Batman – O cavaleiro das trevas (2008)

Por André Dick

A lembrança deixada pelos dois filmes de Joel Schumacher na franquia iniciada por Tim Burton no final da década de 80 da série Batman manteve todos os interessados pelo personagem consciente de que, numa renovação, era preciso mudar o direcionamento das coisas. Quem o substituiu foi Christopher Nolan, que havia mostrado competência em Amnésia e em Insônia, mas passou a ser visto como cineasta mais popular por meio de Batman begins. Nele, o super-herói que se veste de morcego está de volta a Gotham City depois de uma temporada num mosteiro, onde se aprimorou em artes marciais com um homem perturbado, Henri Ducard (Liam Neeson), que pretende dizimar a civilização decadente com sua Liga das Sombras. Reencontrando a amiga de infância Rachel Dawes (Katie Holmes) e seu melhor amigo, o mordomo Alfred (Michael Caine), ele retoma a empresa do pai, indo contra a vontade de quem já fazia planos de coordená-la (Rutger Hauer), colocando um cientista, Lucius Fox (Morgan Freeman), para ajudá-lo a construir armaduras e armas contra assaltantes, afinal pretende estabelecer a ordem na cidade. Seu amor pela amiga é o ponto romântico do filme.

Ela quer prender os integrantes do crime organizado de Gotham, mas um dos envolvidos vai parar no Asilo Arkham, onde precisa enfrentar o Espantalho (Cillian Murphy), que na verdade é o Dr. Cristopher Crane, cujo tom mais soturno lembra a novela de Batman feita por Frank Miller. Batman – desta vez com mais ajuda do comissário Gordon (na franquia antiga bastante apagado), interpretado pelo ótimo Gary Oldman – enfrentará todos os bandidos e ainda quem volta do passado e deseja impedi-lo de salvar Gotham.
Há cenas muito bem feitas por Nolan (sobretudo aquela em que Batman invade o asilo, a fim de encontrar o Espantalho, com uma atmosfera tensa e pesada), que emprega um ritmo vertiginoso na montagem, embora lhe faltem alguns elementos: a direção de arte da série de Tim Burton (muito mais fantástica e original, sobretudo no design dos veículos utilizados por Batman) e a trilha sonora de Danny Elfman (tão marcante quanto a que John Williams fez para Superman, aqui substituída por uma feita em parceria de Hans Zimmer com James Newton Howard, em tom crescente e efetivo). Ou seja, Nolan tem uma clara opção em situar o personagem sob uma luz mais realista.

De qualquer modo, Batman Begins parece um filme mais na medida exata, sobretudo porque Nolan desenha seus personagens de maneira equivalente com seus objetivos. O elenco, a começar por Christian Bale fazendo Batman, é muito bom, e há diversas sequências memoráveis, mostrando que o personagem merecia um tratamento que não estava recebendo de Joel Schumacher. Sentimos angústia no personagem – a sequência de treinamento nas montanhas é especialmente memorável – e a produção é cuidadosa em todos os seus quesitos.
O segundo filme, Batman – O cavaleiro das trevas, reitera que temos um cineasta com menos imaginação visual do que Burton e uma atenção maior para o realismo das cenas de ação. Numa nova sessão, de qualquer modo, é uma obra que se encontra cada vez mais contemporânea, além de influência direta na maioria dos filmes adaptados de quadrinhos. É visível a influência de Nolan do cineasta Michael Mann, principalmente aquele de Fogo contra fogo e Miami Vice, de alguns anos antes. Parece-nos que é Christian Bale o responsável por tornar o novo Batman em um personagem tão interessante quanto aquele feito por Michael Keaton, com acentos dramáticos funcionais. O não emprego de humor no personagem principal, um super-herói amargurado, talvez deixe a narrativa mais pesada, e isso se reproduz no clima proporcionado pela fotografia belíssima de Wally Pfister, diferenciando-se de suas versões anteriores, mesmo daquela de Burton. Além disso, toda a ambientação de Gotham City, uma mistura entre Nova York e Tóquio, volta a tirar qualquer fantasia da cena de ação: os acontecimentos do início do século XXI estão subentendido pelo roteiro. O vilão aqui é o Coringa (vivido por Heath Ledger, que recebeu um Oscar póstumo merecido de ator coadjuvante), cada vez mais enlouquecido pelas releituras que deram os quadrinhos, tendo à frente Frank Miller, e decisivamente psicopata. O Coringa de Jack Nicholson no Batman de Burton era tão desequilibrado quanto, mas com nuances mais atenuadas e um humor corrosivo às vezes de tom infantojuvenil. Estamos diante de um vilão que coloca não apenas Batman em xeque, como todo o sistema (policial, jurídico) da cidade. Não se pode acreditar em mais ninguém; tudo está sob suspeita. A vida de Wayne se sente vazia, tanto quanto a de Dent em busca de correção.

Ainda mais do que no primeiro filme, neste Nolan tem uma tendência a cenas de ação ininterruptas, o que deixa o espectador quase sem fôlego. A montagem, especialmente, é uma qualidade: parece que, com a rapidez dos diálogos e do corte de cenas, estamos assistindo não a um filme, mas a um trailer, em que o a trilha sonora tensa de Howard e Zimmer quase não se ausenta, sendo interrompida apenas num ato final um pouco mais expositivo do que o restante.
Algumas das peças cinematográficas de Nolan têm mais de um final, e este tem pelo menos três, no entanto quando consegue conectar tudo é um diretor de talento, mais preciso do que Burton para cenas de ação e visões ameaçadoras da realidade. Seu Batman é um super-herói endurecido pela realidade de Gotham, e o que ele faz não se diferencia em nada dos policiais que vemos em filmes e séries, sobretudo na cena em que tenta interrogar o Coringa. Há nessas sequências, também, uma referência à tortura de terroristas, bem enfocada em A hora mais escura, alguns anos depois, por Kathryn Bigelow. Quando ele confia em Harvey Dent (Aaron Eckhart, apropriado para o papel depois de boas atuações, em Obrigado por fumar, por exemplo) para limpar Gotham, o faz com a mesma noção política que faz mover o prefeito e o Comissário Gordon. Porém, quando se depara com o que irá acontecer a Dent e sua amada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes), que é namorada de Dent, parece voltar atrás, como agiria um policial. O dilema aqui ultrapassa a tendência romântica do super-herói e chega a um ponto em que não consegue mais controlar sua tendência de buscar a todo custo coibir que o crime tome conte de sua cidade.

Assim, Batman tem receio de Gotham ser dominada por traficantes, e de haver um adversário justamente como o Coringa, que ateia fogo a uma pilha gigantesca de dinheiro, com o empenho apenas de destruir. Por exemplo, a cena do hospital é grandiosa e por isso perturbadora, mesmo que saibamos se tratar de uma ficção, e suas curvas pelas ruas de Gotham a bordo do carro da polícia deixam o espectador impactado, como se fosse um pouco verdade, tal a neutralidade e frieza com que Nolan filma essas imagens, querendo cada vez mais ver Gotham City em apuros. São momentos em que o gênero de filme de super-heróis se mescla ao thriller urbano. Ao contrário de Batman begins, que preferia mostrar becos enfumaçados e muita chuva, O cavaleiro das trevas prefere a simetria de arranha-céus e esconderijos tecnológicos, além de uma noite asséptica, com grandes avenidas vazias.
Se não há mais a dupla personalidade dada com mais ênfase por Burton, sobretudo em Batman – O retorno, Nolan consegue estabelecer os personagens como figuras mais próximas do espectador, como o próprio Alfred ou o cientista Lucius Fox. Há várias obras coladas nesta peça sonora e visualmente interessante: a viagem de Batman para capturar um criminoso em Tóquio é uma; a de Dent é outra; a dos barcos ao final, outra. Até que eles formam um conjunto, que toma como fundo a transformação da sociedade, seja com sua horda de gângsteres terroristas, seja com um tom até mesmo otimista diante de tudo. Nolan também está interessado em Batman como alguém que vigia a todos por meio de celulares, antecipando uma era moderna, e constantemente perturbado por um passado que não consegue resolver. Talvez seja ainda aquele filme de super-heróis que conseguiu estabelecer um vínculo direto com a realidade e mesmo por isso fez tamanho sucesso. Seu roteiro responde por vários pontos, inclusive pelo talento de Nolan em transformar o que seria menos respeitoso em algo com certo tamanho irrestrito.

The dark knight, EUA/Reino Unido, 2008 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Christian Bale, Michael Caine, Heath Ledger, Maggie Gyllenhaal, Gary Oldman, Aaron Eckhart, Morgan Freeman, Eric Roberts, Anthony Michael Hall, Nestor Carbonell, Melinda McGraw, William Fichtner, Nathan Gamble Roteiro: Jonathan Nolan, Christopher Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: James Newton Howard, Hans Zimmer Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas, Lorne Orleans Duração: 152 min. Estúdio: Legendary Pictures, Syncopy Films, DC Comics Estúdio: Warner Bros. Pictures

Lucy (2014)

Por André Dick

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É cada vez mais difícil encontrar filmes que conseguem mesclar uma pretensa realidade com toques de ficção científica e extraordinário. Neste ano, tivemos Sob a pele, com Scarlett Johansson, ficção bastante elogiada e com cenários estranhos, ligados ao interior da Escócia, permeados por uma sensação solitária, de afastamento da Terra – e o visual nunca chegava a combinar diretamente com a narrativa. Tendo no elenco a mesma Scarlett, Luc Besson fez este Lucy. Bastante conhecido desde os anos 80, quando fez o cult movie Subway, com Cristophe Lambert (um dos produtores de Lucy) e Isabelle Adjani, Besson se consagrou principalmente no início dos anos 90, quando realizou O profissional, um belo thriller com Jean Reno, Gary Oldman (no papel de um vilão assustador) e a revelação Natalie Portman. Mas alguns anos ele já realizado um filme com nível parecido, Nikita, sobre uma agente assassina e com passado obscuro. Nesses filmes, Besson mudava totalmente seu estilo mais contemplativo de seus experimentos iniciais, o referido Subway e Imensidão azul. Ainda nesta década, em 1997, ele realizou a ficção científica mais cara já feita na Europa, O quinto elemento, protagonizado por Bruce Willis e Milla Jovovich, trazendo uma direção de arte bastante interessante. Ainda com Milla Jovovich, ele compôs o grandioso Joana D’Arc, mas algo em seu cinema havia se perdido, o que se constatou na primeira década deste século.
O ritmo angustiante de O profissional pode ser percebido na primeira meia hora de Lucy, quando a personagem-título é levada por um namorado recente, Richard (Pilou Asbæk), a entregar uma pasta num hotel direcionada a um determinado Sr. Jang (Choi Min-sik). Levando-se em conta que ela está em Taipé, Taiwan para estudar e seu novo namorado é um cowboy com certo ar psicodélico, isso não é um bom sinal. Em poucos minutos, o plano não tem o melhor resultado, e Lucy é conduzida a um mundo desconhecido, do qual não conseguirá libertar tão cedo, mesmo porque precisa carregar dentro de si alguns pacotes com uma fórmula experimental capaz de alterar não apenas o comportamento, como a força e a inteligência. Nessa primeira meia hora, bastante audaciosa no sentido do ritmo e da montagem, a presença de Lucy é alternada com um discurso do cientista e professor Samuel Norman (Morgan Freeman, depois de Transcendence sempre envolvido com inteligências fora do habitual), tratando da inteligência humana, além de se criar uma analogia entre a situação dela e a de animais na natureza.

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Essas sequências têm uma beleza visual própria ao melhor cinema de Besson e parecem reservar algo grande. O que vem daí por diante, no entanto, muito possivelmente não compreenda as melhores características do cinema de Besson – aquelas dos anos 80 e 90 –, principalmente porque Scarlett Johansson, a princípio numa bela atuação, mostrando a angústia de se encontrar numa situação sem saída aparente, não consegue tornar o roteiro verossímil. Que Lucy tenha comparações com A árvore da vida e 2001 parece muito mais por brincadeira do que realmente ter algo para dizer de substancial. Avaliar que há um elemento divertido nessas comparações diz muito mais do roteiro problemático do que sua qualidade, tanto que Lucy, um sucesso de bilheteria incomum (mas não podemos esquecer que este ano Godzilla também o foi), foi recebido com certo ânimo não emprestado a filmes significativamente melhores. Há quem diga que se trata de uma “porcaria muito divertida”, seja lá o que isto quer dizer.
Em que pese a grandiosidade pretendida por Lucy, o filme vai se revelando, no seu encadeamento, numa enigmática decepção, pelos envolvidos e pelo inesperado caráter de obra realizada com certo descompromisso no mau sentido, uma espécie de filme B sem autoconsciência (e o diretor avaliar, numa entrevista, que mescla O profissional, A origem e 2001 não ajuda em sua simplicidade nem sugere que ele tenha consciência sobre o que filmou). Às vezes, a dúvida seria se a contagem colocada ao longo da história não deveria ser regressiva, simbolizando talvez o esgotamento da paciência do espectador diante da sucessão de acontecimentos imprevisíveis. Ou seja, Lucy reserva uma camada de leveza em sua temática – quando a personagem, por exemplo, precisa enfrentar seus poderes –, mas logo isso é esquecido no sentido de se buscar algo como o Neo de Matrix (e Besson utiliza a câmera tecnológica usada por David Fincher principalmente em Clube da lutaO quarto do pânico). Enquanto vemos a transformação de Lucy, vemos o filme se transformar também numa grande bagunça.

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Besson possui características que apontam como um cineasta de linha de montagem, mas Nikita e O profissional eram filmes muito bem feitos e pensados, e se O quinto elemento não justificava sua ambição de ser uma ficção científica de ponta, pelo menos conduzia sua narrativa a momentos de diversão interessantes. Sua predileção por figuras femininas à frente de seu cinema sempre foi motivo para descobrirmos personalidades interessantes e complexas. No entanto, em Lucy, Besson não consegue, nesse meio tempo, costurar os personagens, todos desenvolvidos num plano superficial e também por causa da metragem reduzida. Veja-se, por exemplo, o policial Amr Waked (Pierre Del Rio), que surge em determinado momento e não estabelece nenhuma ligação entre o que vem antes e depois, a não ser para lembrar que Besson nasceu em Paris (sendo que é visto com muitas reservas na França por ter feito parte de sua carreira dentro da indústria de cinema dos Estados Unidos) e a recepção desconfiada do cientista à existência de Lucy, que nem Freeman, com sua habitual competência, consegue justificar o suficiente. Johansson mostra um potencial subaproveitado, como em Sob a pele, não conseguindo ainda alcançar com plenitude o desempenho que teve com a voz em Ela. A impressão é que Besson quis fazer uma narrativa extremamente sintética, aliviada por cenas de lutas e perseguições de carros, mas que não combina com sua tentativa de discussão científica e mesmo filosófica, relacionada a conceitos, que exigiriam maior atenção. Desse modo, mesmo trazendo belas imagens algumas vezes, o filme não consegue transpirar confiança no que está tentando elaborar. Diante de críticas a Transcendence, por exemplo, este ano, Lucy se descobre este sim como aquilo que, segundo certo consenso, Transcendence seria: uma história capaz de atrair o espectador, mas não tem o impacto necessário para fazê-lo confiar no que está vendo.

Lucy, EUA/FRA, 2014 Diretor: Luc Besson Elenco: Scarlett Johansson, Morgan Freeman, Choi Min-sik, Amr Waked, Julian Rhind-Tutt, Pilou Asbæk Roteiro: Luc Besson Fotografia: Thierry Arbogast Trilha Sonora: Eric Serra Produção: Christophe Lambert, Luc Besson, Virginie Silla Duração: 89 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Universal Pictures

1 estrela e  meia

 

Transcendence – A revolução (2014)

Por André Dick

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Quando foi anunciada a estreia de Wally Pfister, diretor de fotografia dos filmes de Cristopher Nolan, com Johnny Depp, à frente de uma grande produção, logo se criou uma grande expectativa. Talvez seja esta mesma expectativa que tenha feito o estúdio colocar Transcendence – A revolução um pouco antes das estreias de verão, como se fosse um blockbuster destinado a arrecadar milhões. Com grande prejuízo nas bilheterias e um rastro de críticas em parte bastante negativas, o filme de Pfister não conseguiu criar uma empatia direta, mesmo com seu elenco: além de Depp, Morgan Freeman e Rebecca Hall, para citar apenas os principais. Filmes de ficção científica com fundo filosófico dificilmente conseguem, de qualquer modo, atrair uma grande bilheteria, independente de seus objetivos: é quando a ficção se mescla com cenas de movimento contínuo que o gênero costuma crescer em todos os sentidos – e se tiver espaçonaves e batalhas espaciais quanto mais melhor. E é importante não esquecer: Godzilla foi um grande sucesso de bilheteria e mesmo elogiado por grande parte da crítica estrangeira, mesmo sendo o filme que, de fato, é.
Daí não ser uma surpresa que Transcendence tenha sido recebido com tanta desconfiança, além, claro, de que sua história não estava interessada em puxar os elementos mostrados para o lado espetacular da questão, preferindo se manter com uma certa reserva e um certo tom de onirismo ao longo de sua narrativa. Esta mostra um cientista, Will Caster (Johnny Deep), casado com Evelyn (Rebecca Hall), que, quando está fazendo uma palestra sobre a inteligência artificial, descobre a existência do grupo Revolutionary Independence From Technology (RITF). Ao mesmo tempo, há a presença do agente do FBI Donald Buchanan (Cillian Murphy), acompanhado do cientista do governo Joseph Tagger (Morgan Freeman), investigando a história. Caster tem o objetivo de retornar de maneira a princípio inacreditável: ele tenta transferir sua consciência para um computador. Tendo o apoio da mulher, mas a desconfiança de seu melhor amigo, Max Waters (Paul Bettany), Caster tentará se tornar uma espécie de humano habitando um sistema de informática, quase uma versão masculina do Ela de Spike Jonze.

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Enquanto isso, Max é perseguido por  Bree (Kate Mara), o líder do RIFT, e, na medida em que terá de se decidir em trair Caster ou segui-lo, e do mesmo modo continuar fiel à imagem de sua amiga, Max se tornará um personagem deslocado pelos acontecimentos.
Caster quer ainda mais: criar no deserto um lugar em que as pessoas possam ir se tratar, com ganhos envolvendo a a biologia, a tecnologia e as nanotecnologias. Estão aí todos os elementos de uma ficção científica de interesse, e Pfister os trabalha com cuidado. No início, dispondo os personagens em cena, já é possível sentir uma certa atmosfera melancólica, inusitada neste tipo de filme. Os personagens estão em contato uns com os outros, mas ao mesmo tempo parece haver um afastamento.  E, se a trama oferece a impressão de andar lenta demais, é mais porque Transcendence, embora pareça, não segue o ritmo da maioria dos blockbusters, preferindo se concentrar na relação entre Caster e Evelyn. Esta é baseada no conhecimento científico e nas descobertas, mas não consegue nunca ganhar corpo porque ambos os personagens se situam e se comportam como pessoas deslocadas. Na verdade, eles parecem sempre estar em sonhos ou transições de energia, como o da internet, nunca em lugares fixos ou determinados. O quarto de Caster e Evelyn, por exemplo, é um exemplo de lugar que aparenta ser acolhedor, mas esconde os conflitos do casal deixados em vida. O fato de se fazer o upload da consciência de Caster para um computador não significa, para Evelyn, que ele de fato exista, mas que pode ser ameaçador e dominador como a rede da internet em que ele pretende sobreviver e se espalhar.
Não é por acaso, neste sentido, que Transcendence, a partir de sua segunda metade, prefira mostrar a tentativa de Caster criar uma comunidade no meio do deserto, na cidadezinha de Brightwood. As imagens de Transcendence neste deserto são ao mesmo tempo vagarosas e contemplativas, sugerindo um espaço-tempo indefinido e lembram as do início do filme 2010 – O ano em que faremos contato, quando o sol está nascendo em frente a placas de energia solar. A direção de arte do filme de Hyams tem semelhanças com a do filme de Pfister, sendo que esta é ainda mais elaborada e evoca sempre um sentimento de solidão e afastamento do mundo. O cenário dialoga com a tentativa de Caster é soar como um deus capaz de regenerar – ou de transcender, conforme o título – toda a humanidade à sua volta. Como Caster, Depp está num limite tênue entre a apatia e a frieza tecnológica, mas talvez seja uma necessidade de não soar como seus personagens ligados aos filmes de fantasia, enquanto Hall demonstra o talento já mostrado em outros filmes, compondo uma mulher situada entre o mundo experimental e a preocupação de lidar com algo que pode fugir ao controle.

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Dentro do que se propõe, ele cumpre o que Pfister organiza com a lentidão de sua narrativa, sem nenhum momento estridente de ação no sentido em que o cinema vem se moldando nos últimos anos. Embora haja elementos de filmes de Nolan, sobretudo de A origem, sobretudo numa certa confluência entre a bela trilha sonora de Mychael Danna (As aventuras de Pi), fotografia de Jesse Hall (The spectacular now) e diálogos, fazendo com que esses soem o tempo todo dispersos ou vagando pelo espaço pelo qual a narrativa se move, os personagens parecem estar sempre conversando com computadores, como se a consciência humana tivesse sido deslocada para esse compartimento, e há imagens de grande sensibilidade, sobretudo quando mostra o corpo como uma coleção de partículas, em contraste com as tormentas que surgem. Transcendence consegue muito mais empregar uma elegância por meio de seu trabalho de fotografia e diálogos breves e soltos, com o apuro de uma montagem não linear, mas que ao longo da narrativa se torna mais confusa e mais evocativa. É interessante como Pfister, por exemplo, mostra os ambientes da universidade, de maneira asséptica, e dos laboratórios e corredores em que Caster passa a trabalhar com as nanotecnologias com a mesma luminosidade de Apichatpong Weerasethakul em Síndromes e um século, assim como é compreensível que o início do filme antecipe o seu final, como uma rede ligada a outra, em que os pontos devem se conectar. Mais ainda é a maneira como Pfister filma, no início, uma gota-d’água num lugar-chave para o casal – e essa gota antecipará a verdadeira transcendência, numa imagem sobretudo elaborada, fixando-se também na semelhança com o campo de placas de energia em Brightwood, que lembram girassóis voltados para o céu. Pfister certamente não está conduzindo a humanidade, em seu filme, a uma fuga dos compromissos modernos e contemporâneos por meio dos computadores, mas vendo a base desse sentimento pela consciência artificial. Neste sentido, Transcendence é um filme que, mais do que pontos bastante interessantes a serem discutidos, foge a qualquer traço de simples filme comercial, daí sua maior originalidade e aquilo que equivale a seu título.

Transcendence, EUA, 2014 Diretor: Wally Pfister Elenco: Johnny Depp, Morgan Freeman, Rebecca Hall, Paul Bettany, Kate Mara, Cillian Murphy, Cole Hauser, Clifton Collins Jr. Roteiro: Jack Paglen Fotografia: Jess Hall Trilha Sonora: Mychael Danna Produção: Andrew A. Kosove, Annie Marter, Broderick Johnson, Kate Cohen, Marisa Polvino Duração: 119 min. Estúdio: Alcon Entertainment / Straight Up Films

Cotação 4 estrelas

 

Uma aventura LEGO (2014)

Por André Dick

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Nos últimos anos, Wes Anderson está acostumado a tomar como base o universo de Roald Dahl para suas histórias, principalmente no reino do stop-motion em que figura O fantástico Sr. Raposo, ao mesmo tempo em que a série Toy Story definiu a cultura dos brinquedos em movimento. Em meio a isso, mesmo o personagem de um jogo, Ralph, se revolta contra sua sina de figurar sempre como vilão, e tenta fugir ao lugar-comum. Brinquedos ou aquilo que os suscita nunca estiveram distantes das cifras e da imaginação infantil, e se vierem em 3D poderão garantir ainda mais entretenimento. Não demoraria, diante deste panorama, que se tivesse a ideia para uma própria marca de brinquedos tivesse o seu filme e, com o auxílio fundamental da Warner Bros, ela se materializou com Uma aventura LEGO, que no início deste ano superou nas bilheterias o favorito Caçadores de obras-primas, de George Clooney, e coloca o stop-motion como o seu principal trunfo, assim como em Sr. Raposo, de Anderson, constituindo-se num exemplo para futuras incursões na área. O intuito do filme, depois de sua primeira meia hora, é homenagear a cultura pop, sobretudo aquela que surge dos quadrinhos e do cinema. Mas, até certo ponto, é essa cultura que acaba criando força sobretudo junto às crianças, conseguindo fazer com que elas consigam estabelecer um diálogo entre a tecnologia em que já são inseridas desde cedo e as peças nostálgicas que lembram mais a imaginação colocada em verdadeira prova.
O início de Uma aventura LEGO parece uma homenagem a O senhor dos anéis e Star Wars, mas depois que o roteiro se fixa na figura de Emmett, o filme parece destinado mais a ser uma homenagem, em diversos tempos, à série Matrix. Emmet Brickowoski (Chris Pratt) é recebido como uma espécie de predestinado a salvar o universo ameaçado por Lord Business (com a voz de Will Ferrell), que pretende neutralizar a liberdade da criação com a descoberta de um certo Kragle.

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Depois de uma passagem por seu local de emprego – e brinquedos podem não parar de cantar por 5 horas, sobretudo se for a canção “Tudo é possível” –, ele acaba caindo numa rede de aventuras, quando Emmett conhece a Wildsyle (Elizabeth Banks), e um mago, Vitruivius (com toda a carga de sabedoria para um nome de origem latina, embora com conhecimento suficiente na área em que Emmett deve atuar), que lembra Gandalf e Obi Wan-Kenobi, com algumas mensagens que poderiam soar como as deYoda, não fosse a voz de Morgan Freeman. Atrás deles, vem o policial Good Cop/Bad Cop, ou seja, com duas faces (a boa e a ruim), uma espécie de Gollum com distintivo e com voz de Liam Neeson. Ao trio se junta Batman (Will Arnett), namorado de Wildstyle. Depois de Burton e Nolan, não surpreende que o Batman aqui só queira trabalhar com peças de montagem escuras ou cinzas e em determinado momento pode até mesmo conhecer Han Solo, Lando Calrissian e Chewbacca (num anúncio prévio para o novo filme da franquia de J.J. Abrams), reproduzindo, inclusive, uma imagem icônica de O império contra-ataca que envolve a Millenium Falcon.
Todo o filme é desenhado num fluxo de visitação a alguma fábrica da Lego ou de estúdios alternando cenários para que os personagens passem em movimento contínuo, e não estaria dizendo a verdade se não admitisse que os bonecos lembraram de quando a infância reservava sempre um tempo para a imaginação – principalmente na passagem de Uma aventura LEGO pelo velho oeste, influenciada pelo gênero do faroeste, tão em voga entre os anos 50 e 70, com um certo clima do Rango de Verbinski, mas sem esquecer por sua evolução em meio aos piratas da Middle Zealand, em que se evoca a franquia também da parceria Johnny Depp e Verbinski, Piratas do Caribe. Essas mudanças repentinas de lugar podem dialogar não apenas com o universo Lego, mas com A história do mundo (de Mel Brooks) e O sentido da vida (do grupo Monty Phyton), com a diferença de que aqui a história da humanidade se desenha com um fluxo de homenagens de vertente pop, com a colaboração das vozes dos atores para oferecer mais humanidade a todo o cenário, que em alguns momentos pode lembrar também os espaços de Tron, sobretudo na alternância entre mundos, ainda mais clara ao final. Tudo é acelerado, como se fosse parte de uma mente que, cansada de um lugar, se transporta imediatamente para outro, e o aspecto frenético pode ser uma influência clara de Edgar Wright, que fez Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, principalmente no modo que é feito a transição de uma cena para outra – quando, se a gag visual ou verbal não funciona, logo é coberta por outra, capaz de fazer esquecer a anterior, que não teria dado certo (também poderia se imaginar o personagem de Emett com a voz de Michael Cera).

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Com uma agilidade grande na composição de peças, o filme não interrompe sua sucessão de imagens e efeitos plásticos, com uma sobreposição constante de cores fortes, não se permitindo a intervalos, e há referências a muitos filmes, mas também porque surgem, em diferentes momentos, Lanterna Verde (Jonah Hill) e Superman (Channing Tattum) – numa homenagem aos heróis da DC Comics, da Warner Bros. Parte do imaginário infantil está retratado no filme, e o herói faz parte das unidades que seguem todas as regras, com uma desenvoltura incomum para a sua construção diária de prédios. No entanto, o que Uma aventura LEGO propõe é que a imaginação terá de ser mais forte para compensar a existência deste universo, e o personagem Emmet acaba sendo o ponto-chave para o êxito: os criadores do filme conseguiram torná-lo num brinquedo com sensações críveis ligadas tanto à sua insegurança quanto ao romantismo que reserva pela rebelde Wildstyle (nisso, a voz de Chris Pratt colabora para que isso aconteça). Neste sentido, ele dialoga diretamente com um dos clássicos infantis da década de 80, A história sem fim, em que o personagem, trancado num sótão de colégio, se permitia viajar com sua imaginação pela Terra de Fantasia, com as figuras mais interessantes. É certamente o poder da imaginação que faz com que Uma aventura LEGO não se torne um encaixe desvariado de peças, mas de fato um filme que questiona até que ponto essa mesma cultura pop permite uma criação de seu próprio mundo, individual. Embora ele não consiga atingir o grau de emoção que envolve os personagens de A história sem fim, não é por falta de tentativa, de forma mais destacada em seu final, quando o humor é atenuado em prol até de uma mensagem. Possivelmente, a sua crítica corrosiva ao imaginário pré-concebido seja dirigido aos próprios criadores do brinquedo Lego – mas sem a mesma contundência, pois se trata, claro, também de uma homenagem à empresa. No entanto, é por meio desse imaginário pré-concebido que pode surgir exatamente o possível caminho de Emett, que é construir suas peças distante do manual que antecipa o que deve ser feito. Uma aventura LEGO tenta fazer o mesmo com o espectador, e este pode estar disposto ou não a aceitar a diversão oferecida.

The Lego movie, EUA, 2014 Diretores: Christopher Miller, Phil Lord Elenco: Chris Pratt, Will Ferrell, Elizabeth Banks, Will Arnett, Nick Offerman, Alison Brie, Morgan Freeman, Charlie Day, Liam Neeson Roteiro: Christopher Miller, Dan Hageman, Kevin Hageman, Phil Lord Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Produção: Dan Lin, Roy Lee, Stephen Gilchrist Duração: 104 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Animal Logic / LEGO / Lin Pictures / Warner Bros. Pictures  

Cotação 3 estrelas

Oblivion (2013)

Por André Dick

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Tom Cruise é um dos melhores atores de sua geração, como provam suas atuações em Nascido em 4 de julho, Rain man e Magnólia. No gênero de ficção científica, havia feito dois filmes marcantes com Spielberg, Minority Report e Guerra dos Mundos, mesmo com sua irregularidade. Por isso, com Oblivion, havia a expectativa de um filme pelo menos original. Desta vez, ele faz uma parceria com Joseph Kosinski, que coescreveu os quadrinhos em que o filme se baseia, diretor de Tron – O legado, habituado aos efeitos especiais, mas cuja sensibilidade tem dificuldade de ir além daquele universo que até agora retratou: o eletrônico e o robótico. Uma qualidade sua é que costuma se cercar de técnicos talentosos, e não é diferente aqui. A fotografia é de Claudio Miranda (que  ganhou o Oscar deste ano com As aventuras de Pi), o designer de produção de Darren Gilford (o mesmo do seu filme de estreia) tem algumas boas alternativas, embora, na maior parte do tempo, lembre outros filmes de futuro desolador, como o recente Prometheus, e a trilha da banda francesa M83 consegue manter certo ritmo com sintetizadores, fazendo o que o Daft Punk fez em Tron – O legado. E, na produção, temos até mesmo o nome de David Fincher (diretor de Seven e Millennium).

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Jack Harper (Cruise) se encontra em 2077 naquilo que sobrou da Terra, com Vika (Andrea Riseborough, transmitindo certa emoção, apesar de sua aparência glacial), tendo de cuidar de robôs de combate, os drones, que ajudam a proteger estações de água, produtoras de energia, e a controlar os alienígenas saqueadores, os quais destruíram a Lua e tentaram exterminar os humanos. Eles precisam cumprir essa missão de vigiar antes de irem para uma das luas de Saturno, para onde foram os humanos que restaram. Supervisionados diariamente por Sally (Melissa Leo), eles vivem numa espécie de purgatório em meio a nuvens, sobre a terra devastada por terremotos e tsunamis (um bom momento é quando Kosinski focaliza as ruínas de uma arquibancada de estádio em em meio às lembranças de Harper) e a única ligação estabelecida é aquela que envolve o conceito de equipe e, se há algum jogador prestes a desistir do time, pode ser sumariamente cobrado.
No entanto, Harper tem lembranças recorrentes do período pré-apocalíptico, todas com uma mulher (Olga Kurylenko) no alto do Empire State, que imagina se irá encontrar em determinado momento, e é obcecado por livros e pelo poema “The Lays of Ancient Rome”, de Thomas Macaulay. Esta primeira parte tem os momentos mais interessantes de Oblivion, e ele consegue se sustentar com razoável progressão até em torno de 50 minutos, mesmo sendo basicamente centrado na relação entre Jack e Vika. Quando ingressa o personagem de Morgan Freeman, um ator marcante quando tem um papel à altura, o filme, de forma surpreendente, cai de qualidade, e os diálogos, até então presentes mais em conversas de averiguação de área, mantendo certo suspense, tornam-se mais deslocados, sem estabelecer conexão entre as partes. Os novos personagens se estabelecem com dificuldade, devido à pouca sutileza do diretor, e começa a existir um salto de cena para cena, como se a cada momento iniciasse um novo filme, e, se o anterior já não satisfazia, o incômodo passa a ser presente. Nem mesmo o tom esperançoso e ecológico em algumas partes anima a trama.
Há uma compilação estranha de referências, e sabe-se que é difícil obter originalidade no cinema contemporâneo. Mas um filme como Oblivion, que mistura um excesso de filmes, partindo, inclusive, de imagens oferecidas por eles, desde O vingador do futuro e O exterminador do futuro, passando por Matrix e Eu sou a lenda, até Independence day e 2001 (procurando colocar robôs com luzes idênticas ao HAL 9000 e um gráfico final cuja pretensão equivale à do roteiro), parece indicar uma dificuldade ostensiva em dizer algo minimamente novo. Com poucas cenas de ação, a limitação fica mais evidente. Tom Cruise também anda de moto, evocando Top Gun, finge estar num estádio de beisebol com um boné, menção a Questão de honra, e procura resquícios de plantas (como uma espécie de Wall-E). Você vai encontrar muitos outros filmes aqui, e os spoilers irão proliferar dentro do próprio filme, antes da próxima sequência. É interessante, nesse sentido, que o roteiro tenha a colaboração de Michael Arndt (autor do divertido Pequena miss Sunshine), a quem coube a corajosa versão final.

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Em Encontro explosivo, sabíamos que Tom Cruise satirizava a si mesmo como Ethan Hunt; em Oblivion, a sátira não é evidente e a pretensão parece sintetizar a ficção científica dos últimos 40 anos, com uma homenagem ininterrupta durante suas duas horas, a última especialmente cansativa. Na parte final, quando o roteiro poderia apontar questões inusitadas e mesmo metafísicas para explicar as longas exposições do filme, parece se perder. É aí que apontam as principais falhas de Kosinski: ele não chega a ser um cineasta formado. É como se ele tentasse ainda esboçar ideias, mas elas só conseguissem alguma sustentação com orçamentos milionários, dedicado mais a compor histórias em que a humanidade é, particularmente, um detalhe, ou um acidente de percurso. A questão é que Oblivion persegue o sucesso e a aceitação a qualquer custo, sem sair por um segundo sequer do programa. Como filme, pode ser assistível; como cinema, é difícil saber o que acrescenta.

Oblivion, EUA, 2013 Diretor: Joseph Kosinski Elenco: Tom Cruise, Morgan Freeman, Nikolaj Coster-Waldau, Olga Kurylenko, Nikolaj Coster-Waldau, Zoe Bell, Melissa Leo, Andrea Riseborough, James Rawlings Produção: Joseph Kosinski, David Fincher, Peter Chernin, Ryan Kavanaugh, Dylan Clark, Barry Levine Roteiro: Joseph Kosinski, William Monahan, Michael Arndt, Karl Gajdusek Fotografia: Claudio Miranda Trilha Sonora: M83 Duração: 124 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: Chernin Entertainment / Universal Pictures / Radical Pictures / Ironhead Studios

2  estrelas

Batman – O cavaleiro das trevas ressurge (2012)

Por André Dick

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A lembrança deixada pelos dois filmes de Joel Schumacher na franquia iniciada por Tim Burton no final da década de 80 da série Batman manteve todos os interessados pelo personagem consciente de que, numa renovação, era preciso mudar o direcionamento das coisas. Quem o substituiu foi Christopher Nolan, que havia mostrado certa competência em Amnésia e um policial fraco em Insônia. Depois dos dois Batman e do irregular (e, a meu ver, monótono) A origem, ele regressou com Batman – O cavaleiro das trevas ressurge. Mas seria interessante rever o que ele apresentou nos dois primeiros.
Em Batman begins, o herói que se veste de morcego está de volta a Gotham City depois de uma temporada num mosteiro, onde se aprimorou em artes marciais com um homem perturbado, Henri Ducard (o antipático, por isso perfeito para o papel, Liam Neeson), que pretende limpar a terra de assaltantes com sua Liga das Sombras. Reencontrando a amiga de infância Rachel Dawes (Katie Holmes) e seu melhor amigo, o mordomo Alfred (o ótimo Michael Caine), ele retoma a empresa do pai, indo contra a vontade de quem já fazia planos de coordená-la (Rutger Hauer), colocando um cientista, Lucius Fox (Morgan Freeman, sempre eficiente), para ajudá-lo a construir armaduras e armas contra assaltantes, afinal pretende estabelecer a ordem na cidade. Seu amor pela amiga é o ponto romântico do filme. Ela quer prender os piores bandidos na cadeia, mas um dos envolvidos vai parar no Asilo Arkham, onde precisa enfrentar o Espantalho (Cillian Murphy, extremamente estranho e adequado para o papel), que na verdade é o Dr. Cristopher Crane, cujo tom mais soturno lembra a novela de Batman feita por Frank Miller. Batman – desta vez com mais ajuda do comissário Gordon (na franquia antiga bastante apagado), interpretado pelo ótimo Gary Oldman – enfrentará todos os bandidos e ainda quem volta do passado e deseja impedi-lo de salvar Gotham.
Há cenas muito bem feitas por Nolan (sobretudo aquela em que Batman invade o asilo, a fim de encontrar o Espantalho, com uma atmosfera tensa e pesada), que emprega um ritmo vertiginoso na montagem, embora lhe faltem alguns elementos: a direção de arte da série de Tim Burton (muito mais fantástica e original, sobretudo no design dos veículos utilizados por Batman), a trilha sonora de Danny Elfman (tão marcante quanto a que John Williams fez para Superman, aqui substituída por uma feita em parceria de Hans Zimmer com James Newton Howard) e o figurino original (bem mais criativo do que aqui, basicamente uma reprodução do dia a dia). Ou seja, Nolan tem uma dificuldade clara em situar o personagem num universo fantástico, preferindo colocá-los à luz natural. Mesmo a maneira como revela o surgimento do herói é menos fantasiosa.
De qualquer modo, este Batman Begins parece um filme mais na medida exata, sobretudo porque Nolan, aqui, não é ainda tão maneirista. O elenco, a começar por Christian Bale fazendo Batman (o oposto de Michael Keaton, embora este tivesse qualidade, vencendo suas limitações), é muito bom, e há diversas sequências memoráveis, mostrando que o personagem merecia um tratamento que não estava recebendo de Joel Schumacher (os filmes que dirigiu, Batman eternamente e Batman e Robin são os mais fracos das franquias). Sentimos angústia no personagem – a sequência de treinamento nas montanhas é especialmente memorável – e a produção é extremamente cuidada.

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O segundo filme, Batman – O cavaleiro das trevas, reitera que temos um cineasta com menos imaginação do que Burton e uma atenção maior para o realismo das cenas de ação. Parece-nos que é Christian Bale o responsável por tornar o novo Batman em um personagem tão interessante quanto aquele feito por Michael Keaton. O não emprego de humor no personagem principal, um herói amargurado, talvez deixe o filme mais pesado. Além disso, toda a ambientação de Gotham City, uma mistura entre Nova York e Tóquio, volta a tirar qualquer fantasia da cena de ação. O vilão aqui é o Coringa (vivido por Hutch Ledger, que recebeu um Oscar póstumo de ator coadjuvante), cada vez mais enlouquecido pelas releituras que deram os quadrinhos (sobretudo de Frank Miller) e decisivamente psicopata (o de Jack Nicholson era um brincalhão perigoso).
Ainda mais do que no primeiro filme, neste Nolan tem uma tendência a cenas de ação ininterruptas, o que deixa o espectador excessivamente sem fôlego. A montagem, especialmente, é uma qualidade: parece que, com a rapidez dos diálogos e do corte de cenas, estamos assistindo não a um filme, mas a um trailer, em que o som não se ausenta por um minuto sequer – mas mesmo alguns trailers cansam.
Alguns de seus filmes têm o defeito de durarem uns 30 minutos a mais (como Insônia e A origem), e este tem pelo menos três finais, mas quando consegue conectar tudo é um diretor de talento, mais preciso do que Burton para cenas de ação e visões ameaçadoras da realidade. De qualquer modo, não mais poético: o Batman, aqui, é um herói endurecido pela realidade, e o que ele faz não se diferencia em nada dos policiais que vemos em filmes e séries (sobretudo na cena em que tenta interrogar o Coringa), o que reduz um tanto a complexidade do personagem. Quando ele confia em Harvey Dent (Aaron Eckhart, apropriado para o papel depois de boas atuações, em Obrigado por fumar, por exemplo) para limpar Gotham, o faz com a mesma noção política que faz mover o prefeito e o Comissário Gordon. Mas, quando se depara com o que irá acontecer a Dent e sua amada, Rachel Dawes (Maggie Gyllenhaal, substituindo Katie Holmes), que é namorada de Dent, parece voltar atrás, como agiria um policial. Assim, Batman tem receio de Gotham ser dominada por traficantes, e de haver um adversário justamente como o Coringa, que coloca fogo em dinheiro, isto é, não tem nenhum senso de ganância material, apenas o empenho de destruir (por exemplo, na cena do hospital, grandiosa e por isso perturbadora, mesmo que saibamos se tratar de um filme) e suas curvas pelas ruas de Gotham a bordo do carro da polícia deixam o espectador impactado – como se fosse um pouco verdade, tal a neutralidade e frieza com que Nolan filma essas imagens, sem nenhuma fantasia, mas querendo cada vez mais ver Gotham City em apuros.
Se não há mais a dupla personalidade dada com mais ênfase por Burton, sobretudo em Batman – O retorno, Nolan consegue estabelecer os personagens como figuras mais próximas do espectador, como o próprio Alfred, mordomo de Bruce Wayne, ou o cientista Lucius Fox, feito por Morgan Freeman. Há vários filmes colados nesta peça sonora e visualmente interessante: a viagem de Batman para capturar um criminoso em Tóquio é uma; a de Dent é outra; a dos barcos ao final, outra. Até que eles formam um conjunto, que deixa a desejar, de qualquer modo, no acabamento: há excessos neste filme, e no final tenta-se uma certa lição de moral que não condiz com o que aparece antes.

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No novo filme, Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, Nolan tinha A origem como imediatamente seu precursor, o que era preocupante. Não apenas porque se podia contaminar uma adaptação de um herói em quadrinhos com novas filosofias sobre o onirismo, excessivamente calculadas e com personagens pouco interessantes. Desde o início do terceiro Batman – cuja estreia teve, como se sabe, um acontecimento trágico –, parece que Nolan está interessado em deixar as tentativas de configurar uma realidade, como havia nos outros dois, para realmente uma narrativa configurada no fantástico, mesmo que, como nos demais, com cenários parecidos com a realidade, em certos momentos até terrivelmente parecidos. Em primeiro plano, o novo vilão, Bane (Tom Hardy), com sua voz ecoando como a de Darth Vader, também atrás de uma máscara, apesar de violento e chocar, não tem a mesma participação do Coringa e nem a mesma tentativa de realismo ou de psicopatia. É um vilão dentro dos moldes que já vimos, mas Nolan, claro, se preocupa em conceder uma violência extra a ele nos momentos em que aparece, desnecessária – e com um início que é um grande furo, apenas para justificar a situação. A cidade de Gotham City vive um momento de paz, oito anos depois da segunda parte. O Comissário Gordon (Oldman) está para ser demitido, como informa o vice-comissário Peter Foley (Matthew Modine),  não tem coragem de contar a verdade sobre Dent, e o milionário Bruce Wayne vive uma espécie de exílio em sua mansão, na companhia de Alfred (Michael Caine, excelente). Até o dia em que tem uma de suas joias roubadas por uma mulher que se disfaça de empregada, Selina Kyle (Anne Hathaway, tornando o filme mais leve), e depois de uma visita de um policial, John Blake (Joseph Gordon-Levitt, levemente deslocado), que morou num orfanato bancado pela família Wayne. Há muitas coisas implicadas desta vez. Wayne não quer mais enfrentar a realidade depois da morte da amada no filme anterior, até que descobre a vinda de Bane para Gotham City. Sua empresa está passando por problemas, e a ricaça Miranda Tate (Marion Cotillard) precisa assumir o cargo. Para isso, ela deve saber como funcionam algumas pesquisas das empresas Wayne que lidam com energia nuclear, a critério de Lucius Fox (novamente Morgan Freeman).

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Por não entender que o segundo da trilogia tenha sido o melhor, acredito que este Batman consiga traduzir, como o primeiro, uma relação do personagem com uma vertente mais humana, apesar de em certos momentos parecer um coadjuvante em sua própria história. Nolan, por meio da sua figura, e isso é acentuado neste, pretende, na verdade, lidar com a história de personagens como o Comissário Gordon, Blake e o mordomo Alfred (que tem pelo menos dois momentos antológicos, que se ligam, sobretudo, a Batman begins). Não consegue ser totalmente efetivo porque o roteiro, desde o primeiro filme, com suas referências a medo, destruição, máscaras, não revela o quanto haveria nos personagens para ser abordado e cai, às vezes, num plano de condescendência (como num momento em que Bruce Wayne precisa novamente enfrentar seus temores; sabemos, desde o primeiro, que ele não confia totalmente em si mesmo, mas nos perguntamos se haveria mais enfrentamento para os temores do que ele acaba tendo de fazer pela cidade de origem). Outro plano de abordagem parece o político: Bane quer liderar uma revolução às avessas em Gotham – ele começa atacando a Bolsa de Valores – e em certos momentos é questionada a diferença entre bandidos e policiais; até que ponto a mentira não é a maior destruição da sociedade; a riqueza é colocada em xeque, pois é preciso se revoltar. Parece falso considerar que Nolan coloca Batman como um mero playboy que deseja manter um status quo. Seria tornar o personagem fora ainda mais de seu contexto. Não se trata de uma discussão levantada também por Burton quando poderia – em comparar Bruce Wayne e Oswald Cobblepot, o personagem do Pinguim, abandonado pelos pais nos esgotos da cidade –, e portanto me parece um um tanto deslocada. Mas é uma leitura possível. Parece-me, de qualquer modo, que Nolan, como Cronenberg em Cosmópolis, está fazendo uma sátira a movimentos de libertação do povo – o que só pode ser feito pelo próprio povo, e não por tribunais livres colocados por uma espécie de guia. Mesmo no fato de, em determinado momento, ele dizer que a decisão do destino está nas mãos do povo, feito da forma mais pomposa possível num estádio de futebol. Neste ponto de vista, Batman apenas tenta oferecer outras opções, mas sem deixar de temer que, pela lenda deixada depois da morte de Harvey Dent, o povo o massacre em praça pública.

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Bane, em nenhum momento, soa um vilão real – como se refere acima, sua voz lembra a de Darth Vader (é difícil dizer o que o personagem realmente tem de interpretação de Tom Hardy). Ainda assim, os momentos em que ele precisa se confrontar com Batman são muito bem feitos (pela interpretação de Bale), como também as perseguições e os quarenta minutos finais (com efeitos realmente extraordinários, apesar de a trilha sonora abafar excessivamente os outros sons, fazendo com que seja uma espécie de trailer), com uma tensão que faz com que se destaquem diante do restante da série. Não tenho certeza, por outro lado, se a metragem longa (164 minutos), típica desde o sucesso de O senhor dos anéis, era necessária ou apenas para dar um sentido mais épico à finalização da trilogia. Se em certos momentos a montagem flui, há um ou outro momento, sobretudo naquele mais delicado pelo qual passa Wayne, que Nolan parece repetir demais a mesma situação (colocando, inclusive, um personagem para traduzir o que um outro fala para Wayne, sem este pedir). Em outras sequências, a montagem é ágil demais, quebrando uma cena que poderia ser interessante, mas acaba dando espaço a outra. A própria colocação de alguns personagens, como o de Miranda e o de Folley, soa, às vezes, um tanto dispersa e confusa, limitando-se a alguns diálogos sem força, o que é de se lamentar pela metragem.
Mas, de modo geral, isso não prejudica Batman – O cavaleiro das trevas ressurge. Há qualidades que o costuram como um filme de ação contida, mais do que o segundo filme, e sem o clima apocalíptico deste, apesar de várias cenas dizerem também o contrário – é impressionante a direção de arte do filme, muito superior às dos outros dois, além de mais diversificada, além da fotografia requintada de Wally Pfister (O homem que mudou o jogo), habitual colaborador de Nolan e muito talentoso, dando classes a imagens que poderiam ser rotineiras e mistura ruínas atrás do colégio de órfãos com arranha-céus gigantescos e iluminados, com a chegada do inverno e do calor que se anuncia.
A ligação da narrativa com o primeiro filme também dá uma sensação de fechamento de uma fase de Batman feita por Nolan (o que não havia na primeira quadrilogia, sobretudo pela troca de Burton para Schumacher). E não me parece que este se leve a sério demais – os outros também tinham um ar de cinema mais sóbrio e contido – ou que Batman é visto como algum personagem de proporções trágicas; pelo contrário, o que me parece é que, ao fim de tudo, Nolan só queria realmente mostrar uma humanidade que pode haver para um garoto órfão na persona de um herói.
Não parece ser uma obra-prima, mas tampouco deixa de ser, sobretudo como o primeiro, muito divertido, encerrando a trilogia de forma bastante satisfatória.

The Dark Knight Rises, EUA/Reino Unido, 2012 Diretor: Christopher Nolan Elenco: Christian Bale, Gary Oldman, Morgan Freeman, Michael Caine, Anne Hathaway, Joseph Gordon-Levitt, Liam Neeson, Tom Hardy, Cillian Murphy, Marion Cotillard Produção: Christopher Nolan, Charles Roven, Emma Thomas Roteiro: Christopher Nolan, Jonathan Nolan Fotografia: Wally Pfister Trilha Sonora: Hans Zimmer Duração: 165 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: DC Entertainment / Legendary Pictures / Syncopy / Warner Bros.

Cotação 4 estrelas