A forma da água (2017)

Por André Dick

O diretor mexicano Guillermo del Toro sempre esteve entre os principais nomes situados entre a fantasia, o terror e o suspense. Nos últimos anos, ele entregou dois filmes completamente distintos: Círculo de fogo, uma ficção científica mais pop, mostrando a invasão de monstros (kaijus), na Terra, e A colina escarlate, com uma história mais clássica, sempre com uma parte técnica irretocável. E, apesar de se inspirar muitos em fábulas e lendas populares, ele sempre foi reconhecido pela originalidade. Por isso, a polêmica que surgiu de que seu novo filme, A forma da água, fosse inspirado sem dar crédito à peça teatral Let Me Hear You Whisper, do ganhador do Pulitzer Paul Zindel, surgida na semana passada, talvez coloque seu favoritismo ao Oscar ameaçado. Se a premissa de seu filme é igual à da peça (que também virou filme, em menor escala, nos anos 90), ainda assim a obra de Del Toro pode ser vista como, mais do que uma relação estranha, um retrato de época. Diretor também dos dois primeiros Hellboy e um dos roteiristas da trilogia O hobbit, o mexicano é uma referência do gênero de fantasia, no sentido mais épico.

A forma da água conta a história da faxineira muda Elisa Esposito (Sally Hawkins), que trabalha num laboratório governamental secreto no início dos anos 1960, durante a Guerra Fria, e tem como melhor amiga Zelda Fuller (Octavia Spencer). Neste laboratório, ela conhece uma estranha criatura aquática (Doug Jones), que está sendo investigada pelo coronel Richard Stricklandor (Michael Shannon) e pelo Dr. Robert Hoffstetler (Michael Stuhlbarg).
Elisa tem como melhor amigo o companheiro de prédio Giles (Richard Jenkins, em ótimo momento), sendo que moram em cima de um cinema, Orpheum. Este nome é a senha para o filme mostrar algo que lembra a mitologia grega de Orfeu e Eurídice: o monstro representa aquela figura que deve ser resgatada. Num diálogo com outro filme, há muito de O fabuloso destino de Amélie Poulain aqui, inclusive na trilha sonora notável de Alexandre Desplat, assim como de Splice, produzido por Del Toro e que mostra uma relação estranha como a desse filme, embora com mais violência e voltada mais ao plano da sexualidade. Em O labirinto do fauno, também havia a história de uma menina inserida num mundo histórico em transformação (a Guerra Civil Espanhola), que se refugiava na fantasia.

Não precisaríamos ir muito longe para ver as influências de Del Toro: sendo a figura aquática da Amazônia, certamente Del Toro conhece a lenda do boto que deu origem a um filme com Carlos Alberto Riccelli nos anos 80, e mesclou essa lenda ao seu arsenal de estranhezas. Del Toro possui um talento raríssimo para compor uma reconstituição de época da Guerra Fria de modo perfeito, com ambientes externos e internos feitos com esmero por Paul D. Austerberry, começando pelo início que estabelece como fonte A árvore da vida, de Malick. O visual insere o espectador na história, que, mais do que sobre a aproximação de uma humana de uma criatura, trata de temas como o subúrbio norte-americano de Baltimore, do american way of life, o preconceito contra os negros e gays, contra hispânicos, sem nunca destoar de uma história baseada no fantástico nem parecer pouco orgânico. É uma cidade em composição e decomposição, como vemos por meio de Stricklandor. Del Toro demonstra seu amor por filmes através do cinema Orpheum, localizado embaixo do apartamento de Elisa, com imagens de uma plasticidade bem dosada, com a fotografia de Dan Laustsen. Assim como por meio de Giles, que é pintor e faz cartazes para filmes.

O vilão feito por Shannon em determinados momentos se sente um pouco caricato pelo rumo oferecido pelo roteiro, mas o ator entrega, por outro lado, uma de suas melhores composições, e há um momento do segundo ato em que a história se dispersa um pouco, sem que Del Toro deixe a narrativa cair em gestos banais, respeitando uma certa poeticidade que dialoga com o ambiente enfocado, com seu verde que remete ao musgo da água original, de onde veio a estranha criatura. Sally Hawkins tem uma atuação excelente, assim como Spencer se mostra novamente uma coadjuvante bastante especial, numa história que consegue sintetizar o melhor de Del Toro num formato que se contrabalança entre o fantástico e a visão romântica sobre o mundo do cinema (spoiler: não por acaso, em determinado momento há uma cena musical que remete tanto a O artista quanto a La La Land). O trabalho dele por vezes registra um grau inusual de violência perto de produções típicas de Hollywood, mas em A forma da água ele não parece tão interessado em mostrá-la, o que poderia prejudicar o tom de sua história.

Mais do que sobre uma paixão extraordinária, A forma da água é uma lembrança de Del Toro do poder do cinema sobre a personagem central, quando conversa com seu vizinho vendo filmes na TV, mas estabelece vínculo mesmo com os experimentos de Spielberg no âmbito dos anos 80 (a exemplo de E.T.) e John Carpenter (Starman). O filme trata exatamente da solidão desses personagens, em vínculo com a da sala de cinema, com poucos espectadores, assim como com a música, na impossibilidade do diálogo. Há alguns elementos que Del Toro colocou anteriormente em sua trajetória, contudo são melhor resolvidos aqui. Mesmo em relação ao A colina escarlate, subestimado, A forma da água se sente com temas mais complexos e distribuídos em camadas iguais. E a água é, afinal, o símbolo da libertação da narrativa. Todas as sequências que a envolvem dão uma sensação de que a opressão causada por determinados humanos é colocada em segundo plano e os personagens encontram a sua essência. Em A colina escarlate, já havia uma metáfora da terra. Além disso, como em A espinha do diabo e O labirinto do fauno, Del Toro faz com que seus personagens em transformação também combatam a guerra que há nos bastidores de suas existências.

The shape of water, EUA, 2017 Diretor: Guillermo del Toro Elenco: Sally Hawkins, Michael Shannon, Richard Jenkins, Doug Jones, Michael Stuhlbarg, Octavia Spencer Roteiro: Guillermo del Toro e Vanessa Taylor Fotografia: Dan Laustsen Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: J. Miles Dale e Guillermo del Toro Duração: 123 min. Estúdio: TSG Entertainment, Double Dare You Productions Distribuidora: Fox Searchlight Pictures

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The Post – A guerra secreta (2017)

Por André Dick

O diretor Steven Spielberg é um dos grandes nomes indiscutíveis do cinema. Ter realizado EncurraladoTubarão e Contatos imediatos do terceiro grau nos anos 70, e Os caçadores da arca perdidaE.T., A cor púrpura e Império do sol nos anos 80 já é motivo suficiente para ter seu nome entre os maiores da história. No entanto, a partir dos anos 90, mais especificamente depois de Jurassic Park, Spielberg foi aos poucos se afastando do gênero da fantasia e mais fantástico – no qual se destacou também como produtor –, incorporando filmes com elementos históricos, a exemplo de A lista de SchindlerAmistad O resgate do soldado Ryan. Nos anos 2000, apesar de fazer algumas ficções referenciais, como Inteligência artificial,  Minority Report e Guerra dos mundos, o tom era sempre soturno, alternando novamente com filmes sobre questões históricas, entre os quais Munique, com alguma folga aventuresca em Indiana Jones e o reino da caveira de cristal. Um respiro original foi sua parceria com DiCaprio em Prenda-me se for capaz e o dramático e cômico O terminal.

Neste início de década, ele apresentou mais dois filmes, dois mais dramáticos, Cavalo de guerra e Lincoln, e uma bela animação, As aventuras de Tintim. Novamente fez um drama histórico em Ponte dos espiões e uma fantasia de animação em O bom gigante amigo. Esta tendência de Spielberg de alternar fantasia – as últimas vezes em escala soturna, exceto para a aventura de Indiana e as animações com Tintim e BFG – com filmes com pano de fundo histórico não o tornou exatamente um cineasta previsível, no entanto parece bem mais acomodado.
Em The Post – A guerra secreta, Spielberg tem o intuito de revelar os bastidores de várias publicações feitas sobre segredos do Pentágono, relacionadas ao Secretário de Defesa, Robert McNamara (Bruce Greenwood), e o presidente Lyndon Johnson, que vão eclodir na gestão de Nixon, em exercício na época enfocada, início dos anos 70. A responsável pelo The Washington Post, Katherine Graham (Meryl Streep), tem uma amizade protocolar com o editor Ben Bradlee (Tom Hanks), que se envolve nessa divulgação de documentos secretos, vazados por Daniel Ellsberg (Matthew Rhys) primeiramente para o New York Times. Enquanto Bradlee é casado com Antoinette (Sarah Paulson), Katherine, viúva e reservada, tenta lidar com a pressão exercida por Fritz Beebe (Tracy Letts) e Arthur Parsons (Bradley Whitford).

Com sua equipe habitual, incluindo o fotógrafo Janusz Kaminski e o músico John Williams, Spielberg não se arrisca em nenhum momento de seu novo filme. Ele inclui no elenco Hanks, seu ator preferido, e Meryl Streep, ambos em papéis que poderiam ser melhor delineados, sendo difícil encontrar neles as nuances que os temas políticos exigiriam. O roteiro de Liz Hannah e Josh Singer, este vencedor do Oscar por Spotlight, se sente como uma coleção de mensagens e críticas à política, como se por meio do cinema não se fizesse também política muitas vezes. Nisso, há um interesse de Spielberg pela guerra do Vietnã pela primeira vez desde os anos 70, já que parte de sua filmografia é dedicada à Segunda Guerra Mundial.
The Post se sente como uma mescla entre Todos os homens do presidente, sem nunca alcançar a mesma tensão e desenvoltura dramática, e exatamente Spotlight, mas Spielberg parece confundir fantasia e realidade: a redação do Washington Post lendo um determinado jornal de maneira ampla e irrestrita soa teatral e simétrica demais. A começar por Bradlee, todos parecem um pouco figuras ingênuas, desconhecendo o poder que tem às mãos tanto quanto os políticos. Bradlee, feito por Hanks de maneira desinteressante (algo raro em sua carreira), oscila entre certo oportunismo e depois um discurso libertário, enquanto a personagem de Streep transporta o desconhecimento sobre os temas do dia a dia da redação de jornal para um patamar de interessada por tudo o que acontece no The Washington Post. Spielberg se equivoca em diferentes momentos, abusando do tom jornalístico e depois do tom sentimental que lhe é tão caro na sua carreira e apenas não o prejudica quando é amparado por um bom roteiro, o que não acontece aqui. Talvez os momentos mais autênticos fiquem com o assistente de Bradlee, Ben Bagdikian (Bob Odenkirk, eficaz), pois parecem recordar um filme dos anos 70, principalmente quando realiza sua investigação.

The Post marca um momento decisivo na trajetória de Spielberg. Preocupado com os movimentos da história, ele parece se aproveitar de um determinado contexto para colocar o papel da imprensa em discussão, mas o faz por meio de um assunto (Guerra do Vietnã) que não necessariamente é o mesmo da atualidade. Ele parece não entender que o jogo do poder, em que se digladiam política e jornalismo, acontece desde sempre, isolando fatos que justificariam uma correspondência temporal. Seu filme não tem a urgência mesmo de um Jogos de poder, com o mesmo Hanks, porque não conta com um roteiro afiado nem personagens que não sejam apenas símbolos de uma bondade pura. Particularmente, ele poderia ter feito um retrato do que ele considera prejudicial na atualidade sem recorrer a um contexto histórico diferente, ou seja, a história mostrada passa a ser apenas metáfora de outra. Mesmo que ele possa encontrar elementos parecidos em ambos os contextos, a história tem pesos diferentes.
Hoje, há um confronto de ideologias nos Estados Unidos que reflete em debates sobre a liberdade de imprensa, mas esta, contrariada ou não, tem direito de falar o que quiser (inclusive com diversos meios e mídias) e tem o direito esclarecido de publicar os documentos oficiais que quiser, independente de perder contatos no poder. No entanto, na época de Nixon, havia algo mais: uma tentativa de ele proibir judicialmente informações ao público sobre milhares de mortes que não precisavam ter ocorrido no Vietnã. Por isso, Spielberg mescla duas discussões distintas como se fossem a mesma. Era uma tragédia, independente de estar ligada à condição da imprensa, que, de qualquer modo, se fez justa porta-voz com o vazamento. Não se convence o espectador com Bradlee colocando os pés sobre a mesa e querendo ler as milhares de páginas do Pentágono para ele próprio desencavar as matérias. Isso é tratar o espectador de maneira duvidosa. Quanto ao personagem de Streep, lamenta-se que um cineasta que enfocou o universo feminino praticamente apenas no belíssimo A cor púrpura não consiga lhe dar a ênfase necessária, porém se entende, pois seu foco sempre foram personagens de homens ou garotos. Streep não tem um bom roteiro à mão, mas sua atuação também não ajuda (sua inclusão entre as indicadas ao Oscar de melhor atriz é uma das grandes injustiças desse ano). E, quando se coloca um jornal para ser impresso, com matérias impactantes e que podem mudar a história, é estranho Spielberg usar a trilha de John Williams como se Peter Pan chegasse à Terra do Nunca. Não duvido que Spielberg não esteja brincando, mas parece.

The Post, EUA, 2017 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Meryl Streep, Tom Hanks, Sarah Paulson, Bob Odenkirk, Tracy Letts, Bradley Whitford, Bruce Greenwood, Matthew Rhys, Michael Stuhlbarg Roteiro: Liz Hannah, Josh Singer Fotografia: Janusz Kamiński Trilha Sonora: John Williams Produção: Steven Spielberg, Kristie Macosko Krieger, Amy Pascal Duração: 115 min. Estúdio: DreamWorks Pictures, Amblin Partners, Amblin Entertainment, 20th Century Fox, Participant Media, Pascal Pictures, Star Thrower Entertainment Distribuidora: 20th Century Fox

 

Me chame pelo seu nome (2017)

Por André Dick

O tradicional diretor James Ivory, conhecido por seus filmes históricos dos anos 80 e 90, alguns de notável qualidade, adaptou o romance de André Aciman para este filme dirigido pelo italiano Luca Guadagnino, influenciado aqui especificamente por Eric Rohmer, aquele de Pauline na praia. Ele mostra a trajetória de Elio (Timothée Chalamet), de 17 anos, que vive numa área rural da Itália com seus pais, Sr. Perlman (Michael Stuhlbarg) e Annella (Amira Casar). O pai é um estudioso de arquelogia e recebe um estudante de pós-graduação, Oliver (Armie Hammer), para ficar com a família no verão de 1983 e ajudá-lo a catalogar novas peças. A casa é um verdadeiro oásis: lembrando as paisagens de Um bom ano, de Ridley Scott, este interior da Itália é um convite a um passeio, e a bela fotografia de Sayombhu Mukdeeprom consegue mostrá-las de modo atrativo.
Oliver parece, a princípio, um típico personagem norte-americano, tentando contrastar sua cultura com os belos lugares enfocados pelo diretor. Elio, por algum motivo não definido explicitamente, se torna seu companheiro de visita à região, sobretudo de bicicleta. Em pouco tempo, Oliver já encontra um bar e companhia para apostas, mas Guadagnino quer emprestar a ele uma aura cultural que vai se manifestando em doses ao longo da narrativa. Já Elio, com conhecimento extremo em música, tem interesse por Marzia (Esther Garrel), contudo começa a se sentir atraído pelo pesquisador, em meio a suas experimentações com o violão e o piano de casa.

Na história do cinema recente, em que já tivemos os ótimos O segredo de Brokeback Mountain, The normal heart e Moonlight, para citar apenas alguns conhecidos sobre a relação entre dois homens, Me chame pelo seu nome pretende incluir grandes temas por meio de seu roteiro, no entanto se sente estranhamente vazio. O roteiro de Ivory não consegue esclarecer – mesmo que seja o objetivo, fica num meio-termo – o personagem de Oliver, e Hammer entrega uma atuação aqui capaz de contentar quem questiona seu talento interpretativo (e, particularmente, ele tem atuações destacáveis, em A rede social e O agente da U.N.C.L.E., entre outros). Não há uma ligação dele com o Sr. Perlman, e ele parece mais um turista em férias do que um estudioso dedicado. Em determinado momento, o Sr. Perlman fala dele como se fosse algum gênio não descoberto, mas nada antes o mostra como tal. Nem Hammer nem o roteiro emprestam empatia ao personagem, lembrando apenas alguém certo de um brilhantismo pessoal. Elio é uma espécie de versão mais jovem dele, situando-se entre o tédio de um jovem que não precisa se esforçar para ter tudo e a necessidade de quem deseja corresponder à atração também pela mulher de maneira autocentrada. Timothée Chalamet atua de maneira mais segura, mas longe de qualquer traço memorável, e falta a seu personagem um desenvolvimento.

Além disso, o tom de sedução de Oliver em reação a Elio é enfraquecido pelo roteiro expositivo, sem nuances ou complexidade real. Eles não conversam; eles expõem conceitos, por meio de imagens com o intuito de captar elementos da Roma Antiga, de estátuas históricas. O pesquisador representa essa faceta. Contudo, percebe-se, aos poucos, que Guadagnino evita close-ups em Hammer, pois este não consegue transparecer uma emoção dosada. E isso surpreende, pois ele já havia feito com talento o homem casado com J. Edgar interpretado por DiCaprio no filme de Eastwood.
O número de diálogos em tom pouco crível é notável ao longo da narrativa. Isso se mostra na aproximação pouco natural entre os personagens: durante um jogo de vôlei no gramado dos Perlman, Oliver sai do campo para ver se as costas de Elio, sentado, olhando a partida, estão tensas. Em outro momento, talvez porque não houvesse pêssegos no café atrativo da família Perlman, ele resolve roubar um de Elio enquanto ele está dormindo. Oliver ainda quer ensinar a Elio as melhores notas para uma música sobre a qual não tem conhecimento, possivelmente porque lê Heráclito. Muito do que leva o espectador a gostar do filme é simpatizar com suas figuras: aqui, ambas são pouco naturais, ao contrário do que pretende o filme e seus atores são constantemente prejudicados pela maneira como Guadagnino parece se envergonhar da relação que está mostrando, usando a natureza como subterfúgio. Ele tenta ser naturalista como um filme de Rohmer, mas tudo soa muito disperso para ter uma real emoção. Em momento algum, Oliver e Elio discutem o que estão sentindo um pelo outro; talvez fosse o objetivo, mas para um filme que pretende focar uma paixão é como se algo faltasse.

Em certos momentos, com destaque para aqueles em que Elio toca piano para distrair os convidados dos pais, o diretor quer enfocar um certo vazio rodeado pela cultura (inserindo diálogos sobre Heidegger, como se isso encobrisse a falta do que dizer dos personagens, ou mostrando artefatos históricos) com um bom panorama do interior italiano, capaz de despertar a sexualidade dessas figuras. Não existe, porém, uma química entre os atores, visivelmente desconfortáveis: basta comparar suas atuações com aquelas de Brokeback Mountain e Moonlight, por exemplo. Quando há uma aproximação entre os dois, Guadagnino prefere filmá-los se divertindo, pulando na cama, ou Elio pulando nas costas de Oliver, sem, na verdade, querer mostrar diálogos mais afetivos. Sim, há, mais perto do desfecho, alguns momentos que parecem trazer uma certa essência, num discurso excepcional do personagem de Sthulbarg, mas encaixado para estabelecer uma coesão em relação ao que se viu antes e como uma tentativa de Guadagnino em definir o que não faz ao longo da narrativa por meio dos personagens centrais.
No final das contas, Me chame pelo seu nome procura apresentar uma experiência para o espectador, mas o que atinge é somente a superfície: vemos as paisagens de cartão postal da Itália, mas não a paixão entre duas pessoas, pelo pouco que tem a dizer de maneira emocional e sem recorrer a uma certa pose naturalista. É um filme que, tentando falar de paixão o tempo todo, se esquece efetivamente de transparecer um afeto: como os passeios de bicicletas, ele investe num movimento para que o espectador não perceba que pouco ocorreu. Havia uma história complexa e melancólica no roteiro, sobre como o ser humano precisa se adaptar às mudanças da vida (na última cena, muito bem composta e enquadrada). Faltaram o diretor e os atores certos para fazer isso.

Call me by your name, ITA/FRA/EUA, 2017 Diretor: Luca Guadagnino Elenco: Armie Hammer, Timothée Chalamet, Michael Stuhlbarg, Amira Casar, Esther Garrel, Victoire Du Bois Roteiro: James Ivory Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom Trilha Sonora: Sufjan Stevens Produção: Peter Spears, Luca Guadagnino, Emilie Georges, Rodrigo Teixeira, Marco Morabito, James Ivory, Howard Rosenman Duração: 132 min. Estúdio: Frenesy Film Company, La Cinéfacture, RT Features, Water’s End Productions Distribuidora: Sony Pictures Classics

Armas na mesa (2016)

Por André Dick

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O diretor britânico John Madden conseguiu arrebatar vários Oscars em 1998 por Shakespeare apaixonado e, desde lá, procura acertar de novo um filme que possa ser indicado ao prêmio, em projetos como O capitão Corelli e O exótico Hotel Marigold. Em Armas na mesa, isso não aconteceu, mas seu estilo é visivelmente projetado para isso. É interessante como Madden vai mudando o estilo de acordo com cada projeto, não tendo exatamente uma referência dramática capaz de estabelecer um elo, embora o trabalho com a parte técnica seja sempre competente.
A atriz Jessica Chastain interpreta Elizabeth Sloane, a lobista mais conhecida em Washington, conhecida por sua ambição, e cada gesto dela tenta deixar isso claro. Tendo como parceiro Rodolfo Schmidt (Mark Strong), que a procura para combater a companhia onde trabalha, muito maior, ela se torna figura-chave numa discussão sobre uma votação que envolve congressistas do Senado e uma lei que visa ao controle de quem usa armas. Toda sua equipe a segue, menos Jane Molloy (Alison Pill), que parece tão ambiciosa quanto ela. A cultura norte-americana voltada ao armamento, tema já usado no conhecido documentário de Michael Moore Tiros em Columbine, é exposta de maneira a criar um diálogo com o próprio comportamento dos personagens: todos buscam um alvo, direto ou indireto.

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Do lado contrário, estão George Dupont (Sam Waterston), seu antigo chefe, que queria que ela fizesse lobby para as mulheres sobre o tema, Pat Connors (um interessante Michael Stuhlbarg) e o Senador Ron M. Sperling (John Lithgow), que tenta condená-la por tentar obter votos de maneira proibida. O diretor Madden tenta trabalhar a figura de Sloane de maneira complexa, contudo Chastain, uma atriz reconhecida por seu talento e suas nuances, se mostra um pouco overacting desde o início, excessivamente hiperativa, embora este seja o objetivo do personagem. Sua personagem, paradoxalmente, é excessivamente fria e pouco empática e ela não consegue desenvolvê-la como o faz Isabelle Huppert, por exemplo, em Elle, tampouco como surge em O ano mais violento (com um estilo visual, inclusive, parecido), sendo a primeira atuação realmente questionável do talento de Chastain, exibido desde sua estreia para as grandes plateias em A árvore da vida. Chastain sempre teve como principal elemento um misto de nervosismo com tranquilidade, o que a fazia tão viva em projetos como A hora mais escura. No entanto, ela precisa de um certo apoio do roteiro para realmente brilhar em Armas na mesa, o que falta em alguns momentos, e mesmo que a simbologia sustente a trama (os espelhos, o quarto vazio) tudo demora a fazer mais sentido.

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É quando ela se mostra mais vulnerável e complexa que o filme cresce, principalmente na sua relação com um jovem que acompanha mulheres, Forde (Jake Lacy), e com uma jovem chamada Esme (Gugu Mbatha-Raw), que ela tenta utilizar para tratar do tema de armamento. Quando, curiosamente, a narrativa apresenta menos diálogos e é mais introvertido que funciona. A partir desse ponto, seu comportamento, antes cercado por câmeras e discussões, jantares tentando contentar a políticos e encontros furtivos à noite, passa a ser visto como, inclusive, melancólico. O diretor perde a oportunidade de desenvolver mais a subtrama com Forde, reduzindo tudo a um choque entre identidades que se procuram sem a certeza de que se encontram uma na outra.
Madden utiliza um belo trabalho de fotografia de Sebastian Blenkov para mostrar os bastidores de Washington e a maneira como Sloane trabalha, em conflito com seus companheiros de equipe e sempre de forma ambiciosa, mas o mais curioso é que em nenhum momento se esclarece por que ela se predispõe a esse papel. A atuação de Chastain em conjunto com Mark Strong não tem a força que exibiam em A hora mais escura, embora renda bons momentos, naqueles em que o roteiro de Jonathan Perera encadeia diálogos e conflitos entre os personagens e a montagem de Alexander Berner, que realizou o feito de realizar aquela de Cloud Atlas para as irmãs Wachowski e Tom Tkywer, encubra muitas pistas com grande efeito.

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Armas na mesa também apresenta características que o aproximam de alguns filmes dos anos 70, em que havia conspirações políticas agindo nos bastidores de um tema visto por todos e entendido por poucos, por exemplo em A trama e Três dias do Condor, nos quais os bastidores da política se convertiam na perseguição a um determinado indivíduo, de maneira não muito clara. Em sua primeira parte, ele é particularmente confuso, alternando cenários das agências e jantares com congressistas, sem, no entanto, se perder quando passa para a vida solitária de Sloane. O que é mais perturbador nesse projeto é como Madden em alguns momentos realmente retrata a solidão existente em Washington, mesmo diante de mudanças que levariam a uma drástica reviravolta na sociedade. Assim, Armas na mesa realmente, em alguns momentos, capta a atmosfera de Washington e a pressão dessas equipes trabalhando contra o tempo para aprovarem determinadas leis. Trata-se de uma obra em parte desagradável, porque o espectador não tem exatamente pelo que torcer, e em parte instigante, à medida que trata de um tema bastante interessante e propício a debates.

Miss Sloane, EUA/FRA, 2016 Diretor: John Madden Elenco: Jessica Chastain, Mark Strong, Gugu Mbatha-Raw, Alison Pill, Michael Stuhlbarg, Jake Lacy, Sam Waterston, John Lithgow Roteiro: Jonathan Perera Fotografia: Sebastian Blenkov  Trilha Sonora: Max RichterProdução: Ariel Zeitoun, Ben Browning, Kris Thykier Duração: 132 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Transfilm

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A chegada (2016)

Por André Dick

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O diretor canadense Denis Villeneuve vem se transformando num dos nomes mais cultuados do cinema, principalmente desde seu ingresso em Hollywood, com Os suspeitos, seguido por O homem duplicado e Sicario – Terra de ninguém. Antes de lançar a continuação aguardadíssima de Blade Runner, para a qual foi convidado pelo diretor Ridley Scott, Villeneuve apresenta uma ficção científica com roteiro de Eric Heisserer (Quando as luzes se apagam), baseado no conto Story of your life, de Ted Chiang, que vem, desde seu lançamento em Veneza, transformando-se no que foi Gravidade em 2013 e Interestelar em 2014, para não falar no interessante, embora falho, Perdido em Marte em 2015. Todos esses filmes tiveram grande recepção, inclusive indo ao Oscar ou ganhando outros prêmios importantes.
A narrativa já começa em alto movimento, mostrando os passos da linguista Louise Banks (Amy Adams), especialista em tradução, que é procurada pelo coronel Weber (Forest Whitaker) para que possa fazer parte de uma equipe em que se encontra também o físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), a fim de tentar estabelecer contato com uma espaçonave alienígena nos arredores de Montana, onde se montou um grande acampamento militar. Há doze dessas espaçonaves ao redor do mundo, e é inevitável, por mais que esta seja uma ficção arthouse, que A chegada acaba lembrando Independence day involuntariamente. Na verdade, há muitos momentos de A chegada que remetem a outras ficções conhecidas, como Contato, Interestelar e, claro, o clássico Contatos imediatos do terceiro grau. Mais ainda: não apenas pela dupla central, como pela atmosfera, A chegada deve muito a Arquivo X.

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Não se está em questão, porém, a originalidade, já que a ficção científica tem passos semelhantes em muitos filmes – para dar um exemplo, Shawn Levy, que produz e dirige alguns episódios de Stranger things, está entre os produtores. Trata-se da pretensão. Em nenhum momento, a fotografia de Bradford Young se contenta com menos do que aparentar ser esta a ficção científica definitiva, e Villeneuve tenta oferecer ares de Solaris a alguns momentos, com toques de 2001, sobretudo quando se mostra a espaçonave. A trilha sonora de Jóhann Jóhannsson procura o mesmo caminho, com um tom grave oferecido a cada momento, acompanhado pelos efeitos sonoros muitas vezes aterradores, sem esquecer uma certa emoção em momentos decisivos.
Villeneuve, no entanto, ao contrário do que acontece em sua adaptação de Saramago em O homem duplicado, não torna essa narrativa aparentemente fácil em algo complexo. Sabemos que a equipe está em Montana para estabelecer esse contato e o que vemos são as tentativas, mas sem o envolvimento com os personagens e sim um afastamento que alguns poderiam chamar de malickiano. No entanto, Malick consegue, por meio de personagens às vezes vagos, constituir um panorama. Parece ser isto o que falta ao filme de Villeneuve, que se sustenta no contato da equipe com os alienígenas, baseado-se na linguagem que eles têm a oferecer para que não soe igual a outros. Este é o contato entre linguagens, seguido pelo possível atrito entre nações diferentes.

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A chegada lembra um pouco Prometheus: Villeneuve aproveita elementos daquele (na imponência da espaçonave sobre a montanha, por exemplo, na questão de Deus existir ou não na solidão do espaço sideral e na perda de um ente querido, no caso de Prometheus, do pai da arqueóloga, e no caso de A chegada da filha da linguista). Os efeitos visuais, em alguns momentos, são notáveis, embora os alienígenas, apelidados de Abbott e Costello, pareçam lembrar excessivamente os aracnídeos de O homem duplicado e todo o diálogo com eles ser excessivamente hermético e mostrado ao espectador como se estivesse diante de uma tela de cinema – nesse sentido, é uma ficção também metalinguística. Perceba-se, nesse sentido, como a nave espacial lembra o formato das lâmpadas da casa de Louise e num determinado momento ela parece encarnar o personagem de Gyllenhaal de O homem duplicado, entre o sonho e a realidade. Há momentos de poesia, como aquele em que um dos tentáculos do alien se transforma numa espécie de estrela do mar; no todo, contudo, falta uma variação de cenários, tudo se situando entre a parte interna da espaçonave e o acampamento militar, além de o grande empecilho, o agente Halpern (Michael Stuhlbarg), ser excessivamente previsível.
No elenco, Adams tem uma boa atuação, apresentando uma dramaticidade já vista em DúvidaTrapaça e Grandes olhos, por exemplo. Apesar de sua personagem ser fascinante, ela não atinge o mesmo caminho daquelas que Villeneuve mostrava como principais em Polytecnique e Sicario, esta com uma Emily Blunt na melhor fase de sua carreira. Já Renner é um ator subaproveitado aqui, assim como Whitaker, mesmo que ambos sejam adequados.

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Villeneuve é um diretor muito consciente de seu ofício e seus experimentos não raramente evocam de outros diretores: Os suspeitos é um David Fincher mais pop, enquanto Sicario é uma espécie de encontro entre Kathryn Bigelow e Steven Soderbergh, e mesmo o excepcional Polytecnique tem suas bases claras em Elefante, de Gus Van Sant. Ou seja, ele se mostra um diretor com claras referências, embutindo em todos o seu estilo próprio, inconfundível: uma certa lentidão europeia para tratar de temas espinhosos. Quando aqui ele tenta, por um lado, equivaler seu filme a obras-primas do cinema de ficção científica, por outro, acaba não encontrando o tom certo por vezes. É visível o seu desconforto com o roteiro e a tentativa de ser antilinear sem conceder ao espectador o momento certo de adivinhar a reviravolta.
O grande problema parece ser a indefinição de Villeneuve entre a ficção hermética e a mais emocional. Ele mantém o melhor para o ato final, em que convergem sinais de esperança na humanidade e uma delicada lembrança do que significa a ligação entre as pessoas. Há um choque de emoção que quase inexistia antes e, se talvez o filme fosse uma lembrança, ele pudesse crescer na memória. Seu cerebralismo excessivo se contrai quando sabemos que por trás de sua narrativa há esta tentativa de se estabelecer contato com um universo conhecido previamente, mas quando surgem analogias a partir da aproximação humana seu sentimento cresce de maneira incontornável.

Arrival, EUA, 2016 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Michael Stuhlbarg, Forest Whitaker, Mark O’Brien Roteiro: Eric Heisserer Fotografia: Bradford Young Trilha Sonora: Jóhann Jóhannsson Produção: Aaron Ryder, Dan Levine, David Linde, Karen Lunder, Shawn Levy Duração: 116 min. Distribuidora: Sony Estúdio: 21 Laps Entertainment / FilmNation Entertainment / Lava Bear Films

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Doutor Estranho (2016)

Por André Dick

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O diretor Scott Derrickson, do remake de O dia em que a terra parou e de alguns filmes de terror, como A entidade, foi o escolhido para estar à frente da adaptação de Doutor Estranho, personagem criado por Stephen J. Ditko e Stan Lee, para as telas de cinema. Antes do lançamento, como ocorrem com os filmes de super-heróis, houve uma grande onda de marketing, levando à questão de que são eles que parecem manter o sistema financeiro de Hollywood girando, a fim de que se possam bancar outras produções. Nada menos do que cinco obras do gênero estão entre as dez maiores bilheterias do ano até o momento: Capitão América – Guerra Civil, Batman vs Superman, Deadpool, Esquadrão suicida e X-Men: Apocalipse. Tudo indica que Doutor Estranho irá entrar nessa lista.
O neurocirurgião Stephen Strange é brilhante e competente no que faz, embora ao mesmo tempo ambicioso. Tendo como interesse amoroso a médica e colega Christine Palmer (Rachel McAdams), ele sofre um acidente que o incapacita a trabalhar no campo a que se dedica com fidelidade e acaba viajando viajando para o Kathmandu, Nepal, a fim de descobrir uma cura. Nisso, já fomos introduzidos também ao grande vilão, feiticeiro Kaecilius (Mads Mikkelsen), que, depois de entrar em Kamar-Taj para roubar um livro proibido, luta com uma figura misteriosa em meio a prédios cuja envergadura e imponência, se desdobrando, remetem claramente ao filme A origem.

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Derrickson, porém, faz dessa experiência visual algo realmente reconfortante, como se a realidade fosse um jogo de espelhos desmontável. Ou seja, o que Doutor Estranho mais joga para o espectador é uma necessidade de questionar o que seria, afinal, a realidade: no filme, tudo passa a ser colocado em dúvida, inclusive a existência. Se na peça de Nolan havia uma inspiração filosófica, em Doutor Estranho Derrickson abre um leque mais pop. Quando o personagem se refugia no Oriente, e o filme incursiona numa linha de meditação, por meio dos personagens da Anciã e de Mordo (Chiwetel Ejiofor), o roteiro de Derrickson com Jon Spaihts e C. Robert Cargill apresenta uma amostra da discussão dos planos físico e material de modo delicado.
Há uma interessante busca de si mesmo que claramente dialoga com outras histórias, mas é o cuidado com que esse ambiente é introduzido que faz o espectador ficar agradecido pelas imagens em composição: no momento em que a Anciã leva Strange a uma viagem psicodélica, pode-se lembrar mesmo de Bowman em 2001 ou de Enter the void, de Noé: é, em suma, espetacular. Derrickson nunca chegou a ser um cineasta vistoso; aqui ele se torna competente com poucos elementos à mão, como quando insere o personagem na dimensão espelho, que lembra um pouco a aula de lutas de Paul Atreides em Duna.

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Eis que se deve dizer, ainda assim, que, a partir de determinado momento, alguns temas parecem se repetir, a sobreposição se acentua e as cenas de ação passam a existir em sequência, sem nenhuma lacuna entre elas e sem uma ligação orgânica. O Doutor Estranho não permanece a mesma figura interessante que Cumberbatch desenha em sua primeira parte. A entrada do personagem central na biblioteca protegida por Wong (Benedict Wong) passa a ser exemplo da necessidade de um humor inusitado e desperdiçado, com sua série de menções a nomes da música pop, que destoam da narrativa. Claro que existe toda uma condição em jogo: se Strange vai decidir usar sua energia para voltar a usar suas mãos como gostaria ou disponibilizá-las para um enfrentamento com Kaecilius, seguido por um grupo feroz e que pretende trazer ao cenário uma figura de dimensão assustadora.
Em meio a isso, também há uma grande competência em construir uma parte visual calcada em efeitos espetaculares. Deve-se lembrar que  eles não são apenas inspirados em A origem, como também o filtro da fotografia é o mesmo, embora nunca tenha a profundidade dada por Nolan no sentido de compor uma mente vagando, melancólica. Por sua vez, o desenho de produção se mostra pouco amplo, parecendo lembrar cenários de estúdio, principalmente na reconstituição de detalhes orientais, às vezes excessivamente fechados (talvez porque estejam todos dentro de uma caixa mental), o que contrasta com a amplitude das viagens proporcionadas pela Anciã e mesmo com as ruas cheias de população de Kathmandu.

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Com trilha sonora de Michael Giacchino, habitual colaborador de J.J. Abrams, aqui num momento menos inspirado e mais intrusivo, e competente fotografia de Ben Davis, de Guardiões das galáxia e Vingadores – Era de Ultron, Doutor Estranho é encarnado por um Cumberbatch indefinido entre empregar seu estilo reconhecido também em Sherlock e lidar com o roteiro repleto de frases de exposição. O ator, já reconhecido pelo vilão de Além da escuridão – Star Trek e por Alan Turing de O jogo da imitação, não consegue muitas vezes tornar Doutor Estranho numa figura que poderia: fascinante. Ele começa muito bem e transmite bem o sentimento de abandono e solidão, logo sendo prejudicado pela necessidade de o roteiro colocar o personagem em meio a gags deslocadas (outro ponto complicado é quando tenta se adequar a seu uniforme). No início, há uma espécie de tragicidade bem dosada e depois o roteiro esquece disso para transformá-lo, aos poucos, num super-herói que desenvolve poderes literalmente num passe de mágica – porém, não há um sentido de algo sendo descoberto, crescente, e sim apenas como parte do script. Com ele, o elenco extraordinário é subaproveitado, mesmo Swinton, McAdams e Ejiofor. O vilão, feito pelo grande ator Mikkelsen, não se sente em nenhum momento ameaçador e sua motivação é rasa, além de não receber um punhado de bons diálogos para rivalizar com o Doutor Estranho.

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Todos se sentem deslocados pelo roteiro desenvolvido rapidamente e sem se aprofundar. O bibliotecário Wong? Ele existe para os momentos de humor. A Anciã? Apenas para adiantar o que Doutor Estranho deve fazer. Onde o filme de Derrickson mais ganha é quando explora a espiritualidade e o plano físico de modo fundamental, como nas cenas do hospital e nos duelos que se expandem para novos edifícios, numa maravilha técnica de encantar os olhos, com exceção do CGI exagerado do terceiro ato. Porém, falta um elo humano, por exemplo, entre Doutor Estranho e a Anciã: tudo é projetado demais para ressonar uma verdadeira emoção e colocado em nome da franquia a ser iniciada (para ter um exemplo, mesmo com temas mais profundos, não chega perto do que acontece com o Groot ao final de Guardiões da galáxia). Doutor Estranho tenta mesclar discussões interessantíssimas sobre a vida e a morte, mas prefere, na maior parte das vezes, atenuar tudo com o humor e a exposição nos diálogos. Derrickson não consegue (ou não quer) expandir essa faceta que tornaria o personagem mais interessante; é como se temas complexos precisassem ser invariavelmente substituídos pelo programa a ser seguido. Quando vemos um elenco dessa estirpe (talvez o melhor reunido num filme da Marvel) e uma grandiosidade técnica ser diminuída por um roteiro pouco desenvolvido, nota-se que está em jogo a própria essência que a companhia desenvolveu tão bem em Os vingadores e Guardiões da galáxia, por exemplo: um misto entre humor, sentimentalismo e ação que poucas vezes se viu, sem pular de quadro em quadro para um filme totalmente diferente.

Doctor Strange, EUA, 2016 Diretor: Scott Derrickson Elenco: Benedict Cumberbatch, Chiwetel Ejiofor, Rachel McAdams, Benedict Wong, Mads Mikkelsen, Tilda Swinton, Michael Stuhlbarg, Benjamin Bratt, Scott Adkins Roteiro: Jon Spaihts, Scott Derrickson, C. Robert Cargill Fotografia: Ben Davis Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Kevin Feige Duração: 115 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Marvel Studios

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Steve Jobs (2015)

Por André Dick

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O roteirista Aaron Sorkin realizou o roteiro de três filmes especialmente admiráveis, Questão de honra (1992), A rede social (2010) e O homem que mudou o jogo (2011). E também fez o roteiro do muito interessante – embora não no nível desses anteriores – Jogos do poder, além das séries referenciais de TV The west wing e The newsroom. Não parecia haver melhor nome para fazer um roteiro sobre a vida do grande nome da informática Steve Jobs. À frente da direção, o inglês Danny Boyle, de Trainspotting, A praiaQuem quer ser um milionário? e 127 horas, pode ser sinal ao menos de competência visual.
Este filme, que vem logo depois da obra sobre o nome da informática interpretado por Ashton Kutcher, inicia em 1984, quando Steve Jobs está para apresentar uma de suas criações da Apple Macintosh e nos bastidores precisa lidar, com a ajuda da assessoria de Joanna Hoffman (Kate Winslet) não somente com um artigo da revista Time sobre a paternidade de Lisa (a ótima Ripley Sobo), filha que teve com Chrissan Brennan (Katherine Waterston), da qual nega ser o pai. Além disso, a tensão recai sobre o engenheiro Andy Hertzfeld (Michael Stuhlbarg), cobrado ostensivamente por Jobs, uma vez que Sorkin não deixa dúvidas de imediato que estamos diante de alguém com um rigor inabalável e uma maneira complicada de lidar com as pessoas.

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Isso é reiterado quando ele se encontra com o cofundador da Apple, Steve Wozniak (Seth Rogen), que pede a Jobs para reconhecer a equipe do Appple II, enquanto o CEO da Apple, John Sculley (Jeff Daniels, em raro momento), tenta comover Jobs. Como comover Jobs? Para Sorkin, eis um homem que tem muitas falhas, e o roteiro inicial deseja expô-las didaticamente, mas cujas nuances podem deixá-lo complexo. Este início é tão bem teatral e esquemático – em outros momentos isso não seria ruim – que acaba por derrubar Steve Jobs do alto de onde imaginaria estar.
Eis aí um dos problemas: Sorkin é um roteirista que dá muito peso ao jogo de palavras e aos diálogos tensos e afiados. Em Steve Jobs, isso não é diferente. O problema é a maneira como eles são filmados. Enquanto nos filmes anteriores havia uma tensão quase documental, como em A rede social e O homem que mudou o jogo, Boyle tem uma clara tendência a transformar parte de suas obras em um videoclipe estendido, pelo visual e pela maneira como focaliza. Os saltos temporais – o roteiro se desloca para 1988 quando Jobs esteve à frente da empresa NeXT, mostrando novamente seus problemas com a filha e depois para 1998, quando Lisa passa a ser interpretada pela convincente Perla Haney-Jardine – são bastante previsíveis e nem mesmo as possíveis reviravoltas finais, com Sorkin tentando desviar a atenção do espectador para o fato de que o roteiro é papel fino, Steve Jobs consegue ser brilhante como alguma criação à frente de seu tempo.

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Se Fassbender inicia com os maneirismos de seu personagem Archie Hicox em Bastardos inglórios, e sem nenhum sinal de originalidade que víamos em suas atuações em Prometheus, 12 anos de escravidão e Slow west, e termina como Cristof (o diretor do programa de O show de Truman feito por Ed Harris), pode-se dizer que, de forma surpreendente, a melhor atuação é de Seth Rogen, enquanto Daniels e Winslet estão altamente competentes, e Katherine Waterston, exclusivamente no início, faz lembrar os bons momentos de Vício inerente. Esse elenco precisa lidar com um roteiro com referências muitas vezes técnicas (os especialistas em informática talvez extraiam mais do filme), e de maneira geral costuma se sair bem. No entanto, Sorkin empresta uma estrutura muito previsível realmente a eles. Tudo é tão planejado e encaixado e as relações que se mostram ao longo de um certo tempo tão teatrais que se torna claro: não é exatamente a criatividade da ideia (existente, pois mostra como pessoas se apegam a determinadas situações, lugares e pessoas sem notar), e sim a maneira como é apresentada, de maneira apressada e desigual. Há um componente teatral de muito vigor, que dialoga às vezes mesmo com Birdman (os bastidores de uma apresentação e a vida intermediada por várias dessas interpretações). Nesses atos divididos claramente, Sorkin deseja jogar com os mesmos temas envolvendo amizade e traição assistidos em A rede social, porém David Fincher (que foi o primeiro diretor cogitado para este Steve Jobs) localiza algo de mais humano e trágico, quando Boyle, como na maior parte de sua trajetória, com exceção de seu filme de estreia, Trainspotting, é muito técnico; a questão é não se sentir os diálogos do melhor modo, nem existe a passagem de um mundo universitário para uma descoberta envolvendo uma rede de contatos maior.

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Ou seja, Steve Jobs se sente com os personagens excessivamente conscientes de seu papel, sem deixar muito espaço para a discussão de quem pode ter feito algo capaz realmente de mudar o rumo das coisas. Rogen, como ator, é um dos poucos capaz de oferecer essa dimensão à história, o que Fassbender consegue apenas em alguns momentos. O personagem de Rogen, Wozniak, acaba fazendo o elo real e emotivo dessa história sobre a disputa existente por trás de criações associadas à mudança da humanidade em todos os planos, partindo do universo informatizado ou apenas de um desenho no paint. Para Boyle e Sorkin, Steve Jobs só conseguia expressar suas emoções quando via sua vida representada por números, equações e telas em movimento para o ser humano tocar. É uma perspectiva, mas, sem dúvida, a história acaba, por isso, reduzindo sua persona.
De qualquer modo, mais especificamente, o meio do filme de Boyle é realmente um problema, pois, além da atuação de Fassbender decair, a presença de Rogen diminui e a personagem de Winslet se torna apenas um complemento, não parte do centro, como na primeira parte. Isso não tira a competência de Steve Jobs para mostrar o panorama de épocas diferentes, trazendo um ato final mais interessante, reflexivo e movimentado, embora exagere em muitos momentos – a plateia batendo os pés antes de Jobs subir ao palco e mostrar mais uma de suas criações – e Fassbender, em certos momentos, não ajude, o que faz diferença, pois aparece durante o filme todo, sendo talvez o maior desapontamento, à medida que deveria ter sido o maior acerto de Boyle na escolha do elenco.

Steve Jobs, EUA, 2015 Diretor: Danny Boyle Elenco: Michael Fassbender, Kate Winslet, Katherine Waterston, Jeff Daniels, Seth Rogen, Michael Stuhlbarg, Perla Haney-Jardine Roteiro: Aaron Sorkin Fotografia: Alwin H. Kuchler Trilha Sonora: Daniel Pemberton Produção: Christian Colson, Danny Boyle, Guymon Casady, Mark Gordon, Scott Rudin Duração: 123 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: Cloud Eight Films / Decibel Films / Legendary Pictures / Scott Rudin Productions / The Mark Gordon Company / Universal Pictures

Cotação 3 estrelas

Blue Jasmine (2013)

Por André Dick

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Depois de seus filmes demarcando um roteiro pela Europa, a exemplo de Vicky Cristina Barcelona e Para Roma com amor, Woody Allen regressa aos Estados Unidos com Blue Jasmine, que vem sendo recebido quase como Meia-noite em Paris, sobre a descoberta de Gil Pender do passado da Cidade Luz – pelo menos, estreou bem na temporada de premiações que antecedem o Globo de Ouro e o Oscar. Ainda comparado a suas produções dos anos 80 de Allen, Blue Jasmine começa por ser um equilíbrio entre duas vertentes do diretor: aquela mais dramática e uma mais cômica. Ele poucas vezes conseguiu mesclar essas vertentes com a perícia demonstrada em Hannah e suas irmãs e Maridos e esposas – não teve êxito em filmes como Memórias –, mas se esforça para obter o mesmo resultado em Blue Jasmine, por meio de um roteiro bastante superior ao que apresentou em Para Roma com amor, um filme divertido, mas de certo modo com um ar de acabado às pressas.
Tendo à frente do elenco, como a personagem principal, a atriz Cate Blanchett, Allen mostra mais uma vez ser um diretor de atores e atrizes. Poucos atores conseguem repetir sem a mão de Allen o mesmo vigor dramático. Cate Blanchett não é uma exceção. Apesar de ter realizado vários filmes desde Elisabeth, em que chamou a atenção pela primeira vez, Blanchett consegue, aqui, obter o desempenho de sua carreira até agora (embora não o melhor do ano). Ela consegue delinear, desde o início, uma personagem situada entre o ego e os problemas que surgiram depois que seu marido, Hal (Alec Baldwin), foi preso por problemas de desvios de dinheiro, relacionados a empresas. Desempregada e sem rumo, ela procura a irmã, Ginger (Sally Hawkins), com quem nunca teve um bom relacionamento. Ambas foram adotadas, e Jasmine vem a San Francisco para tentar se recuperar emocionalmente do baque que foi a perda de toda a riqueza em que vivia. Apontando os erros da irmã em matéria de relacionamento – Ginger namora Chili (Bobby Cannavale), que tenta empurrar um amigo seu a Jasmine –, ela não consegue se contentar com o novo ambiente, porque sempre considera que merece mais. A fim de ter uma formação, ela pensa novamente em estudar, desta vez como design de interiores. No entanto, precisa trabalhar, e o emprego que surge é com um dentista (Michael Sthulbarg). Esta é a primeira etapa da tentativa de Jasmine solucionar sua vida, e o espectador, ao mesmo tempo em que compartilha da atual situação da personagem, a conhece em sua vida anterior, rodeada de reuniões e a high society.

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Allen nunca desistiu de satirizar a alta sociedade, e em Blue Jasmine não é diferente. Para ele, mais do que uma pessoa perturbada emocionalmente, Jasmine se revela a síntese de uma mulher que busca no homem apenas uma realização material. No entanto, ele consegue desfocar essa situação de maneira inteligente. Em certos momentos, imaginamos que Jasmine quer apenas uma sustentação emocional por meio dessa riqueza buscada, quando, na verdade, ela pode ser menos do que um centro vazio ao redor do qual vagam os outros personagens. Sua irmã, Ginger, é uma espécie de complemento. Indefinida entre seguir com sua vida ou agradar à opinião de Jasmine, ela acaba se situando sempre deslocada. Por mais que essas personagens pareçam, à primeira vista, agradáveis – uma com manias estranhas, que acabam até divertindo, e a outra tentando remediá-las com alguma ajuda –, como no recente Frances Ha, Woody Allen prefere a amargura de suas caracterizações. Mesmo os homens que ele coloca no caminho dessas duas irmãs são completamente desprovidos de imaginação: eles apenas repetem convenções do que se espera. Há aquele que está convencido de ser genial, Hal (mais um personagem do tipo na carreira de Baldwin); aquele que deseja uma vida perfeita e com passos para uma ampla publicidade de imagem (Peter Sarsgaard); aquele que diz estar à espera da mulher perfeita (Louis C.K.); e, finalmente, o mais romântico e menosprezado pelo jeito de se vestir, Chili. Como as mulheres, aqui, Allen desenha os homens como estereótipos. Na maior parte do tempo, entretanto, ele consegue elaborar diálogos ligeiros o suficiente para que todos pareçam estar interagindo e, sem a presença do próprio Allen no elenco, nenhum chama atenção em demasia. Mas, quando finalmente percebemos que a agilidade narrativa, exemplar, não se reproduzirá numa elaboração de personagens, o filme acaba se desencontrando.

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É estranho como, ao longo de Blue Jasmine, as impressões sobre os personagens vão mudando: em certos momentos, a personagem parece requisitar uma compreensão, mas em outros parece que, para o espectador, ela poderia e deveria enfrentar o que Allen prepara em seu caminho. Talvez daí venha o principal desequilíbrio, ou qualidade, do filme de Allen: sua personagem central pode ser ouvida, mas não se deve dar, afinal, muito espaço para que isso aconteça, pois o que se terá é uma repetição de suas escolhas anteriores. Para isso, Blanchett tem um papel realmente decisivo, pois ela consegue transitar da insegurança, passando pela depressão e insegurança, até a raiva contida contra o que lhe fizeram passar. Estranhamente, no entanto, Allen não parece ter empatia por ela – ela não é, com certeza, o alter ego de Allen, como o foi Gil Pender, ou o dramaturgo de Tiros na Broadway – e talvez por isso o filme, principalmente em seu ato final, seja o que menos lembre um filme do diretor. Para Allen, esta figura feminina é uma espécie de exemplo da autopunição, e nem sempre esta visão segue o seu olhar ao longo da narrativa (daqui em diante, spoilers). Allen parece desapontar seu lado menos amargo quando escolhe o desfecho do filme. É como se a personagem não pudesse mais dar as respostas que ele obtinha, de certo modo, com outros personagens, ou realmente devesse ficar num presente irrecuperável, a fim de escolher outro caminho.
O que se sente, no entanto, é que o terceiro ato realmente não representa o filme como um todo, e nesse sentido Blue Jasmine acaba parecendo uma obra inacabada, embora Cate Blanchett ainda esteja lá. Não se trata exatamente da escolha do diretor, mas porque, ao longo do filme, Allen usa uma série de elementos para que o espectador consiga identificar as mudanças de comportamento e tom de Jasmine em relação às pessoas, dependendo de sua situação. Quando finalmente o espectador parece entendê-la, assim como sua manipulação, ele pede para que entendamos que tudo aquilo que foi visto na verdade só teve uma responsável, reduzindo-a novamente a uma pessoa desequilibrada, sem que se elabore o que veio antes de sua vida com Hal e depois para que se chegasse naquele ponto, sendo o comportamento dela apenas falho ou não suficientemente tratado. Nesse sentido, sua situação destoa do tom ameno, embora amargo, de todo o filme, tornando-se um estudo de caso frustrante. Allen parece não querer dar espaço a um tema pesado, tentando apegar-se ao desespero da personagem e à sua autodestruição para, enfim, reduzir todos os personagens a um ponto de interrogação e conscientes de uma vida que o diretor considera medíocre. Para ele, Jasmine é uma fonte de destruição e não se deve ouvi-la nem ampará-la. A atuação de Cate Blanchett nos diz o contrário do que entrega o diretor: embora ela queira falar, ele não permite. E o Allen com tom moralista, que torna os personagens apenas em símbolos do que gostaria de transmitir – aquele de Crimes e pecados, Memórias e Match Point – é, sem dúvida, o menos atrativo, extraindo toda a energia que poderia haver na estrutura do belo roteiro de Blue Jasmine.

Blue Jasmine, EUA, 2013 Diretor: Woody Allen Elenco: Cate Blanchett, Alec Baldwin, Sally Hawkins,Bobby Cannavale, Louis C.K., Richard Conti, Michael Stuhlbarg, Peter Sarsgaard, Tammy Blanchard, Vanessa Ross Roteiro: Woody Allen Fotografia: Javier Aguirresarobe  Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Stephen Tenenbaum Duração: 98 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Perdido Productions

Cotação 3 estrelas