Venom (2018)

Por André Dick

A corrente de filmes de super-heróis rendeu algumas das maiores bilheterias do ano, incluindo as duas principais. Se Venom segue o filão de adaptações de histórias em quadrinhos, desta vez mostrando um supervilão, pode-se lembrar que ele já apareceu em Homem-Aranha 3, o fechamento contestado da trilogia de Sam Raimi, vivido então por Topher Grace. O personagem regressa neste filme sob direção de Ruben Fleischer, que se tornou conhecido por seu cult de comédia Zumbilândia e depois teve uma má recepção com Caça aos gângsters, com um visual elaborado, tanto na direção de arte de época quanto no figurino, além do elenco que inclui Ryan Gosling e Emma Stone. Dessas duas obras, Venom recupera a parte técnica bem elaborada e um cuidado na maneira com que se desenham os personagens num ritmo vertiginoso, sem dar muita importância a explicações psicológicas ou algo do gênero.

A obra de Fleischer teve problemas em suas filmagens, muitos cortes na edição final (fala-se em 40 minutos) e um trabalho de marketing no mínimo duvidoso. Mostra como o jornalista Eddie Brock (Tom Hardy), sob a liderança do editor Jack (Ron Cephas Jones), entra em contato com a corporação Life Foundation, que investiga resquícios de vida num cometa, tendo à frente o CEO Carlton Drake (Riz Ahmed). Ele descobre haver essas pesquisas secretas num documento em posse da sua noiva, Anne Weying (Michelle Williams). Eddie se desentende com Carlton numa visita à empresa, tentando trazer a verdade à tona. Depois de algum tempo, Drake continua fazendo testes com humanos utilizando a forma de vida que caiu com o cometa, uma espécie de parasita. Diante disso, Brock é procurado por Dora Skirth (Jenny Slate), que trabalha para Drake. A partir daí, ele se envolve numa rede de acontecimentos que podem levá-lo a um momento extremamente delicado em sua vida, entre idas a um minimercado constantemente assaltado e incômodos com o vizinho afeiçoado a ligar o rock no último volume diante de seu apartamento, além de uma ida altamente nonsense a um restaurante, a fim de comer de forma desajeitada frutos do mar num aquário.

Fleischer sabe utilizar com maestria a fotografia excepcional de Matthew Libatique, habitual colaborador de Darren Aronofsky e aqui utiliza cores e neons que remetem tanto a seu trabalho em Cisne negro. Também mostra sua agilidade já mostrada nos dois primeiros Homem de ferro. Se as tomadas de efeitos visuais com a criatura que se apossa de Brock lembram as do filme Vida, um terror sobre um hospedeiro alienígena que torna caótica uma estação espacial, o humor da história, que cria um fio tênue entre os personagens, é o que mais sustenta tudo, mesmo a tentativa de dramaticidade. Para isso, a atuação de Hardy é exitosa. Um grande ator já revelado em O regresso, ele tinha bons momentos como o vilão Bane de Batman – O cavaleiro das trevas ressurge e mal aparecia em Mad Max, no entanto é aqui que com uma veia humorística muito bem dosada que ele se sobressai. Além disso, ele tem química com Williams, uma atriz que pouco aparece em blockbusters e naturalmente bem aproveitada pelo roteiro, nos momentos mais efetivos. A inclusão do seu novo namorado, Dr. Dan Lewis (Reid Scott), que tenta ajudar Brock em sua forma de Venom, é também um acerto do roteiro, fazendo o personagem central nunca se sentir antipático, mesmo sendo de fato um supervilão, assim como deposita em Ahmed, ator muito competente, revelado em O abutre, uma boa vilania.

Sustentado por um roteiro de Scott Rosenberg e Jeff Pinker, reescrito por Kelly Marcel, Venom possui uma ambientação que consegue mesclar a atmosfera urbana de uma grande cidade, no caso a mesma San Francisco de Homem-Formiga, e uma fantasia com efeitos visuais no mínimo competentes. As sequências de ação, principalmente aquelas em que o personagem se envolve em lutas, são bastante eficazes, mas nenhuma supera uma na qual ele está de moto – e sua habilidade elástica se mostra muito parecida com a sequência de moto de As aventuras de Tintim, com uma câmera panorâmica para mostrar o salto do personagem. Claro que, depois dessa produção, fica difícil colocá-lo como um vilão do Homem-Aranha em alguma aventura posterior do universo da Marvel – seja da Fox ou da Disney –, graças à intervenção de Hardy, porém é possível dizer que se trata de uma obra despretensiosa que consegue atingir seu feito de maneira interessante. Assim como sem sua grande realização cult Zumbilândia, Fleischer sabe como mesclar ação e uma montagem agilíssima, além de alguns momentos realmente tensos, entregando ao espectador parte de suas expectativas. Desse modo, Venom nunca se sente aborrecido ou em queda, entrelaçando boas situações e um núcleo bem dosado de humor.

Venom, EUA, 2018 Diretor: Ruben Fleischer Elenco: Tom Hardy, Michelle Williams, Riz Ahmed, Scott Haze, Reid Scott, Jenny Slate, Ron Cephas Jones Roteiro: Jeff Pinkner, Scott Rosenberg, Kelly Marcel Fotografia: Matthew Libatique Trilha Sonora: Ludwig Göransson Produção: Avi Arad, Matt Tolmach, Amy Pascal Duração: 112 min. Estúdio: Columbia Pictures, Marvel Entertainment, Tencent Pictures, Arad Productions, Matt Tolmach Productions, Pascal Pictures Distribuidora: Sony Pictures Releasing

Todo o dinheiro do mundo (2017)

Por André Dick

No ano em que completou 80 anos, o diretor Ridley Scott lançou a sequência de Prometheus, colaborou no roteiro de Blade Runner 2049 sem ser creditado, ajudou a produzir Assassinato no expresso do Oriente e finalmente, diante de várias denúncias de assédio contra Kevin Spacey, que participava de seu novo filme, Todo o dinheiro do mundo, resolveu refilmar todas as cenas em que ele aparecia, trocando-o por Christopher Plummer. O resultado em termos financeiros e de crítica foram irrisórios, mas a nova obra de Scott tem uma história muito interessante, baseada em fatos reais.
Tudo começa em 1973, quando JP “Paul” Getty III (Charlie Plummer) é sequestrado em Roma por um grupo. Ele é um jovem de 16 anos, neto de J. Paul Getty (Christopher Plummer), magnata do petróleo e o homem mais rico daquela época. Os sequestradores exigem 17 milhões de dólares como resgate. Sabemos por meio de flashbacks que os pais do adolescente, Gail Harris (Michelle Williams) e John Getty Jr. (Andrew Buchan), se divorciaram quase uma década antes e ela não recebe nenhuma pensão alimentícia para ter a custódia dos filhos. E que John Getty se entregou às drogas.

Ela fica desesperada e pede o dinheiro ao ex-sogro, que coloca Fletcher Chase (Mark Wahlberg), negociador do Getty Oil, a empresa de Getty, para cuidar do caso. Sem querer dar o montante em dinheiro requisitado, Getty quer que seu assessor, também ex-integrante da CIA, investigue onde pode estar o neto. Este se encontra num cativeiro no interior da Itália, vigiado por, entre outros, Cinquanta (Romain Duris).
A história parece previsível, porém a maneira como Ridley Scott a conduz tem a voltagem de um thriller americanos em terra italiana, com um bom contraste entre a cidade e a área rural e entre o desespero de uma mãe e o luxo de um milionário pouco emotivo. De forma indireta ou direta, Todo o dinheiro do mundo trata da constituição de uma família e de como um sobrenome pode pesar ou significar em momentos que se tornam nebulosos ou perturbadores diante de uma realidade mais angustiante.

Williams apresenta uma atuação discreta e ainda notável, seguida pela de Plummer, num registro muito mais expansivo do que pareciam indicar as refilmagens. O personagem dele realmente serve de guia para o filme, com uma presença estranhamente maligna, embora, mais ao início, sua participação seja um pouco entrecortada pelas idas e vindas no tempo. Sua reação ao sequestro do neto reserva um comportamento dúbio: se, por um lado, ele parece se preocupar com o que acontece a ele, por outro há uma frieza. Ele lembra do neto principalmente criança, e quando Scott mostra os dois caminhando em ruínas do Coliseu (seus semblantes lembram de Chaplin e o menino em O garoto) parece que ele quer entrelaçar passado e frente para dizer que o personagem está em outra dimensão, junto com sua concepção de dinheiro. E Romain Duris apresenta uma atuação muito convincente como um dos sequestradores que deseja pôr fim à situação o quanto antes. A atuação de Charlie Plummer (nenhum parentesco real com Christopher) é surpreendente, mesmo com pouco roteiro, e Wahlberg é competente, mesmo com uma figura escrita com menos ênfase, principalmente levando em conta a função que poderia ter.

A fotografia de Dariusz Wolski ajuda a criar uma atmosfera que mescla alguns dos melhores momentos da trajetória de Scott, fazendo a história dialogar com Gladiador, Hannibal e O conselheiro do crime, além de Um bom ano: Scott é quase um cidadão italiano por seu interesse pelo país. Desde O poderoso chefão III, no cinema norte-americano ou inglês, não se tinha uma visão geral do interior desse país tão aproximada, com suas cidades de becos apertados e fazendas como pontos de encontro entre mafiosos. Ele tem uma obsessão por esculturas e estátuas do universo romano, e aqui mostra literalmente como alguns privilegiam essas peças do que o corpo humano e seu sentimento. Há uma concepção muito interessante do filme sobre a arte ser considerada uma riqueza e um passo para um indivíduo se sentir atemporal e acima de seus semelhantes. Isso se manifestava no início de Alien: Covenant, por exemplo, quando vemos Peter Weyland e David numa sala com a pintura “Natividade”, de Piero della Francesca, ao fundo. Aqui, surge outra obra de arte como significado para as perturbações de Getty. Em outro momento, é oferecida uma quantia de dinheiro para que possa aproveitar de forma jornalística uma informação referente ao neto. Scott evita uma manipulação dramática e concede à sua narrativa uma visão moderna de que todos desejam tirar algo dessa situação.

Os sequestradores não podem ter seu rosto revelado, mas em nenhum instante vemos também Getty se revelar. Em Todo o dinheiro do mundo, o rosto habita as notas de dinheiro e as esculturas, não os humanos. Esses se escondem sempre por trás de suas decisões meramente pessoais. Não existe em Getty, por exemplo, a visão que Scott lançava em O gângster, sobre como um homem crescia por meio da máfia, porém a maneira com que ambos se distanciam da realidade é semelhante. Não imagino o impacto que terá para o espectador que sabe da história real. Evitei ter informações antes de assisti-lo e, mesmo com alguns traços recorrentes de narrativa de sequestro, teve uma certa surpresa.
O roteiro de David Scarpa, adaptado do livro Painfully rich: The outrageous fortunes and misfortunes of the heirs of J. Paul Getty, é muito conciso e funcional, não havendo nenhum excesso, com auxílio da montagem agilíssima, e Scott entrega sua melhor direção desde O conselheiro do crime, com grande domínio sobre os espaços e elenco. Que este filme não esteja entre os indicados principais ao Oscar é um mistério tão grande quanto se achar que a última grande obra de Scott é Blade Runner. Todo o dinheiro do mundo é excepcional.

All the money in the world, EUA/ING, 2017 Diretor: Ridley Scott Elenco: Michelle Williams, Christopher Plummer, Mark Wahlberg, Romain Duris, Charlie Plummer, Andrew Buchan Roteiro: David Scarpa Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Chris Clark, Quentin Curtis, Dan Friedkin, Mark Huffam, Ridley Scott, Bradley Thomas, Kevin J. Walsh Duração: 135 min. Estúdio: Imperative Entertainment, Scott Free Productions Distribuidora: TriStar Pictures

 

Sem fôlego (2017)

Por André Dick

O diretor Todd Haynes já conseguiu, junto a seu fotógrafo Edward Lachman, algumas proezas visuais, a exemplo de Longe do paraíso e Carol, às vezes não encontrando uma ressonância emocional em equilíbrio. Em Sem fôlego, ele adapta uma novela juvenil assinada por Brian Selznick. Este é o mesmo autor de A invenção de Hugo Cabret, e a adaptação de Haynes, pode-se dizer, tem elementos daquela de Martin Scorsese. No entanto, onde Scorsese celebra mais o fantástico e o grandioso, Haynes se concentra mais no material que pode mostrar o cinema como um grande museu a céu aberto.
A história também é um pouco mais antilinear do que a de Hugo Cabret. Começa mostrando a história de um menino, Ben (Oakes Fegley, muito bem), de Lake, Minnesota, em 1977, cuidado pela tia e que determinado dia sonha com a mãe, Elaine (Michelle Williams). Chega às suas mãos um livro dela, Wonderstruck, com uma orelha com a frase “Amor, Danny” – que ele imagina ser seu pai. Normalmente, ele tem pesadelos com lobos o perseguindo por uma floresta. Acaba caindo um raio na sua casa e ele perde totalmente a sua audição. Fugindo do hospital, ele vai parar no Museu Americano de História Natural, em Nova York, onde conhece Jamie (Jaden Michael), cujo pai (Raul Torres) trabalha no lugar.

Ao mesmo tempo, Haynes mostra a trajetória de Rose (Millicent Simmonds, ótima), que vive sempre dentro de casa, oprimida pelo pai (James Urbania), em Hoboke, Nova Jersey, em 1927. Ela é surda, assim como fica Ben, e também vai para Nova York, a fim de conhecer a atriz Lillian Mayhew (Julianne Moore), de quem é fã. Nesse meio tempo, ela encontra o irmão Walter (Cory Michael Smith). As histórias de ambas as crianças vão se cruzando e parecem se justapor em alguns momentos, como se a memória, para Haynes, representasse um universo à parte.
Ela também faz o percurso até o Museu Americano de História Natural. Não, isso não seria uma versão mais séria de Uma noite no museu, embora os cenários às vezes até lembrem (assim como o Jumanji dos anos 90). É interessante como Haynes mostra em tempos diferentes, mas com trajetórias parecidas, mesclando, ao mesmo tempo, uma homenagem à ideia de família e ao mundo do cinema – mudo, da década de 20, principalmente, por meio dos personagens de Ben e Rose. Essa é parte que talvez mais se assemelhe com A invenção de Hugo Cabret, no entanto é mais do que evidente que Haynes constrói uma sólida concepção de poesia em cima de uma história que poderia ser rotineira. Buscando alinhar seus personagens, ele compõe uma espécie de reencontro de um menino com a infância que faltou e com a vida que ainda vai se expandir a partir de suas descobertas. A trilha sonora de Carter Burwell é brilhante, servindo como uma pontuação de filme de época.

O momento em que Rose avista Nova York do navio em sua chegada é coberto por um sentimento de a-historicidade que leva a própria tendência de Haynes em mostrar a mesma cidade dos anos 70 sob um ponto de vista mais contemporâneo, até chegar ao terceiro ato extremamente sentimental e ainda assim belo. Seu filme é exatamente sobre pessoas que são surdas e, portanto, parecem, por vezes, reclusas em seu mundo, mas é exatamente aí que as expande para uma busca pelo amor inigualável entre seus pares. A história de Sem fôlego se mostra cada vez mais próxima do espectador quando aparenta estar distante, com seu jogo de ilusões e espelhos. Que esta obra nova de Haynes tenha sido recebido com tanta apatia, ao contrário do anterior (não tão interessante, a meu ver), Carol, mostra, infelizmente, certa padronização no que se refere a histórias com crianças. O filme, de maneira exemplar, trata da íntima comunicação que se estabelece quando menos se percebe e onde menos parece ser atrativa: trata dos dilemas mais pessoais de um ser humano em busca de sua história, assim como a humanidade busca a sua num museu. Quando, em determinado momento, Haynes expõe uma enorme maquete, extraordinária, pode-se dizer que ela representa tudo aquilo em que esses personagens passeiam, com a segurança de quem conseguirá obter o acesso a um grande planetário a céu aberto.

Wonderstruck, EUA, 2017 Diretor: Todd Haynes Elenco: Oakes Fegley, Julianne Moore, Michelle Williams, Millicent Simmonds, Jaden Michael, Raul Torres Roteiro: Brian Selznick Fotografia: Edward Lachman Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Pamela Koffler, John Sloss, Christine Vachon Duração: 117 min. Estúdio: Killer Films, FilmNation Entertainment, Cinetic Media, Picrow Distribuidora: Amazon Studios, Roadside Attractions

 

Manchester à beira-mar (2016)

Por André Dick

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Poucos filmes conseguem transformar uma narrativa simples em algo mais elaborado. Lançado em 2011, Margaret, de Kenneth Lonergan, tinha essa qualidade. A nova obra do diretor, Manchester à beira-mar, também a possui: Lonergan é um cineasta para o qual importam pequenos gestos, algumas reações repentinas e nem sempre explicadas e possui a grande qualidade de extrair atuações interessantes de seu elenco. Em Margaret, tínhamos grandes atuações de Anna Paquin e Mark Ruffalo, além de trazer Matt Damon e Allison Janney, numa história que mesclava a necessidade de responder por um momento importante para a vida de várias pessoas, assim como o despontar de uma jovem para a vida adulta de maneira irremediável.
Já em Manchester, a narrativa se concentra na trajetória de Lee Chandler (Casey Affleck), que trabalha, muito a contragosto, como zelador em Quincy, Massachusetts. Lidando com certa antipatia com clientes, ele, depois do trabalho, costuma ir ao bar e esquecer das questões que o envolvem. Num determinado dia, ele recebe a notícia, por meio de George (CJ Wilson), de que seu irmão Joe (Kyle Chandler), dono de um navio pesqueiro em Manchester, na costa de Massachusetts, sofreu um ataque cardíaco. O reconhecimento do corpo é o início para se reconhecer o que Lee enfrentou na vida pessoal para que chegasse até ali. Isso o faz voltar para a cidade de onde veio, a fim de encontrar o filho de Joe, Patrick (Lucas Hedges). Nesse lugar, por meio de lembranças, ficamos sabendo que Lee constituía uma família com Randi (Michelle Williams).

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Lonergan utiliza a estrutura de um filme de Atom Egoyan, com inúmeros flashbacks, para construir um panorama ao redor da existência de Lee e sua relação problemática com a família. Affleck entrega uma atuação competente, embora não à altura de todas as premiações, e Michelle é uma coadjuvante de luxo. Por sua vez, Hedges faz o adolescente com problemas de maneira interessante, embora se sinta que sua relação com duas meninas, Sandy (Anna Baryshnikov), que toca com ele numa banda indie, e Silvie McGann (Kara Hayward, de Moonrise Kingdom), soa em demasia um complemento forçado à narrativa, em que Lee é o destaque, assim como sua relação com a mãe, Elise (Gretchen Mol), que não participa de seu dia a dia e teve problemas com álcool. A ligação com o sobrinho é essencial não tanto para descobrirmos as motivações de Lee, mas para Lonergan trabalhar com o interesse pelo tema da adolescência já exibido em Margaret na relação entre os personagens de Paquin e Kieran Culkin.
Lee, especificamente, é o personagem que todo ator pede: difícil, complexo e com questões a resolver. Casey Affleck funciona mais quando ele se mostra indefinido entre ser ou não sociável, mais ao início, revelando um ar entediado, não tanto quanto está disponível para o discurso de relação familiar que Lonergan pretende expor, através, por exemplo, de um objeto como o sofá, no entanto é difícil imaginar que Matt Damon, um dos produtores e cogitado antes para o papel principal, seria adequado, mesmo talentoso (já que fez esse papel algumas vezes em sua carreira).

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Ainda assim, Affleck tem certas nuances que não funcionam num drama tão trágico (ele se mostrava melhor em O assassinato de Jesse James pelo covarde Robert Ford), nem exatamente há uma química com Hedges, seu sobrinho, a ponto de tornar mais complexa a relação.
Tudo, porém, é mostrado com beleza intensa por Lonergan, em cenários nos quais a frieza é contrária ao que cada um sente, embora não venha, muitas vezes, à superfície. Como nos filmes de Egoyan, o cenário frio é um contraste em relação ao que os personagens escondem – e uma situação interessante é quando Patrick abre a geladeira e tem uma crise emocional ao lembrar do pai. Em outro momento, eles pensam se devem deixar o corpo guardado até que possam enterrá-lo na primavera, quando o gelo já teria derretido. Falta ao contexto, a partir daí, uma emoção maior, sendo tudo calculado como se resultasse das medidas de um artesão, o que Lonergan, por sua tentativa recorrente de estabilizar os personagens por meio das lembranças. Pode-se remeter, nesse sentido, principalmente à sequência em que Lee é avisado de um desejo do irmão e cada vez que ele tenta se desvencilhar é levado para todos os registros que podem explicar seu passado, mesmo sem poder defini-lo, envolvendo Patrick (interpretado quando criança por Ben O’Brien). Esta é a sequência mais baseada na filmografia de Egoyan.

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Depois de estrear no Festival de Sundance e obter grandes críticas, e agora várias indicações ao Oscar, Manchester à beira-mar se sente muitas vezes complexo como Margaret, mas, depois da sessão, talvez ele não seja tão múltiplo, tão discreto quanto gostaria de ser. Isso se manifesta não apenas pela atuação de Affeck e sim por alguns personagens que não se desenvolvem, ficando num plano a que estamos acostumados em outras narrativas. A presença de Chandler, mesmo curta, é sensível – e ele é um ator capaz de surpreender. É seu personagem que, de certo modo, enlaça passado, presente e futuro, e Lonergan indica que algumas vezes o que se torna um exemplo de pedido de confiança não necessariamente obriga o outro a atendê-la, justamente porque a busca particular pela explicação de tudo continua, agraciada pela fotografia tocante de Jody Lee Lipes. É um filme, antes de tudo, sobre como a humanidade é ligada por gerações diferentes, por momentos abrangentes que podem definir essa ligação e como se isso toca cada um.

Manchester by the sea, EUA, 2016 Diretor: Kenneth Lonergan Elenco: Casey Affleck, Lucas Hedges, Kyle Chandler, Michelle Williams, Gretchen Mol, Tate Donovan, Matthew Broderick Roteiro: Kenneth Lonergan Fotografia: Jody Lee Lipes Trilha Sonora: Lesley Barber Produção: Chris Moore, Kevin J. Walsh, Kimberly Steward, Lauren Beck, Matt Damon Duração: 135 min. Distribuidora: Sony Estúdio: B Story / Big Indie Pictures / CMP / K Period Media / Pearl Street Films / The Affleck/Middleton Project

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