História de um casamento (2019)

Por André Dick

Revelado no final dos anos 90, o diretor Noah Baumbach passou a se destacar quando coescreveu A vida marinha com Steve Zissou com Wes Anderson e fez A lula e a baleia, um drama sensível sobre uma família envolvida pela arte com um núcleo em processo de separação. Seus filmes posteriores, de certo modo, sempre desenvolveram essa ideia de família sendo investigada em seus pormenores, seja por meio de uma figura frustrada (Greenberg), ou uma jovem que gostaria de ser artista (Frances Ha), ou ainda casais que se sentem adolescentes numa época errada (Enquanto somos jovens). Baumbach, em 2017, fez um dos melhores filmes da década, Os Meyerowitz, demitido de Cannes por Pedro Almodóvar mesmo antes de sua estreia. Nele, o diretor concentrava os ganhos anteriores com uma história muito bem narrada sobre um pai de família dedicado à arte que se via numa situação difícil em meio aos filhos.

Agora, ele regressa com o que parece ser o destaque de sua carreira, devido ao hype desde o lançamento no Festival de Toronto: História de um casamento, nova parceria com a Netflix. Baumbach escolhe como cenário original a cidade de Nova York, como fez em seus filmes anteriores, desta vez mostrando um diretor de teatro, Charlie Barber (Adam Driver), casado com uma atriz, Nicole (Scarlett Johansson), a musa de suas peças. Ela teve um breve sucesso em Hollywood com um filme de adolescentes e, quando se mudou para Nova York, apaixonou-se pelo que viria a se tornar seu marido. Ambos têm um filho, Henry (Azhy Robertson), que passa a ser o ponto crítico de um divórcio. Para tratar dele, Nicole contrata a advogada Nora Fanshaw (Laura Dern), e Charlie, Bert Spitz (Alan Alda), depois de passar pelo escritório do desconfiado Ray Marotta (Ray Liotta). Enquanto Nora é rigorosa, Bert é mais pacífico.
Baumbach mostra que Nicole deseja se separar porque, principalmente, quer se dedicar a ser atriz de uma série de TV em Los Angeles. No início, como em sua filmografia, Baumbach apanha algumas influências básicas de Woody Allen, o que fez com que sua carreira fosse vista, de certo modo, como uma homenagem ao criador de Noivo neurótico, noiva nervosa. Em História de um casamento, ele sublinha Charlie como um artista egocêntrico, mas que deseja acompanhar o crescimento do filho. É interessante como Baumbach se dedica a mostrar esses personagens com nuances definidas. Charlie é um tanto manipulador, sendo amigo da mãe da esposa, Sandra (Julie Hagerty), e de sua irmã, Cassie (Merritt Wever), sem antes perguntar sobre como Nicole se sentiu nos episódios de TV que passou a gravar.

Ele é uma espécie de incógnita, que parece dedicado plenamente a seu filho, no entanto não vê o casamento como uma possibilidade de dialogar com sua carreira artística, não da maneira que gostaria. Aos poucos, no entanto, Baumbach vai se afastando dos maneirismos de Allen para ingressar num drama que faz lembrar, em seu estilo, fotografia e trilha sonora, o grande vencedor do Oscar de 1980, Kramer vs Kramer, sobre um pai (Dustin Hoffman) e uma mãe (Meryl Streep) disputando na justiça a guarda do filho.
História de um casamento, sob esse ponto de vista, não é original. Mas, em razão das atuações notáveis de Adam Driver e Scarlett Johansson, ambos nos melhores momentos de suas trajetórias, torna-se um estudo muito interessante como um divórcio pode mover personagens a mudar interiormente e deslocarem seus maiores objetivos para algo que pode ser mais sensível e atemporal, ligado aos filhos e a uma ideia de família, embora não seja exatamente aquela esperada. O personagem de Driver, nesse sentido, é significativo. Do mesmo modo, Baumbach vê a ação dos advogados como pessoas que interferem diretamente não apenas na privacidade, mas no rumo e na conveniência do que obriga cada um a se adaptar, e nesse sentido Dern, Liotta e Alda são bastante funcionais. Detalhes da vida íntima vêm à tona em troca de direitos e acusações são feitas no tribunal, enquanto existe um alívio nas conversas privadas. Há pelo menos uma cena de conflito entre os personagens de Driver e Johansson que estão entre algumas das melhores já feitas, não apenas porque a teatralidade funciona, como também, ao mesmo tempo, impulsionado pelas atuações, surge a autenticidade do sentimento exposto.

Chama a atenção, igualmente, como Baumbach entrelaça o cenário de ruas lotadas de Nova York e os preparativos da peça de Charlie para estrear na Broadway com as ruas cheias de palmeiras de Los Angeles e o apartamento a ser preenchido ainda por móveis, para evocar um estabelecimento provisório a fim de se lutar pela guarda do filho. Tudo guarda uma estética dos anos 70, impressão consolidada pela trilha sonora de Randy Newman e pela fotografia de Robbie Ryan, criando uma textura caseira e documental para cada cena, porém sem menosprezar o trabalho de luzes e sombras. Isso cria uma sensação extra de solidão dos personagens. No entanto, Baumbach não conduz tudo para um mero drama conjugal nem se apega àquilo que sustentava alguns de seus filmes, um humor patético, e sim para um teatro contundente sobre como o embate pode levar pessoas a se recolocarem no mundo, tentando descobrir o que as levou até determinado ponto e sem negar os sentimentos de afeto. Em alguns momentos, parece que História de um casamento está tratando de um divórcio. Na verdade, ele está tratando, de modo pouco usual e brilhante, da verdadeira conciliação.

Marriage story, EUA, 2019 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Scarlett Johansson, Adam Driver, Laura Dern, Alan Alda, Ray Liotta, Julie Hagerty, Merritt Wever Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Robbie Ryan Trilha Sonora: Randy Newman Produção: David Heyman, Noah Baumbach Duração: 136 min. Estúdio: Heyday Films Distribuidora: Netflix

Os Meyerowitz – Família não se escolhe (Histórias novas e selecionadas) (2017)

Por André Dick

Lançado no Festival de Cannes, Os Meyerowitz – Família não se escolhe (Histórias novas e selecionadas) teve sua exibição precedida por um discurso deselegante do presidente do júri da edição deste ano, o cineasta espanhol Pedro Almodóvar. Ele resolveu investir contra os filmes da Netflix (como é o caso de Os Meyerowitz) selecionados pelo Festival porque eles não passariam nos cinemas, sendo disponibilizados diretamente na plataforma digital. Segundo ele, isso prejudicaria o cinema e não se poderia premiar filmes em festivais que não fossem exibidos como é de costume. Claro que se trata de um discurso que remete àquele de que um filme só pode ser visto como tal na tela grande. Isso valia na Hollywood dos anos 50 ou 60, quando se considerava que um filme morria quando passava na TV. Hoje, o cinema costuma sobreviver por causa de outras plataformas, inclusive, ainda, da TV. A qualidade de uma obra não aumenta nem diminui por causa do tamanho da tela (no máximo, em caso de filmes com efeitos visuais e uma fotografia especialmente primorosa, a exemplo do recente Blade Runner 2049, realça esses elementos). Nunca assisti a Cavaleiro de copas, de Terrence Malick, na tela grande – e é meu preferido de 2016 (levando em conta a data de lançamento internacional). Os únicos filmes lançados em Cannes este ano que podem, até o momento, ser vistos pelo público no Brasil são exatamente os dois da Netflix (o outro é Okja) e O estranho que nós amamos, de Sofia Coppola. Os filmes ficam; o discurso de Almodóvar vai, aos poucos, desaparecer.

Os Meyerowitz é uma obra de Noah Baumbach, responsável pelos excelentes A lula e a baleia e Greenberg e os muito interessantes Frances Ha, Margot e o casamento e Enquanto somos jovens, entre outros. Ele também contribuiu no roteiro de A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico Sr. Raposo, junto a Wes Anderson, e se tornou, nos últimos anos, uma mescla entre ele (mais séria) e Woody Allen. Por sua história, Os Meyerowitz dialoga claramente com Os excêntricos Tenenbaums. Mas Baumbach, como em outros filmes, costuma situar seus personagens numa narrativa que dialoga menos com enquadramentos e cores que Anderson.
Se em A lula e a baleia, acompanhávamos um escritor, Bernard Berkman (Jeff Daniels), que havia feito sucesso e continuava dando aulas, pai de dois filhos com uma escritora, Joan (Laura Linney), fazendo o sucesso que ele tinha, em Os Meyerowitz vemos um pai escultor, Harold (Dustin Hoffman, excelente), casado com Maureen (Emma Thompson), aparentemente recém-saída de Woodstock. Ele tem um casal de filhos do primeiro casamento, Danny (Adam Sandler) e Jean (Elizabeth Marvel), e um filho do segundo, Matthew (Ben Stiller), cuja mãe é  Julia (Candice Bergen). O filme inicia com o antigo escultor, que nunca fez grande sucesso, querendo vender a sua casa. Danny deseja conservar suas obras, mas ele não pensa o mesmo. Numa ida à exposição de um antigo amigo, L.J. Shapiro (Judd Hirsch), conflitos vêm à tona para Harold, em relação a ter deixado uma obra para a posteridade.

Dividido em partes, na segunda o pai da família se encontra com Matthew, um corretor, a quem é mais devotado, mas nervoso por não ser bem atendido no restaurante previsto para um diálogo. Baumbach vai encaminhar pequenos conflitos para uma situação ainda mais delicada, na qual os irmãos precisarão se encontrar e chegar a um entendimento. Danny é pai de Eliza (a revelação Grace Van Patten, do interessante Tramps, também da Netflix), que cursa cinema, e é com eles que Baumbach abre sua bela história sobre uma família comum, mas em permanente conflito. Matthew se tornou o mais bem-sucedido, o que torna Danny um pouco receoso de sua aproximação, no entanto é este o mais próximo do pai, em diálogos sobre filmes, uma característica do cinema de Baumbach, como já víamos especialmente em Enquanto somos jovens.
O que mais chama atenção em Os Meyerowitz é a delicadeza com que ele trata a relação entre um pai e seus filhos. Não apenas pela atuação de Hoffman, mas principalmente pelo encontro exitoso entre Stiller e Sandler, este é um filme cujo humor acentua o drama e vice-versa. Depois de fazer o injustamente menosprezado Sandy Wexler este ano, Sandler apresenta aquela que é talvez sua atuação mais calibrada ao lado de Embriagado de amor. Ele consegue entregar ao papel de músico fracassado e divorciado uma sutileza necessária e, ajudado pelo belo roteiro, trava uma interação agradável com Van Patten, numa sequência ao piano logo ao início, e, sobretudo, com Stiller, que tem, num determinado momento-chave, a sequência de sua carreira (não entrarei em detalhes). Stiller já havia trabalhado com Baumbach em Greenberg e Enquanto somos jovens, em dois de seus melhores papéis, fugindo às comédias padronizadas em que costuma estar envolvido.

Baumbach consegue conciliar o ambiente urbano de Nova York, pano de fundo para muitos de seus filmes – e Adam Driver, ator que ajudou a revelar, aparece numa participação especial –, com um ambiente mais bucólico, de interior, como se a intimidade dos personagens sempre estivesse conciliada com os cenários. Algumas passagens podem parecer desnecessariamente explicativas, no entanto conservam sempre um tom familiar capaz de tornar o material de Baumbach próximo do espectador. Os personagens, mesmo adultos, adotam algumas vezes um comportamento infantil, mas o roteiro não torna isso superficial, tentando minimizar a dimensão deles, e sim os torna mais complexos. Na tentativa de não reprisarem o passado, eles olham para a geração futura com a preocupação de fazerem o certo: não há também um sentido de competição novamente em cena. Há um relato comovente de Jean, que torna a aparição de Marvel, até então um pouco deslocada, numa peça essencial para entender também o passado dessa família. Em seus trabalhos mais recentes, a exemplo de Frances Ha, Enquanto somos jovens e Mistress America, Baumbach tende a tentar desenhar um painel da juventude norte-americana em conflito com ideais de uma geração anterior, no entanto em certos momentos soa descompassado. Essa característica não se sente em Os Meyerowitz, que, mesmo com seus cortes às vezes abruptos, se sente orgânico do início ao fim e verdadeiramente sentimental em suas escolhas. Baumbach entrega um dos melhores filmes do ano, com roteiro e elenco referenciais para o que, independente de onde se veja, ainda se chama cinema.

The Meyerowitz stories (New and selected), EUA, 2017 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Adam Sandler, Ben Stiller, Dustin Hoffman, Emma Thompson, Elizabeth Marvel, Grace Van Patten, Candice Bergen, Adam Driver, Judd Hirsch, Rebecca Miller, Matthew Shear Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Robbie Ryan Trilha Sonora: Randy Newman Produção: Scott Rudin, Noah Baumbach, Lila Yacoub, Eli Bush Duração: 112 min. Estúdio: IAC Films Distribuidora: Netflix

 

Enquanto somos jovens (2015)

Por André Dick

Enquanto somos jovens

O olhar do diretor Noah Baumbach sempre esteve voltado para os conflitos marcados pela passagem da juventude para a vida adulta, ou mesmo por adultos tentando se adaptar ao seu presente, sem nunca conseguirem se desligar do passado. Embora as experiências no roteiro com Wes Anderson não tragam exatamente esses temas, em A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico sr. Raposo, eles estão presentes em filmes que o próprio Baumbach dirigiu. Depois de uma estreia nos anos 90, com Tempo de decisão, ele dirigiu o ótimo A lula e a baleia, sobre uma família procurando elos de ligação, e em seguida Margot e o casamento, com Nicole Kidman, e certamente seu filme mais subestimado, Greenberg (que recebeu no Brasil o título lamentável O solteirão), com Ben Stiller. Depois das boas críticas com Frances Ha, estrelado por Greta Gerwig, sua namorada, que está no seu próximo filme, Mistress America, a ser lançado também este ano, Baumbach retomou sua parceria com Stiller neste Enquanto somos jovens. A princípio, é compreensível por que este filme não está recebendo a mesma atenção de Frances Ha: ele não tem a mesma estrela ingênua à frente do elenco, e a história é mais amarga, assim como Greenberg e Margot e o casamento.
Josh (Stiller) e Cornelia Svhrebnick (Naomi Watts) formam um casal em Nova York. Enquanto busca equilibrar o desejo inconsciente de ter filhos, Josh tenta completar um documentário sobre o intelectual Ira Mandelstam (Peter Yarrow) e dá aulas na universidade Dois ouvintes, Jamie (Adam Driver) e Darby Massey (Amanda Seyfried), se anunciam e Jamie, especificamente, diz ser admirador do documentário que ele realizou anteriormente, assim como do sogro dele, Leslie Breitbart (Charles Grodin). A relação conflituosa entre Josh e Cornelia se mostra ainda mais forte quando eles estabelecem uma amizade com esse casal. Jamie agrada a Josh não apenas pela juventude, como valorizar, ao mesmo tempo, Cidadão Kane e Rocky III, e se surpreende  quando o objetivo de Darby é trabalhar com o ramo de sorvetes. O que lhe agrada é o aparente descompromisso do casal.

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Há um clima bastante importado de alguns filmes de Woody Allen, não apenas pelo cenário de Nova York, como também pelos diálogos que remetem ao próprio cinema e à literatura. No entanto, onde Allen tenta tornar seus personagens mais agradáveis, não acontece o mesmo com Baumbach. Sua predileção é colocar seus personagens em conflitos às vezes por detalhes insignificantes, e busca não apenas o humor nisso, como também um misto de inveja e de sede de um indivíduo se sobrepor o outro. Em Frances Ha, era interessante como Baumbach mostrava sua protagonista sempre com graves problemas, porém sem aprofundar exatamente essa melancolia. O mesmo acontece em Enquanto somos jovens: os personagens nitidamente não estão felizes, embora queiram estar. Mais do que em Greenberg e Frances Ha, não há um simples encantamento com a possibilidade de se manter jovem: em Enquanto somos jovens, Josh e Cornelia se mostram desamparados, por não conseguirem mais agir como pessoas jovens, tentando pensar no futuro, mesmo com a ligação mantida com o casal Fletcher (Adam Horovitz) e Marina (Maria Dizzia).
Isso leva à citação de Henrik Ibsen, de The Master Builder, que abre o filme e remete à possibilidade de os jovens entrarem na vida de alguém mais velho para, sem outra palavra, bagunçá-la. Baumbach utiliza esta citação de Ibsen para realizar o que Woody Allen realizou em Crimes e pecados. Naquele filme, Allen interpretava um personagem que fazia um documentário sobre o cunhado, interpretado por Alan Alda. Aqui, em determinado ponto, quando Josh se mostra confiante em dividir seus planos e interesses com Jamie, ele passa também a querer participar do documentário imaginado pelo amigo. Isso acaba produzindo um clima de competição, enquanto Darby leva Cornelia a aulas de hip-hop. Há conflitos de geração muito interessantes expostos por Baumbach de forma até discreta, como aqueles que se relacionam com as tecnologias (uso de celulares, por exemplo) e a tentativa de soar como o outro mais jovem (quando Josh resolve usar chapéu como Jamie). Essa tentativa de se adaptar a um novo tempo parece um assunto óbvio, no entanto Baumbach tem talento ao costurá-lo de acordo com as interpretações e diferentes nuances que os personagens vão mostrando. Ele, de certo modo, expande a segunda metade de Frances Ha – a dificuldade de a personagem lidar com a solidão – num retrato de um casal chegando à meia-idade com um certo desespero existencial de não ter conseguido, de maneira completa, o que mais queria.

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Com isso, também há sequências divertidas, como a reunião, em determinado momento, dos casais e a tentativa de provarem Josh e Cornelia provarem que gostam um do outro. O tema da paternidade também dialoga com Distante nós vamos, de Sam Mendes, um filme quase esquecido de 2009, em que o casal viajava à procura de um lugar adequado para se estabelecer – enquanto a mulher está esperando um filho. Assim como lá, há uma sensação permanente de melancolia na reação desses pares, e enquanto Josh e Cornelia vão se afastando do seu casal de amigos com a mesma idade, que já tem um bebê, vai ficando mais claro o que eles realmente querem em suas vidas. Baumbach não trabalha isso distante de elementos evidentes de humor, no entanto enlaça tudo com uma sensação de despedida da juventude.
O que pode diminuir a intensidade de Enquanto somos jovens é justamente a sua tentativa de colocar Adam Driver como um ator capaz de atuar tanto quanto o personagem principal; impressiona como Driver ainda não consegue ser efetivo num papel mais extenso. Enquanto Stiller e Watts formam um casal cujos conflitos são convincentes, Seyfried se sente um pouco deslocada justamente em razão de Driver, ocupando quase todas as cenas em que eles dividem. O ex-Beastie Boys Horovitz tem uma boa interpretação, complementando bem as cenas em que divide com Stiller ou Watts, sempre levando Enquanto somos jovens para essa sensação de compromisso da vida adulta, ou tentativa de se afastar dele. Mas é Grodin que, além da excelência como ator, que faz costurar um pouco melhor a terceira parte da narrativa, um pouco inferior às demais, quando Baumbach pretende investigar a questão do que seria verdade ou não na realização de um documentário. Aqui, é possível sentir um pensamento quase conceitual do diretor; no entanto, isto é evidente no filme que o inspirou, o já referido Crimes e pecados e, mesmo um tanto deslocado da atmosfera geral da narrativa, indica a proposta de Enquanto somos jovens: a ingenuidade e o descompromisso da juventude podem esconder os mesmos dilemas da vida adulta.

While we’re young, EUA, 2015 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Ben Stiller, Naomi Watts, Adam Driver, Amanda Seyfried, Charles Grodin, Brady Corbet, Adam Horowitz, Maria Dizzia  Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Sam Levy Trilha Sonora: James Murphy Produção: Eli Bush, Lila Yacoub, Noah Baumbach, Scott Rudin Duração: 97 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: Scott Rudin Productions

Cotação 3 estrelas e meia 

A vida marinha com Steve Zissou (2004)

Por André Dick

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Mais uma comédia estranha do talentoso Wes Anderson, este filme acabou não tendo a mesma repercussão de Os excêntricos Tenenbaums, embora tenha uma trama interessante – centrada novamente num pai indefinido em assumir a família –, com assinatura do diretor em parceria com Noah Baumbach (que realizou os ótimos A lula e a baleia e Frances Ha), e alguns nomes daquele elenco (Owen Wilson, Anjelica Huston, Bill Murray). Parece até, por vezes, pelo cuidado com a fotografia de Robert D. Yeoman (seu colaborador), direção de arte de Stefano Maria Ortolani (de Gangues de Nova York) e os figurinos da oscarizada Milena Canonero (habitual colaboradora de Francis Coppola), uma continuação daquele filme, desta vez situada no universo de pesquisas marinhas, típicas de Jacques Costeau, muito popular nos anos 70 – a quem o filme é dedicado –, e que transporta determinada geração diretamente para a infância, o que não acontece tão facilmente com outras, embora não seja um filme inacessível ou para poucos.
alter ego de Anderson é o oceanógrafo Steve Zissou (interpretado por Bill Murray, bastante entediado, no que ganha sempre pontos) e este filme procura delinear seu universo, mostrando seu casamento conturbado com uma mulher, Eleanor (Anjelica Huston), que subsidia suas viagens – mas parece pouco interessada no que acontece ao seu redor –, seus companheiros de navegação, Klaus e o brasileiro Pele dos Santos (Willem Dafoe e Seu Jorge, que passa o filme cantando músicas de David Bowie em português), entre outros, e um rapaz, Kentucky Ned Plimpton(Owen Wilson), que aparece e se diz seu filho e no momento seguinte já estão abraçados – porque em Anderson os conflitos nunca duram muito, embora não sejam solucionados ou simplistas.

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O filme já inicia com Zissou num cinema, cercado por sua equipe, assistindo a seu novo documentário, em que o melhor amigo é devorado por um tubarão. Em seguida, há uma sucessão de gags rápidas e patéticas próprias do diretor – a melhor é quando um senhor pede ao explorador para autografar várias imagens dele –, até Zissou ir para sua ilha, a fim de se preparar para a nova expedição, com o objetivo de caçar o tubarão Jaguar que matou seu amigo. É para lá que leva o rapaz que diz ser seu filho – e que desde pequeno faz parte da Companhia Steve Zissou (guardou até uma carta que recebeu, com o típico toque de Anderson e que dialoga diretamente com aquelas de Moonrise Kingdom).
No entanto, ele recebe a visita de uma jornalista grávida, Jane Winslett-Richardson (Cate Blanchet), que não sabe ser simpática ou não à sua causa. Quando parte em navegação, encontra piratas pelo caminho (pois não poderiam faltar, ainda mais esses que se hospedam no hotel abandonado de uma ilha) e um adversário, Alistair (Jeff Goldblum), que foi casado com Eleanor. E Ned – o qual Steve Zissou quer rebatizar, sabe-se lá o motivo, como Kingsley – se envolve com a jornalista, que pretende contar a verdade sobre o modo de comportamento do seu possível pai. Ela, de algum modo, também como Ned, procura um pai para seu filho, e nesse inter-relacionamento percebemos que os personagens são bastante semelhantes. No entanto, toda esta trama en passant é apenas motivo para Anderson filmar personagens bastante cômicos, a começar por Zissou – que se fecha numa redoma sempre que não fazem o que deseja.

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O filme tem um clima e uma fotografia de filme europeu e nada de muito importante (diante de outros filmes mais lineares e comerciais) acontece, a não ser o desenrolar da rotina de uma tripulação em alto-mar, mas isso não é o importante: como em Os excêntricos Tenenbaums, Anderson quer as entrelinhas dos personagens, suas ironias e sua maneira incomum de agir que se baseia, paradoxalmente, em atitudes que sempre remetem a outras já conhecidas, como se desenhassem uma complacência com o nada. Em muitos momentos (quando Anderson filma os compartimentos abertos do barco como se apresentasse uma casa de brinquedo, como de fato o é), lembra uma peça de teatro. Porém, talvez lembre mais uma fábula (o que Anderson intensificaria em O fantástico Sr. Raposo), sobretudo no momento da invasão pirata ao navio de Steve Zissou: a fotografia é escura, e os personagens estão abatidos; de repente, tudo se ilumina e Zissou começa a enfrentar os invasores, como se fosse um herói de histórias. Nesse momento, Anderson torna sua câmera numa espécie de parceria para um documentário em alto-mar; e ainda registra um tiroteio como se filmasse uma espécie de peça escolar.
Zissou também é um explorador que, por vezes, não parece saber absolutamente nada sobre o assunto de que trata, além das recorrentes dificuldades financeiras, o que o faz invadir torres com equipamentos alheios. Quando ele está falando do seu tema de domínio, acaba sempre caindo na mais profunda melancolia: não consegue estabelecer nenhuma ligação sentimental com a esposa e se interessa pela jornalista, contudo, sem ser correspondido, quer tirá-la do navio. Este é absolutamente precário, com sua sala de edições para os filmes, a sauna onde sempre há algum integrante comendo sanduíche, as lâmpadas sempre estourando, fazendo por segundos o barco ficar sem luz, e o submarino, Belafonte, parece um pato de filmes infantis (mais próximo daquele de Batman – O retorno). Toda a tripulação, apesar de dedicada ao chefe, parece não saber onde está ou o que estuda – talvez nem mesmo o que significa um mapa ou o que represente um estudo sobre animais marinhos.

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E há ainda golfinhos que, para Zissou, precisam ser treinados. As imagens dos peixes ou crustáceos são animações em stop motion, como na cena em que a jornalista chega à ilha onde está a equipe de Zissou, ou aquela do cavalo-marinho, que ele utilizaria novamente em O fantástico Sr. Raposo, dando ainda mais clima de fantasia à obra de Anderson, pois o sonho de Zissou, na verdade, é fazer parte de um universo como 20.000 léguas submarinas, de Júlio Verne. Ele não pretende sair da infância que construiu, a muito custo, em torno de si mesmo, e Bill Murray é um ator notável para este tipo de movimento. Toda a sua tentativa – nas atitudes – é de congelar a infância, de preferência num lugar em que possa visitá-la, como ao tubarão no fundo do mar. E Anderson acaba sendo tão efetivo quanto o foi com a família Tenenbaum, com o mesmo cuidado fotográfico e com a direção de arte – preferindo adaptar uma certa ideia precária de cenários e situações setentistas –, estruturado num tom de fábula melancólico, de onde irrompe o seu cinema.

The life aquatic with Steve Zissou, EUA, 2004 Diretor: Wes Anderson Elenco: Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett, Anjelica Huston, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Seu Jorge, Noah Taylor Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin Roteiro: Wes Anderson, Noah Baumbach Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Duração: 118 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Touchstone Pictures / Scott Rudin Productions

Cotação 4 estrelas e meia

 

Publicado originalmente em 26 de setembro de 2012

Especial Wes Anderson

Por André Dick

Especial Wes Anderson.Cinematographe

O cineasta Wes Anderson nasceu em 1º de maio de 1969, em Houston, Texas. Quando criança, como comenta numa entrevista ao The Guardian, fazia em Super 8 filmes que pudessem lembrar Os caçadores da arca perdida, Star Wars e Hitchcock. Depois de estudar em St’Johns School, que serviu de cenário para o filme Rushmore e onde fazia peças de teatro como o personagem principal deste filme, Max Fischer, ele foi para a Universidade do Texas, em Austin. Lá, ele se formou em Filosofia em 1991 e, depois de um encontro numa aula de teatro, começou a traçar seus primeiros projetos, com o amigo e parceiro nos roteiros de seus três primeiros filmes, Owen Wilson.
Como resultado da exibição de seu curta-metragem Bottle Rocket no Festival de Sundance, foi procurado pelo produtor James L. Brooks (criador dos Simpsons) para transformá-lo em longa-metragem, o que aconteceu dois anos depois. Em 1998, o presidente da Disney Joe Roth aceitou financiar Rushmore, que teve um lançamento com grande campanha de marketing, a fim de tentar uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante para Bill Murray, mas, como o primeiro, o filme não foi muito bem nas bilheterias. No entanto, Anderson conseguiu fazer com que Pauline Kael, sua crítica favorita, se deslocasse para um cinema a fim de assisti-lo. Embora ela tenha lhe dito que talvez os produtores do filme não haviam lido o roteiro, Anderson conseguiu exemplares de livros em primeira edição da crítica.
O sucesso de Os excêntricos Tenenbaums, seu filme seguinte, no entanto, fez com que a Disney financiasse o filme mais caro de Anderson, A vida marinha com Steve Zissou, ainda hoje o de menos êxito nas bilheterias. Isso não impediu que logo fizesse dois filmes, um recebido sem entusiasmo, Viagem a Darjeeling, e outro com grande recepção, O fantástico Sr. Raposo. Em 2012, seu Moonrise Kingdom abriu o Festival de Cannes e em 2014 O grande Hotel Budapeste o Festival de Berlim.
Anderson tornou-se conhecido pela opção em sempre fazer uma ligação dos personagens com os cenários que os cercam, ou seja, seu estilo costuma salientar a substância. Nesse sentido, as características de cada personagem sempre são desenvolvidas por meio de suas ligações com o contexto, com a trilha sonora (dos anos 60 e 70) e quase nunca de forma solitária ou por causa de algum conflito existencial centralizado. Também é conhecido por trabalhar quase sempre com os mesmos atores, sobretudo Bill Murray, e o diretor de fotografia de quase todos os seus filmes é Robert D. Yeoman (com exceção de O fantástico Sr. Raposo, em que dá lugar a Tristan Oliver). Filho de uma agente imobiliária e arqueóloga, Anne Burroughs, e de um publicitário, Melver, ele também se tornou conhecido pelas propagandas que fez, com seu estilo cinematográfico. E costuma descrever a separação dos pais como o momento decisivo de sua infância, para ele e seus irmãos, um tema que se apresenta direta ou indiretamente em quase todos seus filmes.
Escolhido por Martin Scorsese em 2000 como uma das promessas para o cinema deste século, a maior influência de Anderson é a do escritor Roald Dahl, de quem adaptou O fantástico Sr. Raposo. No campo do cinema, as principais referências são Alain Resnais (principalmente aquele do filme Meu tio da América), Satyajit Ray (cineasta indiano que o influenciou em Viagem a Darjeeling) e Stanley Kubrick, além de Jean-Pierre Jeunet, principalmente o de Delicatessen, além de outras não tão comentadas, como as de Hal Hartley e Woody Allen. Entre os filmes que diz que gostaria de ter feito, Anderson cita Amargo regresso, de Hal Ashby, e dois de Roman Polanski: O bebê de Rosemary e Chinatown.
Anderson foi indicado duas vezes ao Oscar de melhor roteiro original, por Os excêntricos Tenenbaums e Moonrise Kingdom, e uma vez ao Oscar de animação, por O fantástico Sr. Raposo. Com Owen Wilson, assinou o roteiro de seus três primeiros filmes; com Noah Baumbach (diretor de Frances Ha), os roteiros de A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico Sr. Raposo; e com Roman Coppola (filho de Francis), escreveu Viagem a Darjeeling (ainda com a colaboração de Jason Schwartzman) e Moonrise Kingdom. Curiosamente, seus filmes, conhecidos pelo estilo, nunca receberam nenhuma indicação a Oscar técnicos (principalmente, hoje, de designer de produção).
Cinematographe preparou um especial sobre seus filmes. Foram preservados os títulos de seus primeiros filmes no original, Bottle Rocket e Rushmore (traduzidos no Brasil para Pura adrenalina e Três é demais, respectivamente).
Abaixo, algumas imagens de filmes de Anderson, com alguns temas ou imagens em comum de um dos maiores cineastas da atualidade como uma prévia deste Especial, cuja primeira crítica, sobre Bottle Rocket, será publicada amanhã.

Steve Zissou 3

O mundo marinho de Steve Zissou

Rushmore.Max

Rushmore 3

Max e sua obsessão por aquários em Rushmore.

Steve Zissou.Tripulação

A família de Steve Zissou

Viagem a Darjeeling 2

Os irmãos Whitman em Viagem a Darjeeling

O fantástico Sr. Raposo 2

A família de O Fantástico Sr. Raposo

Moonrise Kingdom 2Três famílias: o casal de advogados, o líder dos escoteiros e o delegado solitário de Moonrise Kingdom.

Pura adrenalinaUma família organizada por assaltos em Bottle Rocket.

O grande hotel Budapeste 8

Zero, a milionária e Mr. Gustave, uma família enviesada de O grande Hotel Budapeste

Pura adrenalina 2

Culinária de Bottle Rocket

Viagem a Darjeeling 3

Culinária de Viagem a Darjeeling

O fantástico Sr. Raposo 3

Culinária de O fantástico Sr. Raposo

Rushmore 7

As cartas de Rushmore

Moonrise Kingdom 6As cartas de Moonrise Kingdom

Bottle Rocket 3

O plano no papel de Bottle Rocket

Os excêntricos Tenenbaums 2

Os excêntricos Tenenbaums 3A barraca na sala de Os excêntricos Tenenbaums

Moonrise Kingdom 4A barraca abandonada por Sam em Moonrise Kingdom

Os excêntricos Tenenbaums 4A menina Margot, de Os excêntricos Tenenbaums, escreve peças de teatro

Rushmore 5Max organiza peças de teatro em Rushmore

Moonrise Kingdom 3Sam conhece Suzy na encenação da ópera “O dilúvio de Noé”, em Moonrise Kingdom

Moonrise Kingdom 9

Sam faz uma pintura de Suzy em Moonrise Kingdom

O grande hotel Budapeste 9

A pintura que é o centro dos conflitos de O grande Hotel Budapeste

O fantástico Sr. Raposo 20

A Sra. Raposo mostra sua pintura ao Sr. Raposo

Os excêntricos Tenenbaums 5Os irmãos Tenenbaums dão entrevistas quando pequenos.

Steve Zissou 2Steve Zissou dá palestra sobre suas experiências oceanográficas

RushmoreMax explica conceitos em Rushmore

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O grande hotel Budapeste 2

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O fantástico Sr. Raposo 4Sr. e Sra. Raposo

Frances Ha (2012)

Por André Dick

Frances Ha 4

Há filmes que se destacam sobretudo por causa de um ator ou de uma atriz e este certamente é o caso de Frances Ha. A atriz em questão é Greta Gerwig, coautora do roteiro e que interpreta a personagem principal. Na direção, temos Noah Baumbach, que fez um dos melhores filmes da década passada, A lula e a baleia, e colaborou no roteiro de A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico sr. Raposo, de Wes Anderson. Com ingredientes que podem classificar Frances Ha como um filme de estética indie, parece que ele consegue atingir elementos que o colocam como uma síntese do cinema independente das últimas três décadas.
Se a fotografia em preto e branco de Sam Levy e o chapéu de Lev Shapiro, um dos rapazes com quem Frances divide o apartamento em determinado momento do filme, lembram, de forma insistente, mais do que a nouvelle vague, seus influenciados nos anos 80, Estranhos no paraíso e Daunbailó, de Jarmush, e a trilha sonora, com “Modern love”, de David Bowie, evoca tanto Sangue ruim (mais diretamente) quanto Boy meets girl, não se pode dizer que Frances Ha seja meramente um derivativo desses filmes. Como a obra de Baumbach mostra, trata-se principalmente de um personagem deslocado. Basicamente, Frances Halliday tenta ingressar no mundo da dança, em Nova York, e divide o apartamento do Brooklyn com uma amiga, Sophie Levee (Mickey Sumner), o que a faz ter dificuldades para aceitar ter uma vida própria com Dan (Michael Esper). A partir deste núcleo de relação e rompimento, a personagem se estrutura e o espectador é introduzido em seu universo.
Embora reconhecido como um filme leve, como poderia de fato ser, Frances Ha é, olhando mais de perto, uma obra autenticamente amarga, longe de qualquer solução aparentemente fácil, muito menos alegre, e é exatamente aí que reside seu interesse como retrato de um certo universo contemporâneo. Baumbach é um diretor bastante sutil – conseguiu tornar Ben Stiller num ator mais realista em Greenberg – e consegue traduzir o sentimento em que todos querem escapar para um universo em que podem criar sua realidade ou simplesmente não conseguem ingressar, de fato, no que se corresponde a uma vida adulta.

Frances Ha 6

Frances Ha

Em muitos momentos, Frances Ha poderia se transformar em O diário de Bridget Jones – uma autêntica comédia de estereótipos, embora com méritos –, mas escolhe ser uma espécie de encontro entre este universo dos anos 80, com uma estética realista e um tom certamente intelectual, tanto de Jarmursh quanto de Carax, com o descompromisso dos melhores momentos de Woody Allen e sua Nova York intelectualizada. No entanto, onde Allen é mais conciliador, e Carax e Jarmursh mais bem-humorados, Baumbach é mais seco e amargo, como já mostrava em A lula e a baleia. E, embora seja bastante programado dentro de sua estética, ele nunca cai no que Jarmursh faria em Trem mistério: autoelogiar-se numa metalinguagem cansativa.
Quando mostra Frances Ha transitando de um apartamento para outro, e tendo de lidar com dois jovens que não precisam bancar sua vida, Benji (Michael Zegen) e Lev Shapiro (Adam Driver), o primeiro com certa inclinação ao relacionamento, ou quando precisa lidar com a responsável pela companhia de dança, Colleen (Charlotte d’Amboise), Baumbach não permite liberdades à personagem. Poucas vezes, no cinema, foi visto um retrato tão discreto sobre a tentativa de uma personagem não envelhecer e não querer que os outros a vejam mais envelhecida do que é ou do que como se imagina – com um tom, muitas vezes, de descompromisso e mesmo de risadas francas (deve-se emoldurar a cena em que Frances conversa com Sophie e ambas imaginam como seria seu futuro, como se estivesse situada ainda numa infância longínqua ou num desejo contínuo de visualizar o futuro, e não o presente).
Do mesmo modo, é um personagem cujo universo está condicionado pelas expectativas ou por nenhuma expectativa, dependendo do ponto de vista, e o que o torna mais humano é justamente o conjunto de falhas que tenta esconder. Greta Gerwig faz movimentos que são mais difíceis do que aparentam e, embora o restante do elenco seja meramente um acesso às suas angústias, sem o peso existencial para diferenciá-la dos demais, temos certamente uma impressão de que o universo expansivo da modernidade pode também se restringir às mesmas tentativas de amizade consideradas antigas – e o “Modern love” de Bowie surge como, ao mesmo tempo, um retrato e uma crítica aos próprios personagens. Não se trata exatamente de uma homenagem de Baumbach aos anos 80, mas de mostrar como os personagens podem reproduzir um mesmo comportamento por várias décadas e uma mesma tradição musical. Para ele, é justamente esta tradição que congela a personagem de Frances em seus 27 anos, mas, de forma otimista, sempre tentando entendê-la e afastá-la de um tom de desesperança.

Frances Ha 2

Frances Ha 3

Por isso, Baumbach filma Nova York também como um espaço de repetição, com seus roteiristas querendo escrever para o Saturday Night Live ou jovens milionários indo a clubes noturnos para a próxima conquista, assim como Paris pode não ser o lugar mais perfeito para solitários, mesmo com a luminosidade da Torre Eiffel e o passeio à beira do Rio Sena. O telefone e os computadores parecem encurtar a distância, mas aqui só acentuam o isolamento da personagem.
Em Frances Ha, todos esses possíveis estereótipos acabam sendo explorados do mesmo modo que tornam a figura central mais humana, com sua insegurança exposta. Baumbach consegue tornar uma narrativa rápida em fragmentos, como a visita que a personagem faz aos pais, com lances ágeis também em cada uma das passagens de sua vida. Com uma melancolia implícita, não existe condescendência, e a depressão de Frances é apresentada por meio de sequências descompromissadas, sem peso dramático. Não se analisa a situação em que ela se coloca como um problema, mas parte afetiva das descobertas necessárias e, desse modo, não se percebe nenhum esquema definido: os personagens estão, de certo modo, soltos, e Baumbach vai reunindo-os pouco a pouco, por meio de demonstrações diversas e de rara sensibilidade, fazendo de Frances Ha uma obra única e referencial.

Frances Ha, EUA, 2012 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Adam Driver, Charlotte d’Amboise, Christine Gerwig, Michael Zegen Roteiro: Greta Gerwig, Noah Baumbach Fotografia: Sam Levy Produção: Lila Yacoub, Noah Baumbach, Rodrigo Teixeira, Scott Rudin Duração: 86 min. Distribuidora: Vitrine Filmes Estúdio: RT Features.

Cotação 4 estrelas