O siciliano (1987)

Por André Dick

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A lamentável morte de Michael Cimino, aos 77 anos, no dia 2 de julho me lembrou o quanto eu admirava os filmes dele e sua maneira de fazer cinema. De O franco-atirador, passando por O portal do paraíso e O ano do dragão, até Na trilha do sol, são todos bem construídos e interpretados. Não havia visto, porém, O siciliano, mais uma obra dele que rendeu polêmica antes de seu lançamento, pois Cimino gostaria de lançar a versão sua de 150 minutos, e a Fox optou por uma mais sintética, de 115 minutos. Desentendimentos vieram à tona, e a questão foi levada à via judicial. Assisti à versão em Blu-ray do filme, lançada em março deste ano, com 146 minutos, ou seja, mais próxima da visão de Cimino. Este é um cineasta infelizmente rotulado como aquele que passou do Oscar de melhor filme e diretor a uma obra que decretou a falência da United Artists, e quase nunca analisado pelo que de fato fez, e O siciliano prova que é preciso realmente conhecer seu legado.
Baseado em romance de Mario Puzo, o mesmo de O poderoso chefão, o roteiro de Steve Shagan e Gore Vidal (não creditado), mostra a trajetória de Salvatore Giuliano (Cristopher Lambert, que pouco tempo antes fizera Greystoke e Highlander), nos anos 40, que se transforma numa referência da Sicília. Nascido em Montelepre, oeste de Palermo, uma cidade muito pobre, ele rouba dos ricos para dar aos mais necessitados, como uma espécie de Robin Hood.

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Ele já começa em alta velocidade, em Crotone, mostrando ele e seu parceiro e primo Gaspare “Aspanu” Pisciotta (John Turturro) carregando um caixão com milho para levar aos famintos camponeses, mas barrados por dois policiais. Na fuga, eles chegam ao pátio de uma duquesa local, Camilla (Barbara Sukowa), onde roubam dois cavalos para escaparem. Ferido, Giuliano se esconde num mosteiro, aos cuidados do abade Manfredi (Tom Signorelli), amigo de Aspanu. Acontece que o local é já dominado por um chefe mafioso, Don Masino Croce (Joss Ackland). Na região de Montelepre, também há o príncipe Borsa (Terence Stamp) e um interesse amoroso de Giuliano, Giovanna Ferra (Giulia Boschi), irmã de Silvio (Stanko Molnar). Suas ações passam a ser vistas com repreensão por Don Masino, do tipo que pretende obter um diploma de médico para o sobrinho sem que ele estude.
De qualquer modo, ele parece admirar Giuliano, mesmo que este se conserve escondido com seu numeroso grupo no alto das montanhas Cammaratta e faz lembrar que ninguém consegue ter domínio sobre ele: nem a máfia, nem os donos de terras nem a Igreja. Para libertar os prisioneiros do lugar, dos quais se destacam Passatempa (Andreas Katsulas) e Terranova (Derrick Branche), Giuliano enfrenta Silvestro Canio (Michael Wincott) e, aos poucos, ele precisa confrontar algumas pessoas que o traem, como o barbeiro Frisella (Trevor Ray). E sempre protegido pelo padrinho Hector Adonis (Richard Bauer), professor de literatura na Universidade de Palermo. Por sua vez, cada vez mais descontente com Giuliano, Don Masino se junta ao ministro da Justiça da Itália, Franco Trezza (Ray McAnally).

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O siciliano trabalha com alguns temas comuns na filmografia de Michael Cimino, sobre a disputa de terras, com uma discussão política e ideológica por trás, a exemplo do clássico O portal do paraíso, e a temeridade dos homens por meio da violência. Aqui, especialmente, essa temeridade se junta a uma crítica em relação à Igreja, como Coppola faria alguns anos depois em O poderoso chefão III, assim como enxerga em Giuliano uma espécie de messias totalitário, sem leis e sem discurso claro, para o povo oprimido, utilizando a violência quando bem entende. Os personagens de Cimino sempre estão em guerra, não tendo certeza sobre seus objetivos. Se dois de seus filmes remetiam diretamente ao Vietnã (O franco-atirador e Horas de desespero), este se sente mais próximo de uma análise sobre a sociedade dos anos 40 e 50 feita nos anos 70 das mais diversas formas – e que Cimino traduz para uma linguagem mais contemporânea, usando muitos cortes de montagem e não deixando exatamente clara a trama, recaptando certa simbologia (e não por acaso em plena Guerra do Afeganistão dos anos 80 há tantas referências ao comunismo). Por exemplo, Cimino retrata um acontecimento importante do 1º de maio, quando surge um grupo de pessoas nas cidades de Piani dei Greci e San Giuseppe Jato, até chegarem a uma planície chamada Portella della Ginestra. É um momento típico da filmografia de Cimino, remetendo à batalha final de O portal do paraíso.

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Lamenta-se que o roteiro hesita no momento de mesclar tais referências com os diálogos e mesmo algumas situações se sintam deslocadas. Também as figuras femininas não são trabalhadas da maneira mais interessante, colocando Giuliano em algumas situações ambíguas e não tão bem exploradas, como aquela em que encontra a duquesa Camilla, rendendo uma sequência involuntária de humor. E, mesmo nesta versão estendida, O siciliano se sente com lacunas em determinados pontos. Há elementos de grandeza, mas elas não são às vezes aproveitadas como poderiam.
Entretanto, a belíssima fotografia de Alex Thomson (Excalibur, Labirinto) capta bem a Sicília reimaginada por Cimino, assim como a trilha de David Mansfield, seu habitual colaborador, se equilibra entre a calmaria e a tensão. Fala-se que Lambert não está bem no papel (seu nome foi uma aposta pessoa do diretor), e ele nunca foi realmente um ator expressivo, mas ao mesmo tempo isso lhe proporciona a uma certa humanidade (principalmente quando se esconde entre os padres para retomar seus planos na comunidade). O siciliano tem qualidades que o afastam de qualquer consideração de que seria um desastre, pelo menos em sua versão estendida; pelo contrário, é um cinema apaixonado por imagens e tem outras atuações muito boas, como as de Bosch, Ackland, Turturro e Stamp. Cimino mais uma vez apresenta uma tentativa de dialogar com Coppola (com quem competia), e deve-se esclarecer que o romance original de Puzo trazia também os Corleone em certos pontos da história, apesar de, definitivamente, não atingir o patamar de O poderoso chefão. Ainda assim, é fascinante como Cimino consegue captar o clima dos anos 40 e 50 com uma produção menos suntuosa, baseado apenas em impressões com o trabalho de fotografia de Thomson e no desenho de produção cuidadoso de Wolf Kroger. O siciliano, como toda a filmografia de Cimino, merece uma reavaliação. É um cinema autoral cada vez mais raro.

The sicilian, EUA, 1987 Diretor: Michael Cimino Elenco: Christopher Lambert, Terence Stamp, Joss Ackland, John Turturro, Richard Bauer, Giulia Boschi, Andreas Katsulas, Derrick Branche, Michael Wincott, Trevor Ray, Ray McAnally Roteiro: Steve Shagan e Gore Vidal Fotografia: Alex Thomson Trilha Sonora: David Mansfield Produção: Joann Carelli, Michael Cimino, Bruce McNall, Sidney Beckerman Duração: 115 min. (original); 146 min. (estendida) Distribuidora: 20th Century Fox

Cotação 4 estrelas

 

Horas de desespero (1990)

Por André Dick

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Praticamente toda a carreira de Michael Cimino a partir de O portal do paraíso é marcada pela desconfiança e por críticas fora do tom habitual feita a outros diretores que, como ele, ajudaram a estruturar a Nova Hollywood nos anos 1970. É interessante, por exemplo, a trajetória de William Friedkin ganhar novamente respeito depois de Bug, quando nos anos 80 e 90 foi praticamente esquecido, enquanto Cimino continua a ser visto com certo distanciamento. Horas de desespero se constitui na refilmagem de um filme com Humphrey Bogart, de 1955, recebido como uma obra de violência extrema, com uma atuação limitada de Mickey Rourke e sem o impacto que poderia proporcionar o seu elenco. Seu produtor é o mesmo Dino de Laurentiis de O ano do dragão, parceria anterior de Cimino com Rourke e, como todas as produções do italiano, mostra uma tentativa de capturar signos conhecidos de um cinema habitualmente aceito em uma nova visão cinematográfica (foi De Laurentiis quem produziu David Lynch em Duna e Veludo azul, por exemplo).
Tendo seu início nas montanhas geladas de Salt Lake (um trecho que dialoga diretamente com os cenários de O portal do paraíso), com a advogada Nancy Breyers (Kelly Lynch) preparando um plano a ser concretizado pelo cliente Michael Bosworth (Mickey Rourke), Horas de desespero apresenta, com auxílio de sua pontuação de David Mansfield, baseada em Bernard Herrmann, um aspecto clássico, da fotografia irretocável de Doug Milsome (colaborador de Kubrick em O iluminado e Nascido para matar). Michael segue, com os comparsas Wally (Elias Koteas), seu irmão, e Albert (David Morse), para um bairro de Salt Lake City, onde há uma claridade entre os verdes dos gramados e das árvores. Esses homens entrarão na casa dos Cornells, em que o pai, Tim (Anthony Hopkins), está separado de Nora (Mimi Rogers), e tem dificuldades de relação com os dois filhos, May (Shawnee Smith) e Zack (Danny Gerard). A chegada do grupo à casa evolui num crescente: depois de estarem ao ar livre diante do lago do início do filme, eles pretendem escolher o lugar onde podem se esconder até uma fuga planejada para o Novo México. O mais interessante é a maneira como Michael parece escolhê-la: há uma placa de vendas em frente a ela, ou seja, ele pretende justamente se trancar nela e permanecer ali, como se pudesse ordenar a saída ou entrada de todos nela. A casa passa a pertencer a ele, e o smoking deve ser vestido para impressionar a família.

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Não será exatamente a presença de Michael que aliviará a tensão do ambiente, e Cimino o coloca como uma espécie de símbolo (sem reduzi-lo a isso) de uma sociedade violenta. Tim é um ex-combatente do Vietnã e, como em todos os filmes de Cimino, mas principalmente em O franco-atirador, é exatamente essa violência que se abaterá sobre a situação. Não apenas o aspecto militar é sintetizado em Horas de desespero. O FBI também é visto por Cimino de maneira irônica, por meio da figura de Brenda Chandler (Lindsay Crouse), que coloca um exagero em suas falas, característico de uma detetive capaz de liderar uma equipe de homens para tentar capturar Michael. É Brenda que proporciona esta ponte de Horas de despero entre ser uma obra violenta e opressiva e, ao mesmo tempo, uma crítica ao comportamento dos meios de investigação norte-americano. Cimino não tem receio de levar a cabo esse exagero, na sequência, por exemplo, em que Albert precisa se livrar de um corpo e, em seguida, com a camisa ensanguentada, se depara com algumas mulheres seminuas na beira da estrada, parecendo saídas de um catálogo de fotos de Hollywood. Sua tentativa de persegui-la acaba em uma sequência na qual aparece por trás de cavalos, num riacho em meio a desfiladeiros, que lembram um cenário de Velho Oeste, dialogando tanto com O portal do paraíso quanto com a obra posterior de Cimino, e sua última, pelo menos até hoje, o belíssimo Na trilha do sol.
A atitude da polícia diante desta situação é, no mínimo, acentuada – e Cimino não foge também a uma sequência de brincadeira com o gênero noir, em que a agente Brenda fala com um policial com lanternas dentro de um carro, ou mesmo aquela em que a amante de Michael recebe um microfone e encarna a femme fatale. Também há uma clara influência de Hitchcock não apenas no início, como no momento em que há uma perseguição a Nancy, em carros e helicópteros, depois que ela para na estrada para falar ao telefone. Esta influência se dá não apenas no mesmo ritmo de Intriga internacional (referenciado pela paisagem do deserto) como no próprio comportamento de Nancy como uma femme fatale. Do mesmo modo, devem ser destacados os primeiros quinze minutos, em Michael precisa colocar em prática seu plano de fuga do tribunal onde está sendo julgado.

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Mesmo com perseguições em carros e helicópteros e embora os personagens dialoguem por telefone e acompanhem o noticiário ao vivo, há algo muito mais primitivo nessa violência enfocada por Cimino: é a base de uma sociedade. Há uma discrição nesta sátira, quase a mesma daquela de Paul Verhoeven em Showgirls, outro filme visto como um dos menos bem-sucedidos dos anos 90 (não sabemos onde termina a crítica e onde inicia a sátira). Não à toa, Michael se refere a Tim como o “xerife” da casa, e que as regras ali são muito rígidas, tentando soar simpático com o filho, Zack. Cimino não controla os personagens em busca de suspense, mas tenta mostrar as reações que eles terão diante da violência. Parece, desse modo, bastante plausível a própria Nancy ter tanto medo de Michael e mesmo assim continue atraída por ele, ou seja, para o perigo – como se ele significasse o próprio destino dessa sociedade enfocada.
O ator inglês Anthony Hopkins, um ano antes de receber o Oscar por O silêncio dos inocentes, e é o alicerce do filme, apoiado pela interpretação de Rourke, a sua melhor antes de O lutador, capaz de comprovar sua revelação nos anos 80, de Mimi Rogers e de David Morse. A atmosfera de Horas de desespero, num tempo linear, mistura pressão e tentativa de se libertar. Uma parte do filme se passa de dia, com o bairro ao redor da casa sob uma luminosidade e com o verde dos gramados, e outra à noite, quando não há nenhum movimento, a não ser dos personagens, e Cimino compõe um thriller que, apesar de sua linearidade, oferece mais do que o gênero costuma propor, principalmente neste diálogo com a sociedade como vítima. E o final (spoiler) é um dos retratos mais contundentes sobre a presença do sentimento de guerra na sociedade norte-americana: a porta crispada de balas do FBI sendo fechada pela família Cornell, a meu ver, é irretocável e dialoga diretamente com O portal do paraíso, no desfecho para a relação entre James Averill e Ella. Para Cimino, o ambiente de guerra, de duelos do Velho Oeste e do Vietnã, mesmo no subúrbio aparentemente tranquilo dos Estados Unidos, está longe de terminar: faz parte de uma cultura voltada a lidar com o medo. Daí o extremo exagero da rua fechada por um miniexército: Michael Bosworth é apenas um motivo para que esta reação sem limites ao medo venha à tona.

Desperate hours, EUA, 1990 Diretor: Michael Cimino Elenco: Mickey Rourke, Anthony Hopkins, Danny Gerard, David Morse, Elias Koteas, Kelly Lynch, Lindsay Crouse, Mimi Rogers, Shawnee Smith Roteiro: Joseph Hayes Fotografia: Douglas Milsome Trilha Sonora: David Mansfield Produção: Dino De Laurentiis, Michael Cimino Duração: 105 min. Estúdio: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM)

Cotação 4 estrelas e meia

 

O portal do paraíso (1980)

Por André Dick

O épico mais famoso da década de 80 e responsável por falir a sua distribuidora, United Artists, comprada em seguida pela rival Metro-Goldwyn-Mayer, está sendo lançado em nova versão pela Criterion, dos Estados Unidos, em DVD e Blu-Ray.
O diretor Michael Cimino, depois de ter recebido cinco Oscars pelo drama O franco-atirador, inclusive de melhor diretor, queria fazer o maior faroeste de todos os tempos. Mal recebido pela crítica e público americanos (que deixou apenas 3,5 milhão nas bilheterias, para um custo de 44 milhões), fez uma versão inicial de 219 minutos, mas, depois de críticas precipitadas, a remontou para 149 minutos (que passou nos cinemas e passa ainda na televisão), prejudicando a narrativa de forma decisiva. Pode-se ver a versão estendida em DVD importado, com tradução para espanhol e francês (a da Criterion surge com 216 minutos). Trata-se de um dos maiores filmes já feitos, que revelou alguns atores (como Mickey Rourke), trazendo um grande elenco (Jeff Bridges, John Hurt, Isabelle Huppert, Sam Waterston, Geoffrey Lewis, Brad Dourif, entre outros), porém essa qualidade fica clara sobretudo na versão estendida.
Com um roteiro de própria autoria, Cimino constrói um faroeste que se alimenta mais de introspecção do que de tiros (embora eles marquem presença), reconstituindo o estado de Wyoming, no ano de 1890, com a fotografia excepcional de Vilmos Szigmond (Contatos imediatos do terceiro grau).
A história (daqui em diante, há spoilers) tem início em 1870, mostrando o jovem personagem central, James Averill (Kris Kristofferson), atravessar justamente um portal, quando a câmera desce lentamente e o foca correndo pela rua, atrás de uma banda, que se dirige a um anfiteatro enorme, com várias pessoas aguardando os formandos de uma turma de direito de Harvard. Um reverendo doutor (Joseph Cotten) faz um discurso, tratando, entre outras coisas, da “educação de uma nação”. Ele é seguido pelas palavras do melhor amigo de Averill, Billy Irvine (John Hurt), que será seu contraponto – bêbado, ele fala que a vida se repete, o sol sempre se põe no oeste e o ciclo das estações perdura – tentando rimar as palavras. De alguma maneira, esse discurso de Irvine, em associação com o do reverendo doutor, sustenta toda a narrativa que vem a seguir. No púlpito, cercado de centenas de estudantes, e sob o olhar irônico dos professores e os gracejos das moças olhando para os formandos, Irvine é o retrato da glória momentânea, o que é a síntese para O portal do paraíso.

Billy Irvine (John Hurt) faz o discurso para os formandos de Harvard, em 1870.

James Averill (Kris Kristofferson) assiste ao discurso.

Depois da formatura, a dança ao redor de uma árvore no centro do pátio de Harvard.

Na festa de formatura, vemos um pátio com inúmeros casais dançando, ao som de “Danúbio Azul”, de Strauss, o que remete à grandiosidade de …E o vento levou, talvez a maior referência do filme em seus cenários, e a 2001 – na composição de um cenário notável. Averill está interessado numa moça, que observa o grupo de jovens formandos, depois, de uma janela, ao redor de uma árvore gigante no centro do pátio de Harvard. Irvine lamenta-se com ele: “Não acredito que esteja tudo terminando”. O círculo recomeça.
Num salto temporal memorável, Cimino mostra Averill vinte anos depois, indo para Casper, com vários imigrantes em cima do trem, representando, ao mesmo tempo, a falta de espaço que havia no Velho Oeste para eles.
A chegada dele se contrapõe à presença de Nathan Champion (Walken, ator preferido de Cimino) atirando num homem que corta carne (Scorsese homenagearia Cimino em Gangues de Nova York), Martin Kovach, numa casinha do interior. O espectador vê o horizonte pelo buraco (cuja passagem, na lente de Cimino, sempre lembra um portal) que atravessou o lençol (neste ponto, deve-se lembrar que Tarantino disse, no Festival de Cannes, em 2009, que havia se inspirado nesse filme para compor boa parte de Bastardos inglórios, e realmente a casa no meio do campo do início do filme de Tarantino remete a esta sequência, com uma das filhas do fazendeiro LaPadite a ser interrogado olhando atrás do lençol a chegada da tropa nazista). Depois, Champion segue até uma estrada em que chegam centenas de imigrantes, gritando que eles voltem ao lugar de onde vieram. Num curto espaço de tempo, Cimino determina a participação dos dois personagens principais e o foco da história.

 Nathan Champion (Cristopher Walken) atinge o camponês Kovach e seu rosto é visto pelo rasgo da bala no lençol que o separava da vítima – uma ameaça por trás do lençol, como a chegada de Hans Landa à fazenda onde interrogará LaPadite em Bastardos inglórios.

 

A chegada de Averill a Casper, Wyoming, marca o dia em que fica sabendo que a Associação dos Criadores de Gado – aliado ao governo norte-americano –, tendo à frente Frank Canton (numa bela interpretação de Sam Waterston), está tratando de uma lista de morte de 125 imigrantes do condado de Johnson, de onde ele é xerife, pois a situação no lugar estaria comprometida, em razão da constante chegada de novos imigrantes e do roubo deles de gado para poderem se alimentar.
“Sou uma vítima de nossa classe”, diz Billy ao reencontrar Averill na Associação. As leis do Oeste não são aquelas que o próprio Irvine pregava no seu discurso de Harvard: estão a serviço dos governos, o que para ele justifica a passividade.
Averill luta, mesmo que muitas vezes de forma insolente e displicente (também passa a beber muito), para ajudar os imigrantes – do Condado de Johnson, no Wyoming –, ameaçados de morte pelos criadores de gado. Envolvido com a prostituta Ella Watson (a francesa Isabelle Huppert), em cuja fazenda funciona um bordel, ele tem como opositor justamente Champion, também amante dela.
Como pano de fundo, dividido entre salvar sua pele, a de Ella – que descobre estar na lista de morte, pois também recebe gado em troca de serviços no seu bordel – ou a dos imigrantes, Averill é amigo especialmente de um deles, John L. Bridges (Jeff Bridges).

Para estabelecer uma nova relação com a fundamental primeira parte do filme, novas cenas de dança acontecem num salão chamado Heaven’s Gate (onde os imigrantes também se reúnem), no Condado de Johnson, remetendo tanto à primeira parte, transcorrida na formatura de Harvard, quanto a um universo ainda romântico, em que as pessoas ainda se divertem, numa oposição à violência. A cena dos casais de patins é antológica, assim como a do menino violinista, que vive no bordel e é interpretado pelo autor da trilha sonora do filme David Mansfield, e não por acaso remete a Um violinista no telhado, em que Norman Jewison (que inclusive foi convidado a assumir O portal do paraíso quando os produtores se preocupavam com o resultado de Cimino, e não aceitou) mostrava uma família de judeus na Rússia. O portal do paraíso tem alguns elementos daquele, por isso, possivelmente, os homens a serviço da Associação usam gorros como os russos usavam. Há uma de perseguição dos norte-americanos, em nome da liberdade e da extinção de anarquistas – de pessoas que podem ameaçar seu poder ou sua constituição. Mas nesta primeira parte de O portal do paraíso os imigrantes não sabem do que acontecerá, e se divertem.

Dança dos imigrantes no Heaven’s Gate antes de ser anunciada a batalha.

Como contraponto dessa busca pelo espaço no Velho Oeste, Cimino explora a cultura dos imigrantes e a natureza de Ella, que se diverte passeando com uma carruagem trazida por Averill e se banhando no lago – a sequência em que eles dançam sozinhos, saem do Heaven’s Gate e caminham até um lago é uma das mais belas da história do cinema, numa sequência compassada: primeiro, a diversão humana (dos imigrantes), depois a dança solitária do casal Ella e Averill (diante da banda) e, em seguida, a caminhada até uma paisagem que lembra um portal para o paraíso. Estranhíssimo é não verem o sentido de toda essa sequência – e acharem que Cimino estava filmando o vazio.

Violência e história

Ao mesmo tempo, a violência comparece em muitos momentos de O portal do paraíso, constituindo-se também em sua estrutura: na cena em que Walken adentra uma barraca e atira à queima-roupa num federal, impactante. Também quando Averill precisa salvar Ella – e realiza uma sequência de ação implacável. Ou na batalha final – filmada com realismo impressionante. É evidente que Cimino não está interessado em glorificar o espírito do Velho Oeste, e também por isso, talvez, seu filme não tenha sido bem aceito (uma vez que os americanos ainda se sentiam derrotados e culpados pelo Vietnã no início da década de 80). Focar eslavos sendo castigados também poderia remeter à Segunda Guerra Mundial, o que não é nada interessante para a recomposição de um país.

No início, ouve-se de uma imigrante: “E dizem que este (os Estados Unidos) é um país livre”. “Saiam daqui, voltem para seus países”, diz um americano. Em outro momento, numa discussão entre imigrantes, um deles fala como os pobres são tratados mal pelo país. Cimino revela a descoberta da lista de morte ser descoberta por James Averill com o capitão Minardi (Terry O’Quinn, que faria John Locke em Lost) num jogo de beisebol. Lista de morte num jogo de beisebol jogado na terra e sob poeira revela que Cimino não estava querendo contemporizar diante do tema do tema a ser tratado. Desse modo, o filme tira qualquer imagem subliminar desse período da história americana. De qualquer modo, alguns personagens enfocados são históricos e o filme é fiel dentro dos limites cinematográficos (Roger Ebert ironiza, por exemplo, o destino do personagem de Champion, mas ele é baseado, em parte, em fatos reais). De fato, essa não glorificação é a principal base de O portal do paraíso para seu sucesso como produção, e fracasso inicial como recepção.
Ao assistirmos, vemos onde está empregado cada dinheiro investido. Cimino, por seu perfeccionismo, mandou reconstruir vários cenários, além de ter exigido a criação de alguns deles em tamanho real e impressionante (como a própria cidade de Casper). Como lembra Peter Biskind, em Como a geração sexo-drogas-e-rock’n’roll salvou Hollywood, Cimino “construía, demolia e reconstruía sets e mandava vir multidões de figurantes” e o orçamento, que previa um ritmo de duas páginas de roteiro por dia logo não se manteve, passando rapidamente de 11 milhões. Ainda assim, Cimino não se conteve: rodava, segundo Biskind, “dez, vinte, trinta tomadas de cada cena e mandava revelar quase todas, dez mil pés [mais de três mil metros] de filme por dia (correspondendo a um custo de 200 mil dólares por dia ou cerca de um milhão por semana”. Os chefões Steve Bach e David Field visitaram o set para pressionar Cimino. No entanto, como conta Biskind, “quando ele lhes mostrou um corte bruto, os dois ficaram deslumbrado com a beleza das imagens – e se dobraram. ‘É como se David Lean tivesse resolvido dirigir um western’, Bach diria depois, maravilhado, a Albeck”. A partir disso, em vez de enquadrarem o diretor, eles o parabenizaram. Um executivo da United Artists, Chris Mankiewicz, demitiu-se em protesto contra a avaliação feita. Cimino fazia parte da geração da Nova Hollywood, que tinha à frente nomes como o dele, de Spielberg, Francis Ford Coppola, George Lucas, William Friedkin, Martin Scorsese, entre outros – e depois de seu filme, de algum modo, os produtores de Hollywood retomaram o controle sobre um nomeado cinema autoral.
Se os custos compreendem o resultado, basta ver o filme – a justificativa de deslumbramento com a beleza das imagens só não chegou à crítica da época do lançamento. O desembarque de Averill em Casper é especialmente espetacular. O trem que chega a cidade é de um realismo notável, e as ruas estão repletas de pessoas, com muita poeira, como se estivéssemos realmente no Velho Oeste e não numa produção de Hollywood, tentando deixar as imagens limpas, com o figurino de J. Allen Highfill, a direção de arte notável de Tambi Larsen (que rendeu a única indicação ao Oscar do filme, também indicado à Palma de Ouro em Cannes em 1981), e a fotografia fundamental de Szigmond. Não são mais os alunos de Harvard dançando ao redor das árvores e imaginando que podem mudar o mundo com suas leis, e sim pessoas brigando e indo comprar armas. Tal sequência, que dura em torno de 5, 6 minutos, é de uma beleza poucas vezes repetida no cinema. Essas são curiosidades para o espectador que acompanha a história. Entretanto, o melhor são mesmo os personagens e o roteiro, que sempre atraem.

Em 1890, James Averill está num vagão de trem, em direção a Casper, Wyoming.

Os imigrantes chegantes ao Wyoming, em suas carroças ou a pé, numa estrada empoeirada.

 James Averill desembarca em Casper e conversa com Cully (Richard Masur), que cuida da estação de trem.

Cidade de Casper, Wyoming

Os personagens e o portal

O bordel de Ella é focado a distância, muitas vezes no breu, e à noite, com os lampiões acesos, permite a Szigmond uma fotografia espetacular; o bar de John L. Bridges tem sempre raios de luz entrando pela janela, tentando iluminar a escuridão que está tomando conta do lugar; o Heaven’s Gate tem uma iluminação dourada; o lago à beira do Condado de Johnson esconde montanhas gélidas ao fundo, com resquícios de sol aparecendo entre elas e as nuvens;  a cabana de Nathan em meio a um campo aberto simboliza a quase ausência de vida em toda a região. Podemos sentir a ambientação e o clima dos lugares ao longo de todo O portal do paraíso.
O símbolo do portal (o “gate” do título original, bastante polêmico também por ter sido empregado numa época política tensa dos Estados Unidos; lembre-se o caso Watergate, envolvendo Nixon), e da porta, é presente em todo o filme: seja no início, quando Averill corre e atravessa um, correndo em direção aos formandos; seja quando ele está na Associação e se prepara para encontrar Canton; quando Champion chega, pela primeira vez no filme, no bordel de Ella e vai colocar seu cavalo no celeiro; quando ele mesmo, em momento decisivo, precisa sair de sua cabana; mesmo os cenários (a fazenda de Ella, a Igreja do Condado, o lago) são visualizados entre dois pontos, como se fossem um portal; o próprio salão Heaven’s Gate, com seus portais para o excesso de pessoas (constituindo-se, em determinada altura, quando é feita a leitura de quem é ameaçado de morte, em uma espécie de limbo, de passagem); e a casa de Ellen, ao final. Também vemos que Cimino coloca o portal ou a porta como definidor para os personagens centrais: Ella, James e Nathan. Inclusive, o destino de cada um está ligado à passagem por uma portal ou porta.

James Averill atravessa o portal correndo para encontrar sua turma de formandos de Harvard.

A banda de formatura de Harvard passa por um portal antes de chegar ao auditório.

Na Associação dos Criadores de Gado, James Averill se posiciona embaixo de um portal, com Billy Irvine ao fundo, para enfrentar os integrantes dela.

Entre a casa de Ella e o celeiro, vê-se  a paisagem, como se fosse, ao fundo, um portal para as árvores.

James Averill presenteia Ella Watson com uma charrete em frente ao portal do celeiro.

James Averill e Ella Watson dançam no Heaven’s Gate em frente a uma portal.

James e Ella saem do Heaven’s Gate.

O casal caminha até um lago de onde veem o sol entre as montanhas e abaixo na charrete.

O Condado de Johnson, com as montanhas ao fundo.

Além do símbolo do portal, há os círculos que denotam o início e o fim da vida, como a mudança da estação. Vemos círculos quando os casais dançam ao redor da árvore na formatura de Harvard; quando os imigrantes se reúnem no Heaven’s Gate batendo palmas para o violinista de patins, antes de começarem também a dançar, em círculos; e, finalmente, na Guerra do Condado de Johnson, ao final, quando parte da batalha é travada em movimentos circulares.
Não há, no roteiro de Cimino, nenhuma retórica eloquente, ou seja, os personagens não tentam convencer o espectador a respeito de suas ações. Não são predefinidos, ou previsíveis. O mesmo pode ser dito em relação ao plano religioso. No início, há uma banda para os formandos de Harvard, que está tocando “Glória, Glória, Aleluia”, mas, se há uma igreja no Condado, onde vemos reunidos, à frente, alguns imigrantes quando Ella e James andam de charrete pelas ruas lamaçentas, os personagens nunca estão nela, embora se refiram a Deus, sobretudo Champion e os imigrantes. James parece descrente, como se a lei divina se confundisse com a lei do direito, na qual não acredita mais. Em direção à casa de Ella, passa um casal em outra carroça, e a mulher comenta que Averill deveria ir à igreja e não a um bordel. Os imigrantes, também, estão roubando o gado para alimentarem suas famílias, embora alguns para pagar por prazeres no bordel de Ella. Quando Champion leva Averill, bêbado, de volta ao seu quarto no Condado, ele acende uma lamparina e visualiza a imagem, num porta-retrato, de estudante do xerife, com a mulher que dançava na formatura, os dois em pé, ao lado de uma árvore, e a seu lado visualizamos um exemplar de Dante. A questão não é saber se o exemplar é da Divina Comédia – que estabeleceria uma ponte direta com o paraíso que Cimino oferece por meio de seus portais –, e sim o motivo pelo qual o diretor coloca justamente Dante para ser lido por um xerife. A imagem dele com a antiga moça – dos tempos de juventude – é o mote: para Averill, a moça é sua Beatriz, que recorda seus dias de juventude, mesmo que esteja amarrotado num quarto do Velho Oeste. Pois este homem é, acima de tudo, melancólico e vive do passado, incapaz de se reter no presente, nem sob a ameaça de uma guerra e de um extermínio (o inferno).
Existe, também, durante toda a narrativa, que basicamente é bastante linear, a impossibilidade de cada personagem decidir o rumo de suas vidas. Averill é mais contido do que Champion, e Ella se situa num meio termo entre os dois. Se Averill não consegue esquecer sua namorada de Harvard, Champion quer ter a nobreza de Averill (a cena em que coloca o chapéu do adversário é notável, também pela atuação de Walken) e o amor de Ella, equilibrando-se entre o desejo de servir os pedidos para se matar os imigrantes que roubam o gado da região e seguir um novo rumo. Porém, quase tudo transcorre em poucas falas e diálogos.
Toda a sequência em que Champion apresenta Ella à sua casa é notável (é dela que participa Mickey Rourke). Os pedaços de jornais colados nas paredes – para parecer alguém preocupado também com o intelecto, pois Nate gostaria, na verdade, de ser Averill, e que se correspondem com as paredes do Heaven’s Gate – formam uma cabana pouco comum de faroeste. A tentativa de ele limpar a mesa é outra. Ele tem um interesse em anotar num caderno e pela cultura – que parece saturada para Averill –, e notamos isso, por exemplo, quando ele pergunta do fotógrafo que está no Condado e em determinado momento vai ao bordel de Ella.
E Averill, impassível, guarda o orgulho de querer achar suas botas e não quer ser incomodado no café da manhã por imigrantes, mesmo sabendo que o desastre se aproxima, cada vez mais distante o tempo de Harvard. Alguns homens desconfiam porque ele está engajado nesta batalha, já que é de origem rica, o que Nathan gostaria de ser. Mas ele acha que colocar sua pele em risco é, apesar da falta de agilidade, uma premissa certa. Essa falta de vontade de se deparar com um dos momentos mais violentos da história norte-americana torna o personagem, em sua mudez, em sua imobilidade, no retrato perfeito do desalento do Velho Oeste (algo que Clint Eastwood tentaria repetir, sem o mesmo brilho, embora com qualidade, em Os imperdoáveis). Ou seja, ele também é o contrário do que se espera de um faroeste com algum sentido de justiça ou vingança.

E Cimino guarde a maior surpresa para o final, quando acaba lembrando, novamente 2001, mostrando James Averill mais velho e comportado na proa de um navio – o sol está ao fundo, quase desaparecido –, depois do inferno e do purgatório, dirigindo-se a um quarto, decorado como se fosse de outro século, e uma mulher deitada numa poltrona. Por um momento, pensamos ser a mulher da universidade, um pouco mais velha, ainda que não tanto quanto Averill. Quando ele a olha novamente, vê o rosto da moça jovem de Harvard. Pois o filme trata, antes de tudo, de uma tentativa de voltar à juventude e ao vigor, mesmo que tenham já passado, ficando para trás no tempo. Como diz Irvine no filme, o sol não se põe apenas no Oeste. E a Beatriz de Averill pode não ser mais ela, mas tudo o que ele perdeu ou deixou para trás. Ela é, sem dúvida, o seu monolito negro.
Daí O portal do paraíso ser um épico sem precedentes e impossível de ser copiado – desta vez da melhor maneira.

Heaven’s gate, EUA, 1980 Diretor: Michael Cimino Elenco: Kris Kristofferson, Cristopher Walken, Isabelle Huppert, John Hurt, Sam Waterston, Brad Dourif, Joseph Cotten, Jeff Bridges, Mickey Rourke Roteiro: Michael Cimino Fotografia: Vilmos Szigmond Música: David Mansfield Montagem: Tom Rolf, William Reynolds, Lisa Fruchtman, Gerald Greenberg Direção de arte: Tombi Larsen Produção executiva: Dennis O’Dell, Charles Okun, William Reynolds Produção: John Carelli para a United Artists  Duração: 149 min./219 min./216 min. Distribuidora: United Artists

Cotação 5 estrelas