Christopher Robin – Um reencontro inesquecível (2018)

Por André Dick

O diretor Marc Forster é conhecido por seus belos A última ceia e Em busca da terra do nunca, por um 007 menos atrativo (007 – Quantum of solace) e escolhas desajeitadas (A passagem). Trata-se de um diretor que vem se aprimorando pela multiplicidade. Guerra Mundial Z poderia ter sido dirigido por um cineasta especialista em ação, mas Pitt, como um dos produtores, apostou em Forster, com quem se desentendeu durante as filmagens, criando quebras de orçamento e polêmicas antes da estreia. O resultado foi bastante irregular, ainda que tenha rendido uma boa bilheteria e proporcionado a ideia de uma continuação, a ser realizada por David Fincher.
Forster retoma sua carreira com Christopher Robin, distribuído pela Disney, em que o maior diálogo é com seu próprio filme Em busca da terra do nunca, sobre o criador de Peter Pan, J.M. Barrie (feito então por Johnny Depp), e justamente Hook – A volta do Capitão Gancho, que adapta para a idade contemporânea a obra de Barrie. O Peter Banning de Robin Williams precisa aprender a conciliar sua vida de empresário com a de pai, e tem em Sininho (Julia Roberts) sua confidente. Ele não lembra praticamente de nada que remete à infância, ou seja, de ter sido Peter Pan. Seu dia a dia é dedicado à vida no escritório.

O mesmo acontece com Christopher Robin (Ewan McGregor), depois de ter sido amigo, na infância, de Winnie the Pooh (Jim Cummings), Tigger (Cummings novamente), Piglet (Nick Mohammed ), Eeyore (Brad Garrett), Kanga (Sophie Okonedo), Roo (Sara Sheen), Owl (Toby Jones) e Rabbit (Peter Capaldi), que ele conheceu no Bosque de Cem Acres. Robin cresce, passa por um internato, serve na Segunda Guerra Mundial e se casa com arquiteta Evelyn (Hayley Atwell), com quem tem a filha Madeline (Bronte Carmichael). Ele trabalha numa empresa chamada Winslow Luggages, colocando sua família em segundo plano. Seu chefe, Giles Winslow Jr. (Mark Gatiss) lhe diz que deve demitir funcionários para reduzir os custos. Isso faz Christopher, perturbado pela atitude a ser tomada, ir para sua casa de campo em Sussex para um fim de semana de fim de verão.
Baseado em uma série de história do urso Winnie the Pooh, de A.A. Milne e E. H. Shepard, o roteiro de três escritores independentes e ecléticos, Tom McCarthy (Spotlight O agente da estação), Allison Schroeder (Estrelas além do tempo) e Alex Ross Perry (que escreve e dirige filmes na Nova York contemporânea, a exemplo de Golden exits), transita entre fazer referências a ursinhos de pelúcia contemporâneos – Ted e Paddington mais exatamente – com uma melancolia poucas vezes vista em filmes dos estúdios Disney, mais condizente com um projeto de Terrence Malick, como já tinha sido Meu amigo, o dragão de 2016.

É interessante como Christopher Robin possui momentos que remetem a Sombras da vida, também, do mesmo David Lowery de Meu, amigo, o dragão, com uma sensação de mistura de épocas que passam desgovernadas na vida de um indivíduo, sem ele dar especial atenção, explicadas como se constituíssem capítulos de um livro infantojuvenil. E, embora seja considerado um live action de animações com esses personagens de 1977 e de 2011, ele não possui o mesmo número de efeitos especiais e CGI que Mowgli, por exemplo: sua base de efeitos visuais e o contraste entre Londres e o bosque misterioso do filme se dão de maneira muito discreta visualmente, apostando na magia como uma extensão das brumas misteriosas, tanto que a árvore pela qual Pooh, Robin e seus amigos atravessam guardam muito de Tim Burton. Também é notável um diálogo com Onde vivem os monstros, o filme de Spike Jonze sobre a transição da infância para a adolescência, em que um menino crescia em meio a monstros de um universo paralelo localizado numa ilha distante.

Forster utiliza os ambientes isolados de campo para situar os personagens distanciados tanto da realidade quanto do mundo, mas o faz de modo efetivo, criando uma emoção que remete a seu melhor filme, Mais estranho que a ficção, com Will Ferrell habitando a história de uma escritora. A diferença é que, por ser mais próximo da estrutura de uma fábula, literalmente, com bichos de pelúcia falantes, Christopher Robin possui um ato final mais previsível e voltado a uma lição de moral. Contudo, McGregor realmente convence em seu papel, num momento alto de sua trajetória, conseguindo conciliar a melancolia de seu personagem de Trainspotting 2 com a tentativa de ser alegre, como demonstra em Peixe grande. Ele fornece ao filme uma camada extra de credibilidade, conseguindo interagir com os personagens de um universo paralelo de maneira eficaz e emocionalmente ressonante. Inevitável pensar no quanto esse filme tem em comum com As aventuras de Paddington 2, tanto na gentileza de Pooh e sua tentativa de entender o universo humano quanto na concepção visual curiosamente próxima de uma fábula contemporânea, mesmo não se passando na era moderna. Ele trata intimamente da gentileza e da tentativa de compreender o outro, temas considerados hoje em dia, infelizmente, banais. Talvez por isso Christopher Robin atinja notas tão altas com um repertório que poderia ser, nas mãos de um diretor e elenco comuns, bastante previsível.

Christopher Robin, EUA/ING, 2018 Diretor: Marc Forster Elenco: Ewan McGregor, Hayley Atwell, Jim Cummings, Brad Garrett, Mark Gatiss, Bronte Carmichael, Nick Mohammed, Sophie Okonedo, Sara Sheen, Toby Jones, Peter Capaldi Roteiro: Alex Ross Perry, Tom McCarthy, Allison Schroeder Fotografia:Matthias Koenigswieser Trilha Sonora: Geoff Zanelli, Jon Brion Produção: Brigham Taylor, Kristin Burr Duração: 104 min. Estúdio: Walt Disney Pictures, 2DUX² Distribuidora: Walt Disney Studios Motion Pictures