Sonhos (1990)

Por André Dick

Este é o projeto mais pessoal do cineasta japonês Akira Kurosawa, diretor de filmes antológicos como Kagemusha e Ran. Não apenas por tratar de oito sonhos que teve ao longo da vida, mas também porque apresenta uma narrativa leve e densa, sem permitir uma superficialidade. Ele havia feito Ran cinco anos antes, tendo sido indicado ao Oscar de melhor diretor, sua adaptação para o Rei Lear, de Shakespeare. Pela primeira vez, utiliza efeitos especiais da Industrial Light & Magic, de George Lucas, também porque o filme conta com a produção executiva de Steven Spielberg (possíveis spoilers a partir daqui).
O primeiro dos oito sonhos é “A chuva em meio ao sol”, em que um garoto (Mitsunori Isaki) presencia um casamento de raposas, proibido para todo mundo, sendo levado pela mãe (Mitsuko Baisho) a ter de optar por um caminho tortuoso. A atitude dela é surpreendente, e ecoa um desprendimento familiar em nome de uma tradição, ainda que seja assustadora. Belamente fotografado, com um figurino extraordinário, é talvez o melhor episódio, com fundo ecológico. O final do sonho – o garoto observando um arco-íris no horizonte – é uma das sequências mais bem feitas do cinema, trazendo a sensação de onirismo que o diretor pretende empregar em cada uma de suas peças.

O segundo sonho se chama “O jardim de pessegueiros”, novamente criticando a humanidade, que destrói árvores, no caso pessegueiros. Atraído por uma bela moça, o menino Kurosawa atravessa para outra realidade, em que árvores são interpretadas por seres humanos, em meio a diálogos sobre a finitude e o respeito pela natureza, porém sem abdicar de um ritmo orquestrado, em que figurantes com vestuários de cores diferenciadas compõem os espíritos vários pessegueiros e parecem prestar uma homenagem ao menino que chora pela perda. Tudo remete à poesia de origem japonesa: prevalecem as imagens sobre a narrativa, porém esta se infiltra nos mais ínfimos movimentos feitos por Kurosawa.
Quando termina o segundo sonho e começa o terceiro, “A nevasca”, parece que há uma queda na narrativa. Pesada e distante, essa história não chega a engrenar como as anteriores, nem mesmo quando uma equipe de alpinistas enfrenta a morte no frio. Necessitava de um pequeno corte inicial, já que se perde tempo demasiado com a angústia da situação, sendo, porém, por outro lado, essa uma de suas virtudes sob outro olhar. Aqui, há um enfrentamento com os limites do corpo, lembrando um dos melhores momentos da filmografia de Kurosawa, Dersu Uzala, e possuindo um desfecho altamente bem filmado, com uma integração entre visão, sonho e sensação de luto na imagem de uma figura que representa a forte nevasca (Mieko Harada).

No quarto sonho, “O túnel”, temos um sonho bastante original: o tenente de uma tropa (Akira Terao, a partir daqui em todos os sonhos, como Kurosawa) depara-se com soldados mortos (com os rostos pintados de azul celeste), enfrentando um cão raivoso, talvez sua consciência culposa. Interessante como se traça um diálogo com o sonho anterior no sentido da morte que parece inevitável, mas se abre numa nota otimista de regeneração do ser humano. Kurosawa dirige com brilhantismo este sonho, assim como em “Corvos”, o quinto sonho, seu alter ego revisita pinturas de Van Gogh num museu e imagina caminhar dentro delas – aqui, a fotografia inicial, mais poética, é retomada e os efeitos especiais, muito bem feitos, marcam presença – e se encontra com o pintor (interpretado por Martin Scorsese, fortemente maquiado). Este talvez seja o momento mais autobiográfico da trajetória de Kurosawa, que, antes de ser cineasta, gostaria de ter sido pintor e eclode numa quase homenagem a Os pássaros, de Hitchcock, contrastando um campo amarelado de trigo com a cor dos corvos, que dão título à passagem. É o sonho que também, ao contrário daquele da nevasca e da montanha, abre o mundo para múltiplos caminhos, também em contato com a natureza e a arte, lembrando mais os dois primeiros localizados na infância.

O sexto e sétimo sonhos,  “Monte Fuji em vermelho” e “O demônio que chora”, talvez sejam os mais fracos, apoiados num roteiro menos inspirado e aqueles mais ligados a um possível apocalipse na Terra. No sexto, usinas nucleares explodem, e os habitantes perto do Monte Fuji precisam fugir da radioatividade. Os efeitos especiais são propositadamente limitados, remetendo a obras japonesas dos anos 60, mas com um trabalho de cores interessante. No sétimo, um rapaz encontra uma espécie de demônio (Mieko Harada), num sonho estranho, inclusive com flores gigantes, resultantes da radioatividade, mas uma direção de arte não tão feliz como os demais, acentuando em demasia o fundo acizentado, embora o final, com várias criaturas sendo projetadas em vermelho na água, ofereça uma angústia interessante. São também esses episódios que parecem finalizar a ideia apresentada pelos sonhos do túnel e da nevasca: o personagem aceitando sua fragilidade diante das escolhas humanas.

Felizmente, o último sonho, “Povoado dos moinhos”, é excelente o bastante para dar a Sonhos um status de obra-prima. Nele, o jovem Kurosawa conversa com um velho carpinteiro (Chishu Ryu) de um local cheio de moinhos e crianças. Com uma espécie de cerimônia ritualística, parece que se fecha a obra, percorrendo da infância à velhice e o contato com a natureza, primeiramente no bosque, agora numa cidade composta por moinhos-d’água. Mestre em fazer imagens impressionantes, Kurosawa encerra aqui afirmando a concretude de cada um dos sonhos. Sem dar especial atenção aos diálogos, como em Ran, por exemplo, ele se concentra no traço pictórico para atingir a sensibilidade do espectador. Uma caminhada representa todo um percurso de vida e não deixa de estabelecer vínculo com o primeiro sonho, no qual o menino se depara com um arco-íris depois de ser levado pela mãe a ter de optar pela decisão das raposas. O homem já adulto não está escondido por trás das árvores: ele está consciente do seu percurso. É um canto para a natureza, dentro ou fora das pinturas que exibe. Desse modo, os múltiplos caminhos do sonho sobre as pinturas de Van Gogh se mostram cada vez mais presentes e notáveis.

夢 /Akira Kurosawa’s Dreams, EUA/JAP, 1990 Diretor: Akira Kurosawa Elenco: Akira Terao, Martin Scorsese, Chishū Ryū, Mieko Harada, Mitsuko Baisho, Mitsunori Isaki Roteiro: Akira Kurosawa Fotografia: Takao Saito e Shôji Ueda Trilha Sonora: Shinichirô Ikebe Produção: Hisao Kurosawa e Mike Y. Inoue Duração: 119 min. Estúdio: Akira Kurosawa USA Distribuidora: Warner Bros. (Estados Unidos), Toho (Japão)