A vida marinha com Steve Zissou (2004)

Por André Dick

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Mais uma comédia estranha do talentoso Wes Anderson, este filme acabou não tendo a mesma repercussão de Os excêntricos Tenenbaums, embora tenha uma trama interessante – centrada novamente num pai indefinido em assumir a família –, com assinatura do diretor em parceria com Noah Baumbach (que realizou os ótimos A lula e a baleia e Frances Ha), e alguns nomes daquele elenco (Owen Wilson, Anjelica Huston, Bill Murray). Parece até, por vezes, pelo cuidado com a fotografia de Robert D. Yeoman (seu colaborador), direção de arte de Stefano Maria Ortolani (de Gangues de Nova York) e os figurinos da oscarizada Milena Canonero (habitual colaboradora de Francis Coppola), uma continuação daquele filme, desta vez situada no universo de pesquisas marinhas, típicas de Jacques Costeau, muito popular nos anos 70 – a quem o filme é dedicado –, e que transporta determinada geração diretamente para a infância, o que não acontece tão facilmente com outras, embora não seja um filme inacessível ou para poucos.
alter ego de Anderson é o oceanógrafo Steve Zissou (interpretado por Bill Murray, bastante entediado, no que ganha sempre pontos) e este filme procura delinear seu universo, mostrando seu casamento conturbado com uma mulher, Eleanor (Anjelica Huston), que subsidia suas viagens – mas parece pouco interessada no que acontece ao seu redor –, seus companheiros de navegação, Klaus e o brasileiro Pele dos Santos (Willem Dafoe e Seu Jorge, que passa o filme cantando músicas de David Bowie em português), entre outros, e um rapaz, Kentucky Ned Plimpton(Owen Wilson), que aparece e se diz seu filho e no momento seguinte já estão abraçados – porque em Anderson os conflitos nunca duram muito, embora não sejam solucionados ou simplistas.

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O filme já inicia com Zissou num cinema, cercado por sua equipe, assistindo a seu novo documentário, em que o melhor amigo é devorado por um tubarão. Em seguida, há uma sucessão de gags rápidas e patéticas próprias do diretor – a melhor é quando um senhor pede ao explorador para autografar várias imagens dele –, até Zissou ir para sua ilha, a fim de se preparar para a nova expedição, com o objetivo de caçar o tubarão Jaguar que matou seu amigo. É para lá que leva o rapaz que diz ser seu filho – e que desde pequeno faz parte da Companhia Steve Zissou (guardou até uma carta que recebeu, com o típico toque de Anderson e que dialoga diretamente com aquelas de Moonrise Kingdom).
No entanto, ele recebe a visita de uma jornalista grávida, Jane Winslett-Richardson (Cate Blanchet), que não sabe ser simpática ou não à sua causa. Quando parte em navegação, encontra piratas pelo caminho (pois não poderiam faltar, ainda mais esses que se hospedam no hotel abandonado de uma ilha) e um adversário, Alistair (Jeff Goldblum), que foi casado com Eleanor. E Ned – o qual Steve Zissou quer rebatizar, sabe-se lá o motivo, como Kingsley – se envolve com a jornalista, que pretende contar a verdade sobre o modo de comportamento do seu possível pai. Ela, de algum modo, também como Ned, procura um pai para seu filho, e nesse inter-relacionamento percebemos que os personagens são bastante semelhantes. No entanto, toda esta trama en passant é apenas motivo para Anderson filmar personagens bastante cômicos, a começar por Zissou – que se fecha numa redoma sempre que não fazem o que deseja.

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O filme tem um clima e uma fotografia de filme europeu e nada de muito importante (diante de outros filmes mais lineares e comerciais) acontece, a não ser o desenrolar da rotina de uma tripulação em alto-mar, mas isso não é o importante: como em Os excêntricos Tenenbaums, Anderson quer as entrelinhas dos personagens, suas ironias e sua maneira incomum de agir que se baseia, paradoxalmente, em atitudes que sempre remetem a outras já conhecidas, como se desenhassem uma complacência com o nada. Em muitos momentos (quando Anderson filma os compartimentos abertos do barco como se apresentasse uma casa de brinquedo, como de fato o é), lembra uma peça de teatro. Porém, talvez lembre mais uma fábula (o que Anderson intensificaria em O fantástico Sr. Raposo), sobretudo no momento da invasão pirata ao navio de Steve Zissou: a fotografia é escura, e os personagens estão abatidos; de repente, tudo se ilumina e Zissou começa a enfrentar os invasores, como se fosse um herói de histórias. Nesse momento, Anderson torna sua câmera numa espécie de parceria para um documentário em alto-mar; e ainda registra um tiroteio como se filmasse uma espécie de peça escolar.
Zissou também é um explorador que, por vezes, não parece saber absolutamente nada sobre o assunto de que trata, além das recorrentes dificuldades financeiras, o que o faz invadir torres com equipamentos alheios. Quando ele está falando do seu tema de domínio, acaba sempre caindo na mais profunda melancolia: não consegue estabelecer nenhuma ligação sentimental com a esposa e se interessa pela jornalista, contudo, sem ser correspondido, quer tirá-la do navio. Este é absolutamente precário, com sua sala de edições para os filmes, a sauna onde sempre há algum integrante comendo sanduíche, as lâmpadas sempre estourando, fazendo por segundos o barco ficar sem luz, e o submarino, Belafonte, parece um pato de filmes infantis (mais próximo daquele de Batman – O retorno). Toda a tripulação, apesar de dedicada ao chefe, parece não saber onde está ou o que estuda – talvez nem mesmo o que significa um mapa ou o que represente um estudo sobre animais marinhos.

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E há ainda golfinhos que, para Zissou, precisam ser treinados. As imagens dos peixes ou crustáceos são animações em stop motion, como na cena em que a jornalista chega à ilha onde está a equipe de Zissou, ou aquela do cavalo-marinho, que ele utilizaria novamente em O fantástico Sr. Raposo, dando ainda mais clima de fantasia à obra de Anderson, pois o sonho de Zissou, na verdade, é fazer parte de um universo como 20.000 léguas submarinas, de Júlio Verne. Ele não pretende sair da infância que construiu, a muito custo, em torno de si mesmo, e Bill Murray é um ator notável para este tipo de movimento. Toda a sua tentativa – nas atitudes – é de congelar a infância, de preferência num lugar em que possa visitá-la, como ao tubarão no fundo do mar. E Anderson acaba sendo tão efetivo quanto o foi com a família Tenenbaum, com o mesmo cuidado fotográfico e com a direção de arte – preferindo adaptar uma certa ideia precária de cenários e situações setentistas –, estruturado num tom de fábula melancólico, de onde irrompe o seu cinema.

The life aquatic with Steve Zissou, EUA, 2004 Diretor: Wes Anderson Elenco: Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett, Anjelica Huston, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Seu Jorge, Noah Taylor Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin Roteiro: Wes Anderson, Noah Baumbach Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Duração: 118 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Touchstone Pictures / Scott Rudin Productions

Cotação 4 estrelas e meia

 

Publicado originalmente em 26 de setembro de 2012

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Os excêntricos Tenenbaums (2001)

Por André Dick

Os excêntricos Tenenbaums.Filme

Este filme de Wes Anderson consegue exemplificar em detalhes seus talentos: roteiro inteligente, elenco disposto em cena com cuidado exemplar e belas direção de arte e fotografia, que lembram, tanto pelo aspecto teatral quanto pelos quadros e pela forma de narração, uma fábula contemporânea. Nesse sentido, é uma continuação exemplar de Rushmore e a origem tanto de A vida marinha com Steve Zissou quanto Moonrise Kingdom. O foco (daqui em diante, possíveis spoilers) é na família dos Tenenbaums, que reúne um grupo de gênios: um mestre em economia, Chas (que cresce e vira Ben Stiller) – com obsessão pela segurança dos filhos e com figurino igual ao deles, da Adidas –, uma dramaturga, filha adotiva, Margot (Gwyneth Paltrow, em seu melhor momento), e um tenista de grande talento, Richie (Luke Wilson), tendo à frente um pai amoral, advogado, Royal (Gene Hackman) e uma mãe dedicada, Etheline (Anjelica Huston). São seguidos e admirados, até em excesso, por um vizinho, que cresce e vira escritor de best-sellers, Eli Cash (Owen Wilson), além de se envolver com drogas. Tudo muda quando, todos já adultos, um colega de trabalho da mãe, Henry Sherman (Danny Glover) resolve pedir Etheline em casamento. Mas ela precisa se divorciar oficialmente de seu ex-marido, o pai dos Tenenbaums, que está afastado, depois de ter se envolvido em vários problemas. Então, ele – com um misto de bondade, oportunismo e certo interesse em se reaproximar dos membros da família –, finge estar com câncer e em fim de vida, para voltar à sua casa, onde todos se reúnem novamente, em sua homenagem. Interessado em reatar com Etheline, tentará criar uma nova condição, procurando afastar Sherman do caminho, e Gene Hackman é um ator excelente quando soa entre o cômico e o trágico.

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Enquanto isso, o marido de Margot, a dramaturga, Raleigh St. Clair (Bill Murray), pesquisa a vida de um menino com características de autismo, Dudley Heinsbergen (Stephen Lea Sheppard). Já ela gosta do irmão tenista, constituindo outro conflito do filme, com momentos de humor na medida certa, pois sempre provocados por um determinado elemento de tédio.
Os excêntricos Tenenbaums é uma comédia agridoce, em que os personagens, com a ajuda do elenco exato, tentam crescer, mas na verdade querem ser lembrados quando eram crianças ou jovens – nem por isso tentam abandonar a mudança, mesmo que ela incorra em atos extremos. Stiller faz o pai preocupado em afastar os filhos de Royal; Paltrow, a moça que fuma sem ninguém saber, há décadas, escondida no banheiro e não consegue reeditar o talento para escrever peças de teatro; e Luke, Richie, o tenista que desistiu da carreira durante uma partida, para surpresa de todos, colocando-se em viagem permanente e é, na verdade, apaixonado pela irmã adotiva – a sequência em que eles se reencontram depois de anos, com a câmera lenta de Anderson se aproximando do rosto de cada um, é memorável, por toda sua composição e híbrido de fábula com videoclipe (difícil não pensar que o filme é do mesmo ano de Is this it, disco marcante dos Strokes, emergindo de uma Nova York que havia recém passado pelos ataques de 11 de setembro, e uma inegável tentativa de volta a uma margem de descanso, entre os anos 70 e 80).
Com um estilo ao mesmo tempo de fábula e de pop, em homenagem aos anos 70 (nos cabelos e roupas dos personagens), tem diversas cenas realmente marcantes. Além desta que mostra o reencontro entre Richie e Margot, no melhor estilo e figurino setentista, temos aquela em que a família está reunida à mesa, discutindo sobre a volta de Royal, e aquelas em que este, que alega ter câncer estomacal, é surpreendido comendo cheesburger, sendo desmascarado pelo namorado da ex-mulher, rendendo grande constrangimento para toda família, em seguida sendo esfaqueado pelo assessor, Pagoda (Kumar Pallana), para poderem ficar num asilo para idosos: vai do perdão familiar ao ódio em poucos minutos, diante dos olhares atônitos, mas ao mesmo tempo, entendiados – pois o humor de Anderson é patético e melancólico, com densidade para cada um desses elementos – de cada filho, e em que ele tenta conquistar os netos, os quais Chas quer afastar, pendurando-se na traseira de caminhões de lixo. Além daquela, sobretudo, em que, depois de colocar um detetive atrás de Margot, Richie e Raleigh descobrem o passado de Margot, ocasionando um dos momentos mais decisivos do filme.

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O diretor Wes Anderson dispõe a história em capítulos, como se estivéssemos diante de um livro com imagens em movimento, mesclando cores aos figurinos e personagens. A barraca montada pelo tenista num dos cômodos da casa, além de dialogar com aquelas dos escoteiros de Moonrise Kingdom, corresponde à infância que ele não queria que tivesse ido embora, assim como a águia, que soltou quando criança e regressa quando ele está conversando com o pai sobre o amor que não pode declarar. Não por acaso, Anderson coloca o escritor Eli Cash como uma pessoa que tenta se sentir um Tenenbaum, sem sê-lo – o seu desejo, no entanto, passa a ser atendido em todas as escalas de companheirismo, amizade e paixão –, mas nunca se comprometendo o suficiente para mudar, pois a mudança significa uma perda da infância e do que aconteceu ou poderia ter acontecido, além do fato de que ser finalmente ajudado pelos Tenenbaums não significa sua glória e saída mais exitosas.
O filme trata da perda de uma fase que não volta mais, assim como os personagens de Anderson, ao final, não podem pertencer mais a uma fábula inocente ou ingênua. Todos eles têm a noção exata do que vivenciam: o jogo foi finalmente entendido, e o abandono do tenista, esclarecido em cada personagem – mais do que uma situação, a trajetória de cada personagem  é simbólica. Para o diretor, as peças de armar correspondem exatamente às dispostas na infância, restando ao universo dito adulto embaralhá-las, mas elas estarão lá, intactas, no quarto ou na despensa. Assim como a filmografia de Anderson, Os excêntricos Tenenbaums é de uma rara sensibilidade.

The Royal Tenenbaums, EUA, 2001 Diretor: Wes Anderson Elenco: Gene Hackman, Danny Glover, Anjelica Huston, Bill Murray, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Luke Wilson, Owen Wilson Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Duração: 103 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Touchstone Pictures

Cotação 5 estrelas

Publicado originalmente em 13 de maio de 2013

Especial Wes Anderson

Por André Dick

Especial Wes Anderson.Cinematographe

O cineasta Wes Anderson nasceu em 1º de maio de 1969, em Houston, Texas. Quando criança, como comenta numa entrevista ao The Guardian, fazia em Super 8 filmes que pudessem lembrar Os caçadores da arca perdida, Star Wars e Hitchcock. Depois de estudar em St’Johns School, que serviu de cenário para o filme Rushmore e onde fazia peças de teatro como o personagem principal deste filme, Max Fischer, ele foi para a Universidade do Texas, em Austin. Lá, ele se formou em Filosofia em 1991 e, depois de um encontro numa aula de teatro, começou a traçar seus primeiros projetos, com o amigo e parceiro nos roteiros de seus três primeiros filmes, Owen Wilson.
Como resultado da exibição de seu curta-metragem Bottle Rocket no Festival de Sundance, foi procurado pelo produtor James L. Brooks (criador dos Simpsons) para transformá-lo em longa-metragem, o que aconteceu dois anos depois. Em 1998, o presidente da Disney Joe Roth aceitou financiar Rushmore, que teve um lançamento com grande campanha de marketing, a fim de tentar uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante para Bill Murray, mas, como o primeiro, o filme não foi muito bem nas bilheterias. No entanto, Anderson conseguiu fazer com que Pauline Kael, sua crítica favorita, se deslocasse para um cinema a fim de assisti-lo. Embora ela tenha lhe dito que talvez os produtores do filme não haviam lido o roteiro, Anderson conseguiu exemplares de livros em primeira edição da crítica.
O sucesso de Os excêntricos Tenenbaums, seu filme seguinte, no entanto, fez com que a Disney financiasse o filme mais caro de Anderson, A vida marinha com Steve Zissou, ainda hoje o de menos êxito nas bilheterias. Isso não impediu que logo fizesse dois filmes, um recebido sem entusiasmo, Viagem a Darjeeling, e outro com grande recepção, O fantástico Sr. Raposo. Em 2012, seu Moonrise Kingdom abriu o Festival de Cannes e em 2014 O grande Hotel Budapeste o Festival de Berlim.
Anderson tornou-se conhecido pela opção em sempre fazer uma ligação dos personagens com os cenários que os cercam, ou seja, seu estilo costuma salientar a substância. Nesse sentido, as características de cada personagem sempre são desenvolvidas por meio de suas ligações com o contexto, com a trilha sonora (dos anos 60 e 70) e quase nunca de forma solitária ou por causa de algum conflito existencial centralizado. Também é conhecido por trabalhar quase sempre com os mesmos atores, sobretudo Bill Murray, e o diretor de fotografia de quase todos os seus filmes é Robert D. Yeoman (com exceção de O fantástico Sr. Raposo, em que dá lugar a Tristan Oliver). Filho de uma agente imobiliária e arqueóloga, Anne Burroughs, e de um publicitário, Melver, ele também se tornou conhecido pelas propagandas que fez, com seu estilo cinematográfico. E costuma descrever a separação dos pais como o momento decisivo de sua infância, para ele e seus irmãos, um tema que se apresenta direta ou indiretamente em quase todos seus filmes.
Escolhido por Martin Scorsese em 2000 como uma das promessas para o cinema deste século, a maior influência de Anderson é a do escritor Roald Dahl, de quem adaptou O fantástico Sr. Raposo. No campo do cinema, as principais referências são Alain Resnais (principalmente aquele do filme Meu tio da América), Satyajit Ray (cineasta indiano que o influenciou em Viagem a Darjeeling) e Stanley Kubrick, além de Jean-Pierre Jeunet, principalmente o de Delicatessen, além de outras não tão comentadas, como as de Hal Hartley e Woody Allen. Entre os filmes que diz que gostaria de ter feito, Anderson cita Amargo regresso, de Hal Ashby, e dois de Roman Polanski: O bebê de Rosemary e Chinatown.
Anderson foi indicado duas vezes ao Oscar de melhor roteiro original, por Os excêntricos Tenenbaums e Moonrise Kingdom, e uma vez ao Oscar de animação, por O fantástico Sr. Raposo. Com Owen Wilson, assinou o roteiro de seus três primeiros filmes; com Noah Baumbach (diretor de Frances Ha), os roteiros de A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico Sr. Raposo; e com Roman Coppola (filho de Francis), escreveu Viagem a Darjeeling (ainda com a colaboração de Jason Schwartzman) e Moonrise Kingdom. Curiosamente, seus filmes, conhecidos pelo estilo, nunca receberam nenhuma indicação a Oscar técnicos (principalmente, hoje, de designer de produção).
Cinematographe preparou um especial sobre seus filmes. Foram preservados os títulos de seus primeiros filmes no original, Bottle Rocket e Rushmore (traduzidos no Brasil para Pura adrenalina e Três é demais, respectivamente).
Abaixo, algumas imagens de filmes de Anderson, com alguns temas ou imagens em comum de um dos maiores cineastas da atualidade como uma prévia deste Especial, cuja primeira crítica, sobre Bottle Rocket, será publicada amanhã.

Steve Zissou 3

O mundo marinho de Steve Zissou

Rushmore.Max

Rushmore 3

Max e sua obsessão por aquários em Rushmore.

Steve Zissou.Tripulação

A família de Steve Zissou

Viagem a Darjeeling 2

Os irmãos Whitman em Viagem a Darjeeling

O fantástico Sr. Raposo 2

A família de O Fantástico Sr. Raposo

Moonrise Kingdom 2Três famílias: o casal de advogados, o líder dos escoteiros e o delegado solitário de Moonrise Kingdom.

Pura adrenalinaUma família organizada por assaltos em Bottle Rocket.

O grande hotel Budapeste 8

Zero, a milionária e Mr. Gustave, uma família enviesada de O grande Hotel Budapeste

Pura adrenalina 2

Culinária de Bottle Rocket

Viagem a Darjeeling 3

Culinária de Viagem a Darjeeling

O fantástico Sr. Raposo 3

Culinária de O fantástico Sr. Raposo

Rushmore 7

As cartas de Rushmore

Moonrise Kingdom 6As cartas de Moonrise Kingdom

Bottle Rocket 3

O plano no papel de Bottle Rocket

Os excêntricos Tenenbaums 2

Os excêntricos Tenenbaums 3A barraca na sala de Os excêntricos Tenenbaums

Moonrise Kingdom 4A barraca abandonada por Sam em Moonrise Kingdom

Os excêntricos Tenenbaums 4A menina Margot, de Os excêntricos Tenenbaums, escreve peças de teatro

Rushmore 5Max organiza peças de teatro em Rushmore

Moonrise Kingdom 3Sam conhece Suzy na encenação da ópera “O dilúvio de Noé”, em Moonrise Kingdom

Moonrise Kingdom 9

Sam faz uma pintura de Suzy em Moonrise Kingdom

O grande hotel Budapeste 9

A pintura que é o centro dos conflitos de O grande Hotel Budapeste

O fantástico Sr. Raposo 20

A Sra. Raposo mostra sua pintura ao Sr. Raposo

Os excêntricos Tenenbaums 5Os irmãos Tenenbaums dão entrevistas quando pequenos.

Steve Zissou 2Steve Zissou dá palestra sobre suas experiências oceanográficas

RushmoreMax explica conceitos em Rushmore

Steve Zissou 4Steve Zissou e seu possível filho

Os excêntricos Tenenbaums 6O pai arrependido de Os excêntricos Tenenbaums

Moonrise Kingdom 5O pai adotivo de Sam declina de cuidá-lo em Moonrise Kingdom

O fantástico Sr. Raposo 5Conflitos entre os pais e filho em O fantástico Sr. Raposo

Rushmore 6O amor impossível de Max pela professora em Rushmore

Os excêntricos Tenenbaums 7O amor culpado entre Margot e Richie em Os excêntricos Tenenbaums

Moonrise Kingdom 7O amor entre Sam e Susy na entrada na adolescência em Moonrise Kingdom

O grande hotel Budapeste 2

O amor entre Zero e Agatha em O grande Hotel Budapeste

Steve Zissou 5O amor repentino entre Kentucky Ned Plimpton e Jane em A vida marinha com Steve Zissou

Pura adrenalina 3O amor repentino de Anthony por Inez em Bottle Rocket

O fantástico Sr. Raposo 4Sr. e Sra. Raposo

Os excêntricos Tenenbaums (2001)

Por André Dick

Os excêntricos Tenenbaums.Filme

Este filme de Wes Anderson consegue exemplificar em detalhes seus talentos: roteiro inteligente, elenco disposto em cena com cuidado exemplar e belas direção de arte e fotografia, que lembram, tanto pelo aspecto teatral quanto pelos quadros e pela forma de narração, uma fábula contemporânea. Nesse sentido, é uma continuação exemplar de Rushmore e a origem tanto de A vida marinha com Steve Zissou quanto Moonrise Kingdom. O foco (daqui em diante, possíveis spoilers) é na família dos Tenenbaums, que reúne um grupo de gênios: um mestre em economia, Chas (que cresce e vira Ben Stiller) – com obsessão pela segurança dos filhos e com figurino igual ao deles, da Adidas –, uma dramaturga, filha adotiva, Margot (Gwyneth Paltrow, em seu melhor momento), e um tenista de grande talento, Richie (Luke Wilson), tendo à frente um pai amoral, advogado, Royal (Gene Hackman) e uma mãe dedicada, Etheline (Anjelica Huston). São seguidos e admirados, até em excesso, por um vizinho, que cresce e vira escritor de best-sellers, Eli Cash (Owen Wilson), além de se envolver com drogas. Tudo muda quando, todos já adultos, um colega de trabalho da mãe, Henry Sherman (Danny Glover) resolve pedir Etheline em casamento. Mas ela precisa se divorciar oficialmente de seu ex-marido, o pai dos Tenenbaums, que está afastado, depois de ter se envolvido em vários problemas. Então, ele – com um misto de bondade, oportunismo e certo interesse em se reaproximar dos membros da família –, finge estar com câncer e em fim de vida, para voltar à sua casa, onde todos se reúnem novamente, em sua homenagem. Interessado em reatar com Etheline, tentará criar uma nova condição, procurando afastar Sherman do caminho, e Gene Hackman é um ator excelente quando soa entre o cômico e o trágico.

Os excêntricos Tenenbaums.Filme 2

Os excêntricos Tenenbaums.Filme 4

Os excêntricos Tenenbaums.Filme 8

Enquanto isso, o marido de Margot, a dramaturga, Raleigh St. Clair (Bill Murray), pesquisa a vida de um menino com características de autismo, Dudley Heinsbergen (Stephen Lea Sheppard). Já ela gosta do irmão tenista, constituindo outro conflito do filme, com momentos de humor na medida certa, pois sempre provocados por um determinado elemento de tédio.
Os excêntricos Tenenbaums é uma comédia agridoce, em que os personagens, com a ajuda do elenco exato, tentam crescer, mas na verdade querem ser lembrados quando eram crianças ou jovens – nem por isso tentam abandonar a mudança, mesmo que ela incorra em atos extremos. Stiller faz o pai preocupado em afastar os filhos de Royal; Paltrow, a moça que fuma sem ninguém saber, há décadas, escondida no banheiro e não consegue reeditar o talento para escrever peças de teatro; e Luke, Richie, o tenista que desistiu da carreira durante uma partida, para surpresa de todos, colocando-se em viagem permanente e é, na verdade, apaixonado pela irmã adotiva – a sequência em que eles se reencontram depois de anos, com a câmera lenta de Anderson se aproximando do rosto de cada um, é memorável, por toda sua composição e híbrido de fábula com videoclipe (difícil não pensar que o filme é do mesmo ano de Is this it, disco marcante dos Strokes, emergindo de uma Nova York que havia recém passado pelos ataques de 11 de setembro, e uma inegável tentativa de volta a uma margem de descanso, entre os anos 70 e 80).
Com um estilo ao mesmo tempo de fábula e de pop, em homenagem aos anos 70 (nos cabelos e roupas dos personagens), tem diversas cenas realmente marcantes. Além desta que mostra o reencontro entre Richie e Margot, no melhor estilo e figurino setentista, temos aquela em que a família está reunida à mesa, discutindo sobre a volta de Royal, e aquelas em que este, que alega ter câncer estomacal, é surpreendido comendo cheesburger, sendo desmascarado pelo namorado da ex-mulher, rendendo grande constrangimento para toda família, em seguida sendo esfaqueado pelo assessor, Pagoda (Kumar Pallana), para poderem ficar num asilo para idosos: vai do perdão familiar ao ódio em poucos minutos, diante dos olhares atônitos, mas ao mesmo tempo, entendiados – pois o humor de Anderson é patético e melancólico, com densidade para cada um desses elementos – de cada filho, e em que ele tenta conquistar os netos, os quais Chas quer afastar, pendurando-se na traseira de caminhões de lixo. Além daquela, sobretudo, em que, depois de colocar um detetive atrás de Margot, Richie e Raleigh descobrem o passado de Margot, ocasionando um dos momentos mais decisivos do filme.

Os excêntricos Tenenbaums.Filme 5

Os excêntricos Tenenbaums.Filme 6

Os excêntricos Tenenbaums.Filme 9

O diretor Wes Anderson dispõe a história em capítulos, como se estivéssemos diante de um livro com imagens em movimento, mesclando cores aos figurinos e personagens. A barraca montada pelo tenista num dos cômodos da casa, além de dialogar com aquelas dos escoteiros de Moonrise Kingdom, corresponde à infância que ele não queria que tivesse ido embora, assim como a águia, que soltou quando criança e regressa quando ele está conversando com o pai sobre o amor que não pode declarar. Não por acaso, Anderson coloca o escritor Eli Cash como uma pessoa que tenta se sentir um Tenenbaum, sem sê-lo – o seu desejo, no entanto, passa a ser atendido em todas as escalas de companheirismo, amizade e paixão –, mas nunca se comprometendo o suficiente para mudar, pois a mudança significa uma perda da infância e do que aconteceu ou poderia ter acontecido, além do fato de que ser finalmente ajudado pelos Tenenbaums não significa sua glória e saída mais exitosas.
O filme trata da perda de uma fase que não volta mais, assim como os personagens de Anderson, ao final, não podem pertencer mais a uma fábula inocente ou ingênua. Todos eles têm a noção exata do que vivenciam: o jogo foi finalmente entendido, e o abandono do tenista, esclarecido em cada personagem – mais do que uma situação, a trajetória de cada personagem  é simbólica. Para o diretor, as peças de armar correspondem exatamente às dispostas na infância, restando ao universo dito adulto embaralhá-las, mas elas estarão lá, intactas, no quarto ou na despensa. Assim como a filmografia de Anderson, Os excêntricos Tenenbaums é de uma rara sensibilidade.

The Royal Tenenbaums, EUA, 2001 Diretor: Wes Anderson Elenco: Gene Hackman, Danny Glover, Anjelica Huston, Bill Murray, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Luke Wilson, Owen Wilson Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Duração: 103 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Touchstone Pictures

Cotação 5 estrelas

Anna Karenina (2012)

Por André Dick

Anna Karenina.Filme 4

Baseado na obra de Leon Tolstoi e antecedido por várias adaptações dela, o novo Anna Karenina tem atrás das câmeras o diretor Joe Wright (Desejo e reparação) e à frente sua atriz preferida, Keira Knightley. Quando inicia o filme, e estamos num ambiente teatral, inclusive com os cenários se movimentando, parece que Anna Karenina será diminuído pela artificialidade e pelo espetáculo visual simplesmente gratuito. Dali em diante, Wright tentará  contrabalançar todos os elementos e nos entregar um filme capaz de ser um retrato da própria paixão que representa.
Em 1874, Anna Karenina é casada com o estadista Alexei Karenin (Jude Law, em momento raro), de São Peterbursgo, e viaja a Moscou, para encontrar o irmão Oblonsky (Matthew Macfadyen), que acaba de ser pego em flagrante traindo a mulher, Dolly (Kelly Macdonald). Lá, Anna conhece o Conde Alexei Vronsky (Aaron Taylor-Johnson), também soldado, que está para se casar com a irmã de Dolly, Kitty (Alicia Vikander). Esta é cortejada por  Konstantin Levin (Domhnall Gleeson), um agricultor que mora numa fazenda distante. Anna se envolve rapidamente com Vronsky, que conheceu em sua chegada, durante uma festa. Quando volta para São Petersburgo, ela é seguida por ele, enquanto vive um conflito moral com Karenin, pai de seu filho, Seryozha (Oskar McNamara), e exlusivamente dedicado a ela e à política.

Anna Karenina.Filme 2

Anna Karenina.Filme 3

Anna Karenina.Desenho de produção 2

Há uma estrutura social por trás do comportamento dos personagens, trabalhado em minúcias pelo roteiro de Tom Stoppard em cima da obra de Tolstoi, ou seja, sabemos, de certo modo, como eles vão agir. Por isso, Wright insiste nesta linguagem teatral, levando os personagens sempre a um limite da interpretação. A própria utilização de maquetes em alguns momentos ou de cenários de estúdio (como a sequência da corrida de cavalos) revela uma espécie de casa das bonecas de Wes Anderson, ou seja, é como se Wright lidasse com elementos do diretor de Moonrise Kingdom e A vida marinha com Steve Zissou num contexto histórico e mais grandioso (mesmo nos deslocamentos de câmera, acompanhando os personagens num universo propositadamente teatral). O resultado passa não ser completamente original, mas memorável para os olhos. Dificilmente se vê um filme em que se vinculam tão bem o desenho de produção e o figurino (premiado com o Oscar). Trata-se de um destaque também no recente musical Os miseráveis, mas, perto de Anna Karenina, algumas das imagens do filme de Hooper, feitas por computador, empalidecem. A fábrica de Oblomsky dialoga diretamente com a de Jean Valjean de Os miseráveis, inclusive nos movimentos calculados dos trabalhadores, e a luminosidade da fotografia de Seamus McGarvey se mostra com influências notáveis da pintura.
Além dos recentes artefatos visuais de Anderson, o requinte visual do filme tem como referência desde os clássicos Guerra e paz, Dr. Jivago, Nicholas e Alexandra, passando pelo filme Dias de paraíso, de Malick, quando mostra Levin trabalhando nas plantações com seus empregados, pela encenação teatral de A viagem do Capitão Tornado, filme italiano excelente de Ettore Scola e pouco lembrado dos anos 1990, até O portal do paraíso, que, por sua vez, já se inspirava no contexto da Revolução Russa e da perseguição a eslavos. Vejamos a sequência (spoiler), por exemplo, em que Levin segue por uma rua, que, na verdade, é um palco de teatro, aonde regressam muitas passagens ao longo filme, e, de repente, segue em direção a uma espécie de portal, que se abre para uma paisagem exterior magnífica, com neve. Neste momento, Anna Karenina passa dos bastidores de um teatro para a realidade, e é como se os personagens transitassem entre esses espaços como também o desejo encenado de Anna e do Conde. Outra sequência magnífica é aquela em que Anna e o Conde Vronsky estão fazendo um piquenique, e a câmera os focaliza de cima, mesclando a cor das flores com o branco do figurino, resultando numa mistura extraordinária de cores. Deve-se lembrar também daquela em que Anna sai da carruagem em que está com Karenin e corre por um labirinto até encontrar o Conde. A traição de ambos vai ao encontro do que deseja a Condessa Vronskaya (Olivia Williams), mãe do Conde, conhecida por ser adúltera, e mostra o filho como elemento-chave para a ausência de mudança.

Anna Karenina.Imagem 8

Sim, pode ser que Tolstoi não se preste exatamente a este requinte visual e uma diminuição do potencial dramático, detalhe que levou a muitas críticas para o filme na Rússia. No entanto, é um engano considerar que esta adaptação apaga a dramaticidade de Tolstoi ou que os cenários, por evocarem o teatro ou brinquedos, não traduzam de modo interessante o ambiente russo da época literalmente encenada: lá estão as estações de trem esfumaçadas, os campos gelados, o trabalho nas fábricas, os salões de dança suntuosos, os corredores e vazios das mansões, a solidão da noite e o sereno. Existe, igualmente, um interesse em retratar não apenas os interesses particulares a cada personagem, de viver em prol da sociedade ou sob os olhares dela, ou apenas de se isolar o máximo possível, a fim de não ser atingido pelas relações que vão se configurando à medida que surgem os interesses particulares. Isso, claramente, reproduz Tolstoi. O personagem de Karenin, feito por Law, retrata este sofrimento de não querer se afastar da esposa, para manter as aparências, como também continuar a ser respeitado pela sociedade da qual faz parte e da qual se alimenta para o próprio cargo que ocupa. Já Taylor-Johnson como o Conde, revela, primeiramente, todas as características de um sedutor inconveniente e depois a infantilidade em ter realmente de enfrentar os acontecimentos de uma paixão que fugia aos padrões mais convencionais da época enfocada. A atuação dele parece um tanto artificial, mas, sem dúvida, segue o retrato da sociedade de Anna Karenina.
Além disso, dentro do tratamento romântico, esta adaptação de Wright para Tolstoi parece indicar uma originalidade, principalmente quando se foca a dinâmica dos casais formados por Anna e o Conde e Kitty e Levin. O primeiro casal, ligado à luxúria da sociedade, pode sofrer exatamente por fazer parte dela, enquanto o segundo soa mais dramático e solitário porque faz parte de um contexto mais real e em que o amor não serve apenas para a demonstração de uma luxúria interior externada para a sociedade. É quando eles movimentam peças para formar palavras que o filme mostra um potencial sensível, ou quando jantam numa espécie de pintura de Arcimboldo.

Anna Karenina.Imagem 6

Sob certo ponto de vista, Knightley parece um pouco insegura para o papel, que necessitava de mais emoção (a escolha da discreta Alicia Vikander, de O amante da rainha, que interpreta Kitty, seria mais apropriada), embora tenha alguns momentos interessantes – seu olhar perdido num salão de dança, ou quando está na plateia da corrida de cavalos –, mas seu amante, feito por Taylor-Johnson, e seu marido, interpretado por Law, estabelecem o clima adequado de rivalidade e dramaticidade necessários para o filme trabalhar sua energia ao final. O próprio envolvimento de Anna com o Conde parece sem fundamento, no sentido de que ela parece apenas querer a compreensão do marido. Neste movimento, entre os olhares de graça e encantamento do momento inicial de paixão de Anna, aos poucos, o encantamento começa a diminuir, deixando apenas as memórias e a ocorrência dos mesmos fatos, pois Wright deseja mostrar a sociedade como um círculo perpétuo, com suas histórias de amor, entrega e arrependimento. E Anna Karenina é um belo desenho desses elementos.

Anna Karenina, Reino Unido/FRA, 2012 Diretor: Joe Wright Elenco: Keira Knightley, Jude Law, Aaron Taylor-Johnson, Kelly Macdonald, Matthew Macfadyen, Olivia Williams, Michelle Dockery, Emily Watson, Alicia Vikander Produção: Tim Bevan, Paul Webster Roteiro: Tom Stoppard  Fotografia: Seamus McGarvey Trilha Sonora: Dario Marianelli Duração: 129 min. Distribuidora: Paramount Pictures Brasil Estúdio: StudioCanal / Working Title Films

Cotação 4 estrelas

A vida marinha com Steve Zissou (2004)

Por André Dick

Mais uma comédia estranha do talentoso Wes Anderson, este filme acabou não tendo a mesma repercussão de Os excêntricos Tenenbaums, embora tenha uma trama interessante – centrada novamente num pai indefinido em assumir a família –, com assinatura do diretor em parceria com Noel Baumbach (que realizou o ótimo A lula e a baleia), e alguns nomes daquele elenco (Owen Wilson, Anjelica Huston, Bill Murray). Parece até, por vezes, pelo cuidado com a fotografia de Robert D. Yeoman (o mesmo de Moonrise Kingdom), direção de arte de Stefano Maria Ortolani (de Gangues de Nova York) e os figurinos da oscarizada Milena Canonero (habitual colaboradora de Francis Coppola), uma continuação daquele filme, desta vez situada no universo de pesquisas marinhas, típicas de Jacques Costeau, muito popular nos anos 70 – a quem o filme é dedicado –, e que transporta determinada geração diretamente para a infância, o que não acontece tão facilmente com outras, embora não seja um filme inacessível ou para poucos.
O alter ego de Anderson é o oceanógrafo Steve Zissou (interpretado por Bill Murray, bastante entediado, no que ganha sempre pontos) e este filme procura delinear seu universo, mostrando seu casamento conturbado com uma mulher, Eleanor (Anjelica Huston), que subsidia suas viagens – mas parece pouco interessada no que acontece ao seu redor –, seus companheiros de navegação, Klaus e o brasileiro Pele dos Santos (Willem Dafoe e Seu Jorge, que passa o filme cantando músicas de David Bowie em português), entre outros, e um rapaz, Kentucky Ned Plimpton(Owen Wilson), que aparece e se diz seu filho e no momento seguinte já estão abraçados – porque em Anderson os conflitos nunca duram muito, embora não sejam solucionados ou simplistas.
O filme já inicia com Zissou num cinema, cercado por sua equipe, assistindo a seu novo documentário, em que o melhor amigo é devorado por um tubarão. Em seguida, há uma sucessão de gags rápidas e patéticas próprias do diretor – a melhor é quando um senhor pede ao explorador para autografar várias imagens dele –, até Zissou ir para sua ilha, a fim de se preparar para a nova expedição, com o objetivo de caçar o tubarão Jaguar que matou seu amigo. É para lá que leva o rapaz que diz ser seu filho – e que desde pequeno faz parte da Companhia Steve Zissou (guardou até uma carta que recebeu, com o típico toque de Anderson e que dialoga diretamente com aquelas de Moonrise Kingdom).

No entanto, ele recebe a visita de uma jornalista grávida, Jane Winslett-Richardson (Cate Blanchet), que não sabe ser simpática ou não à sua causa. Quando parte em navegação, encontra piratas pelo caminho (pois não poderiam faltar, ainda mais esses que se hospedam no hotel abandonado de uma ilha) e um adversário, Alistair (Jeff Goldblum), que foi casado com Eleanor. E Ned – o qual Steve Zissou quer rebatizar, sabe-se lá o motivo, como Kingsley – se envolve com a jornalista, que pretende contar a verdade sobre o modo de comportamento do seu possível pai. Ela, de algum modo, também como Ned, procura um pai para seu filho, e nesse inter-relacionamento percebemos que os personagens são bastante semelhantes. No entanto, toda esta trama en passant é apenas motivo para Anderson filmar personagens bastante cômicos, a começar por Zissou – que se fecha numa redoma sempre que não fazem o que deseja.
O filme tem um clima e uma fotografia de filme europeu e nada de muito importante (diante de outros filmes mais lineares e comerciais) acontece, a não ser o desenrolar da rotina de uma tripulação em alto-mar, mas isso não é o importante: como em Os excêntricos Tenenbaums, Anderson quer as entrelinhas dos personagens, suas ironias e sua maneira incomum de agir que se baseia, paradoxalmente, em atitudes que sempre remetem a outras já conhecidas, como se desenhassem uma complacência com o nada. Em muitos momentos (quando Anderson filma os compartimentos abertos do barco como se apresentasse uma casa de brinquedo, como de fato o é), lembra uma peça de teatro. Porém, talvez lembre mais uma fábula (o que Anderson intensificaria em O fantástico Sr. Raposo), sobretudo no momento da invasão pirata ao navio de Steve Zissou: a fotografia é escura, e os personagens estão abatidos; de repente, tudo se ilumina e Zissou começa a enfrentar os invasores, como se fosse um herói de histórias. Nesse momento, Anderson torna sua câmera numa espécie de parceria para um documentário em alto-mar; e ainda registra um tiroteio como se filmasse uma espécie de peça escolar.

Zissou também é um explorador que, por vezes, não parece saber absolutamente nada sobre o assunto de que trata, além das recorrentes dificuldades financeiras, o que o faz invadir torres com equipamentos alheios. Quando ele está falando do seu tema de domínio, acaba sempre caindo na mais profunda melancolia: não consegue estabelecer nenhuma ligação sentimental com a esposa e se interessa pela jornalista, contudo, sem ser correspondido, quer tirá-la do navio. Este é absolutamente precário, com sua sala de edições para os filmes, a sauna onde sempre há algum integrante comendo sanduíche, as lâmpadas sempre estourando, fazendo por segundos o barco ficar sem luz, e o submarino, Belafonte, parece um pato de filmes infantis (mais próximo daquele de Batman – O retorno). Toda a tripulação, apesar de dedicada ao chefe, parece não saber onde está ou o que estuda – talvez nem mesmo o que significa um mapa ou o que represente um estudo sobre animais marinhos. E há ainda golfinhos que, para Zissou, precisam ser treinados. As imagens dos peixes ou crustáceos são animações em stop motion, como na cena em que a jornalista chega à ilha onde está a equipe de Zissou, ou aquela do cavalo-marinho, que ele utilizaria novamente em O fantástico Sr. Raposo, dando ainda mais clima de fantasia à obra de Anderson, pois o sonho de Zissou, na verdade, é fazer parte de um universo como 20.000 léguas submarinas, de Júlio Verne. Ele não pretende sair da infância que construiu, a muito custo, em torno de si mesmo, e Bill Murray é um ator notável para este tipo de movimento. Toda a sua tentativa – nas atitudes – é de congelar a infância, de preferência num lugar em que possa visitá-la, como ao tubarão no fundo do mar. E Anderson acaba sendo tão efetivo quanto o foi com a família Tenenbaum, com o mesmo cuidado fotográfico e com a direção de arte – preferindo adaptar uma certa ideia precária de cenários e situações setentistas –, estruturado num tom de fábula melancólico, de onde irrompe o seu cinema.

The life aquatic with Steve Zissou, EUA, 2004 Diretor: Wes Anderson Elenco: Bill Murray, Owen Wilson, Cate Blanchett, Anjelica Huston, Willem Dafoe, Jeff Goldblum, Seu Jorge, Noah Taylor Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin Roteiro: Wes Anderson, Noah Baumbach Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Mark Mothersbaugh Duração: 118 min. Distribuidora: Não definida Estúdio: Touchstone Pictures / Scott Rudin Productions

Cotação 4 estrelas e meia

 

Moonrise Kingdom (2012)

Por André Dick

Desde O fantástico Sr. Raposo, Wes Anderson é visto como um diretor que consegue contrabalançar o universo adulto diretamente com o infantojuvenil. Não que Os excêntricos Tenenbaums e A vida marinha com Steve Zissou não tivessem essa característica, mas tudo ficou mais claro com Sr. Raposo. Depois da partilha familiar de Viagem a Darjeeling, Anderson envereda de vez por esse universo, com os truques claros e evidentes de quem consegue, ao lado de Tim Burton, tornar a direção de arte num toque claro para que seus personagens e sua trama se esclareçam. Dificilmente se vê uma obra, nesse sentido, tão autossuficiente e interessante quanto Moonrise Kingdom, que estreou, em maio deste ano, no Festival de Cannes e fez uma trajetória de sucesso nos cinemas norte-americanos, chegando ao Brasil com lamentável atraso (tanto que nos Estados Unidos ele já foi lançado em Blu-Ray).
A história é simples como todos os filmes de Anderson: numa ilha, New Penzance, em 1965, um órfão, Sam Shakusky (Jared Gilman), decide abandonar seus amigos escoteiros, liderado pelo Mestre Ward (Edward Norton) para encontrar a menina por quem está apaixonado, Suzy Bishop (Kara Hayward). Nesse intervalo, os pais de Suzy, Walt (Bill Murray) e Laura (Frances McDormand) – que anda para cima e para baixo com um megafone –, o chefe da polícia local, Sharp (Bruce Willis) e Ward (Edward Norton), passam a percorrer a ilha, a fim de encontrá-los – mesmo que os pais adotivos de Sam pedem que ele não volte mais e lhe desejam “boa sorte”.

Os diálogos, construídos em parceria com Roman Coppola (filho de Francis e mais conhecido como diretor de clipes de bandas como The Strokes), são afiados e exatos. Mas tudo, na verdade, é motivo para Anderson empregar seus movimentos de câmera baseados em Kubrick e lapidar os moldes visuais que vem insistindo ao longo de sua filmografia, tornando cada sequência uma espécie de quadro. Imagine-se que um artista que utiliza tais elementos pré-programados seja um artista previsível, no entanto Anderson sempre consegue destacar o cenário com que lida por meio da humanidade dos indivíduos que dispõe. Ou seja, seu estilo de artista plástico, combinando cores com uma pauta visual pronta para estabelecer o que o espectador deve pensar, não seria o mesmo sem sua sensibilidade autoral. Nesse sentido, Moonrise Kingdom é a realização plena como cineasta, equilibrando o humor nostálgico de Os excêntricos Tenenbaums com o teatro patético de A vida marinha com Steve Zissou, abrindo cortinas para uma trilha sonora sempre atraente de Alexandre Desplat (A árvore da vida) e uma fotografia de notável estética de Robert D. Yeoman, que tentam criar uma espécie de fábula visual única, com a direção de arte. Não há corte nenhum entre essas obras, sobretudo com o subestimado A vida marinha de Steve Zissou – inclusive os uniformes em amarelo utilizados e um aspecto ensolarado meio morno de Moonrise Kigdom dialogam diretamente com essa obra, em que os figurinos da tripulação de Zissou (feitos por Milena Canonero) eram de um azul celeste e todos usavam gorro vermelho. Os uniformes dos escoteiros combinam com o cenário real e irreal das árvores e dos campos; o vestido da menina, laranja, combina com a cor do farol, onde sua família mora, e é um contraponto ao azul do céu atrás dela e à parada de ônibus vermelha. O papel das cartas, assim como a cor das canetas usadas para a escrita, tem uma importância fundamental, como nos Tenenbaums e em Steve Zissou. Cada quadro é especialmente desenhado para que Anderson consiga obter o que pretende. Perceba-se, na disposição dos móveis da casa da família, na apresentação inicial (que lembra a apresentação do submarino de Steve Zissou com travellings horizontais), uma notória influência da cenografia de O iluminado (há, inclusive, quando se mostra a casa dos Bishop inicialmente, a pele de um urso com a boca aberta, igual àquela do saguão do filme de Kubrick), com seus tapetes hermeticamente colocados, assim como os sofás e a iluminação da escada ao fundo, e de Laranja mecânica (as cores dos quartos e dos cômodos da casa têm muito da casa e do quarto de Alex), como se neste pedaço Wes Anderson pudesse compensar o espectador com uma espécie de infância remota ou de algum resquício de história e descrição que conhecemos apenas de livros e fábulas. Ou aquela cena em que o casal de crianças está na praia, sobre a areia, evocando algum filme europeu perdido no tempo, tentando retratar uma certa melancolia.

De qualquer modo, nada seria o mesmo sem o elenco – destaque tanto em Os excêntricos Tenenbaums quanto A vida marinha com Steve Zissou, e ele se pronuncia aqui em ótimas interpretações de Murray e de McDormand. Mesmo atores menos acostumados a este tipo de filme (como Willis e Norton) saem-se bem, assim como Tilda Swanton na pele de uma agente social, Harvey Keitel como Pierce, líder principal dos escoteiros,  e todas as crianças – Anderson é especialista nato em selecionar talentos, como foi Spielberg em determinado período dos anos 80.
Na verdade, Anderson parece especialmente interessado – e em se tratando de um trabalho com características autorais as obsessões estão presentes sempre em larga escala – por um período situado entre a infância, a adolescência e a vida adulta. Se em Os excêntricos Tenenbaums os personagens de Richie (Luke Wilson) e Margot (Gwyneth Palthrow) tentavam resolver sua paixão recolhida numa barraca iluminada montada no meio de sala, como se fosse um refúgio da realidade, em Moonrise Kingdom esse afastamento se reproduz em vários elementos, desde o menino que joga usa pedrinhas para segurar um mapa no solo até o momento em que ele está numa enseada com Suzy, e numa casa construída por escoteiros numa árvore. E sobretudo nos momentos em que Suzy utiliza seus binóculos – segundo ela, com poderes mágicos – para ver o que seu olhar normalmente não alcançaria.
Toda a iluminação – de luzes no teto ou de abajures – parece concentrar uma beleza que reproduz o espaço no qual os personagens circulam. Para Anderson, o universo sempre pode ser comprimido numa sala ou numa cabana, ou num idealismo aventureiro – como o do chefe dos escoteiros, que lembra imediatamente Steve Zissou, principalmente por seu elemento patético. E, dentro desta compressão, para Anderson, a família tem um papel fundamental: é ao redor dela que sempre circulam os receios e as aventuras que podem denominar uma nova compreensão da realidade. As famílias de Anderson são desajustadas, não há dúvida: há sempre um pai indefinido entre ter responsabilidade ou assumir sua condição; uma mãe que tenta levar segurança aos filhos, às vezes sem uma certeza definitiva; as crianças estão sempre à espera de uma decisão que pode ser ou não de seu feitio; e os adultos são, em sua maioria, bastante confusos.
Suzy, em Moonrise Kingdom, tem o poder de concentrar todos os meninos ao redor. Se ela interpreta o corvo numa encenação da ópera “O dilúvio de Noé”, do britânico Benjamin Britten – quando conheceu Sam e que será uma analogia fundamental para o que acontecerá no filme –, sendo ela mesma vista como tal em sua família, também gosta de carregar os livros com histórias para poder contá-las aos outros. Num acampamento, ela, à noite, está para encerrar a história, mas todos dizem estarem escutando o relato e ela decide continuar. Quando encontra Sam para saírem em viagem pela floresta, deixando a casa para trás, incomoda-se ao mostrar que é tratada como problemática pela família e ser ironizada – Anderson sempre ironiza seus personagens, no bom sentido. Nesse sentido, parece bem claro que a menina, aqui, é um vínculo tanto para a maturidade e para o mundo fabulístico, e Anderson não torna nada muito efetivamente familiar, contudo mantém o tom de fábula, contrapondo a narração das histórias de Suzy com a de um historiador da ilha (Bob Balaban). Nessa jornada pela ilha, eles vão se deparar com a morte algumas vezes, e a ameaça dela é o que os coloca em movimento.

Outras referências para Sam são o delegado e o chefe dos escoteiro. O primeiro quer realizar seu serviço da melhor maneira possível, mas não esquece de dizer, em determinado momento, que é menos inteligente do que Sam, e o outro se diz professor de matemática nas horas vagas de chefe de escoteiro. Ele idolatra o chefe total (Harvey Keitel), que o considera um panaca, porém mostra que é uma intersecção entre o universo infantil e a vida adulta, em suas tentativas contínuas de agradar a equipe e aos comandados. Há momentos excelentes dentro do grupo de escoteiros, principalmente aqueles em que Ward aparece (Norton tem sua melhor interpretação em muitos anos) e outro mais experiente, Ben (Jason Schwartzman), procura faturar uns trocados com os problemas de Sam e Suzy.
Outro elemento presente sempre na filmografia de Anderson – e não é diferente em Moonrise Kingdom – é a música. Os personagens circulam em torno dela. Era assim em Os excêntricos Tenenbaums, em que o melhor momento (o encontro de Margot com Richie) era embalado ao som de uma trilha sonora indie, assim como em A vida marinha com Steve Zissou o cantor brasileiro Seu Jorge dedilhava músicas de David Bowie em seu violão, tentando afastar a maresia da viagem.
Em Moonrise Kingdom, Sam e Suzy descobrem a sexualidade ao som de “Le temps de l’amour”, de Hardy – numa sequência feita com sensibilidade por Anderson, sem nenhuma espécie de exagero. Ainda assim, a melhor sequência me parece ser aquela em que Suzy e Sam acabam de se casar numa tenda do acampamento e saem, com os demais escoteiros, em câmera lenta. Tal estilo de cena é uma repetição dos encontros entre Richie e Margot – descendo do ônibus – em Os excêntricos Tenenbaums ou de Steve Zissou descendo uma rua de paralelepípedos com uma criança nos ombros, em seu épico marinho, mas parece ser aqui que Anderson a costura da melhor forma. Há, em Moonrise Kingdom, um elemento que parecia não haver nos demais: uma espécie de europeização das imagens, que se contrabalança com o estilo de Anderson. Se ele ainda mostra alguns momentos patéticos – como a vistoria matinal de Ward no acampamento ou Bishop segurando um machado, como Jack Torrance de O iluminado, e saindo “para procurar alguma árvore a fim de derrubar” –, parece que as crianças, aqui, transformam o que poderia ser interpretado como humor simplesmente contido em algo mais denso. Não me parece exatamente que Anderson, como diz em entrevistas, mostra que as crianças sabem lidar mais com os problemas, e sim que elas percebem muito mais a vertente patética das trajetórias humanas. Além disso, os seus personagens são, na verdade, adultos infantis, que dificilmente conseguem agir de maneira plausível e, quando o fazem, é sempre por alguma circunstância misteriosa. Não parece à toa que o núcleo seja o universo dos escoteiros: um universo em que o adulto parece estar numa volta à infância e à descoberta de valores mais específicos, além do colorido que proporciona para a estética de Anderson. É neste núcleo em que Sam circula com sua amada, tentando colocar sua vida nas mãos da responsabilidade, que pode ou não estar próxima. Não há exatamente nenhum humor nisso – como em seus outros fimes, sobretudo A vida marinha com Steve Zissou, Anderson emprega, aqui, um desalento que torna os personagens, em alguns momentos, dependentes da sua própria fuga.
Por todos esses elementos, Moonrise Kingdom é uma obra rara nos tempos atuais: ao mesmo tempo em que diverte, proporcionando uma experiência estética, de cores e descobertas, consegue lidar com os sentidos da morte e da experiência amorosa de modo realmente interessante. Sam e Suzy são representações claras de que Anderson não deseja exatamente fazer um cinema exclusivo apenas para adultos ou para crianças, e sim de que para chegar ao campo em que pretende precisa tentar definir a relação entre o que se chama de maturidade e a infância.

Moonrise Kingdom, EUA, 2012 Diretor: Wes Anderson Elenco: Bruce Willis, Edward Norton, Tilda Swinton, Bill Murray, Frances McDormand, Jason Schwartzman, Harvey Keitel, Kara Hayward, Jared Gilman, Bob Balaban Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven M. Rales, Scott Rudin Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 95 min. Distribuidora: Universal Estúdio: American Empirical Pictures / Indian Paintbrush / Scott Rudin Productions

Cotação 5 estrelas