Espírito jovem (2019)

Por André Dick

O universo de filmes que tentam captar o ingresso de um personagem na indústria da música teve alguns de de seus momentos mais significativos com os recentes Vox Lux Nasce uma estrela, estrelados, respectivamente, por Natalie Portman e Lady Gaga. Também foi lançado recentemente o bem-humorado, apesar de também dramático, Patti Cake$, em que uma jovem queria se tornar rap. Essas são produções notáveis sobre como uma figura adentra esse universo, tentando se adaptar a ele, equilibrando o aspecto autoral e o marketing para a venda da obra. Espírito jovem segue essa linha, numa estreia na direção de Max Minghella, conhecido por atuações como em A rede social e filho do falecido cineasta Anthony (de filmes como O paciente inglês).

O roteiro traz Elle Fanning como Violet Valenski, uma jovem que mora no interior de uma cidade numa ilha da Costa Sul da Inglaterra e sonha em ser cantora. Sua mãe, Marla (Agnieszka Grochowska), de origem polonesa (alguns diálogos são nessa língua), é bastante rígida. No pub onde trabalha como garçonete, Violet às vezes canta e numa das noites é descoberta por um ex-cantor de ópera, Vlad (Zlatko Buric). Também possui uma rivalidade escolar com Anastasia (Millie Brady). A caminho de uma competição nacional, chamada Teen Spirit, Violeta vai conhecer a agente Jules (Rebecca Hall) e a jovem estrela Keyan Spears (Ruairi O’Connor), com uma personalidade um tanto manipuladora. Cria-se, a partir daí, o contraste entre o universo pastoral do qual ela vem e a cidade de Londres e os meandros de um concurso de música com grande cobertura. Nesses momentos, a história lembra um pouco Sing Street, sem, porém, adotar o discurso mas rebelde da adolescência, de um discurso contra a escola, por exemplo, ou a favor de um romantismo.

A fotografia de Autumn Durald é um dos trabalhos mais significativos do gênero, com um trabalho de luzes impecável, influenciado pela obra de Nicolas Winding Refn, principalmente quando Violet está nos camarins, lembrando a presença de Fanning também em Demônio de neon. Em igual escala, há flashes que lembram o trabalho de Lubezki em A árvore da vida, num ambiente mais campestre onde a personagem central vive, indicando uma faceta europeia. Tudo isso cria um complemento com a proposta mais pop do filme, que destoa do lado negativo de Vox Lux, por exemplo.
Minghella trata os personagens com afeto, a partir da amizade entre Violet e Vlad, como dois deslocados da sociedade, captando algo, nas músicas e luzes, do Flashdance dos anos 80, assim como toques de Fama, quando a personagem central se reúne com uma banda. Há performances muito boas de “Lights” de Ellie Goulding e “Don’t Kill My Vibe” (Sigrid). Fala-se que Minghella gostaria de ter sido diretor de videoclipes e em alguns relances ele vislumbra essa busca aqui, quase colocando alguns completos em meio à trama, num diálogo com os anos 80, abastecido por bandas do rock atual, a exemplo de The Strokes e The Killers (que possui um videoclipe exatamente com Minghella). Isso fornece uma camada de diálogos atmosféricos bem propícia à reação de cada uma das figuras. Ou seja, este filme está para a época atual como Flashdance esteve para os anos 80 e não se duvide da sua tendência a se tornar um cult.

O visual não funcionaria sem a ótima atuação de Fanning, aqui com menos maneirismos do que no início da carreira e mostrando ser uma atriz superior a Dakota, sua irmã que começou muito bem em Guerra dos mundos e depois teve menos destaque, apesar de The Runaways. Há, além disso, a presença emotiva de Burio e Grochowska, como símbolos de uma família que pode se constituir. Por sua vez, Hall faz uma boa representação de uma agente do universo da música, interessada em assinar contrato rapidamente com astros em potencial. Talvez a proposta do filme em nunca esclarecer direito quem é Violet determina sua universalidade, principalmente ao tratar de um movimento cada vez mais presente de se descobrir estrelas pop em programas de televisão. No entanto, esse lado mais comercial não sobrepuja a sensação de que estamos lidando com personagens que se movimentam por sentimentos, e isso se esclarece na própria relação paternal que Violet desenvolve com Vlad. Minghella assina o roteiro, às vezes com lacunas e lugares-comuns, sem, no entanto, isso incomodar. Muitas vezes onde não há diálogos a história cresce de uma maneira inesperada. A montagem apressada (trata-se de um filme relativamente curto) também incomoda o desenvolvimento de algumas situações. Porém, o que se vê é interessante o bastante para investir em sua emoção.

Teen spirit, EUA, 2019 Diretor: Max Minghella Elenco: Elle Fanning, Rebecca Hall, Zlatko Buric, Agnieszka Grochowska, Ruairi O’Connor, Millie Brady Roteiro: Max Minghella Fotografia: Autumn Durald Trilha Sonora: Marius de Vries Produção: Fred Berger Duração: 92 min. Estúdio: Automatik Entertainment, Blank Tape, Interscope Films Distribuidora: Lionsgate, LD Entertainment, Bleecker Street

Rei Arthur – A lenda da espada (2017)

Por André Dick

O primeiro contato mais exitoso com o cinema de Guy Ritchie se deu em Snatch – Porcos e diamantes, uma espécie de miscelânea de gêneros ligados ao mundo da máfia, com todos os maneirismos possíveis de sentido pop e violência influenciada visivelmente por Tarantino. Ritchie parecia um bom cineasta, mas ainda tateando, em busca de uma personalidade. Não foi o que ele conseguiu em projetos como Destino insólito (com sua ex-mulher, Madonna), mas por incrível que pareça são os elementos que já apareciam em Snatch que fizeram funcionar tão bem Sherlock Holmes e agora, em menor escala, Rei Arthur – A lenda da espada. Estão aqui os elementos que já se encontravam naquele filme: uma espécie de necessidade de destacar os movimentos de câmera, lembrando às vezes um videoclipe, o visual carregado e o elenco fazendo soar o máximo uma espontaneidade teatralizada. Nesta adaptação da lenda do Rei Arthur, Ritchie consegue encontrar tanto sua personalidade quanto mostrar que mesmo naquele filme em que ainda se mostrava incipiente já mostrava uma determinada originalidade extraída de várias influências.

Ritchie tem, desde o início, uma influência clara de O senhor dos anéis, mostrando o logotipo da Warner como um anel forjado em ouro. Com roteiro dele em parceria com Joby Harold e Lion Wigram, Rei Arthur mostra inicialmente o Rei Uther Pendragon (Eric Bana) salvando Camelot de Mordred (Rob Knighton), capaz de lembrar qualquer figura maligna da série de Peter Jackson e que pretende instituir o domínio dos magos sobre a humanidade. Na mesma noite, em meio a uma manada de elefantes, Uther é traído pelo irmão Vortigern (Jude Law), que pretende matar o seu sobrinho. No entanto, este escapa em uma barca e é criado por prostitutas. Quando o jovem Arthur cresce (e vira Charlie Hunnam), ele tem amigos como Wet Stick (Kingsley Ben-Adir), Back Lack (Neil Maskell) e o chinês George (Tom Wu). Eles investem contra vikings que maltratam prostitutas para, então, descobrirem que eles eram convidados de Vortigern. Integram-se ainda em sua equipe Bedivere (Djimon Hounsou), o arqueiro Bill (Aidan Gillen), antigos companheiros de seu pai, além de Mage (Astrid Berges-Frisbey), que possui poderes especiais. Claro que Arthur só descobre realmente quem é e o que precisa fazer quando chega às suas mãos a espada Excalibur – depois de ouvir impropérios de um dos que tentavam extraí-la da rocha (feito por David Beckham, o ex-jogador de futebol).

O filme de Ritchie não tem objetivo de respeitar algum molde clássico, como todos os projetos do cineasta: é um espetáculo em movimento quase de videoclipe, com uma montagem por vezes confusa, com idas e vindas no tempo e cortes para evitar excessivo material expositivo – uma das qualidades do diretor. Não possui, por exemplo, a atmosfera séria de Excalibur, de John Boorman, uma das referências do gênero: Rei Arthur está mais interessado em compor uma diversão descompromissada, com muitas cenas de luta e um ritmo trepidante, dialogando com o Robin Hood de Kevin Costner e Morgan Freeman, dos anos 90, e lembrando Chumbo grosso, de Edgar Wright na maneira como edita as cenas.
A fotografia de John Mathieson (de Peter Pan, Logan e Gladiador) estabelece, com a ajuda do design de produção, a época medieval com rara perspicácia, trazendo um ar de fantasia que remete tanto ao já mencionado O senhor dos anéis quanto a Harry Potter (as duas partes de As relíquias da morte) e ao oitentista Krull, principalmente em suas cenas passadas na floresta. Ritchie tem interesse claro em recuperar uma espécie de filme que mescla história e fantasia com imagens perturbadoras daquilo que habita os porões do castelo de Camelot.

Charlie Hunnam não tem uma grande atuação como Arthur (ele se mostrava melhor, por exemplo, em Círculo de fogo), mas Jude Law contrabalança a falta que faz um herói mais convincente, ao transmitir uma sensação de tragédia familiar no seu pacto com forças maléficas. Nas cenas de luta, Hunnam é mais ativo, concedendo certo realismo à sua procura pelo combate. Eric Bana também se sai bem, um ator quase ausente no cinema atual depois de mostrar talento em várias obras, como Hulk, Munique e Troia (em que Rei Arthur também vai buscar certa influência). E Astrid Berges-Frisbey é especialmente misteriosa, como convém a seu personagem, Marve.
O elenco não chega a ter muitas cenas em conjunto, fazendo-se mais presente na aceleração de diálogos sobre possíveis batalhas a serem travadas. É visível uma influência de Cruzada na imposição de alguns cenários palacianos, e com a agilidade insuspeita para uma história sobre esse período há um estranhamento e originalidade, além de Ritchie localizar Arthur como uma espécie de personagem saído da peça Os miseráveis, com um passado não esclarecido, mas sempre disposto a fazer o bem para aquelas que o criaram, e que é salvo como se fosse o próximo escolhido. Depois, ele se impõe como um lutador e a agilidade que tem nas ruas faz lembrar um gângster jovem saído de algum filme de Scorsese. Ritchie utiliza algumas belas analogias, como o momento em que Arthur tira Excalibur da pedra em que está incrustada e o sangue sai das velas do castelo de Camelot, ou o símbolo da cobra, que se torna o antídoto para um determinado momento.

Também podemos ver além quando Ritchie mostra estátuas na floresta em diálogo com as ossadas dos elefantes e quando Arthur precisa mergulhar num lago, como se ele precisasse descobrir a verdade, a mesma que se esconde em meio a criaturas no subterrâneo do palácio de Camelot. Nesse sentido, visualmente, talvez seja a peça mais rica da filmografia do diretor, sempre propenso a tratar mais de forma objetiva o que está mostrando – e aqui, na realidade, não é diferente, no entanto com esses acréscimos. E, como é de praxe em sua filmografia, Ritchie não está muito interessado no desenvolvimento de relação entre os personagens, mas isso não prejudica o andamento de sua narrativa. Projetado para ser uma franquia de seis (!) capítulos, Rei Arthur custou 175 milhões e arrecadou 135, tornando-se num dos fracassos comerciais do ano. Não aparenta que teria fôlego para tantos filmes – e parece ter se tornado uma mania adiantar número de obras de uma possível série sem uma sequer ter sido lançada –, por outro lado o que se apresenta nele vale a pena ser assistido.

King Arthur: Legend of the sword, EUA, 2017 Diretor: Guy Ritchie Elenco: Charlie Hunnam, Àstrid Bergès-Frisbey, Djimon Hounsou, Aidan Gillen, Jude Law, Eric Bana, Mikael Persbrandt, Lorraine Bruce, Hermione Corfield, Annabelle Wallis, Kingsley Ben-Adir, Neil Maskell, Millie Brady, David Beckham Roteiro: Guy Ritchie, Joby Harold, Lionel Wigram Fotografia: John Mathieson Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Akiva Goldsman, Guy Ritchie, Joby Harold, Lionel Wigram, Richard Suckle, Steve Clark-Hall, Tory Tunnell Duração: 126 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Safehouse Pictures / Village Roadshow Pictures / Warner Bros. / Weed Road Pictures / Wigram Productions