O hobbit – A desolação de Smaug (2013)

Por André Dick 

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Com o lançamento de O hobbit, em 2012, surgiu a discussão de que Peter Jackson havia dividido a história em três partes, como O senhor dos anéis, para conseguir alcançar uma arrecadação extra. E aconteceu o que possivelmente ele mesmo já imaginava: a comparação com O senhor dos anéis trouxe o desgaste, sobretudo para a crítica e os possíveis prêmios que uma obra desse porte normalmente conseguiria. O que resultou a partir daí foi uma grande bilheteria, própria de um blockbuster, mas um esquecimento, de modo geral, do que havia feito O senhor dos anéis uma trilogia referencial para o cinema: a aceitação de um mundo fantástico. Difícil um filme de tanta qualidade como O hobbit ter sido recepcionado apenas como um prolongamento apenas em busca de mais dinheiro e de marketing, ou pensado apenas para estender o que não deveria ter sido, para alguns, sequer filmado. Um ano depois, estamos novamente diante da jornada de Bilbo, na segunda parte, O hobbit – A desolação de Smaug. E, de modo geral, parece existir novamente uma resistência à nova trilogia em termos do que ela oferece, embora uma melhor aceitação quanto ao ritmo. O ritmo é um dos destaques de O senhor dos anéis, mas não o principal: O hobbit – Uma jornada inesperada sentia-se como uma extensão sentimental da primeira trilogia e, se o seu ritmo não era igual, tinha bastante propriedade e envolvimento.
Na continuação de sua jornada, em busca da Montanha Solitária, onde se encontra o Dragão Smaug, Bilbo (Martin Freeman) está de volta, ao lado de Thorin (Richard Armitage), dos anões e Gandalf (Ian McKellen). O início do filme reserva um número de imagens suficientemente atrativo para o espectador, com bosques misteriosos e cenários da Terra-média pensados minuciosamente. De um esconderijo em que o personagem Beorn (Mikael Persbrandt) vaga rapidamente diante de nossos olhos, à Floresta das Trevas, até a chegada dos elfos, Jackson continua permeando seu filme de imagens fantásticas, misteriosas e implacavelmente belas, com a fotografia de Andrew Lesnie.

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No entanto, à medida que vemos a ação acontecendo, e em meio a ela Bilbo apenas como um apêndice, temos a sensação de que, com dois personagens sendo trazidos à cena sem fazerem efetivamente parte dela, Legolas (Orlando Bloom, deslocado), e Tauriel (Evangeline Lilly, em momento particularmente infeliz), marca presença aquilo que inexiste, pelo menos em minha avaliação (e estou em minoria), no primeiro. Há uma sensação de inchaço em muitas sequências, personagens são acrescentados sem a devida força e o elenco não se mostra à altura. Além disso, sente-se a fidelidade exagerada ao livro em algumas passagens e liberdade em outras. E elas não seriam incômodas se justamente ocorresse aquilo que foi cobrado antes do primeiro filme: que não fosse uma trilogia. Há uma sensação, de modo geral, que se tenta reproduzir fielmente os mesmos conflitos de O senhor dos anéis: o receio de o mal se estabelecer, mas de forma excessivamente vaga, a peregrinação solitária de Gandalf e até mesmo um triângulo amoroso. E tudo soa sem a mesma engenhosidade e ânimo, mas com um certo cansaço, inclusive no excesso, com o passar do tempo, do uso de CGI, apagando a qualidade da direção de arte e prejudicando a fotografia de Lesnie e o trabalho de cores. Tudo faz com que não pareça uma continuação de O hobbit, mas uma refilmagem econômica, em menor escala, de O senhor dos anéis. Ou seja, em O hobbit – Uma jornada inesperada, Jackson conseguia criar uma nova obra a partir do mesmo universo da Terra-média, dialogando de forma criativa com O senhor dos anéis; aqui ele apenas quer reproduzir a trilogia anterior.
Ao longo do filme, é difícil entender o que fez Peter Jackson abandonar seus trunfos na primeira trilogia e no primeiro O hobbit: o privilégio dado aos personagens, à inter-relação bem-humorada e as sensações de confronto, de perda e de busca pela própria identidade. Bilbo inicia o filme às voltas com o anel roubado de Gollum, mas, ao mesmo tempo em que parece ter um conflito consigo mesmo, ele logo se perde. A partir de determinado momento, independente, aqui, do que ocorre no livro, é como se ele fosse apenas parte do cenário, sem efetivamente pertencer a ele – e o fragmento longo de filme em que o arqueiro Bard (Luke Evans, sem qualquer reação) parece se tornar o personagem central, deixando Bilbo sem falas, é o mais delicado de todos. Se o primeiro sugeria uma proximidade de Bilbo dos anões, aqui parece haver mesmo nesta relação uma amizade pouco natural e nunca atribuída aos personagens, apenas imposta, sem emoção (veja-se a cena em que um anão elogia o hobbit, parecendo uma frase extraída de outros momentos). Do mesmo modo, alguns personagens desaparecem por um longo período de tempo, quando não temos mais ideia do que eles estão fazendo (a montagem é decisivamente o problema), algumas sequências se estendem demais e outras acontecem rápido demais, e se antes havia pelo menos a presença ameaçadora de um Orc, desta vez parece não haver o que será combatido. Se há, fica mais diluído, não havendo uma ameaça aterrorizante que coloque esses personagens em estado de medo – como no primeiro havia de modo evidente – até pelo menos quando surge o ameaçador dragão Smaug (criação tecnológica de surpreendente perícia, com voz de Benedict Cumberbatch), já muito tarde.

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E chegar a este ponto é realmente incontornável, é como não reencontrar o universo fantástico que se esperava há um ano. Vê-se Peter Jackson surgindo no início do filme – ele está dizendo que a obra é dele, assim como de Tolkien – e o que menos se vê é sua agilidade narrativa e de edição conhecidas mesmo em seus experimentos mais baseados em efeitos especiais, como King Kong. Até em Um olhar do paraíso, com sua confusão visual, ainda temos a sensação de que há um diretor com determinados sentimentos. Aqui, Jackson parece ausente, assim como a antes fabulosa trilha de Howard Shore, e nem mesmo o roteiro dividido, entre outros, com Guillermo del Toro consegue reparar uma estranha ausência de rumo no envolvimento com a história. Não se sabe, ao fim das contas, se alguns atores tiveram sua participação diminuída apenas por fidelidade ao livro – que não há em termos de outros personagens acrescentados, por exemplo – ou outras questões, mas O hobbit – A desolação de Smaug não se sente filmado no mesmo ritmo do primeiro O hobbit, nem com o mesmo envolvimento, nem a mesma competência para cenas de ação de Jackson, excluindo aquelas dos barris (independente de seus exageros, mesmo para uma fantasia, com Legolas em ritmo de videogame) e da Floresta das Trevas. Parece ter havido uma quebra, e esta se deve, a meu ver, ao fato de Jackson ter planejado O hobbit em dois filmes e ter resolvido, no fim das contas, realizar três, decisão ocorrida, ao que se sabe, no fim das primeiras filmagens, antes da refilmagem de cenas e acréscimos, como acontecem em filmes rodados ao mesmo tempo. Não há nesta segunda parte o que sentimos em outras trilogias: uma ligação extrema com o que veio antes, mas sobretudo com o que virá depois. E, se Aragorn não chegava a fazer falta em O hobbit, em razão de Thorin, este agora não recebe um roteiro à altura nem uma direção para mostrar os conflitos por querer recuperar a moradia de seu povo.

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De qualquer modo, o que se lamenta mesmo é ver Martin Freeman, que havia conseguido trazer uma dignidade respeitável ao primeiro filme, ser aproveitado como figurante, com participação direta apenas no início e no final, praticamente sem diálogos. Toda vez em que ele aparece é difícil imaginar por que Jackson e os roteiristas quiseram acrescentar outros personagens que não estão no livro (e poderiam perfeitamente, pois um filme não deve necessariamente ser fiel a um livro, desde que com a devida ênfase) tendo um personagem que poderia ser melhor explorado. Bilbo – o “Hobbit” do título – seria o motivo para o sucesso do filme. Da maneira como ele surge, não temos uma ligação emotiva com os personagens a ponto de estabelecer uma ligação vital para dar sequência à jornada. A pergunta ao final do filme parece valer para o próprio Jackson. E isso, em termos de mitologia da Terra-média, é terrível. Certamente, quero voltar à Terra-média, mas de preferência com Peter Jackson, equipe e seu elenco em alta voltagem. Aqui eles parecem estar apenas preparando terreno para algo realmente grande. Parecem apenas correr para passar o tempo antes do grande clímax.

The Hobbit – The desolation of Smaug, EUA/Nova Zelândia, 2013 Diretor: Peter Jackson Elenco: Martin Freeman, Ian McKellen, Richard Armitage, Orlando Bloom, Benedict Cumberbatch, Evangeline Lilly, Lee Pace, Luke Evans, Aidan Turner, Mikael Persbrandt Roteiro: Fran Walsh, Guillermo del Toro, Peter Jackson, Philippa Boyens Fotografia: Andrew Lesnie Trilha Sonora: Howard Shore Produção: Carolynne Cunningham, Fran Walsh, Peter Jackson, Zane Weiner Duração: 161 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / New Line Cinema / WingNut Films

Cotação 2 estrelas e meia