À beira mar (2015)

Por André Dick

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A cada ano, surge uma série de filmes bastante superestimados pelo público e pela crítica, alguns em mais intensidade e outros menos. E há aqueles que simplesmente são renegados como se estivessem entre as piores obras feitas durante o ano. Um dos casos mais sintomáticos é o de À beira mar. Logo depois de Invencível, filme sobre a Segunda Guerra Mundial, Angelina (agora assinando com os sobrenomes Jolie Pitt) se caracterizou como a diretora deixada de lado pelo Oscar – uma vez que seu filme era visto como um dos favoritos à estatueta. Em seguida, ela abandonou o escopo épico de Invencível, claramente subestimado, para se deter num drama íntimo, filmado com Brad Pitt, com quem é casada e forma o casal de Hollywood mais conhecido. Este movimento já havia sido perseguido por Stanley Kubrick em De olhos bem fechados, ao reunir Tom Cruise e Nicole Kidman sobre os mistérios da noite e de um casal em vias de se separar.
Em À beira mar, o roteiro é completamente diferente: ele parece recorrer mais àqueles filmes dos anos 70 de Éric Rohmer em que os silêncios se produziam em mais quantidade do que os diálogos e nunca fica bem entendida a relação entre os casais. Não por acaso, o filme de Jolie Pitt foi recepcionado como uma diluição desses filmes. Mais recentemente, tivemos a trilogia de Richard Linklater acompanhando o casal Jesse e Celine por paisagens europeias. Comparado a essa trilogia, À beira mar se sente quase como um filme sem roteiro, devido aos poucos diálogos e a uma repetição do cotidiano durante vários dias.

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No entanto, isso pode esconder o mesmo olhar que Jolie Pitt – atriz em relação à qual nunca tive especial admiração, mesmo em suas melhores interpretações – já mostrava em Invencível: ela prefere captar o ambiente e as atuações do que exatamente seguir uma narrativa linear. E a atmosfera de À beira mar talvez seja ainda mais forte do que aquela que vemos em Invencível, com o casal Vanessa (Jolie Pitt) e Roland (Pitt), escritor que se despediu dos tempos mais inspirados por meio de sobredoses de álcool, que chegam a uma praia de Malta.
Visivelmente abatida por uma depressão, Vanessa passa a maior parte do tempo na cama, enquanto Roland finge que tentará escrever na taverna de Michel (Niels Arestrup). Determinado dia, chega um casal recém-casado ao lugar, Lea (Mélanie Laurent) e François (Melvin Poupaud). Vanessa e Roland passam a observá-los por meio de um buraco existente na parede do quarto, fazendo com que a intimidade alheia passe a ser a intimidade que eles não têm mais. Trata-se de uma história bastante concisa e pouco expansiva, mas Jolie Pitt, como em Invencível, consegue extrair uma densidade e solidão desse par de casais. Os enquadramentos que ela dá à cidade costeira, por meio da direção de fotografia de Christian Berger, são realmente dedicados, e os detalhes dos figurinos – por exemplo, quando Vanessa chega está sempre com vestidos escuros, e quando passa a tentar encontrar uma saída para seu abatimento surgem cores claras e vermelhas  –, além do design de produção de Jon Hutman, que trabalhou com Angelina em Invencível, ajudam a construir também a narrativa.

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Jolie Pitt se encontra num bom momento como atriz, mas é de Brad que ela consegue extrair aquela que seja a atuação mais detalhada e notoriamente envelhecida do astro. Não apenas porque À beira mar também faz o contraste entre um casal mais velho – e Brad e Jolie Pitt não estendem nenhum traço de egocentrismo, pelo contrário eles parecem mostrar uma determinada aceitação de culpa e de envelhecimento, de tédio diante do que consideram seu casamento – e um mais jovem, sempre sob uma ótica interessante de que a paisagem externa, belíssima, pode não atrair e mostrar mais do que detalhes na parede. Nesse sentido, Roland passa, às vezes, a ser um narrador do que acontece no quarto ao lado, como se ele estivesse escrevendo uma nova obra, e também estivesse tentando salvar o seu casamento por meio dessa comparação.
Que alguns críticos, como Peter Travers, tenham extraído uma analogia, por causa de um diálogo, de que À beira mar cheira a peixe podre, não é de se surpreender. Melhores são as comparações de Angelina: entre as rochas e o mar e a água da banheira onde submerge também como se colocasse a melancolia em primeiro lugar; as cortinas balançando e o pescador que volta todos os dias de sua ida ao mar; o olhar agridoce do personagem de Pitt diante de Michel e sua saudade da esposa; a dualidade entre a escrita disfarçada e aquela que surge do contato com a realidade.

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Esta parece mais interessada em vislumbrar a juventude de Lea e François, como se eles fossem recuperar a dela. Lamentavelmente, no empuxe final do terceiro ato parece que a ambição de Angelina Jolie em filmar um estudo europeizado de personagens vindos dos Estados Unidos se perde em certo simplismo, e Mélanie Laurent é claramente subaproveitada; isso, porém, não é o bastante para prejudicar a narrativa e tirar o seu lado enigmático.
Mais do que tudo, À beira mar é sobre a perda de uma juventude e o encontro com uma possível melancolia da qual é preciso sair quando se tem ainda vigor e vontade. Esse é um registro arriscado de Jolie Pitt, mais próximo do cinema europeu, não apenas de Rohmer, como de Antonioni, e serve como uma espécie de assinatura de seus conceitos como diretora, que deseja seguir uma linha certamente independente, mesmo com a possibilidade de fazer apenas outros filmes que sigam a um Sr. e Sra. Smith. É um filme sobre o significado que move um casal, sobre suas ambições e seus receios de se encontrar. Uma grande surpresa.

By the sea, EUA/FRA, 2015 Diretora: Angelina Jolie Pitt Elenco: Angelina Jolie Pitt, Brad Pitt, Mélanie Laurent, Melvil Poupaud, Niels Arestrup Roteiro: Angelina Jolie Pitt Fotografia: Christian Berger Trilha Sonora: Gabriel Yared Produção: Angelina Jolie Pitt, Brad Pitt Duração: 122 min. Distribuidora: Universal Pictures Brasil Estúdio: Jolie Pas / Universal Pictures

Cotação 4 estrelas e meia

 

O homem duplicado (2013)

Por André Dick

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Baseado num romance de José Saramago, O homem duplicado foi filmado quase simultaneamente com Os suspeitos, do mesmo diretor canadense Denis Villeneuve, tendo novamente a presença de Jake Gyllenhaal, mais conhecido por O segredo de Brokeback Mountain, que costuma ser um ator menos valorizado do que deveria: além de possuir um ar um tanto descompromissado, consegue passar uma ideia sempre de insegurança e de conflito emocional, como vemos em Donnie Darko e Zodíaco. Não se trata de um tipo de interpretação fácil, por mais que pareça, e cada vez que o vemos em cena percebemos certamente alguém em evolução dentro de seu campo, procurando novas nuances.
Talvez no melhor momento de sua carreira, ele interpreta Adam Bell, um professor universitário de História que determinado dia se depara com um duplo (como no recente filme, bastante interessante e baseado por sua vez em Dostoiévski, com Jesse Eisenberg), chamado Anthony Claire, que trabalha como ator. O encontro se dá porque um colega de trabalho comenta sobre um filme, e Adam vai à locadora alugá-lo. O filme tem Anthony como coadjuvante, e Adam procura, nos créditos finais, o seu nome completo e passa a tentar encontrá-lo.
Ele é casado com uma mulher que está grávida, Helen (a ótima Sarah Gadon, que interpreta a esposa do milionário feito por Pattinson em Cosmópolis), enquanto o professor namora uma executiva, Mary (Mélanie Laurent, menos aproveitada), a qual encontra quase sempre à noite, num apartamento bastante escuro em uma Toronto com tons amarelos. No entanto, esta é a ordem que vemos antes de tudo se tornar um pouco mais caótico – e a epígrafe inicial pode ajudar nesta proposta. Com elementos claros da obra de David Cronenberg (como A mosca e Gêmeos – Mórbida semelhança), mas até certo ponto melhor desenvolvidos, como a obra recente de Shane Carruth, Cores do destinoO homem duplicado é um raro filme que não se enquadra em nenhum gênero específico: ele desliza do drama para o suspense e mesmo para um sentimento aterrorizante, com excelentes efeitos especiais e a fotografia notável de Nicolas Bolduc.

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Villeneuve havia escolhido o mestre Roger Deakins para fazer a fotografia de Os suspeitos, mas, enquanto neste a trama evoluía para várias direções e acabava, em determinado ponto, se perdendo, em O homem duplicado, justamente por seu minimalismo, parece haver um crescimento na proposta de Villeneuve, também conhecido por Incêndios, um filme razoavelmente difícil, embora já demonstre suas características. O diretor certamente gosta de investigar questões familiares e a duplicidade do ser humano – em que um psicopata pode se esconder num bairro aparentemente tranquilo e influenciar quem está a seu redor a também ter um questionamento duplo sobre suas próprias ações.
Em O homem duplicado (breves spoilers neste parágrafo), Adam e Anthony representam duas visões: a do professor, imobilizado pelas aulas repetitivas, e a do ator, que pretende se vestir de modo diferente para interpretar papéis distintos. O professor se divide entre explicações sobre o funcionamento do domínio de opinião e Hegel – passando para a metafísica. Era Hegel quem dizia que o Ser é a pura indeterminação, e Adam Bell vive sempre numa indeterminação sobre quem realmente é, o que possivelmente ajude a esclarecer que a história não começaria por seu final, mas simboliza a representação dupla de um inconsciente. Também é sugestivo que Villeneuve tenha mudado o nome do personagem de Saramago (Tertuliano Máximo Afonso) para Adam com o intuito não apenas de simplificá-lo, como também de evocar o nome do primeiro homem segundo o relato bíblico – embora aqui a maçã esteja cercada por aranhas. Nesse sentido, O homem duplicado dá a sensação de reproduzir a mente de um professor que pretendia ter a criatividade de um ator para encobrir relacionamentos e romper qualquer desejo de compromisso.

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É interessante como a direção de arte dialoga com o símbolo central do filme. Podemos ver os postes de eletricidade de Toronto, assim como os guindastes de construção e um vidro de carro quebrado como teias, assim como se pode observar as cadeiras, as luminárias e as paredes e cortinas dos apartamentos – veja a visita de Adam à sua mãe, feita por uma Isabella Rossellini, em homenagem indireta a David Lynch, certamente inspiração para o filme. Do mesmo modo, vemos o professor, em alguns momentos, num clube noturno, que evoca Clube da luta, de David Fincher, em que uma stripper pode pisar sobre uma aranha com seu salto alto, numa espécie de reprodução do inconsciente dele.
O cenário da cidade do filme acaba parecendo envolvido sempre por uma grande teia – e o amarelo da fotografia de Bolduc se mescla a uma sensação de afastamento do mundo e de uma escapada para a análise em que a mente do ser humano adentra numa espécie de escuridão ameaçadora. Esta simbolização foge a Saramago, mas encontra, na verdade, o cinema de Villeneuve, bastante preocupado em usar símbolos para revelar determinada proposta – em Os suspeitos, eram terríveis cobras em determinado momento. As aranhas, aqui, são o símbolo do filme, representando as mulheres, e o homem sempre tenta escapar sem que elas percebam. No entanto, a interpretação bíblica vem novamente à tona: em determinado momento, Mary, num ônibus, usa um salto alto com couro de cobra, enquanto é observada por Anthony.
É como se Adam e Anthony estivessem sempre ameaçados pelo casamento e pela fidelidade que não podem cumprir e, apesar de não haver reviravoltas envolvendo crimes diversos, a sensação que o espectador tem, diante de O homem duplicado, é estar vivenciando um thriller psicológico no qual tudo isso pode acontecer, mas não exatamente num plano real ou que conduz a investigações policiais claras, como num suspense de Hitchcock.

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O filme de Villeneuve se presta a inúmeras interpretações, e elas, de forma justificada, crescem, a cada espectador, criando quase um filme paralelo ao oficial. Se pode haver um certo ar previsível nesta tentativa de confundir, Villeneuve acertadamente não transforma esses enigmas numa justificativa para não fazer um grande filme, um thriller com poder sensorial, cuja tensão é opressora e vai sendo criada com o andamento de uma narrativa que nunca se esclarece, e faz por bem adotar esse caminho, a fim de não reduzir o olhar sobre a própria obra. Há uma maior proximidade com Cidade dos sonhos, de Lynch, do que com A passagem, de Marc Forster, uma derivação com Naomi Watts e Ryan Gosling, em que a confusão não justificava uma trama sobretudo mal distribuída. Ao mesmo tempo, se havia problemas em Os suspeitos, em razão dos excessos de metragem e de tentativas de fazer reviravoltas, O homem duplicado cresce justamente por causa de seu minimalismo, oposto à literatura de Saramago (do qual Villeneuve preserva o trabalho simbólico, mesmo que reinventado): quando se vê, o filme passou de forma tão ágil que gostaríamos logo de retomá-lo para tentar procurar outras pistas para o esclarecimento (nunca total, apesar de diversas interpretações) da obra. Talvez seja justamente o caminho mais adequado de Villeneuve, neste que é um dos melhores filmes do ano, por tudo aquilo que oferece, tanto num primeiro quanto num segundo (e possivelmente necessário) olhar.

Enemy, CAN/ESP, 2013 Diretor: Denis Villeneuve Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah Gadon, Isabella Rossellini Roteiro: Javier Gullón Fotografia: Nicolas Bolduc Trilha Sonora: Danny Bensi, Saunder Jurriaans Produção: M.A. Faura, Niv Fichman Duração: 90 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Mecanismo Films / Rhombus Media / Roxbury Pictures

Cotação 5 estrelas