A lavanderia (2019)

Por André Dick

O cineasta Steven Soderbergh sempre teve um projeto cinematográfico voltado a mostrar o indivíduo tentando enfrentar um sistema oculto ou visível, de modo que sua obra pode ser vista como uma extensão das ideias que revelam os choques entre as pessoas à margem dele. De certo modo, isso constitui alguns de seus melhores projetos, a exemplo de Erin Brokovich. Ao mesmo tempo, ele busca rechaçar o sistema de tratamento psiquiátrico, em peças como Terapia de risco e Distúrbio, em meio à série buscando a diversão em assaltos de Onze homens e um segredo. Ainda ele vê certo atrativo em universos deteriorados, como em Contágio e Kafka.
Em A lavanderia, ele acompanha Ellen Martin (Meryl Streep), que está em férias com o marido Joseph David (James Cromwell) quando acontece algo terrível. Ela passa a buscar meios de como processar a vida sob outra condição, tendo de lidar com determinados seguros que a levam a uma teia muito delicada de corrupções e desvios ligados a um escritório de advocacia da Cidade do Panamá, dirigido por Jürgen Mossack (Gary Oldman) e Ramón Fonseca (Antonio Banderas).

Eles prestam serviços para os mais variados clientes – e não necessariamente honestos, incluindo bandidos declarados, como traficantes, e ditadores. Ellen está aos poucos consciente de que sua vida ao lado da filha, Melanie (Melissa Rauch) e dos netos é apenas um resquício de um grande conglomerado de interesses escusos.
Com um início satirizando a aurora da humanidade de Kubrick em 2001 (e o cineasta teve parte de seu patrimônio envolvido na mesma questão que apresenta o filme), Soderbergh está interessado em ligar esse mosaico da vida minúscula de Ellen com uma discussão relacionada a negócios. Neste ano, ele já havia oferecido uma visão contundente sobre o universo do basquete em High flying bird, mas é em A klavanderia que ele utiliza uma trama provocadora.

Baseado numa atuação concisa e excelente de Streep, são, no entanto, Oldman e Banderas que brilham em papéis evocando A grande jogada, de Adam McKay. Assinando com seu pseudônimo Peter Andrews, Soderbergh apresenta um trabalho de fotografia notável, parecendo ampliar sempre cada cenário com lentes luminosas (e ele sempre foi experimental, mesmo nos momentos mais fracos, a exemplo de Full frontal). As reuniões do Capitão Ethan Allen (Robert Patrick) e Matthew Quirk (David Schwimmer), sócios de uma balsa que causa o conflito do primeiro ato, num pub são especialmente agradáveis, apesar do assunto insensível, ligado a papéis não comprováveis da Shoreline Cruises, levando a um vigarista das Bahamas, Irvin Boncamper (Jeffrey Wright).
Soderbergh, baseado num roteiro de Scott Z. Burns, a partir de Based on Secrecy World: Inside the Panama Papers Investigation of Illicit Money Networks and the Global Elite, de Jake Bernstein, joga com os personagens em diferentes espaços e suas ações sendo colhidas numa cadeia, como ele se especializou em mostrar no ótimo Traffic. Há uma base numa história verdadeira, a dos Panama Papers, mas ele cresce exatamente em pontos rotineiros, quando mostra um ricaço, Charles (Nonso Anozie), que é pego numa situação delicada pela filha Simone (Jessica Allain) e precisa contorná-la tentando esconder da sua esposa Miranda (Nikki Amuka-Bird). Por trás, os acordos familiares e, do mesmo modo, o eco dos Panamá Papers. É interessante como Soderbergh, como em Logan Lucky, seu filme de assalto nos bastidores de uma corrida de automóveis mostra também dois homens reunidos num bar (Will Forte e Chris Parnell), em algo que lembra A mula, de Eastwood. Também temos em viagem ao Oriente o personagem Maywood (Matthias Schoenaerts), se envolvendo numa estranha situação com Gu Kailai (Rosalind Chao).

A lavanderia não é necessariamente um drama ou uma comédia, situando-se num meio-termo oportuno que conduz o risco de emprego de dinheiro em questões duvidosas. Embora toda a narrativa que envolve a personagem de Streep seja mais de um drama de Hollywood, interrompido apenas por uma cena em que ela imagina fazer algo, em outros momentos o filme parece uma sátira, que, embora lembre A grande aposta, não tem o encantamento de McKay pelas trapaças. Ou seja, Soderbergh lança um certo pesar mesmo quando parece brincar com as vítimas das enganações de Mossack e Fonseca – e ao filmá-los por meio de imagens emulando propagandas luminosas lança, na verdade, uma bruma de dúvida sobre seu comportamento. Nesse sentido, o filme de Soderbergh, apesar de nunca explorar com a devida ênfase seus personagens, é um estudo muito curioso sobre o universo dos negócios e o reflexo na vida de várias pessoas, mesmo que pareça episódico. É na sua aparente leveza que sua trama se fortalece de maneira substancial, definindo-se como um dos melhores momentos na trajetória de Soderbergh e do cinema deste ano.

The laundromat, EUA, 2019 Diretor: Steven Soderbergh Elenco: Meryl Streep, Gary Oldman, Antonio Banderas, Jeffrey Wright, Robert Patrick, Nonso Anozie, Melissa Rauch, Jessica Allain, Nikki Amuka-Bird, David Schwimmer, Sharon Stone Roteiro: Scott Z. Burns Fotografia: Steven Soderbergh (como Peter Andrews) Trilha Sonora: David Holmes Produção: Scott Z. Burns, Lawrence Grey, Gregory Jacobs, Steven Soderbergh Michael Sugar Duração: 95 min. Estúdio: Anonymous Content, Grey Matter Productions, Topic Studios, Sugar23 Distribuidora: Netflix

Peter Pan (2015)

Por André Dick

Peter Pan 6Se o espectador acompanha adaptações para o cinema de obras literárias, sabe que uma das que mais receberam esse bônus foi Peter Pan, de James Matthew Barrie. Ela já foi lançada em diferentes vertentes, embora a mais conhecida seja a clássica animação dos estúdios Walt Disney feita nos anos 50. Nos anos 90, Spielberg procurou renová-la trazendo-a para o universo moderno, em Hook – A volta do Capitão Gancho e em 2003 quem a adaptou foi o australiano P.J. Hogan.
Na adaptação de Joe Wright, o criador de peças como Desejo e reparação e o ótimo Anna Karenina, a história se passa durante a Segunda Guerra Mundial, quando Londres está sob ataque frequente. Num orfanato coordenado por freiras pouco acolhedoras, Peter (Levi Miller) é cuidado depois de ser abandonado pela mãe, Mary (Amanda Seyfried), e tem como melhor amigo Nibs (Lewis MacDougall). A rotina do lugar e a constante falta de comida, devido ao racionamento provocado pela guerra ou, segundo Peter, por uma das freiras, Madre Barnabas (Kathy Burke), estar estocando os alimentos num lugar escondido, fazem com que se imagine um universo à parte e, principalmente, em reencontrar a mãe.  Daí é um passo para que surja um navio de piratas no céu de Londres, em meio aos ataques, para capturar algumas crianças do lugar. Possivelmente não seja preciso muito conhecimento do mundo da fantasia de Barrie para perceber que este filme eleva à máxima potência a estranheza do universo de Peter Pan.

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Quando todos, finalmente, vão para a Terra do Nunca, e o menino herói precisa enfrentar a exploração numa mina, num diálogo claro com Indiana Jones e o templo da perdição, sob o comando de Barba Negra (Hugh Jackman), com o auxílio de Bishop (Nonso Anozie), o filme traz até mesmo um determinado hino do Nirvana à cena. As crianças, trabalhando como mineradores, devem encontrar o pó de pixum, que seria o pó das fadas. No lugar, Peter faz amizade, mesmo que forçada, com James Hook (Garrett Hedlund), sempre acompanhado pelo braço direito Sam Smiegel (Adeel Akhtar).
O que se tem dito, com base neste conjunto de cenas, é que a narrativa se perde. Se há, no entanto, fantasia capaz de misturar As aventuras do Barão de Münchausen (de modo geral, do universo de Terry Gilliam), Avatar e a profusão de cores que Wright já apresentava em Anna Karenina, é esta. Dificilmente se percebe em outras obras uma tentativa de fazer com que um clássico se reproduza em sua essência, mesmo que com liberdades evidentes, constuindo-se num prólogo. Este Peter Pan não apenas inicia com uma homenagem a um dos clássicos de Guillermo del Toro, passado num orfanato durante a Guerra Civil Espanhola, com suas bombas ameaçadoras caindo do céu, como leva o espectador a um encontro com uma certa indefinição entre gêneros que proporciona suas melhores características.

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Além disso, temos o elenco, sustentado pela revelação infantil Levi Miller, que convence durante todo o filme e nunca soa um personagem sob encomenda para tentativa de venda de brinquedos, assim como Jackman está particularmente bem como o vilão, e Garrett Hedlund finalmente tem uma nova chance de mostrar o talento comprovado como Dean Moriarty em Na estrada, desta vez com elementos de humor e um certo overacting sem prejudicá-lo no contexto. E Rooney Mara, que surge no papel coadjuvante de Tiger Lily, não desaponta por sua qualidade dramática já revelada em outro registro no ótimo Millennium, apesar de estar visivelmente desconfortável com sua premissa entre ser uma guerreira e um interesse amoroso. Wright põe em movimento esse elenco com a colaboração de seu diretor de fotografia habitual Seamus McGarvey e da trilha sonora excelente de John Powell, que evoca o alcance da imaginação proporcionada pelos figurinos, design de produção e efeitos especiais não menos do que notáveis.
Peter Pan contrapõe, de forma elegante, o ambiente cinza da Segunda Guerra Mundial com um universo de imaginação em grande escala de cores e variações. Há, igualmente, uma opção de Wright em fazer as cenas sem violência, mas sem abdicar de uma imaginação própria – principalmente numa determinada cena de confronto do Barba Negra. Claro que Peter Pan também tem outra qualidade bastante atrativa: embora não adapte Barrie de forma fiel, servindo tudo como um prólogo da história oficial, ele consegue estabelecer uma conexão entre o drama pessoal do personagem de querer reencontrar a mãe. Não deixa de ter uma clara relação com o perturbador Hanna, em que Wright expunha uma jovem aos experimentos que a transformaram numa máquina de guerra.

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Toda a história de Peter Pan gira em torno do menino querendo encontrar a sua mãe. O fato de a história de Barrie ser conhecida como a do menino que não queria crescer mostra que, na verdade, ele está sempre ligado a uma infância e à figura materna. No entanto, ao localizar este filme durante a Segunda Guerra e as crianças serem transformadas em mineradoras por um pirata explorador, e mesmo quando estão na Terra serem punidas, mostra que Wright indica a infância eterna como uma espécie de fuga aos problemas do dia a dia. É uma espécie de elogio localizado ao escapismo, que Wright explora por meio de cores e formas extraordinárias. Há três anos, John Carter foi rechaçado e fazia as mesmas tentativas de entregar um material diferenciado.
Se em alguns momentos o roteiro de Jason Fuchs não tem os diálogos mais explorados, pelo menos na caracterização dos personagens, nunca o faz por falta e sim por um ritmo contínuo – e avaliar que Peter Pan nesse sentido teria problemas de montagem ou seria tedioso é inevitavelmente uma surpresa. Do mesmo modo, ele tem algumas soluções criativas de plasticidade belíssima, como a memória que traz uma árvore (e não se trata de um ent) ou o momento em que por um lado temos a ameaça de um crocodilo e a presença tranquila de uma sereia (Cara Delevingne). Assim, num escopo abrangente, Wright trabalha com imagens como se fossem resquícios de uma infância perdida, seja no vislumbre de um navio de pirata encalhado ou em pássaros gigantes que parecem trazer apenas seu esqueleto como se fossem esboços inacabados, ou simples caravelas que flutuam no espaço e parecem vigiar com luzes à noite como se estivéssemos numa versão adiantada do novo Blade Runner, além de mostrar batalhas entre elas e aviões da Segunda Guerra com a profundidade daquelas que vemos em Invencível, e cenas no fundo das águas capazes de evocar um lugar desconhecido – quando as águas recuperam, para Wright, todas as lembranças, remetendo ao fio da corda em que Peter Pan fica em determinado momento preso no espaço, como se estivesse renascendo. Nesse sentido, esta visão para o clássico de Barrie se transforma numa fantasia memorável.

Pan, EUA/Reino Unido, 2015 Diretor: Joe Wright Elenco: Hugh Jackman, Garrett Hedlund, Rooney Mara, Levi Miller, Amanda Seyfried, Adeel Akhtar, Nonso Anozie, Cara Delevingne Roteiro: Jason Fuchs Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: John Powell Produção: Greg Berlanti, Paul Webster, Sarah Schechter Duração: 111 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Berlanti Productions

Cotação 4 estrelas