Ford vs Ferrari (2019)

Por André Dick

De forma inesperada, há poucos filmes de corrida no cinema, pelo menos marcantes. Nos anos 1960, tivemos o maior clássico do gênero, Grand Prix, vencedor de três Oscars, uma notável obra sobre uma temporada de F-1. Ainda nesta década, três peças com humor também usavam elementos de corrida: A corrida do século, obra-prima de Blake Edwards, Deu a louca no mundo e Se meu fusca falasse. Nos anos 90, a peça exemplar do gênero, embora não tão interessante, foi Dias de trovão, na primeira parceria de Tom Cruise e Nicole Kidman, além da presença de Robert Duvall. Em 2013, Ron Howard lançou seu Rush, que tratava da amizade dos pilotos Niki Lauda e Ethan Hunt. E não se pode esquecer da animada série Carros, principalmente do seu terceiro e subestimado episódio, o que melhor se enquadra nesse universo automobilístico, e de Speed Racer, das irmãs Wachowski, capturando um universo fantástico.

Em 1963, a Ford, sob o comando de a a Henry Ford II (Tracy Letts), incomodado com o fato de não ter conseguido comprar a Ferrari do experiente Enzo (Remo Girone), depois de ser aconselhado por Lea Iacocca (Jon Bernthal), deseja um carro capaz de disputar corridas com a companhia e por isso ele contrata Carroll Shelby (Matt Damon), um ex-piloto. Este, por sua vez, chama Ken Miles (Christian Bale), casado com Mollie (Caitriona Balfe)  e pai de Peter (Noah Jupe), um piloto e mecânico inglês para aperfeiçoar o modelo de carro para a Ford. Ambos testam o Ford GT40 Mk no Aeroporto Internacional de Los Angeles, rendendo algumas das sequências mais emocionantes. No entanto, evitando a figura de Miles, a Ford convoca outros pilotos para competirem no Le Mans de 1964. Em 1966, Leo Beebe (Josh Lucas) se torna o responsável pelo departamento de corrida e pretende seguir o programa novamente sem Miles. Porém, Shelby leva Heny II para um teste no carro que está sendo preparado.
Este é o mote principal para um filme em que Mangold explora suas habilidades dramáticas já evidenciadas no excelente Johnny & June e de cenas de ação, como na segunda parte de Wolverine e Encontro explosivo, peça subestimada com Tom Cruise e Cameron Diaz, assim como no seu faroeste realmente declarado, Os indomáveis. Mangold tem características no seu estimado Logan que ele busca em Mad Max, com sua crueza na abordagem nas cenas de carro, que ele reapresenta aqui, com mais talento ainda. Ford vs Ferrari, como Rush e Grand Prix, apresenta sequências de corrida absolutamente fantásticas, com uma transição impecável e edição de Michael McCusker e Andrew Buckland no seu estado máximo de competência.

De qualquer modo, o padrão técnico não sera o mesmo não fosse uma conjunção da fotografia luminosa de Phedon Papamichael, colaborador habitual tanto de Mangold quanto de Alexander Payne – fazendo o filme todo parecer rodado durante uma manhã, exceção feita a algumas cenas – e da parceria entre os personagens de Bale e Damon. Se o segundo usa seu estilo habitual, Bale novamente consegue extrair emoção de um personagem a princípio previsível. Com uma boa interação com os personagens da mulher (Caitriona Balfe faz a voz de Tavra na ótima série O cristal encantado) e do filho (Jupe já mostrou talento em Suburbicon e Um lugar silencioso), ele explora um espaço capaz de tornar Ford vs Ferrari não numa obra sobre a indústria e sobre a competição e sim sobre o otimismo de superar o limite, sem que isso determina o caráter do indivíduo ou seus ganhos pessoais e sim a imaginação que pode determinar vitórias no futuro.
Mangold mostra mais uma vez seu talento incontestável para extrair ótimas atuações de seu elenco: Sylvester Stallone e Robert De Niro se destacaram especialmente em Cop Land – A cidade dos tiras; Angelina Jolie recebeu o Oscar de atriz coadjuvante por Garota, interrompida; Joaquin Phoenix e Resee Whiterspoon brilharam em Johnny & June (Reese recebeu o Oscar de melhor atriz por ele); Tom Cruise e Cameron Diaz estabeleceram ótima parceria em Encontro explosivo; e Hugh Jackman talvez tenha tido sua melhor atuação em Logan.

Bale é mais rápido do que todo o elenco e consegue extrair mais do que o bom roteiro de Jez Butterworth, John-Henry Butterworth e Jason Keller oferece, por sua agilidade em acrescentar camadas ao seu personagem onde elas, se o espectador prestar atenção, não existem. Ainda, recuperando a atmosfera do final dos anos 60, Mangold parece fazer uma espécie de Era uma vez em… Hollywood no universo das corridas de automóveis. Alguns momentos lembram o filme de Tarantino, talvez por se basearem em obras parecidas daquela época e são bastante nostálgicas, imprimindo certa ingenuidade no comportamento de alguns personagens. A diferença talvez seja que Ford vs Ferrari, muito por causa do vilão feito por Lucas (que reprisa seu papel em Hulk) se aproxima mais do conceito de blockbuster, usando alguns lugares-comuns para comover o espectador, o que não o afasta, de nenhum modo, do seu objetivo. Sua melhor qualidade é também o lugar-comum: os 152 minutos de filme passam voando.

Ford v Ferrari, EUA, 2019 Diretor: James Mangold Elenco: Matt Damon, Christian Bale, Caitriona Balfe, Noah Jupe, Josh Lucas, Tracy Letts, Remo Girone, Jon Bernthal Roteiro: Jez Butterworth, John-Henry Butterworth, Jason Keller Fotografia: Phedon Papamichael Trilha Sonora: Marco Beltrami e Buck Sanders Produção: Peter Chernin, Jenno Topping, James Mangold Duração: 152 min. Estúdio: Chernin Entertainment, TSG Entertainment, Turnpike Films Distribuidora: 20th Century Fox

Um lugar silencioso (2018)

Por André Dick

Todos os anos há um filme de suspense ou terror que acaba chamando a atenção do público e da crítica em especial. Em 2016, foi A bruxa; em 2017, Corra!Ao cair da noite. Em 2018, parece ser o caso de Um lugar silencioso, estreia na direção do ator John Krasinki, que também aparece no filme. Passada em 2020, a história mostra que a humanidade foi quase extinta por criaturas alienígenas com audição hiper-desenvolvida, por meio da qual alcançam as pessoas para matá-las. Krasinki interpreta o pai da família Abbott, Lee, casado com Evelyn (Emily Blunt) e que tem como filhos Regan (Millicent Simmonds), Marcus (Noah Jupe) e Beau (Cade Woodward).
O início da obra já mostra uma espécie de cenário que remete a Ensaio sobre a cegueira, a adaptação de Fernando Meirelles para José Saramago e, se Lee é uma extensão em situação delicada do personagem que fazia Krasinki em Sob o mesmo céu, também parece o pai de Guerra Mundial Z, preocupado com a família e fazendo cálculos para a sobrevivência. Eles vivem numa fazenda, que remete a American fable e Sinais, ao mesmo tempo que não podem ficar tranquilos: qualquer ruído pode atrair as criaturas.

Neste universo de silêncio ao qual o título do filme já remete, Krasinki constrói um suspense a princípio interessado e mesmo antimainstream, baseando-se nas reações físicas dos personagens, nos gestos contidos pela situação desesperadora. É onde o ator-diretor se sai melhor. As atuações que extrai de Blunt (sua esposa na realidade), Millicent Simmonds e Noah Jupe são ótimas. Blunt já mostrou seu potencial muitas vezes, mas Simmonds e Jupe são revelações recentes. Surda na vida real, ela esteve no ótimo e subestimado Sem fôlego, enquanto Jupe esteve no subvalorizado Suburbicon, de George Clooney, e interpretou um dos amigos do garoto menosprezado pela aparência de Extraordinário.
Krasinki tem competência e sorte em contar com esses talentos para contar uma história que, de outro modo, poderia passar despercebida. Os símbolos utilizados por ele na narrativa são excessivamente previsíveis e quase toda cena remete a outras obras, como Jurassic Park, Guerra dos mundos e Aliens – O resgate.  Não ajuda que ele situe os personagens de maneira rápida demais, tentando empregar, ao mesmo tempo, referências religiosas, como já havia conseguido o diretor de Ao cair da noite, parecido com este Um lugar silencioso e substancialmente melhor. Deve-se dizer, por outro lado, que não haver quase falas no roteiro (os personagens se comunicam praticamente pela linguagem de sinais) não tira dele uma narrativa esclarecida, talvez até demais. Além disso, a trilha sonora do habitualmente discreto Marco Beltrami tenta inflar as cenas destituídas de outros sons humanos.

A ideia de Krasinki é interessante, assim como a maneira com que enxerga o mundo numa situação irremediavelmente inusitada. Porém, se ele mostra até certa competência no tratamento das imagens, com a bela fotografia de Charlotte Bruus Christensen, vista em trabalhos recentes de destaque, como A grande jogada, A garota do trem e Longe deste insensato mundo, ele não consegue afastar suas criaturas do palco que remete imediatamente a Cloverfield e Stranger Things, dos experimentos mais recentes. Chega a ser cansativa a maneira como ele joga a todo instante com obras que o inspiraram. Tudo acaba sendo uma espécie de extensão de algo já visto, embora tente inovar na maneira como as situações são tratadas. Aos poucos, o espectador vai percebendo que há artifícios insustentáveis mesmo para um filme que joga no limite entre o suspense, lances de terror e fantasia, embora os alienígenas sejam plausíveis para uma obra de orçamento até certo ponto limitado.

A dinâmica familiar, de qualquer modo, é muito boa, não apenas pelo elenco, como pela humanidade de Krasinki, um ator que vem de 13 horas – Os soldados secretos de Benghazi, de Michael Bay, um dos produtores de Um lugar silencioso. Ele tem uma maneira de atuar um tanto desajeitada, mas é justamente ela que lhe concede um estilo diferenciado. Mais conhecido pela participação na série de TV The Office, seu melhor momento no cinema, além desse filme de guerra de Bay, é Distante nós vamos, em que ele compõe, com Maya Rudolph, um casal querendo criar raízes em algum lugar para criar seus filhos. De certo modo, é a essência da narrativa de Um lugar silencioso e seria retribuída do melhor modo não fosse por certa previsibilidade de condução e exageros no ato final para justificar tudo. No momento derradeiro, Krasinski está apenas fazendo o que os diretores fazem em Hollywood: tentar estabelecer uma franquia, o que diminui bastante sua tentativa de fazer um trabalho até certo ponto autoral e limita a atuação de seu elenco de alta qualidade.

A quiet place, EUA, 2018 Diretor: John Krasinski Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cade Woodward Roteiro: Bryan Woods, Scott Beck, John Krasinski Fotografia: Charlotte Bruus Christensen Trilha Sonora: Marco Beltrami Produção: Michael Bay, Andrew Form, Brad Fuller Duração: 90 min. Estúdio: Platinum Dunes, Sunday Night Distribuidora: Paramount Pictures

 

Suburbicon – Bem-vindos ao paraíso (2017)

Por André Dick

George Clooney tem se mostrado alguém capaz de mesclar as carreiras de ator e diretor com uma competência poucas vezes vista. Depois de ser elogiado principalmente por Boa noite e boa sorte, que recebeu várias indicações ao Oscar, inclusive a melhor filme, sua carreira passou a ser mais visada: nesse caminho, Tudo pelo poder foi um êxito fora de série, com uma parceria notável entre Clooney e Ryan Gosling, e Caçadores de obras-primas, recebido com uma grande indiferença.
Para este novo projeto, depois da rejeição a seu último filme, Clooney obteve um roteiro dos irmãos Joel e Ethan Coen, que ele desenvolveu ainda mais com Grant Heslov. Passado em 1959, no bairro de Suburbicon, habitado por brancos, tudo treme com a chegada dos Mayer, uma família afro-americana. O início representa bem isso: o carteiro passeia pela rua entregando correspondências até que vê a senhora Mayer (Karimah Westbrook). Ele logo pergunta à vizinha se já viu quem chegou ao bairro e o que acontece a seguir é uma reunião no estilo Ku Klux Khan como que para definir o que fazer com a nova família. Isso é mais do que uma sátira: é uma visão ainda mais contundente sobre os subúrbios que Tim Burton já havia feito nos ótimos As aventuras de Pee-wee e Edward, mãos de tesoura, além do recente Grandes olhos.

Determinada noite, a família de Gardner Lodge (Matt Damon) é atacada por ladrões (Glenn Flesher e Alex Hassell), que amarram sua mulher, Rose (Julianne Moore), loira, que vive numa cadeira de rodas, assim como Margaret, a irmã gêmea, com cabelo escuro, e o filho Nicky (Noah Jupe). Este é o único que conversa com o filho dos Mayer, Andy (Tony Espinosa).
A invasão é estranha e deixa marcas na família, mas o que mais implode é a raiva dos moradores de Suburbicon contra os novos vizinhos. Margaret passa a agir de modo ainda mais estranho, tomando o lugar da irmã, inclusive ao pintar o cabelo da mesma cor que o dela. Há uma estranha relação entre Gardner e os bandidos que invadiram sua casa, que remete a Fargo e Arizona nunca mais, outras obras dos Coen. De maneira geral, pode-se entender por que esse roteiro dos Coen foi escrito logo depois da estreia deles, em Gosto de sangue, em 1984: ele basicamente antecipa os temas da dupla de diretores no cinema. No entanto, ao contrário dos Coen, Clooney utiliza os pátios de um bairro calmo nos Estados Unidos para fazer uma espécie de homenagem às pinturas de Edward Hopper, assim como em Um homem sério, no entanto com uma falta de alívio cômico (o humor, sobretudo no personagem de Damon, é anticlimático a todo momento).

O filme soa pesado em todos os termos de tratamento que oferece a seus personagens, lembrando a estreia de Clooney na direção, Confissões de uma mente perigosa, nunca deixando o espectador confortável, e a trilha excelente de Alexandre Desplat mostra uma espécie de recuperação da imagem do subúrbio como uma ameaça presente desde Alfred Hitchcock. Os personagens também são ambíguos, no melhor sentido, nunca se sentindo fáceis ou meras caricaturas, como poderiam ser, o que acontece nos experimentos mais fracos dos Coen, a exemplo de Matadores de velhinhas e O amor custa caro. Clooney trabalhou com os diretores em outro momento menos inspirado, E aí, meu irmão, cadê você?, e aqui ele mostra um determinado senso que remete a eles no visual. No entanto, mais do que a eles, Clooney retoma um padrão clássico de imagem e sonoro, dos anos 50, para introduzir uma ambientação bem trabalhada. Mesmo quando Gardner e Margaret são flagrados no porão por Nicky há um clima de Psicose no ar (não parece aleatória a escolha de Julianne Moore para o papel, tendo ela feito a refilmagem da obra de Hitchcock nos anos 90). Também existe uma mescla entre comportamento estranho, relacionamentos não esclarecidos e um desrespeito constante à infância diante dos problemas que eclodem no bairro. O elenco, a começar por Moore e Isaac, contribui muito para esse senso deslocado.

A fotografia de Robert Elswit, com sua luminosidade, apenas esconde um lado muito nublado, turvo, da América, que não se deixa identificar. Numa visita à delegacia, também sentimos a presença da textura de imagem, além do trabalho impecável de figurino, da obra-prima O mestre, de Paul Thomas Anderson. Não parece inexplicável que este filme tenha sido tão questionado pela crítica em geral: Suburbicon realmente não define seu gênero nem explica exatamente sua proposta. A visão de Clooney para o que deveria ser um roteiro menos corrosivo dos Coen se mostra caótica, tanto quanto a recepção da vida moderna que temos aqui por meio de imagens dos anos 50. Tudo aqui antecipa a era Kennedy e os protestos em torno de Malcolm X, que trouxeram um novo panorama à sociedade norte-americana. O trabalho de Gardner Lodge, por trás de escritórios e portas simétricas, esconde apenas uma desilusão. Para Clooney, esses personagens querem mudar suas famílias, de algum modo, e visam sempre uma espécie de trama implícita em suas ações. Não há nada em Suburbicon que não esteja em pé de confronto, mas os personagens se escondem disso, agindo de maneira infantilizada e enfrentando uma rua escura com uma bicicleta.

Suburbicon, EUA, 2017 Diretor: George Clooney Elenco: Matt Damon, Julianne Moore, Oscar Isaac, Noah Jupe, Glenn Fleshler, Alex Hassell, Gary Basaraba, Jack Conley, Karimah Westbrook, Tony Espinosa, Leith Burke Roteiro: Joel Coen, Ethan Coen, George Clooney, Grant Heslov Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: George Clooney, Grant Heslov, Joel Silver, Teddy Schwarzman Duração: 105 min. Estúdio: Paramount Pictures, Black Bear Pictures, Silver Pictures, Smoke House Pictures Distribuidora: Paramount