Homem-Formiga e a Vespa (2018)

Por André Dick

O universo estendido da Marvel já teve dois filmes este ano, Pantera Negra e Vingadores – Guerra infinita. A eles vem se juntar a sequência daquele que seria o mais despretensioso do conjunto, lançado em 2015. Todos sabem que a parceria dos estúdios Disney com a Marvel vem resultando numa sequência de obras com variados super-heróis: Thor, Homem de Ferro e Capitão América, entre outros. Enquanto isso, paralelamente, a Fox tem feito franquias de X-Men e Deadpool. Homem-Formiga é um dos personagens mais improváveis desse universo. O primeiro tinha a colaboração no roteiro de Edgar Wright, o mesmo de Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, com Joe Cornish, que escreveram As aventuras de Tintim. Quem o substituiu na direção do filme antes de começarem as filmagens foi Peyton Reed, que regressa para a sequência. Ele tem uma obra muito curiosa sobre o amor com o estilo dos anos 50 (Abaixo o amor) e também dirigiu Jim Carrey numa de suas melhores comédias pós-anos 90, o subestimado Sim, senhor, uma sátira também aos gurus da autoajuda.

Desta vez, Homem-Formiga e a Vespa conta com um roteiro assinado a dez mãos por Chris McKenna e Erik Sommers (dupla de LEGO Batman – O filme), além de Paul Rudd, Andrew Barrer e Gabriel Ferrari. Scott Lang (Paul Rudd) teve problemas com a justiça depois de ajudar o Capitão América a enfrentar o Homem de Ferro em Guerra Civil e é vigiado pelo agente da SHIELD Jimmy Woo (Randall Park). Por isso, ele tenta conviver o máximo com sua  filha, Cassie (Abby Ryder Fortson), dentro de casa, em brincadeiras que remetem a Os Goonies, enquanto tem a ajuda da antiga mulher, Maggie (Judy Greer), casada com o policial Paxton (Bobby Cannavale).
Ele está afastado de Hank Pym (Michael Douglas), cuja filha Hope van Dyne (Evangeline Lilly) se transforma na super-heroína Vespa e estão atrás, no universo quântico descoberto por Lang no primeiro filme, de Janet (atriz em participação surpresa), mãe de Hope. No entanto, algo os aproxima novamente – e essa química entre eles reproduz boa parte daquele filme de 2015, com Douglas, Rudd e Lilly trocando farpas de modo engraçado. E novamente estão de volta o amigo Luis (Michael Peña), com os parceiros atrapalhados Kurt (David Dastmalchian), gênio da informática, e Dave (T.I.). A ameaça parece ser Ava Starr/Ghost (Hannah John-Kamen), acompanhada por Bill Foster (Laurence Fishburne), porém surge pelo caminho também Sonny Burch (Walter Goggins), um negociante do mercado subterrâneo de tecnologia.

Como no filme de 2015, o humor leve não soa forçado, nem mesmo em seus ligeiros flashbacks, inspirados claramente nas ideias de Edgar Wright. Pelo universo tecnológico envolvido, novamente há as referências à SHIELD, mas esta sequência se mostra próxima de Homem-Aranha – De volta ao lar, com uma passagem de Lang por um colégio, que rende uma das cenas divertidas do filme. Tudo é ainda despretensioso, embora os personagens não sejam mais novidade. O que interessa é como Reed desenha esse super-herói: ele não tem as pretensões de outros, nem carrega uma tentativa de lado épico, apegando-se ao cotidiano, e isso o torna inegavelmente humano. Outra qualidade é a falta de ligação explícita com o universo expandido, que distrai em demasia a atenção do espectador para o próprio filme, às vezes incorrendo num didatismo desnecessário.
O ator Paul Rudd é, de longe, um dos comediantes subestimados de sua geração, com boas participações em O virgem de 40 anosA razão do meu afeto As patricinhas de Beverly Hills. No início desta década, ele participou de Como você sabe, uma tentativa de James L. Brooks reproduzir Melhor é impossível, e depois fez o professor de As vantagens de ser invisível, além de interpretar seu melhor papel, em Bem-vindo aos 40. Com sua mescla entre um humor agridoce e um sentimentalismo bem dosado, ele não tem tanta chance de mostrar sua empatia como no primeiro e quem conquista o espaço novamente é Peña, no papel do amigo atrapalhado, que tem um momento de interrogatório que remete a um dos meninos de Os Goonies, enquanto Douglas é competente e Lilly adorável no papel de elo romântico. Cannavale não tem a mesma participação convincente do primeiro filme, aparecendo um pouco deslocado, assim como Greer, mas Goggins compensa (era um destaque já em Os oito odiados, de Tarantino).

Igual ao primeiro, impressiona como Reed consegue aliar um triunfo de técnica e bom humor. Não são poucas as vezes em que é surpreendente como ele coloca Lang entre o mundo dos insetos e o mundo dos homens de maneira que a fantasia nunca soe excessiva, sobretudo nas sequências de confronto, principalmente, desta vez, com casas e edifícios encolhendo, assim como carros de todos os tipos, em perseguições que remetem a Bullit dos anos 60, auxiliadas pela fotografia do sempre competente Dante Spinotti, mesmo que com um jogo de cores menos atrativo daquele do primeiro, mais lúdico. Nessa mesma linha, o design de produção não se mostra suficientemente criativo, levando em conta que Reed dirigiu o visualmente belíssimo Abaixo o amor, esquecido em categorias técnicas pelo Oscar em 2003. Os movimentos da Vespa são, de qualquer modo, captados com uma resolução notável, um verdadeiro feito na área, assim como o universo quântico possui uma esplendorosa concepção molecular, lembrando o momento da criação de A árvore da vida, de Malick. Novamente, e ainda mais que o primeiro, ele dialoga com Querida, encolhi as crianças – e os efeitos da Industrial Light & Magic se expandiram realmente, embora o lado artesanal do filme de Johnston em 1989, ano em que inicia o primeiro Homem-Formiga, tenha seus méritos – e Querida, estiquei o bebê. De qualquer modo, Homem-Formiga e a Vespa se ressente de um roteiro ágil como o do primeiro, capaz de entrelaçar as gags com a ação de maneira afetiva e impondo aqui o drama existencial de Ghost, que destoa um pouco do conjunto, embora seja bem trabalhado em alguns momentos, inclusive visualmente. Isso não o impede de ser novamente uma das obras exitosas do universo expandido da Marvel.

Ant-man and the wasp, EUA, 2018 Diretor: Peyton Reed Elenco: Paul Rudd, Evangeline Lilly, Michael Douglas, Michael Peña, Walton Goggins, Bobby Cannavale, Judy Greer, Tip “T.I.” Harris, David Dastmalchian, Hannah John-Kamen, Abby Ryder Fortson, Randall Park, Laurence Fishburne Roteiro: Chris McKenna, Erik Sommers, Paul Rudd, Andrew Barrer, Gabriel Ferrari Trilha Sonora: Christophe Beck Fotografia: Dante Spinotti Produção: Kevin Feige, Stephen Broussard Duração: 118 min. Estúdio: Marvel Studios Distribuidora: Walt Disney Studios

Beleza oculta (2016)

Por André Dick

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Depois de dois sucessos de bilheteria, O diabo veste prada e Marley e eu, o diretor David Frankel se tornou uma espécie de representante daquele nicho que mistura drama e comédia, potencializando essas características em Um divã para dois, com Meryl Streep, Tommy Lee Jones e Steve Carell em ótimas atuações. Talvez por isso ele tenha desapontado tanto a crítica em geral quando resolveu ingressar no drama em Beleza oculta, visto em geral como um filme que desperdiça seu grande elenco.
A história de Beleza oculta apresenta um publicitário, Howard Inlet (Will Smith), em dificuldades pessoais depois de perder a sua filha ainda criança. Seus parceiros Whit Yardshaw (Edward Norton), Claire Wilson (Kate Winslet) e Simon Scott (Michael Peña) não se preocupam apenas com Howard, mas com o destino da agência onde trabalham, na qual ele só aparece para montar dominós em escala gigante. Os três decidem contratar uma detetive particular, Sally Price (Ann Dowd), para colher provas de que Howard está mentalmente desequilibrado.
A investigadora descobre que ele escreve cartas para o Amor, o Tempo e a Morte, conceitos com que lidava na agência durante seu período mais tranquilo. Então, seus colegas contratam três atores – Raffi (Jacob Latimore), Brigitte (Helen Mirren) e Amy (Keira Knightley) – para atuarem como Tempo, Morte e Amor, respectivamente. Amy está especialmente em dúvida se seguirá o que estão solicitando, mas é Brigitte que toma a dianteira para tentar provar que, além do dinheiro a ser recebido, este pode ser um real trabalho de interpretação.

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Whit, Claire e Simon também enfrentam seus problemas pessoais: Whit quer estabelecer uma ligação com sua filha Allison Yardshaw (Kylie Rogers), Simon tem um segredo sobre sua vida; e Claire está atrás de doadores para que possa engravidar. Enquanto isso, Howard não sabe se frequenta um grupo de apoio, em que Madeleine (Naomie Harris) é a organizadora. Ele simplesmente não consegue dizer o nome da filha nem elaborar o que aconteceu a ela com os amigos. Frankel coloca os três colegas de Howard dando conselhos aos atores para que possam interpretar seus papéis de maneira convincente. Mais do que Howard, é eles, por outro lado, que necessitam dos conselhos do Tempo, do Amor e da Morte – e nisso o filme se justifica, colocando-os em diferentes situações.
São justamente esses personagens que gostariam que sua vida fosse transportada para o teatro, a fim de que não precisassem enfrentar a realidade, que inclui a depressão de Howard. Todos, de certa maneira, enfrentam o luto em suas vidas de algum sonho não realizado, e a agência de publicidade se projeta como o símbolo disso. Você vai ver Kenneth Lonergan trabalhar isso de maneira crua em Manchester à beira-mar; aqui, o tratamento é claramente apelando para a fuga da realidade.

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Esta é uma história claramente implausível, feita em cima de conceitos sobre a vida, mas Frankel não deixa de colocar um interesse em cada ação dos personagens e faz atingir um sentido de grandeza em muitos momentos. Assim como em seus outros filmes, ele sabe construir uma atmosfera, e em Beleza oculta o pano de fundo é a época natalina, uma época justamente em que vêm à tona lembranças familiares mais do que em outros períodos. Os seus personagens interagem com esse ambiente: por exemplo, mesmo enfrentando essa fase difícil em sua vida, Howard tenta se reanimar pedalando por Nova York, na contramão de carros ou sobre pontes. Registrada pela fotografia excelente de Maryse Alberti (responsável por dois ótimos trabalhos, em Creed e A visita), a atmosfera contrasta com os sentimentos dele, que não consegue nunca ser colocados à prova. Pode-se dizer, por um lado, que ele é discreto ao revelar sentimentos dos personagens, mas, ao mesmo tempo, contundente: sobretudo quando coloca Helen Mirren na figura da Morte.
De qualquer modo, é Will Smith, do elenco, que apresenta a melhor atuação, como em Esquadrão suicida: apesar de seu personagem ter alguns comportamentos estranhos, o ator estabelece um padrão interpretativo que lembra seus melhores momentos em Ali. Pode-se sentir a angústia de Howard por causa de Smith, mas num nível mais extremo daquele que vemos em À procura da felicidade e mais efetivo do que em Um homem entre gigantes, quando tentava emular um sotaque etíope e muitas vezes não dava certo. Ele não seria também individualista e egoísta vendo seus amigos numa situação complicada? Smith trabalha essa faceta muito bem. Não muito longe, fica Naomie Harris, de Moonlight, no papel da delicada Madeleine.

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Apesar do tom francamente dramático, não escapa à narrativa certo senso de humor, por exemplo na conversa de elevador que Whit procura ter com ele ou naquele momento em que Howard quer desvencilhar do Tempo, e Jacob Latimore aparece para importuná-lo. Helen Mirren tem uma atuação também comovente como a atriz que interpreta a Morte, embora Knightley e Norton sejam especialmente subaproveitados numa ligação cuja intensidade fica subentendida e logo é deixada de lado por Frankel e pelo roteiro.
Em alguns momentos, Beleza oculta evoca Simplesmente amor, pela ligação entre os personagens, mas sua proximidade é maior de filmes de James L. Brooks, principalmente Como você sabe, principalmente pelos cenários nova-iorquinos. E, claro, não é isento de falhas: em algumas resoluções simplistas, na tendência, algumas vezes, a querer que o espectador se comova, independente do que está assistindo. Ainda assim, ele possui uma humanidade interessante e particularmente tocante, mais do que outros projetos que se alimentam dessa ideia. Não é mais tão comum mais obras que tratam da sensibilidade em relação aos outros e das oportunidades que surgem e devem ser seguidas: Beleza oculta é uma delas.

Collateral beauty, EUA, 2016 Diretor: David Frankel Elenco: Will Smith, Edward Norton, Helen Mirren, Keira Knightley, Michael Peña, Naomie Harris, Kate Winslet, Jacob Latimore, Ann Dowd Roteiro: Allan Loeb Fotografia: Maryse Alberti Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Allan Loeb, Anthony Bregman, Bard Dorros, Kevin Scott Frakes Duração: 97 min. Distribuidora: Warner Bros. Estúdio: Anonymous Content / Likely Story / Overbrook Entertainment / PalmStar Media / Village Roadshow Pictures

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Perdido em Marte (2015)

Por André Dick

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A qualidade do trabalho de Ridley Scott parece ainda apenas associada aos seus primeiros filmes, como Alien e Blade Runner, como se depois disso não tivesse realizado outros grandes filmes. Apenas nos anos 2000, ele fez Gladiador, Falcão negro em perigo, Os vigaristas, Cruzada, Um bom ano e O gângster, obras que revelam uma variação muito grande de dicção, e há três anos apresentou Prometheus, colocado de forma surpreendente como uma de suas decepções. Quando um cineasta como Scott, certamente um dos maiores artesãos já surgidos em Hollywood e que continua, quase octogenário, produzindo filmes, faz uma superprodução como Êxodo: deuses e reis, parece apenas para passar o tempo e um mero blockbuster, mas junto consigo sempre traz uma concepção visual extraordinária. A partir daí, adaptar o livro de ficção científica The martian, para o cinema se transformou no seu grande projeto antes da continuação de Prometheus.
Escrito por Andy Weir, Perdido em Marte teve a adaptação de Drew Goddard, que fez em parceria com Joss Whedon o roteiro da sátira aos filmes de terror O segredo da cabana e do pouco recomendado Guerra Mundial Z. A narrativa começa com uma expedição precisando sair de Marte às pressas. Liderada por Melissa Lewis (Jessica Chastain), tem em seu grupo Rick Martinez (Michael Peña), Beth Johanssen (Kate Mara), Chris Beck (Sebastian Stan) e Axel Vogel (Aksel Hennie), além de Mark Watney (Matt Damon), que acaba sofrendo um contratempo e fica isolado no planeta vermelho.

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Que Marte é um planeta dos mais propícios a mistérios e pesquisas, isso está provado em vários filmes, e mesmo já foi colonizado em O vingador do futuro, antes de se descobrir recentemente a presença de água em sua superfície. Scott tem uma ideia muito clara da imensidão do universo, como já provou em Alien e Prometheus. Ele joga esses mistérios na narração de Watney, quase sempre falando para a câmera em que deseja deixar gravada a sua experiência. Como sobreviver em Marte? De que modo fazer a comida durar o tempo suficiente para que possa ser resgatado pela Nasa? Entre os integrantes da Nasa, temos o diretor Teddy Sanders (Jeff Daniels), Annie Montrose (Kristen Wiig), Mitch Henderson (Sean Bean) e o responsável pela expedição, Vincent Kapoor (Chiwetel Ejiofor), além de seu auxiliar Bruce Ng (Benedict Wong), enquanto Mindy Park (Mackenzie Davis) é quem acompanha os movimentos de Watney.
Perdido em Marte possui um cuidado muito grande em retratar o planeta vermelho, principalmente em sua superfície arenosa e entrega a Watney alguns momentos de quem precisa descobrir o fogo (neste caso, o oxigênio) para poder sobreviver mais do que os mantimentos indicam. Ele também precisa fazer o reconhecimento da área e lembrar de possíveis referências no planeta que possam fazer com que estabeleça um contato com a Terra. A diferença do personagem de Watney para outros recentes, especificamente da doutora interpretada por Sandra Bullock em Gravidade e do fazendeiro astronauta feito por Matthew McConaughey em Interestelar, é especificamente o seu descompromisso com alguma angústia que possa evocar o espaço sideral e o isolamento em Marte.

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É visível que Scott quis fazer um filme diferente dessas duas referências recentes e, mesmo que Perdido em Marte tenha um lado espetacular visual próximo desses dois (principalmente nos momentos em que se concentra no espaço), não chega próximo da densidade dos projetos de Cuarón e Nolan. Isso, por um lado, torna o filme mais bem-humorado, inclusive por sua trilha sonora, e mais centrado em discussões da Nasa, principalmente de Sanders, Montrose e Kapoor. Ejiofor, principalmente, está ótimo como o coordenador do projeto de viagens a Marte e consegue dar o toque mais humano do filme de Scott, mesmo que Watney seja o homem em missão e a ser resgatado. Embora seus diálogos com Sanders e Montrose não rendam como seria de se esperar, deixando Wiig lamentavelmente subaproveitada, Kapoor é o elo de ligação entre Watney e a Nasa. Quando em determinado momento surge o personagem de Rich Purnell, interpretado por Donald Glover, há também mais agilidade em cena.
Em alguns momentos, Perdido em Marte também se ressente claramente de um núcleo mais emocional, que Scott trabalhou tão bem em filmes como Gladiador, Um bom ano e Thelma & Louise. O personagem de Watney se apresenta sempre por meio da descrição do que está ocorrendo com ele, no entanto não se tem uma noção mais exata de seu passado e de sua relação com o restante da equipe. Como o filme inicia rapidamente, com uma tempestade que remete claramente a Prometheus, e Scott se aprimora ao lançar os personagens num cenário ameaçador, não há tempo o suficiente para que conheçamos os personagens. E, depois disso, o roteiro de Goddard e a montagem de Pietro Scalia – habitual colaborador de Scott e responsável pelo filme mais bem montado que já vi, particularmente, JFK – deixam a equipe desparecer do filme por um tempo longo demais, a fim de que haja uma conexão emocional mais sustentada com Watney, o companheiro deixado em Marte por se achar que estava morto, além de não estabelecer rapidamente uma conexão com a Nasa.

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É como se a equipe do projeto fosse alijada do roteiro – não apenas ela, como também coadjuvantes como Chastain, Peña e Mara, que poderiam contribuir muito –, e isso sinaliza, em parte, para certo afastamento das emoções guardadas por Watney: como não se tem ligação dele com pessoas que o cercavam e mesmo com pessoas da Terra, é como se ele não estivesse mais do que já costumeiramente está: só (o que tornava Náufrago, com Tom Hanks, tão surpreendente, na sua indefinição de que se iria ou não reencontrar o seu amor). Nesse sentido, parece se perder em parte a essência de um filme como este: de que ele está num ambiente desconhecido e solitário. Ao reagir com bom humor à situação, dá espaço a alguns momentos realmente engraçados, no entanto extrai do personagem a sua preocupação principal, que, de fato, é sobreviver. Matt Damon é um ótimo ator, e ainda assim não temos uma interpretação propriamente dita em sua essência: o roteiro simplesmente não o ajuda, e sua curiosidade pelas coisas se revela apenas autoafirmação. Neste sentido, Perdido em Marte elabora sua trama mais em cima do que Watney pode fazer a partir de seus conhecimentos científicos para lidar com as adversidades – e o que ele faz não é pouco, e pode também dialogar com outras peças conhecidas de homem sobrevivendo em ambiente inóspito. Quando, por um vislumbre de Scott e de atuação de Damon, a emoção surge, no seu ideal de sobrevivência, é muito claro que Perdido em Marte sobe de patamar (como, por exemplo, (spoiler), a troca de mensagens pública entre Watney e a Nasa).
Há alguns filmes de Scott em que a conexão dos personagens não é bem solucionada – o próprio Êxodo –, e com Perdido em Marte não é diferente, principalmente pela quantidade que apresenta deles (em torno de vinte), porém a grandiosidade costuma ser uma de suas saídas. Em Cruzada, havia algumas irregularidades no tratamento histórico, por exemplo, mas os cenários fantásticos e a atmosfera faziam a estrutura do filme se movimentar por todos os lados, especialmente em sua versão estendida. O mesmo vale para Prometheus, com uma meia hora final não menos do que fantástica para os admiradores de boa ficção científica, e no caso de outros filmes de Scott menos estimados, a exemplo de A lenda (dos anos 80) e 1492 (com uma fotografia esplendorosa e trilha sonora de Vangelis). Em Perdido em Marte, por sua vez, Scott pretende dar mais espaço a como o ser humano pode ver a ciência e se utilizar dela como própria fonte de vida, com seus conhecimentos de gerações longínquas. Por isso, em sua meia hora final, Scott parece conduzir seu filme ao que há de melhor nele: uma espécie de sublimação da tentativa de enfrentar as estrelas como quem está disposto a sobreviver e retomar seu contato com o que ainda está prestes a brotar do solo como se fosse a primeira vez.

The martian, EUA, 2015 Diretor: Ridley Scott Elenco: Matt Damon, Jessica Chastain, Chiwetel Ejiofor, Jeff Daniels, Kate Mara, Sean Bean, Michael Peña, Mackenzie Davis, Kristen Wiig, Donald Glover, Sebastian Stan, Sam Spruell Roteiro: Drew Goddard Fotografia: Dariusz Wolski Trilha Sonora: Harry Gregson-Williams Produção: Mark Huffam, Michael Schaefer, Ridley Scott, Simon Kinberg Duração: 141 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Genre Films / International Traders / Mid Atlantic Films / Scott Free Productions / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas

Homem-Formiga (2015)

Por André Dick

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A parceria dos estúdios Disney com a Marvel vem resultando numa sequência de filmes com os mais variados heróis: Thor, Homem de Ferro, Capitão América. Enquanto isso, paralelamente, a Fox tem feito franquias do Homem-Aranha continuamente, trocando o ator a cada cinco anos, quando não antes. No próximo ano, a DC Comics finalmente colocará em cena o duelo entre Batman e Superman, já visualizado nos quadrinhos de Frank Miller. No entanto, um dos heróis mais improváveis a sair dessa parceria da Marvel com Disney é outro. Enquanto Homem de Ferro, Thor e Capitão América, e ainda Hulk (que não possui ainda um filme solo com o ator atual, Mark Ruffalo), são bastante conhecidos, mesmo para quem não acompanha quadrinhos, o Homem-Formiga parecia, em primeiro lugar, não anunciar um projeto seguro. No início, foi chamado Edgar Wright para dirigi-lo. Wright é o responsável por filmes de grande humor, violência e ação, a exemplo de Chumbo grosso e Scott Pilgrim contra o mundo, principalmente em sua parceria com Simon Pegg, reproduzida também em Heróis de ressaca. É ainda Wright um dos responsáveis pelo roteiro de Homem-Formiga, ao lado de Jay Cornish, autor da história de As aventuras de Tintim, Adam McKay e Paul Rudd. No entanto, quem assumiu a direção foi o mais improvável ainda Peyton Reed. Enquanto ele possui um par de obras menos felizes (Abaixo o amor e Separados pelo casamento), também dirigiu Jim Carrey numa de suas melhores comédias pós-anos 90, o subestimado Sim, senhor, uma sátira também aos gurus da autoajuda.

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Esta influência de Reed e Wright, com humor, é a principal chamada de Homem-Formiga. Scott Lang (Paul Rudd) é um prisioneiro. Depois de liberado, quem o recebe de volta à vida é o amigo Luis (Michael Peña). Para infelicidade de Lang, ele tem planos de novos assaltos, com a ajuda dos amigos Kurt (David Dastmalchian), gênio da informática, e Dave (T.I.). Eles certamente formam algo que se assemelha a um trio pouco inclinado a invadir propriedades sem chamar a atenção. O personagem principal pretende rever a convivência com a  filha, Cassie (Abby Ryder Fortson), mas se depara com a antiga mulher, Maggie (Judy Greer, a mãe preocupada com os filhos dos filmes do verão norte-americano, a julgar também por Jurassic World), e o seu novo marido, o policial Paxton (Bobby Cannavale), que exigem dele um emprego e o pagamento da pensão. Ao mesmo tempo, Darren Cross (Corey Stoll) está fazendo experimentos, iniciados tempos atrás com Hank Pym (Michael Douglas), cuja filha Hope van Dyne (Evangeline Lilly) está à frente ainda da empresa que era dele e cujo desaparecimento da mulher ainda é um mistério. Cross não é alguém certamente confiável, pois está tentando reproduzir um experimento iniciado por Pym com partículas, a fim de criar o Yellowjacket, e o destino colocará Lang no rumo desses acontecimentos.
Diferente dos demais heróis da Marvel, o passado de Lang e o interesse que provoca é justamente por sua habilidade em roubos, em burlar sistemas a princípio invioláveis. Ao contrário dos demais, como o de Stark em revolucionar a tecnologia, ou Thor com seu entorno de disputa pelo poder de Asgard, ele pretende, por meio da possibilidade de ser o Homem-Formiga, em conseguir novamente ver a filha. Também não se transforma como esses heróis com um poder externo ou interno a ele, nem é picado por um inseto antes de adquirir poderes, nem é um cientista como Banner ou Stark. Ele simplesmente aceita usar o uniforme de Homem-Formiga e aprender a lidar com uma tropa de insetos, que ficam gigantes perto dele.

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Não estamos diante de Tropas estelares, de Paul Verhoeven, com sua compulsão por bílis de monstros; Homem-Formiga é para um público infantojuvenil. Ele tem diálogos maiores com Querida, encolhi as crianças – e os efeitos da Industrial Light & Magic se expandiram realmente 25 anos depois, embora o lado artesanal do filme de Johnston em 1989, ano em que inicia Homem-Formiga, tem seus méritos – na maneira como mostra, por exemplo, o herói em meio aos insetos num jardim caseiro. Ainda assim, a produção de Reed não se sente descartável, como muitos blockbsusters. Particularmente, mesmo que se considere Capitão América 2 uma grande conquista da Marvel, acompanhada por Guardiões da galáxia, Homem-formiga me pareceu o filme de herói solo mais interessante desta leva. Ele tem uma composição que parece acessível e pouco original, mas consegue lidar com a fórmula de maneira muito eficiente, não apenas em razão dos efeitos especiais excelentes, como também por causa do elenco e do design de produção situado entre o tecnológico e o caseiro (a moradia de Pym ou da filha de Lang, com um trem que trará uma das cenas-chave da produção, como já se vê no trailer). Do mesmo modo, o humor leve não soa forçado, nem mesmo em seus flashbacks, certamente um acréscimo de Edgar Wright, cujas histórias trazem certamente esse elemento, principalmente em Chumbo grosso e Scott Pilgrim. E há as referências à S..H.I.E.L.D. e à Hydra, assim como a participação de um dos personagens já vistos anteriormente em Capitão América e Os vingadores.
Talvez seja a simplicidade de Reed em lidar com elementos pouco originais e ainda contar com um elenco tão interessante que torna Homem-Formiga numa diversão superior ao que se espera. O ator Paul Rudd é, de longe, um dos comediantes mais subestimados de sua geração, com boas participações em O virgem de 40 anosA razão do meu afeto e As patricinhas de Beverly Hills. No início desta década, ele participou de Como você sabe, uma tentativa de James L. Brooks reproduzir Melhor é impossível, sem efetivamente conseguir, e depois o professor de As vantagens de ser invisível.

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Como o Homem-Formiga, ele consegue lidar com um aspecto bem humorado, no entanto sem querer repetir Robert Downey Jr. Ao seu lado, Michael Douglas consegue um bom papel, sem chamar atenção demais, equivalendo a Stanley Tucci em Capitão América na esperança de ter escolhido a pessoa certa para efetuar o que precisa, enquanto Evangeline Lilly tem uma composição agradável. Stoll é um vilão também plausível e há uma cena de ameaça num banheiro masculino que remete àquela do RoboCop dos anos 80. Além disso, o trio de amigos de Lang consegue ser interessante para o fluxo da narrativa.
Impressiona como Reed consegue utilizar todos esses elementos, junto com o elenco, na realização de um filme que coloca uma ideia a princípio apenas curiosa em um triunfo de técnica e bom humor. Não são poucas as vezes em que é surpreendente como ele coloca Lang entre o mundo das formigas e o mundo dos homens de maneira que a fantasia nunca soe excessiva, sobretudo nas sequências de confronto e mesmo quando ele precisa contar com a ajuda dos insetos para entrar nos lugares mais imprevistos, com o auxílio da fotografia excepcional de Rusell Carpenter, que recebeu um Oscar por Titanic, lembrado num determinado momento da trama. Do mesmo modo, Reed desenha essas sequências com uma agilidade grande, ao colocar o humor como válvula de escape. Neste sentido, Homem-formiga chega àquele limite muito difícil de ser traçado, entre um filme apenas meramente divertido e realmente bem feito; ele se inclina com êxito para a segunda característica.

Ant-man, EUA, 2015 Diretot: Peyton Reed Elenco: Paul Rudd, Michael Douglas, Corey Stoll, Evangeline Lilly, Michael Peña, Bobby Cannavale, Judy Greer Roteiro: Adam McKay, Edgar Wright, Joe Cornish, Paul Rudd Fotografia: Russell Carpenter Trilha Sonora: Christophe Beck Produção: Kevin Feige Duração: 117 min. Distribuidora: Walt Disney Pictures Estúdio: Big Talk Productions / Marvel Enterprises / Marvel Studios

Cotação 4 estrelas

Trapaça (2013)

Por André Dick

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No ano passado, o diretor David O. Russell reuniu Bradley Cooper e Jennifer Lawrence em O lado bom da vida como isca para premiações, mesma tentativa feita dois anos antes em O vencedor, com Christian Bale e Amy Adams. Em seu novo filme, Trapaça (um título levemente deslocado para o setentista American Hustle), ele reúne os dois casais e procura novamente o reconhecimento principalmente da Academia de Hollywood, desta vez se inspirando, mais ainda do que em seus outros filmes, no Martin Scorsese de Os bons companheiros, a partir do uso da câmera hipnótica de Linus Sandgren. No entanto, não existe em Trapaça o objetivo de retratar a máfia ou fazer as reviravoltas dialogarem com Os infiltrados, a incursão de Scorsese que lhe deu, afinal, o Oscar, quando deveria ter recebido por outros filmes, também pelos recursos de flashbacks. Há mais uma tentativa de incorporar o imaginário dos anos 70 e brincar exatamente com os cenários e situações que podem surgir nele. Tudo isto fica demonstrado pelo próprio figurino e pelos penteados exagerados, partindo daquele exibido por Bradley Cooper, e do físico exibido por Christian Bale. Se formos assistir Trapaça como um retrato de época, talvez não sejamos tão efetivos quanto se ele for visto como uma comédia em que os personagens atuam como se estivessem entrando em cena e ficassem surpresos por isso: é um filme de performances, não exatamente de narrativa.
Bale e Amy Adams formam um casal, Irving Rosenfeld e Sydney Prosser, que se conhece numa festa cujo cenário evoca as vidraças e a piscina ao fundo de Boogie Nights e se juntam imediatamente para aplicar golpes. Prosser se apresenta às vítimas como uma aristocrata chamada Lady Edith Greensly, enquanto Irving segue o roteiro perfeito para limpar os bolsos do alvo. Irving é uma figura completamente deslocada do cenário, pois parece, ao mesmo tempo, ingênuo. Bale lhe oferece características de grande ator que é, tornando o que poderia ser apenas um tanto patético – pelo seu início, quando se prepara para entrar em cena – em uma figura humana, em meio aos diálogos acelerado de Russell, com receio de fazer qualquer interrupção e se perder o fio da meada.

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Enquanto Prosser tem um passado misterioso, Irving é casado com Rosalyn (Jennifer Lawrence) e pai de um menino. Descobertos por Richie DiMaso (Cooper), eles acabam servindo para o encontro com um político, Carmine Polito, dedicado à esposa Dolly (Elizabeth Röhm) e prefeito de Camden, em uma ponte com o mundo do crime, por meio de uma revitalização dos cassinos. O filme é levemente baseado numa operação montada pelo FBI em 1978, chamada Abscam, mas é visível que Russell espalha para todos os lados as suas improvisações, com a ajuda decisiva de seu elenco. Para isso, os personagens acabam se envolvendo com pseudoárabes e mafiosos dos Estados Unidos na história, enquanto tentam conseguir um dinheiro considerável para armar uma transação pouco real de negócios. Nesta relação, DiMaso acaba se apaixonando por Prosser e abre-se um triângulo amoroso que certamente resultará em uma complicação. Isso quando Rosalyn não surge, longe de sua cozinha, interessada em ingressar nas possíveis reviravoltas do caso. DiMaso, especialmente, tem um interesse em fazer sua carreira em cima de grandes casos, capazes de chamar a atenção da mídia.
Todos os personagens de Trapaça querem ter seu grande momento, seja para a mídia ou para encher os bolsos de dinheiro, mas há, acima de tudo, nesse final dos anos 70, adentrando quase nos anos 80, ainda um resquício de amizade e das relações que não devem terminar pelas tradições familiares (como quando Rosalyn diz a Irving que as mulheres de sua família não se separam). Há um falso glamour nos cenários e o penteado dos personagens sempre parece escondê-los de sua verdadeira personalidade: eles encenam tanto para o espectador quanto uns em relação aos outros. E, inevitavelmente, todos os rompantes possivelmente verdadeiros soam ligeiramente forçados – desde alguém saindo pela porta diante de uma decepção de amizade até quando o FBI pensa ter agido de maneira perfeita em determinada circunstância.
Russell nunca chegou a ser respeitado pela crítica e pelo público como o é pela Academia, mas não se pode dizer que seus filmes sejam dispensáveis; pelo contrário. Há neles uma espécie de movimentação que aprimora alguns lugares-comuns e visualiza sobretudo as comédias clássicas, com boa atmosfera, com a ajuda decisiva da fotografia, e um elenco dedicado. Dois dos maiores acertos de Russell, por exemplo, são Três reis e I heart Huckabees. Se os dois casais estavam ótimos nos filmes anteriores, em Trapaça, mostram a revelar boa parceria, com o acréscimo indispensável de Jeremy Renner e Louis C.K. Este, em particular, como Stoddard Thorsen, oferece algumas linhas de diálogo que sustentam a narrativa, e Renner também consegue compor um Polito interessante e volúvel aos momentos de amizade.

Trapaça 9

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Há pelo menos alguns grandes momentos em Trapaça no que corresponde a essa interação de elenco, e eles se dividem entre uma discoteca no estilo anos 70 (podendo surgir um Tony Manero) e um restaurante onde Rosalyn vai expor o estilo de suas unhas. São nesses pequenos detalhes, inacabados e imperfeitos, que Trapaça acaba desenhando o painel de uma época. E não sem a colaboração do elenco. De Bale e Cooper, pode-se falar que conseguem inovar dentro de seu repertório, sobretudo Bale, mas é Adams a responsável pela atuação mais efetiva do filme, tão bem a ponto de Trapaça perder um pouco seu vigor quando não está em cena. E Jennifer Lawrence consegue, depois de Inverno da alma e O lado bom da vida, entregar uma atuação finalmente livre de alguns maneirismos. Em Trapaça, ela, por meio do exagero, torna sua personagem humana, graças à decisão de Russell em mantê-la como uma peça-chave de acréscimo para outros momentos imprevisíveis. Sua presença em Trapaça consegue sintetizar essa ambientação setentista, ao mesmo tempo em que nos coloca uma máquina de recordações direcionada ao futuro. De modo que se ele tem pelo menos 20 minutos a mais de duração do que deveria deve-se valorizar aquilo que Russell conseguiu fazer com seu elenco, de forma mais bem solucionada do que em O lado bom da vida, uma história romântica, com méritos, vendida como drama capaz de modificar a vida do espectador e como peça cult. Talvez não tenha a agilidade do anterior, contudo não deixa de fazer Trapaça um filme bem mais do que interessante.

American Hustle, EUA, 2013 Direção: David O. Russell Elenco: Christian Bale, Amy Adams, Bradley Cooper, Jennifer Lawrence, Jeremy Renner, Michael Pena, Louis C.K., Jack Huston Roteiro: David O. Russell e Eric Singer Fotografia: Linus Sandgren Trilha Sonora: Danny Elfman Produção: Charles Roven, Richard Suckle, Megan Ellison Duração: 129 min. Distribuidora: Columbia

Cotação 3 estrelas e meia