120 batimentos por minuto (2017)

Por André Dick

Um dos grandes títulos lançados no Festival de Cannes de 2017, 120 batimentos por minuto, do diretor e roteirista marroquino, naturalizado na França, Robin Campillo, pretende traçar um panorama sobre o vírus da Aids, que se alastrou em meados dos anos 80 em todo o mundo. O foco é a França, mais exatamente um grupo, ACT UP, que protesta contra empresas farmacêuticas no início dos anos 90. Essas empresas não desejam a liberação fácil de remédios para as pessoas doentes. Com um início trepidante, quase em estilo documental e muito influenciado pelo estilo de filmagem de Kechiche em Azul é a cor mais quente, por meio da fotografia instável de Jeanne Lapoirie, o filme de Campillo se situa entre os protestos – nos quais os integrantes jogam balões com um produto que lembra sangue – e as reuniões desse grupo. Não parece inoportuno lembrar que Campillo fez o roteiro de outro filme muito parecido com este em termos de estrutura e constantes debates, Entre os muros da escola, que venceu a Palma de Ouro em Cannes em 2008.

Mais atentamente, Campillo, que fez parte desse grupo de protesto na realidade, dá destaque a um dos jovens, Nathan (Arnaud Valois), e sua relação com Sean (Nahuel Pérez Biscayart). Nathan é HIV positivo, e Sean é negativo; eles se apaixonam num ambiente apropriadamente conturbado. Ambos os atores estão excelentes, trazendo nuances a seus personagens. Nathan tem um discurso sobre a vida depois que contraiu a doença num metrô observando o pôr do sol em Paris por trás dos edifícios e esta sequência concede uma sensação incômoda de perda, ao mesmo tempo que impõe um novo sentido à vida. No início, Campillo organiza tudo como uma zona de guerra contra a indústria e contra a falta de anseios da sociedade em relação a notícias que possam explicar melhor a nova doença, sem que ela fique circunscrita ao fato de que ela só existiria entre homossexuais, e a maneira como, de determinado momento, se espalhou essa notícia. Há poucos filmes, impressionantemente, sobre o assunto: Filadélfia, de Jonathan Demme, talvez tenha sido o primeiro mais contundente, dando uma premiação de Oscar a Tom Hanks, seguido pelo belo e semiesquecido Clube de compras Dallas. Recentemente, a HBO fez um grande filme (apesar de lançado apenas na TV é um filme de fato), The normal heart, com grande elenco, e Mark Ruffalo e Julia Roberts em grandes atuações, sobre a epidemia de Aids na Nova York dos anos 80. Talvez este seja o principal filme sobre o tema.

Contudo, Campillo não consegue entrelaçar os manifestos, a discussão em grupo e a intimidade dos personagens. Os diferentes registros soam conflitantes entre si, fazendo de um filme que deveria ser comovente estranhamente distante do espectador. Não que o drama dos personagens não convença, mas a maneira com que é tratado não faz o conjunto dramático ressoar como deveria. As reuniões são intrigantes, entretanto, ao mesmo tempo, sem o peso necessário, e os personagens são muito dispersos para que o espectador tenha uma ideia mais exata de suas emoções. Por outro lado, há momentos em que os personagens dançam em um clube noturno e Campillo os visualiza quase como partículas espalhadas pelo espaço: o efeito visual é interessante. Sabemos o que eles querem: a maneira como isso é apresentado não é levada aos extremos, como deveria. O roteiro escrito pelo diretor em parceria com Phillipe Mangeot mostra a liderança de Thibault (Antoine Reinartz) e Sophie (Adèle Haenel, a médica de A garota desconhecida, que, depois de Lírios-d’água, tem tido algumas atuações estranhas, parecendo sempre assustada), mas esses líderes não possuem uma ligação mais próxima dos integrantes do movimento, e os únicos momentos em que os vemos agindo são em espaço público. E há Max (Félix Maritaud), que contraiu a doença com transfusão, acompanhado de sua mãe Hélène (Catherine Vinatier).

De qualquer modo, o casal composto por Nathan e Sean mostra uma fuga a essas manifestações públicas e um ingresso na intimidade. Sean trata de um ex-amante que nunca mais encontrou, e Nathan se torna como uma espécie de reprodução da imagem dele. O momento em que compartilham o espaço de um quarto soturno leva o espectador para longe das manifestações públicas e do toque e do romantismo, porém Campillo, de certo modo, impede que cheguemos mais perto desses personagens por uma necessidade de seguir uma linha mais documental, da qual fazem parte inúmeros filmes franceses.
Há toques, aqui, do Assayas de Depois de maio, mas de maneira ainda mais radical, sem espaço para inter-relações mais evidentes. De certa maneira, o filme segue um terceiro ato bastante pesaroso, com um inquestionável registro de boas atuações e cinco minutos finais de grande sensibilidade. No entanto, não concedem o espaço que Campillo certamente desejaria: aquele de maior compreensão em relação às figuras que mostra, como indivíduos e não parte de um movimento. Para o diretor, o primeiro momento é o da ação, e o segundo da reflexão. Depois, enfrenta-se o desconhecido. Quando se chega ao final catártico, é normal que algo tenha se perdido, no entanto, de repente, se encontra, na representação de um grito até então abafado que, instantaneamente, desperta e se torna parte de cada um e de algo maior. Nesse caminho, 120 batimentos por minuto se transforma num filme bastante interessante para a discussão de um tema, mas um tanto em falta com seu impacto em termos de cinema e narrativa a ser acompanhada. O que sobra em talento para Campillo captar imagens talvez não tenha a devida ênfase em seus relatos históricos, relevantes como igualmente necessários.

120 battements par minute, FRA, 2017 Diretor: Robin Campillo Elenco: Nahuel Pérez Biscayart, Arnaud Valois, Adèle Haenel, Antoine Reinartz, Félix Maritaud, Ariel Borenstein, Aloïse Sauvage, Simon Bourgade, Médhi Touré, Simon Guélat, Coralie Russier, Catherine Vinatier, Théophile Ray, Jérôme Clément-Wilz, Jean-François Auguste, Saadia Bentaieb Roteiro: Robin Campillo e Philippe Mangeot Fotografia: Jeanne Lapoirie Trilha Sonora: Arnaud Rebotini Produção: Hugues Charbonneau, Marie-Ange Luciani, Jacques Audiard Duração: 140 min. Estúdio: Les Films de Pierre, France 3 Cinéma, Page 114, Memento Films, FD Production Distribuidora: Memento Films