Halloween (2018)

Por André Dick

Em 1978, John Carpenter, um mestre do terror e do suspense, criou uma das franquias mais exitosas do gênero, com Halloween, tendo à frente a jovem Jamie Lee Curtis e um assassino por trás de uma máscara, Michael Myers. Ele rendeu uma série de sequências, a segunda com o mesmo estilo, assinada por Rick Rosenthal, e a terceira mudando a perspectiva para um tom mais fantasioso. Depois, vinte anos depois, tivemos Halloween H-20 – Vinte anos depois, com a personagem de Curtis de volta, assim como em Halloween – Ressurreição. Já em 2007 e 2009 Rob Zombie fez uma reinicialização da saga contra o psicopata, desta vez com um estilo mais hiperbólico, com violência ao extremo e um excesso de luzes que remetia a um clube noturno.
O novo Halloween se passa quatro décadas depois do que aconteceu na noite enfocada pela obra clássica de John Carpenter. A localidade é a mesma: Haddonfield, Illinois. No entanto, o filme começa com jornalistas, Aaron Korey (Jefferson Hall) e Dana Haines (Rhian Rees), que vão para o Sanatório de Smith Grove tentar entrevistar Michael Myers (Nick Castle sem máscara e James Jude Courtney com), tratado pelo Dr. Ranbir Sartain (Haluk Bilginer), que substituiu o Dr. Samuel Loomis (Donald Pleasence).

Os jornalistas buscam, em seguida, de Laurie Strode (Jamie Lee Curtis), a sobrevivente da chacina de 1978. Sua relação com a família é distante, tendo perdido a guarda de sua filha, Karen Nelson (Green), que se casou com Ray (Toby Huss) e teve a filha Allyson (Andi Matichak). Esta tem como amigos Vicky (Virginia Gardner) e Dave (Milles Robbins) e namora Cameron Elam (Dylan Arnold).
Se a história continua a história de 1978, desconsiderando as continuações, pode-se dizer que o estilo é mais interessante, sob o ponto de vista de movimentação de câmera, o que se deve à presença de David Gordon Green na direção, cineasta de origem indie. Diretor de obras respeitadas (George Washington, Prova de amorContra corrente), Gordon Green nos últimos anos se situou entre comédias desconexas (Sua alteza), retratos de homens comuns (Joe e Príncipes da estrada) e uma análise semidocumental das eleições (Especialista em crise, uma espécie de No com Sandra Bullock), mas voltou a mostrar seu melhor em O que te faz mais forte. Isso inclui diálogos críveis e uma montagem suficientemente atraente para que não esqueçamos da importância de cada personagem e do drama existencial maior que cerca cada pessoa. Seu filme comove do melhor modo e dá a importância adequada aos acontecimentos enfocados.

No entanto, o que o diretor Green faz é muito mais eficaz: ele mostra como um determinado acontecimento lida não apenas com o extremo da pessoa visivelmente atingida por um atentado terrorista, Jeff Bauman (Jake Gyllenhaal), como aqueles familiares que o cercam, do mesmo modo que os amigos próximos. Essa característica se reproduz na maneira que enfoca Laurie Strode, traumatizada por décadas com Michael Myers e que construiu uma casa que parece uma fortaleza contra o crime. Há, sem dúvida, um posicionamento crítico e social na visão de Gordon Green. Aqui, as mulheres resistem ao mal, enquanto os homens, de certo modo, são fracos ou fascinados pela figura do psicopata, ou simplesmente desconsideram a segurança da família (sim, de modo geral, eles são os vilões). Laurie não quer depender da polícia, adquirindo suas próprias armas para defesa, mesmo porque aquela não lhe ofereceu segurança no primeiro filme. O xerife Frank Hawkins, (Will Patton) simplesmente não consegue organizar seus comandados, enquanto pensar muito não parece ser o forte de Dr. Ranbir. A neta de Laurie também, em determinado momento, enfrenta o namorado diante de uma atitude dele, enquanto Dave recua em defender Vicky numa sequência que envolve o menino Julian Morrisey (Jibrail Nantambu), de quem ela é babá, num diálogo direto com o original de Carpenter, aqui um dos colaboradores da antológica trilha sonora.

O roteiro de Jeff Fradley, Danny McBride e David Gordon Green, nesse sentido, é interessante na sua maneira de editar as passagens, sem excessos. A primeira meia hora, principalmente na visita dos jornalistas a Myers no sanatório, é muito bem feita e simbólica. Eles caminham em direção ao criminoso sobre um chão pintado como se fosse um tabuleiro gigante, antecipando as próprias ações a seguir: saber quais personagens escaparão de Myers será o principal. Depois, Laurie observa sua neta Allyson a distância, do lado de fora do colégio, como se fosse um espectro, igual a Myers no original observando os jovens pelas ruas, mostrando seu trauma inabalável. Green mescla o estilo dos anos 70 a uma nova visão de cinema, com destaque para a iluminação dos ambientes, não apenas pelo uso de luzes quanto pela mescla entre o ambiente noturno, entrecortado pelas abóboras iluminadas nas ruas e varandas das casas, e as sirenes dos carros de polícia, influenciado não apenas pelo Carpenter dos anos 70, como por Corrente do mal, de David Robert Mitchell, e Nicolas Winding Refn (além de uma breve homenagem a Sombras da vida, na cena do lençol de fantasma). A elegância de sua direção é essencial para a permanência do gênero de terror nesta releitura, servindo também como sequência, muito digna de um clássico.

Halloween, EUA, 2018 Diretor: David Gordon Green Elenco: Jamie Lee Curtis, Judy Greer, Andi Matichak, Will Patton, Virginia Gardner, Nick Castle Roteiro: Jeff Fradley, Danny McBride, David Gordon Green Fotografia: Michael Simmonds Trilha Sonora: John Carpenter, Cody Carpenter, Daniel Davies Produção: Malek Akkad, Jason Blum, Bill Block Duração: 105 min. Estúdio: Miramax, Blumhouse Productions, Trancas International Films, Rough House Pictures Distribuidora: Universal Pictures