontram para comer bolo e tomar chá, pretende escrever um livro sobre elas, a pedido de uma editora (Mary Steenburgen) de Nova York. Além disso, ela foi criada por Constantino (Cicely Tyson), demitida de forma injusta por sua mãe (Allison Janney, numa grande atuação), motivo que a faz se dedicar ainda mais ao trabalho – um dos melhores momentos é quando ela se lembra de uma passagem na infância, em que Taylor melhor consegue conciliar tempos diferentes e estabelecer um vínculo entre as personagens.
Abileen cuida de uma menina que a chama de verdadeira mãe, e Minny, apesar de sofrer violência doméstica do marido e ser demitida por uma dona de casa maquiavélica, Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard), filha de Sra. Walters (Sissy Spacek), encontra uma mulher ignorada pelas mulheres da sociedade de Jackson, Celia Foote (Jessica Chaston) – e a relação entre as duas, primeiro escondida, torna-se mais próxima com o passar do tempo e se dá, a princípio, a partir da descoberta, por parte de Celia, de novas receitas culinárias para o marido dela. Em meio aos acontecimentos, transcorre o surgimento da Lei dos Direitos Civis (há uma menção à Marcha sobre Washington, de 1963) e esta trama acaba ficando um tanto deslocada em relação à principal, servindo mais como pano de fundo histórico.

O diretor Tate Taylor não consegue efetuar a dramaticidade que vemos Spielberg conduzir, por exemplo, no clássico A cor púrpura, nem desenha a amizade comovente entre uma idosa e seu motorista, como havia em Conduzindo miss Daisy, ou a de uma dona de casa com um jardineiro, no belo Longe do paraíso. Assim, o filme não deslancha como poderia. Faltam conflitos entre as personagens e, de maneira geral, parece que existe uma aceitação de determinados comportamentos.
Há, nisso uma certa infantilidade no tratamento dado, o que repercute a tendência maniqueísta: as mulheres brancas são cruéis, e o espectador é atendido em sua vontade de puni-las – mas os personagens parecem receber novamente sua punição mecanicamente, nunca alçando realmente uma dramaticidade. E a vilã, por ser exagerada, acaba tirando do filme a proporção exata da gravidade de suas ações – tornando algumas situações quase cômicas, quando na verdade não o são, ou invariavelmente em clichês. Nesse sentido, a reabilitação de alguns personagens soa, em parte, esquemática, pois não há conflito dramático entre personagens que chegue até ela. É de se desconfiar se é a presença de Chris Columbus (que escreveu grandes sucessos nos anos 80, como Os Goonies e Gremlins, mas nunca emplacou como diretor, a exemplo de suas tentativas em Harry Potter e, quando fez um drama, Lado a lado, não foi efetivo) como produtor do filme.
Porém, a visão de Taylor não é superficial: a  jornalista – cercada por copos de café e datilogrando sua máquina à noite – ajuda a mostrar a contundência de ações que havia em relação às empregadas.
Pode-se dizer que isso acarreta outro significado possível: o de que personagem da jornalista quer fazer sua carreira decolar. No entanto, Tate Taylor reverte isso pela lembrança que ela tem de Constantino e, afinal, pela relação que ela estabelece entre as personagens, tornando “A ajuda” do título original em “histórias cruzadas” do título brasileiro.
Trata-se de uma história, aqui, quase exclusivamente de mulheres: ou homens têm pouca participação, a não ser quando um policial resolve ir atrás de uma empregada ou quando um dos maridos, grosseiramente, levanta da mesa quando a empregada decide, depois de muito relutar, pedir ajuda; ou quando um jovem tenta conquistar a jornalista. Não há o posicionamento deles em relação às situações de racismo ou ao contexto: parecem figuras que não sabem o que estava se passando, o que prejudica a narrativa, mesmo que não chegue a desmerecê-la. O filme, nesse sentido, acaba crescendo – e muito – com o depoimento de Abileen e Minny, pois são personagens mais complexos do que aquelas mulheres de classe rica que o filme enfoca.
Também não parece haver dúvida de que a semelhança física entre as atrizes Jessica Chaston e Bruce Dallas Howard (filha do cineasta Ron Howard) ajuda a criar um paralelo de comportamento – mesmo porque ambas teriam outra coisa em comum, o que descobrimos ao final do filme, numa festa que guarda outra surpresa em relação também ao restante da trama.
A atuação das atrizes, reitera-se, merece destaque: Viola, apesar de não estar melhor do que em outras oportunidades, é uma atriz de grande talento; Spencer mereceu o Oscar de atriz coadjuvante; e Chaston faz uma interpretação bastante agradável, aproveitando um personagem até certo ponto superficial. Infelizmente, o papel central é desempenhado por Emma Stone, uma atriz simpática (principalmente em Amor a toda prova), mas que não confere peso dramático às cenas, como se exigiria neste caso.
Se os personagens não se enlaçam como deveriam e alguns deles são mal desenvolvidos, além de ter, pelo menos, mais tempo do que deveria – um corte na montagem deixaria a história mais ágil, sem prejuízo da narrativa –, não resta dúvida de que se trata de um filme efetuado com cuidado. Não se vê, em Taylor, um desejo de contar uma história definitiva, e sim de mostrar com delicadeza essas personagens e colocá-las num contexto grave, o que ele desempenha bem, tornando o filme atrativo.

The help, EUA, 2011 Diretor: Tate Taylor Elenco: Emma Stone, Bryce Dallas Howard, Mike Vogel, Allison Janney, Viola Davis, Ahna O’Reilly, Octavia Spencer, Jessica Chastain, Anna Camp, Eleanor Henry, Emma Henry, Chris Lowell Produção: Michael Barnathan, Chris Columbus, Brunson Green Roteiro: Tate Taylor Fotografia: Stephen Goldblatt Trilha Sonora: Thomas Newman Duração: 146 min. Distribuidora: Disney Estúdio: 1492 Pictures / Imagenation Abu Dhabi FZ / Harbinger Pictures / DreamWorks SKG / Reliance Entertainment / Participant Media

Cotação 3 estrelas