Contatos imediatos do terceiro grau (1977)

Por André Dick

1977 foi o ano em que alguns cineastas experimentaram diferentes vertentes: temos Woody Allen firmando sua relação com Nova York  em Noivo neurótico, noiva nervosa; George Lucas e o início de sua série Guerra nas estrelas, John Badham antecipando a influência de musicais juvenis em Os embalos de sábado à noite; a estranheza de David Lynch em Eraserhead; e Steven Spielberg apresentando a visita de naves espaciais à Terra em Contatos imediatos do terceiro grau.
Esta é uma das mais belas ficções científicas, uma espécie de antecipação de E.T., direcionada mais para adultos – sendo também mais assustadora. Era um dos projetos antigos do diretor, que estava em grande fase. Depois do sucesso de público e crítica de Tubarão, ele pôde desenvolver este projeto com custo financeiro mais elevado, que mostra o contato com OVNIs primeiro em várias partes do mundo e depois numa pacata cidade do interior norte-americano. É a primeira obra de Spielberg capaz de reunir diferentes perspectivas sob um mesmo tema, sendo, ao mesmo tempo, regional e universal na mesma escala. Este é, afinal, um autor de cinema que conseguiria transitar depois entre filmes de história e de dinossauros com a mesma perspicácia de quem acompanha as aventuras de um arqueólogo com chapéu e chicote e as aventuras de um menino detetive e seu cão atrás de tesouros.

Um pai de família, Roy Neary (Richard Dreyfuss), casado com uma moça distante da rotina, Ronnie (a ótima Teri Garr), trabalha no departamento de eletricidade de Indiana e vê certa noite, quando há problemas de iluminação na cidade (ideia adaptada por Super 8), uma nave sobre sua caminhonete. Acredita que está perturbado, ao mesmo tempo em que pessoas se aglomeram em estradas para ver espaçonaves, como se fosse uma mera distração para as noites de tédio. Ele passa a visualizar uma montanha e imagina que ela seja um símbolo para um contato com extraterrestres. Sua pretensão é reproduzi-la na sala de sua casa, erguida com lama, para espanto da família.
Um menino, Barry Guiler (Gary Guffey), filho de Jillian (Melinda Dillon), também é perseguido por um dos OVNIs – numa sequência precursora de elementos de E.T. e Poltergeist (com os brinquedos se mexendo pela casa, num clima de suspense que Spielberg extraiu com talento de Hitchcock, e as luzes ameaçadoras passando pelas frestas da porta, numa sequência clássica). E começa a visualizar compulsivamente a mesma montanha que Roy tenta reproduzir. São relances de imaginação notáveis. De qualquer modo, não independentes. Depois da experiência que teve por não ver reconhecida suficientemente sua contribuição com o roteiro de Tubarão, Spielberg não quis dividir o crédito com quem o ajudou a escrever a história (Paul Schrader e Matthew Robbins, que dirigiu um filme produzido por ele, O milagre veio do espaço).

Enquanto Roy tenta descobrir se a montanha realmente existe, surgem tropas militares e cientistas, entre os quais o francês Claude Lacombe (interpretado pelo cineasta François Truffaut) e David Laughlin (Bob Balaban), isolando um determinado local sem nenhuma explicação aparente.
Tudo vai num crescente: Spielberg quer mostrar também como se dá a presença extraterrestre em outros lugares do mundo – colocando até um navio no meio do deserto de Gobi e mobilizando tribos, numa antecipação da atmosfera da série Indiana Jones. Ficção científica de grande intensidade, sempre atual e inovadora, com elementos que antecipam não apenas E.T., no entanto boa parte das produções com aliens que seriam feitos em seguida, Contatos imediatos teve uma versão inicial, mas o diretor, não totalmente feliz com o resultado, fez outras duas versões (uma relançada nos cinemas em 1980, com algumas cenas acrescentadas e outras excluídas; há divisões sobre qual seria a melhor versão). No ano passado, o filme foi relançado nos Estados Unidos para comemorar seus 30 anos.
Tem efeitos especiais fascinantes de Douglas Trumbull (que fez também os de 2001 e Blade Runner e, neste século, os de A árvore da vida), os aliens criados por Carlo Rambaldi (de E.T., Duna, Alien), fotografia de Vilmos Szigmond (premiada com o Oscar) e uma trilha sonora das mais inspiradas de John Williams, no auge de sua carreira. Spielberg retomaria o tema de forma mais atenta em Guerra dos mundos – porém, aqui, nos anos 1970, como ele mesmo dizia, quando tudo se entregava à fantasia, e não havia tanto a responsabilidade familiar, os extraterrestres eram pacíficos e dispostos a dialogar por meio de notas musicais; no início do século XXI, com o terrorismo em escala cada vez maior, os aliens lembram mais invasores imperdoáveis.

Contatos imediatos do terceiro grau é um filme essencial para entender a trajetória de Spielberg não apenas porque antecipa elementos de alguns de seus momentos posteriores, mas também por entrelaçar diferentes gerações e visões sobre a paternidade e a infância de modo brilhante. O personagem de Dreyfuss é uma espécie de complemento para o menino feito por Guffey: como se eles representassem a mesma coisa, só que em extremos. Eles possuem, por meio de uma vida em família esperando uma nova visão, a mesma atenção para os sons que vêm da espaçonave gigantesca guiados por um traço permanente de infância, repetido em A. I. – Inteligência artificial. A montanha é um símbolo para o encontro entre figuras de diferentes lugares, no entanto com o mesmo sonho, que é visualizar exatamente uma nova era, de contato não apenas com um possível universo de extraterrestres e sim de enigmas. É um traço que se reproduziria no cinema norte-americano a partir de então com notável relevância, sem tempo e lugar definidos.

Close encounters of the third kind, EUA, 1977 Diretor: Steven Spielberg Elenco: Richard Dreyfuss, François Truffaut, Melinda Dillon, Teri Garr, Cary Guffey, Bob Balaban, Josef Sommer, Lance Henriksen, Roberts Blossom Roteiro: Steven Spielberg Fotografia: Vilmos Zsigmond Trilha Sonora: John Williams Produção: Julia Phillips, Michael Phillip Duração: 135 min. Estúdio: EMI Films Distribuidora: Columbia Pictures